18 novembro 2003

O Homem dos Milagres



Não, ele não sabia porque Deus o dotara de tal poder, de tal dom. Apenas sentira aquilo no corpo e tivera de o fazer. Talvez fosse para compensar tudo o que perdera. Ou uma coisa ao acaso, como se Deus brincasse através dele. Não sabia.
Sabia como começara, de estar no funeral da jovem criança que morrera de leucemia. Aproximou-se, sentiu uma irresistivel vontade de se aproximar. Uma coisa mais forte do que ter fome ou sede, ou até do que a vontade de urinar! Nessa altura era apenas um sem-abrigo, um vadio de barba grande e cabelos desgrenhados. Aproximou-se perante a censura geral estampada nos olhares pontiagudos como punhais que o fitavam. Mas ele estava a ir levado por uma força maior dentro dele e a dominá-lo. A mãe chorava agarrada ao corpo sem vida da criança. Familiares ou amigos tentavam segurá-la. O padre dizia a sua litania, sempre igual, como se para Deus o ritual fosse o mais importante. De repente ali estava ele na beira do caixão, a olhar a criança, cabeça rapada, olhos fechados. Estendeu a mão sobre a face e repentinamente seguraram-lhe o braço, como se o dele estendido, apenas pudesse fazer mal. Mas não fez. Quando retirou a mão, a criança abriu os olhos, no espanto geral, gemeu qualquer coisa. A mãe deu um grito de alegria:
-- Louvado seja Deus!
A multidão lançou-se em curiosidade sobre o caixão, o padre atarantado, e ele escpaliu-se silencioso. E fugiu. Fugiu o mais que pode, mas sentia a mão a arder! Tanto poder! E para quê?
Mandou rapar a barba e cortar o cabelo. E nunca mais tocou numa garrafa. Era importante que não o conhecessem!
Da segunda vez foi mais discreto, o homem estava triste numa cadeira de rodas. Não falava. Um acidente segundo soube, de moto. Paraplégico na flor da idade. Estava lúcido, consciente. Deixou que o deixessem só por um pouco e aproximou-se. Mais uma vez, a força dentro dele a impeli-lo. Sabia o que í­a acontecer e tremia. Mas viu-se a por a mão na cabeça do rapaz e a dizer:
-- Depois que eu for embora levanta-te... -- e fugiu outravez. E o rapaz levantou-se, andou e entrou na casa á procura da famí­lia.
Já não sabia quantos milagres tinha feito! Tinha de fazer e fugir, porque senão todos quereriam segui-lo e exigiriam que ele fizesse o milagre. E se não fosse capaz perguntariam 'Porquê?' E em nome de que Deus! E não era ele que os fazia! Era apenas quando sentia aquela força a invadi-lo e obrigá-lo a fazer. Não tinhas respostas, nenhumas respostas, apenas perguntas também.
Não havia nenhum milagre para ele, a não ser o de viver. Continuava um sem-abrigo a vadiar, pedindo esmolas, e fugindo, fugindo sempre no poder de Deus.
E estava cansado de fugir. O mundo precisava de milagres, milhares deles. Mas o maior de todos, era um que lhe devolvesse de novo a dignidade.