15 dezembro 2006

by Rosina Villela

O Ovo de Rá - 36ª parte


Dúvidas


Depois dos instantes de descanso, agasalhamo-nos o mais que podemos e seguimos a trilha que continuava para além do Pico das Águias. Era estranho pensar que nos cumes de neve existiria alguém que necessitasse de tal trilha. Estávamos convencidos que o fim do caminho era ali, mas não era.
Bel-Vito já não seguia à frente mas sim os mestres. Achei que Bel-Vito se sentia aliviado mas que o seu medo dos Yétis ainda o não deixava completamente tranquilo. À frente dos Mestres e a uma distância larga seguia Helmut, farejando o ar. Aproximei-me dele, porque me andavam a bailar na mente algumas perguntas:
-- Helmut…
-- Sim…
-- O cheiro das criaturas, continuas a senti-lo?
-- Sim… Porque perguntas?
-- Nunca sentiste este cheiro antes?
-- Não.
-- Então deixa-me perguntar-te, como podes saber se elas estão a três dias de distância?
-- Bem… A minha experiência…
-- Tretas Helmut! A tua experiência só te pode dizer alguma coisa, em relação aos cheiros que conheces! O que não é o caso!
-- Pronto! Não te zangues! Talvez não sejam três dias… Mas que queres? Querias que dissesse que as criaturas estavam ali ao virar da esquina? Ficávamos todos em pânico e não andávamos para lado nenhum…
-- Não achas que pelo menos Godo devia saber?
-- Adianta-lhe de muito!
-- Como assim?
-- Eu não sei o cheiro das criaturas e tu queres que Godo saiba como são?
Fiquei a pensar naquilo e apercebi-me de como a ignorância pode ser tão… tão sufocante!
Helmut pareceu notar o meu nervosismo e comentou:
-- Ora, se todos ficássemos tolhidos pelo desconhecido, nunca dávamos um passo! Ânimo! Isto é uma aventura!
Deixei-me ficar para trás e Helmut continuou a trotar no seu passo de lobo, parecendo deliciado com a ideia de haver coisas desconhecidas.
Como fui ficando para trás os Mestres acabaram por me apanhar e Mestre Ludovico comentou:
-- Animada a tua conversa com Helmut…
-- Oh! Sim, de facto… Comentávamos o facto de daqui para a frente, tudo ser desconhecido…
-- Nem tudo… -- disse Mestre Ludovico. – As árvores, as montanhas, o céu, o ar, são coisas conhecidas!
Apeteceu-me mandá-lo bugiar mas como Mestre Ratapone lhe achou graça, deixei-os ultrapassarem-me e meti conversa com Bel-Vito que vinha isolado logo atrás:
-- Então, nunca tinhas vindo por estas bandas?
-- Nunca foi necessário…
-- Nem por curiosidade?
-- Pagam-nos para os trazermos ao Pico das Águias e não mais à frente…
-- Mas desta vez mesmo sem te pagarem, vais mais à frente…
Ele franziu o sobrolho como se dissesse, que só ía porque era obrigado. Mas calou-se e não disse mais nada e deixei-me ficar ainda mais para trás.
Godo, Cabelos de Fogo e Galimodo vinham muito animados a conversar.
-- Por aqui reina a boa disposição… -- comentei.
-- Galimodo, contava-nos as suas estórias… -- sorriu-me Cabelos de Fogo.
-- Pois, mas eu acho que devíamos ir com atenção, afinal estamos em terreno desconhecido.
-- Alguma coisa te perturba? – perguntou Godo com a sua perspicácia habitual.
-- Bem… Acho que vamos muito descontraídos, só isso.
-- O teu amigo Bel-Vito, vai contraído e isso não faz dele uma pessoa feliz pois não?
-- perguntou-me Godo.
Sorri.
-- Mas ele tem poucos motivos de alegria na vida…
Cabelos de Fogo riu. Eu gostava quando ela ria.
Galimodo decidiu intervir:
-- Se pensarmos bem, toda a nossa vida é uma jornada no desconhecido.
-- Filosófico! – sorriu Cabelos de Fogo.
Galimodo sorriu com todos os seus bigodes de gato.
-- As dúvidas fazem parte da nossa existência! Por isso, a única certeza é a de estarmos aqui e existirmos, mesmo que não compreendamos a nossa natureza ou que nos rodeia! Aliás se não formos capazes de ter consciência de nós mesmos, a nossa existência apesar de factual, não terá para nós qualquer importância.
-- Pois.. mas eu cá prefiro manter a minha existêcia ‘factual’ e consciente pelo período mais longo possível… -- comentei.
-- Está certo! – concordou Galimodo – Acho até que a isso se chama de instinto de sobrevivência!
-- Perdoa-lhe Galimodo! – disse cabelos de Fogo – Mas ele às vezes nem o óbvio é capaz de ver, mesmo que lhe passeie debaixo do nariz…
Não apreciei muito o sarcasmo de Cabelos de Fogo e Galimodo apreciava as festas que ela lhe fazia no pelo do lombo. Fiquei invejoso. Mas Godo percebeu que o meu nervosismo era incomum.
-- Maia, a quantos dias disse Helmut que as criaturas estavam?
-- Três dias…
-- Mas podiam estar mais perto não?
-- Presumo que Helmut não tem uma certeza absoluta. – respondi.
-- Compreendo.

24 novembro 2006



O Ovo de Rá - 35ª parte


A Pausa


Atravessamos o caminho estreito com passo bem apressado, um caminho que mal dava para irmos em fila indiana, muitas vezes tínhamos de colar a barriga na parede rochosa e esperar não ter tonturas!
Um ataque de águias naquela situação e seria o fim de algum de nós. Bel-Vito apressou-se, a águia lá no alto continuava às voltas e parecia solitária. Talvez procurasse avaliar as nossas intenções apenas.
Contornamos o Pico das Águias e voltamos a avançar em direcção ao interior das montanhas. Havia uma trilha.
-- Bel-Vito, para onde vai esta trilha? – perguntou Mestre Ratapone.
Bel-Vito parou debaixo da única árvore que por ali havia, uma velhinha árvore retorcida e determinada.
-- Não sei, Mestre… O máximo até onde fomos foi até esta árvore, depois voltamos para trás.
-- Não sabes se os Gulats vão mais para a frente nesta trilha?
-- Acho que não… Os que não morrem, regressam com os nossos guias…
-- Estamos em terra incógnita a partir daqui… -- acrescentou Cabelos de Fogo.
-- Alguém me podia tirar este monte de feno de cima? É que é mau prá minha imagem… Afinal sou um lobo, e não tenho pretensão nenhuma a transformar-me em jerico!
O Helmut sempre jocoso nas suas observações, quebrou a tensão e fomos capazes de rir.
-- Aqui estamos fora de perigo Bel-Vito? – perguntou Mestre Ludovico, muito cansado.
-- Debaixo da árvore estamos.
-- Bem… Vamos descansar um pouco e depois seguimos pela trilha. – Concluiu Mestre Ratapone.
-- Helmut… -- chamou Godo – Cheira-te a alguma coisa?
-- A muitas… Mas não me cheira a perigo. – Respondeu Helmut enquanto godo lhe tirava o monte de palha das costas. – Obrigado.
Galimodo espreitou do seu lugar:
-- Já passou o perigo?
-- Ainda não… -- respondi – Estamos só em intervalo!
Helmut farejou novamente o ar de focinho erguido e apontando em diversas direcções.
-- Há cheiro de gente na trilha… -- Disse ele.
-- Fresco? – perguntou Godo.
-- Talvez três dias… -- Deduziu Helmut.
-- Quantas pessoas? – insistiu Godo.
-- Não disse que eram pessoas… -- murmurou Helmut avançado uns passos na trilha.
-- Então? – quisemos saber.
-- Não sei… -- responde Helmut – Para mim é um cheiro novo, nunca antes o senti.
Bel-Vito ficou pálido como cera e murmurou:
-- Yétis…
-- Calma! – Tranquilizou-o o Mestre. – O Helmut não conhece o cheiro de todos os animais do mundo… Se calhar é algum que ele não conhece…
Bel-Vito ganhou um bocadinho de cor, mas não me pareceu ficar completamente tranquilo.
Cabelos de Fogo sugeriu:
-- É melhor mantermo-nos alertas…
Helmut voltou para nós:
-- Não está perto. Passou por aqui à três dias e vai para o interior das montanhas…
-- Vai à nossa frente! – concluí.
-- Depende… -- gracejou Helmut – podemos regressar e então estará atrás de nós.
-- Não vamos voltar para trás! – disse quase irritado o Mestre Ratapone.
-- Espero que valha a pena a jornada… -- acrescentou Cabelos de Fogo.
-- Bagh! Eu como gosto de turismo, aproveito e aprecio as vistas… -- acrescentei.
-- Espero que haja alguma caça por aqui… Tenho um buraquinho no estômago… -- disse o Helmut.
-- Ía contigo… -- disse Galimodo saltando lá da garupa da mula.
-- Pois é! – sorriu Helmut com aquele sorriso trocista – Se tivermos fome ainda há aqui um gato!
-- Tens cá um mau feitio, apre! – murmurou Galimodo.
Mas afastaram-se os dois pela trilha farejando alguma presa.
Godo descarregou as mulas e deixou-as comer as raras ervas da beira do caminho.
Mestre Ratapone tirou o seu caderno de apontamentos e pôs-se a ler compenetrado.
Mestre Ludovico tirou uma soneca.
Bel-Vito e Cabelos de Fogo postaram-se de atalaia.
O único barulho para além da nossa presença era a brisa que às vezes fazia abanar os ramos da árvore.
A águia havia desaparecido do céu.

01 setembro 2006

O Ovo de Rá - 34ª parte


foto por Tom Harpel 

As águias


Caminhamos no ritmo apressado que caracterizava Bel-Vito e presumo que se apressasse ainda mais convencido que estava de que naquela região existiam Yétis, homens das montanhas, um cruzamento qualquer entre ursos e humanos segundo os relatos que mais tarde Bel-Vito nos consentiu dar.
Aproximamo-nos de uma espécie de garganta e via-se distintamente ao longe um pico que parecia uma agulha apontando para o céu, presumi tratar-se do Pico das Águias e disse apontando-o:
-- Olhem!
No mesmo instante Bel-Vito parou e ergueu uma das mãos fazendo sinal de que parássemos, com aquele jeito que lhe era peculiar. Depois virou-se para o Mestre Ratapone, como se só ele fosse digno de lhe dirigir a palavra.
-- Mestre Ratapone... Queria prevenir-vos de uma coisa!
O Mestre aproximou-se dele, seguido de perto por Mestre Ludovico.
-- Sim, e de que se trata, amigo?
-- O Pico das Águias é aquele ali...
-- Estou vendo. – disse o Mestre Ratapone.
-- Vamos entrar no domínio das águias e estas não gostam de intrusos nos seus domínios...
Também nós nos aproximamos para ouvir a explicação, de algum modo já nos habituáramos a que a cada passo tropeçassemos numa surpresa qualquer e tinham todas tendência para ser desagradáveis. Bel-Vito continuou:
-- As águis não gostam de ser caçadas, aprenderam a ripostar...
-- Isso quer dizer o quê? – perguntou Godo, que se começava a fartar do melodramatismo que Bel-Vito parecia colocar em tudo o que dizia.
-- Lançam ossos sobre as cabeças e atacam os póneis e as mulas! – despachou ele – Já vi pessoas morrerem com ossos caídos de bem alto a abrirem-lhes o crânio como se fosse um melão. E também vi elas virem contra o Sol para que não as pudéssemos ver e assustam os póneis e as mulas e facilmente caiem por essas ravinas por onde teremos de passar...
-- Eu logo vi, que o passeio estava a ser demasiado turístico! – escapou-se-me.
-- Pois é, para nós só nos calha disto! – anuiu Helmut – E aqui o amigo Galimodo é melhor esconder-se bem escondido ou ainda acaba petisco de águia! Ou ainda se lembram de nos aturar com um gato na mona!
-- Muito engraçadinho... – disse Galimodo – Veja lá é se não é levantado de surpresa nas quatro patas e pratica vôo livre!
-- Deixem-se de coisas... – sugeriu Godo – E tem alguma sugestão?
A última questão era para Bel-Vito e este respondeu:
-- Fiquem atentos, protejam a cabeça e defendam-se como puderem!
Entretanto ele aproximou-se de um dos póneis e de um alforge tirou um capacete metálico forrado a couro que amarrou na sua cabeça. E depois ordenou:
-- Vamos!
E desatou a caminhar.
Ficamos a olhar uns para os outros atónitos. Este gajo, vinha preparado e nós olha... Lei do desenrasca! Apeteceu-me cair-lhe em cima e desancá-lo até lhe soltar os músuclos do esqueleto.
-- Espera! – gritou-lhe Godo.
Ele condescendeu em olhar para trás e o Mestre Ratapone reforçou o pedido:
-- Um momento por favor.
Bel-Vito parou com enfado evidente.
Godo foi buscar uma foice e pôs-se a cortar as ervas altas que havia por ali. Depois mandou que Cabelos de Fogo fizesse assim umas rodilhas com as ervas e com algumas outras fosse prendendo aquilo num jeito de turbante. Fez várias, uma para cada um de nós. Bel-Vito observava com espanto as actividades.
Godo cortou ainda mais erva e fez umas bolas grandes que pôs sobre o dorso dos animais incluindo Helmut. Galimodo não teve direito a nada disso e foi colocado nas costas de Cabelos de Fogo com a ordem de Godo:
-- Tu guardas as costas de Cabelos de Fogo, se vires uma águia gritas!
Galimodo sentiu-se um cavaleiro guardando a sua donzela, mesmo que fosse numa mochila às costas dela.
Helmut protestou quando Godo lhe amarrou o monte de erva nas costas.
-- Mas eu agora sou convertido em mula?
-- Helmut, isto é um engodo de águias! Se ela te quiser espetar as garras fará pontaria a este monte de erva e tentará levantar vôo, quando levantar apenas leva erva percebes?
Helmut pareceu sorrir:
-- Que excelente ideia!
Godo fez com que usassemos as tais rodilhas de erva na cabeça em forma de turbante.
-- Se lançaram ossos, pode ser que isto evite que nos rachem o crâneo...
Rimo-nos das figuras patéticas com que ficamos com aquilo na cabeça.
Godo deu-me um arco dos dele e uma aljava com setas.
-- Tu e Cabelos de Fogo serão os nossos arqueiros de serviço, mas lembrem-se, só disparam depois do primeiro ataque das águias. Se elas não atacarem, nós não atacamos.
Achei aquilo perfeitamente sensato, apesar de pensar que as primeiras baixas podiam ser nossas. As mulas também levaram um fardo de palha em cima, mas Godo não fez nenhuma provisão para os póneis de Bel-Vito.
Bel-Vito pareceu protestar quando disse:
-- Não lhe custava nada ter feito uns fardos desses para os meus póneis...
Godo sorriu cinicamente:
-- Pois era e também não te custava nada ter-nos dito para arranjarmos uns capacetes antes de sairmos da aldeia não era?
Bel-Vito virou-lhe as costas e voltou a repetir:
-- Vamos!
E metemo-nos todos novamente em marcha. Começavamos agora a descer e ía jurar que não havia nenhum caminho e de facto o que havia era uma estreita plataforma rochosa onde mal cabíamos em fila indiana rumo ao vale que circundava o Pico das Águias!
Como éramos os arqueiros de serviço eu fui posicionar-me mais junto aos Mestres, Godo e Helmut ficaram mais ao menos a meio junto às mulas e Cabelos de Fogo ía atrás com Galimodo atento á retaguarda a olhar para trás.
Como ía atrás de Mestre Ludovico comentei:
-- Tem razão Mestre! Não é preciso nem Yétis para imaginar que uma avalanche ou um ataque de águias pode ter sido o fim da expedição de Memeth!
-- Pois é amiguinho... – disse ele – As explicações óbvias devem ser sempre as preferidas, se bem que acredite que muitos de nós gostamos dos perigos fantasiados!
Era óbvio estar a referir-se aos medos de Bel-Vito. Depois continuou:
-- Mas Memeth veio até aqui com guias experientes e deve ter vindo preparado. Ele esteve mais tempo na aldeia de Bel-Vito...
-- Bem, se foi tratado conforme esta amostra...
Lá atrás Galimodo gritou:
-- Águia!
Paramos e agachamo-nos quase por instinto e olhamos para trás, Cabelos de Fogo retesara o arco em prontidão e eu fiz o mesmo., mas a águia estava lá bem alto no céu e parecia nem nos ter dado a mínima importância.
-- Podem seguir! – disse Godo – Muito bem, Galimodo! Fica atento, mas não fixes o olhar nessa, pode ser apeas um engodo para nos distrair...
Confesso que o coração me começava a pular como um doido. Posted by Picasa

23 agosto 2006

O Ovo de Rá - 33ª parte


foto by Irina

Yétis


Quando acordei no outro dia, o ar estava inundado por um perfume de bacon frito que me deu logo água na boca. Mas não me adiantou nada, pois só havia o perfume do bacon no ar, Bel-Vito já tomara o pequeno-almoço, desfizera a sua tenda e tinha já carregado os póneis e estava pronto a partir.
Quando acordei ele tinha acabado de acordar os Mestres e insistia que estavam atrasados e que deviam partir o mais rápido possível. Curiosamente não ofereceu a ninguém o pequeno-almoço o que se me afigurou de muito má educação, até mesmo de uma avareza rude. Depois pensei que eram um bando de ladrões por ganância e tentei compreender. Acordei Cabelos-de-Fogo, que ainda ensonada, quando percebeu que era eu, me ofereceu um sorriso que iluminou o meu dia.
Como o Mestre tivesse concordado com Bel-Vito em partir este acabou a aborrecer toda a gente para desfazer as tendas e se por a caminho o mais depressa possível.
-- Podemos comer qualquer coisa antes de partir? – perguntei.
Bel-Vito respondeu como se fosse ele o encarregado de todos:
-- Não, se precisarem, comem no caminho.
-- E comemos o quê?
-- Desfaçam as tendas e eu já vos dou que comer...
Desfizemos as tendas, eu pelo menos desfiz a minha e ajudei a desfazer a de Godo, enquanto este se encarregou de desfazer a dos Mestres. Estavamos ainda todos demasiado ensonados para reagir com alguma lucidez, acho eu.
Carregamos as mulas e mal o acabamos de fazer, sem sequer esperar ordens do Mestre, Bel-Vito começou a andar.
-- Não te esqueces de nada? – perguntei eu.
-- Que queres? – respondeu ele como se a minha pergunta o tivesse irritado soberanamente.
-- O que quero?! Mas isto é alguma brincadeira, ou a má educação é uma qualidade que te esforças por cultivar?
Ele ficou irritado, por eu o tratar por tu, afinal era filho de chefe e só devia obedecer ao Mestre!
-- Temos de partir...
-- Mas que raio de bicho lhe mordeu?
Godo olhou para mim e foi ele quem disse:
-- Bel-Vito, vamos caminhar se calhar todo o dia, ainda por cima em terreno de alta montanha, acho que é sensato que comamos qualquer coisa...
Ele ficou pensativo a olhar pra nós, olhou para o Mestre e vendo que este também esperava uma resposta, dirigiu-se a um dos seus póneis e de um saco tirou cenouras que começou a distribuir por cada um de nós. Ficamos a olhar-nos e ele acrescentou:
-- Eram para os meus póneis, mas podem ir roendo isso pelo caminho... Se os póneis aguentam, vocês também devem aguentar!
Helmut chegou-se á frente:
-- Ó miniatura de gente, eu não me alimento a cenouras... Aliás olhando pra ti, até te começo a achar um bom petisco!
Galimodo riu-se com aquele riso asmático de gato e acrescentou:
-- Helmut, deixa o fígado dele ou os bofes pra mim por favor... Embora depois de comer esse canastrão, acho que vou ficar doente...
Fiquei soberanamente irritado e Godo também.
Godo aproximou-se de Bel-Vito e agarrando-o pelos ombros levantou-o do chão.
-- Caro amigo, vais explicar-te muito bem, sobre a razão da tua pressa, pois enquanto não nos explicares isso devidamente, não voltas a por os pés no chão!
Bel-Vito com uma espécie de cara de índio no rosto, ficou impassível sem abrir a boca.
O Mestre veio apaziguar as coisas:
-- Meu filho, precisamos que nos digas o que nos deves dizer...
Bel-Vito olhou para o Mestre e depois para Godo, mas o Mestre foi inflexível:
-- Quando começares a explicar-nos, Godo por-te-á no chão...
Ele teve um trejeito de desagrado mas lá se resignou e acrescentou:
-- Se isto fosse um passeio à montanha os Gulats não precisariam de nós...
Godo continuou a mantê-lo com os pés acima do chão e ele começava a ficar desconfortável com o aperto de Godo.
-- Podiam pôr-me no chão? – pediu.
Foi o Mestre quem se aproximou e falou:
-- Ainda não, pois ainda não nos disseste nada sobre a tua pressa...
-- Existem perigos...
-- De que perigos tens receio?
Ele fez uma careta, como se o obrigassem a beber um líquido amargo:
-- Yétis.
O Mestre tocou no braço de Godo e este pousou-o no chão, mas sem o largar. Ele tentou libertar-se mas Godo não lhe deu possibilidade. O Mestre perguntou-lhe metendo o seu rosto junto ao rosto de Bel-Vito:
-- O que são Yétis?
Ele olhou para nós com um olhar estarrecido, como se não compreender o que fosse um Yéti fosse qualquer coisa próxima de um pecado mortal e escandalizado perguntou:
-- Não sabem o que são Yétis?!
-- Eu gostava de saber e acho que nos vais explicar não é? – perguntei eu.
Cabelos de Fogo e os restantes aproximaram-se mais de Bel-Vito para ouvirem.
E reparamos que o impassível Bel-Vito estava a suar!
-- Os Yétis são os homens da montanha... São enormes como ursos... E aproximam-se sem que ninguém dê conta deles...
-- Acho isso difícil, no nosso caso... – comentou Helmut
Por curioso que possa parecer, Bel-Vito ficou pensativo e pareceu descontrair. Era óbvio que nunca tinha pensado que um lobo poderia ser um aliado de peso!
-- O problema é que os Yétis são como sombras... Eu nunca vi nenhum, mas já vi pegadas... E soube de inteiras expedições que desapareceram sem deixar rasto...
-- Podiam ter sido vítimas de avalanches... – Comentou Mestre Ludovico.
Houve silêncio.
-- Quer fosse isso, quer não, sentia-me mais tranquilo se avançassemos rapidamente para o Pico das Águias. – rematou Bel-Vito.
-- Vamos então. – ordenou o Mestre.
E lá retomamos a marcha em passo acelerado.

-- Godo, se os Yétis são os homens das montanhas e perigosos como diz o nosso amigo, porque razão este nosso rude guia, quer lá chegar o mais depressa possível?
Cabelos de Fogo que ía ao pé de mim levava o arco na mão, percebi que pronta a disparar ao menor indício de ameaça e foi ela quem comentou:
-- Cá por mim, venderam-nos aos Gulats e a ‘mercadoria’ está atrasada para a entrega...
Godo não disse nada, mas olhou para trás para Helmut que também se aproximou:
-- Se for isso, juro que o hei-de comer... – resmordeu Helmut.
-- O fígado e os bofes tens de mos deixar... – pediu Galimodo de cima da garupa da mula.
-- Helmut, sentes alguma presença? – perguntou Godo.
-- Nada! Nem de lebres...
-- Não admira, nesta altitude não há muito que comer, preferem ir para altitudes mais abaixo... E a propósito... – Godo dirigiu-se à saca de uma dasmulas e tirou um naco de carne. – É pra ti Helmut.
Depois cortou um pedacinho mais pequeno e deu-o a Galimodo.
-- Nós roemos as cenouras, pra ficar com olhos lindos... – e depois virei-me para Cabelos de Fogo – Tunão precisas, os teus já são muito lindos.
-- Melhora a visão... Se aparecer algum o meu arco encontra-o!
-- Não nos precepitemos... – sugeriu Godo – Todas as culturas têm os seus medos, esta deve ter os seus e podem muito bem ser os Yétis, que se calher nem existem, como a maior parte dos medos...
Caminhando na frente, com passo apressado, talvez Bel-Vito fugisse de coisa nenhuma.
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25 julho 2006

O Ovo de Rá - 32ª parte


foto de foto por Brane 

Parece...


No fim de um dia de caminhada estavamos tão estafados que nem deu para grandes conversas ou sequer para pensar antes de adormecer! Adormecemos todos tão rapidamente quanto era possível.
Cabelos-de-Fogo conhecedora do poder das ervas ainda tentou encontrar algumas que conhecia para combater o cansaço e a fadiga. Mas aquela altitude a maioria dasplantas que conhecia faltou à chamada.
Mestre Ludovico tentou convencer-nos a beber uma das poções por si inventadas, mas ninguém quis arriscar eele foi o único a experiemntar-lhe o efeito. De facto, fez bom efeito que dormiu quen em um calhau até ao dia seguinte, onde nos custou imenso convecê-lo a levantar-se! Na próxima teria de diminuir a dose!
Sei que Mestre Ratapone embora não se quisesses precipitar no seu julgamento, ficara apreensivo ácerca do facto de os habitantes de Belutine levarem os Gulats até ao Passo das Águias.
-- Depois do Passo das Águias sabes o caminho? – perguntou Mestre Ratapone a Bel-Vito.
-- Sim, Mestre. Mas apenas alguns quilómetros mais.
-- Depois não conheces?
-- Não senhor.
-- Há alguém que nos possa guiar?
-- Nesta altitude não creio senhor.
-- Está bem... Teremos de ir com cautela.
Bel-Vito fez uma tenda estranha, com meia dúzia de paus. E aí abrigado adormeceu também rápido.
Aproximei-me de Godo e de Cabelos-de-Fogo.
-- Querem ajuda para montar a vossa tenda?
Godo ficou surpreso, mas quem falou foi Cabelos-de-Fogo:
-- Podias ajudar-me a fazer a minha... – e com um sorriso iresistível acrecsentou -- ... por favor.
E ajudei-a a montar tenda, curioso pela expressão dela ‘fazer a minha’! Mas o que é certo é que Godo passou a montar uma também para ele. Pensei que no final talvez acabássemos com tendas a mais! Os Mestre estavam numa, Bel-Vito meteu-se na sua, restavamos nós.
Galimodo procurava dar-nos intruções sobre o melhor modo de montar a tenda.
-- Eu acho que vocês deviam primeiro saber para que lado é o norte e virara a cabeceira para norte... E a entrada para Sul...
Apareceu Helmut que tinha tentado ajudar Godo a montar a sua e falou para Galimodo:
-- E tu ó bola de pelo cor de cenoura? Num fazes a tua tenda?
-- De facto devíamos fazer a nossa! – respondeu Galimodo agradado.
-- E já agora convidavamos também as mulas para se juntar a nós e o pónei ali do miniatura não?
Foi só aí que Galimodo percebeu que Helmut estava a gozar com ele!
-- Ai o senhor canídeo de mau humor acha que um gato, não sabe montra uma tenda?
-- Eu acho que sabe... –disse Helmut – Mas não basta saber... Aliás está como eu! Sabe uma data de coisas que não lhe aproveitam nada!
-- Você é um chato! – bufou Galimodo.
-- Decerto que sou! Um chato cansado... Mas já decobri ali um montinho de ervas sequinhas que vai dar um colchão maravilhoso!
Depois foi até Godo.
-- Ali, o camarada pigmeu, parece estar-se nas tintas para os quartos de vigia... E ainda bem que não tenho confiança na amostra de gente! Eu faço o primeiro quarto Godo. Fazes o quarto seguinte?
-- Sim... Depois o Maia faz o terceiro e Cabelos-de-Fogo o quarto.
Eu e ela acenamos em concordãncia. Os Mestres ja ressonavam.
Afastei-me para começar a montar a minha tenda e Cabelos-de-Fogo convidou:
-- Aqui na alta montanha as noites são frias... Dorme na minha tenda. Aliás temos depois os quartos de vigia seguidos e escusamos de incomodar os outros, acordamo-nos um ao outro...
E meio aparvalhado com a proposta disse:
-- E Godo?
-- Ele tem a tenda dele, não tem? Galimodo far-lhe-à companhia...
-- Eu?! – disse Galimodo apanhado de surpresa como eu.
-- Sim, tu. Godo não é teu amigo? Além disso ambos têm o nome começado por ‘G’ de modo que podem partilhar a mesma tenda!
Era uma lógica nova aplicável certamente em alta montanha e que determinava quem ficava na tenda de quem.
Deixei-me ir para a tenda com ela. Enrolamo-nos nas peles que serviam de cobertores e ela disse-me:
-- Boa noite... Dorme bem...
-- Tu também. – disse eu.

E a noite foi quente e cheia de sonhos, pelo menos até ser acordado por Godo para fazer o meu quarto de vigia. Helmut desistira das suas folhas e pude perceber que se tinha recolhido na tenda de Godo.
Godo sussurrou-me:
-- Nem Helmut, nem eu, ouvimos nada de suspeito. Mas isto aqui é demasiado silencioso...
-- Achas que podem haver surpresas?
-- Esta noite não, mas se amanhã não chegarmos ao Passo das Águias, acho que podemos ter?
-- Porque dizes isso?
-- É só u ma sensação... O Helmut pensa como eu e acho que Bel-Vito sabe mais do que o que conta. Reparaste? Deitou-se sem estabelecer qualquer vigia, mas quase nos fez correr até aqui. E estou em crer que nos fará correr de novo amanhã. De qualquer modo, faz o teu quarto de vigia com os olhos abertos, está?
-- Está descansado.
Godo sorriu e depois acrescentou apontando com o queixo para a tenda:
-- Ela sabe torturar-te, não é?
Sorri-lhe e respondi-lhe já ele ía a caminho da sua tenda:
-- Parece-me que sim... Posted by Picasa

17 julho 2006

O Ovo de Rá - 31ª parte



foto by Daniel Krafft

Saber


Com Bel-Vito na frente em passo quase de corrida, íamos avançando velozmente. Comentei com Helmut:
-- Com este ritmo, não é preciso que haja perigos no percurso... O tipo se encarrega de nos matar de estafa!
-- Se calhar...
-- E se fossemos falar com ele?
-- Acho que o moço é de poucas falas...
-- Tentemos!
E lá aceleramos ainda mais o passo para chegar junto de Bel-Vito. Quando passei por Godo e Cabelos de Fogo não resisti e mandei-lhe um piropo:
-- Então coisa linda, estás a apreciar a caminhada? Afinal isto é lindo como tu!
Mas não parei para ouvir a resposta, continuei em passo acelerado para alcançar Bel-Vito. Foi Helmut com o seu ouvido apurado que me contou o resto do diálogo. Ele ouviu Cabelos de Fogo dizer a Godo:
-- Que parvo! Parece mesmo uma criancinha...
E que Godo lhe respondeu:
-- Parvo não, ele tem toda a razão és muito bonita, tão linda quanto a paisagem... E bem pode ser uma criancinha, dizem que é da boca das crianças que sai a verdade!
Helmut não se conteve e riu-se com aquele típico risinho de hiena.
-- Helmut, o Godo marcou mais uns pontos não achas?
-- Acho! Na amizade... Afinal sem perder a face ele defendeu-te.
Senti-me envergonhado pelo meu ciúme. Entretanto alcançámos os Mestres que pareciam também eles um bocadinho cansados demais para conversarem. Ao passarmos o Mestre Ratapone comentou para mim:
-- Arre que o pequenitates, tem fôlego para dez de nós...
Helmut disse:
-- A gente já lhe vai perguntar em que maratona é que estamos a participar...

Galimodo a dormir no lombo de uma mula, nem seuqer se dignou abrir os olhos, para ele, resfastelado como estava, qualquer andamento seria bom. Mais ainda, acho que ele até se consolava com os balanços!

Chegamos juntos de Bel-Vito que se manteve com aquela cara impenetrável. Eu sorri e perguntei:
-- Vamos em bom ritmo, fazes isto todos os dias?
Ele pareceu ficar surpreso com a pergunta e abriu a boca, mas não disse nada e depois moderando o andamento respondeu:
-- Todos os dias não...
-- Então? Só em dias especiais?
Ele voltou a ficar embasbacado e moderou ainda mais o passo, como se pensar e caminhar ao mesmo tempo fossem inversamente proporcionais.
-- Só faço este caminho quando há viajantes e temos de os levar ao Passo das Águias...
-- E há por aqui viajantes?
Quase parou.
-- Sim, alguns, algumas vezes...
-- Que espécie de viajantes?
-- Bem.... – desta vez parou mesmo e acho que todos ficaram agradecidos, até mesmo as mulas. – Os Gulats costumam vir por aqui, quando querem criar uma nova linhagem de águias por exemplo...
-- E vocês guiam os Gulats?
-- Sim.
-- Muito interessante... E últimamente os Gulats passaram por aqui?
-- Não... Quer dizer, andaram a voar por aí, mas não vieram ter connosco.
-- Obrigado. – disse eu voltando para trás.
Ele ficou parado a olhar para nós, sem se mexer, consciente de que alguma coisa estranha se tinha passado.
Ao passar pelos Mestres, Helmut não se conteve:
-- Devia ter mordido o chefe... Estes gajos são amigos dos Gulats!
-- Amigos? Talvez apenas prestem serviços Helmut... – disse o Mestre Ratapone depois que lhe contamos o que nos dissera Bel-Vito.
-- Isso melhora muito... – comentou Helmut – Bem gostava de saber que ‘serviço’ está ele a prestar neste momento. Pelo menos com esta pressa toda!
-- Bem... Mantenhamo-nos atentos... – disse o Mestre – Helmut, o teu faro ou o teu ouvido, não te dizem se estamos a ser seguidos, pois não?
Helmut ficou calado e depois disse:
-- Não... Mas eu e o Maia vamos para trás e vamos estar atentos.
-- Obrigado.
Bel-Vito que estava afastado na frente, ergueu a sua lança e fez sinal de que era hora de continuar. Mas desta vez ía mais lento, presumimos que ía a pensar.

Ao passarmos junto de Godo e Cabelos de Fogo, Helmut falou:
-- Acho que devem ir preparados para qualquer eventualidade... Ali o nosso pigmeu maratonista tens uns amigos pouco recomendáveis...
-- Como assim? – perguntou Cabelos de Fogo.
-- Gulats! – respondi eu.
-- Estás a brincar!
Foi Helmut quem respondeu:
-- Foi ele que nos disse. Quando os Gulats querem novas águias vêm ter com eles e eles guiam-nos ao Passo das Águias... prá caçada.
Deixamos Godo e Cabelos de Fogo a ruminar a situação e colocamo-nos na cauda do grupo. Atentos.
Ainda assim a certa altura começamos de novo a conversar:
-- Helmut, lembras-te daquela conversa que tivemos, antes de encontrarmos os anões?
-- Que falamos sobre o Godo e as suas relações amorosas?
-- Isso mesmo...
-- E então?
-- Tu falaste que depois que se sabe não se pode voltar atrás.
Helmut parou e o grupo distanciou-se um bocado.
-- Quis dizer-te que depois que sabemos alguma coisa, não a podemos voltar a ignorar. É um caminho só de ida, sem retorno.
-- Isso eu entendo, mas neste contexto...
-- É ainda mais premente. Saber se o outro gosta ou não de ti, pode fazer uma enorme diferença.
-- Pois pode...
-- Mas saber, não significa ser feliz...
-- Pois não.

07 julho 2006


O Ovo de Rá - 30ª parte


O Guia


Com o desgosto estampado no rosto Bel-Ygor mandou parar os festejos e apesar de pequeno foi prontamente obedecido. Tão prontamente que estranhamos o facto de em apenas um instante a aldeia mergulhar num repousante silêncio.
Bel-Ygor levou-nos a uma casa um pouco afastada das outras e que parecia maior, ele explicou:
-- Construímos esta casa maior, para acolher Memeth, quando ele chegasse... Acho que ele não se importaria que pudésseis repousar aqui. -- Fez uma pausa para respirar fundo e continuou: -- Amanhã, ser-vos-ão entregues as vossas mulas, provisões para a viagem e as minhas condições para vos fornecer um guia que vos conduza até ao Pico das Águias. – Virou-nos as costas e desapareceu.
Só a luz da fogueira no meio da praça iluminava as casas no largo, fazendo brincadeiras com as sombras.
Acomodamo-nos conforme pudemos. As camas apesar de grandes para os habitantes da aldeia continuavam a ser pequenas para nós. Mas dormindo de pernas encolhidas e com mantas grandes era possível.
Antes de nos deitarmos a dormir fui até junto do Mestre Ratapone:
-- Mestre, isto é que foi sorte hein? Quem nos havia de assaltar tinham logo de ser os que conheceram Memeth!
-- Tu chamas-lhe sorte? Mas repara bem que não é! Temos vindo a seguir de modo sistemático o percurso de Memeth e com isso apenas aumentamos as probabilidades de passarmos pelos mesmos sítios por onde ele passou. Ou de nos acontecerem as mesmas coisas que lhe aconteceram a ele! E agora sabermos que Memeth prometeu e não regressou, apenas nos deve fazer cientes de que os perigos são bem reais!
Fiquei a pensar naquilo. Quer dizer que o que tinha impedido Memeth de regressar, podia ser o mesmo que nos impedira a nós. Era uma perspectiva assustadora!
E isso fez difícil pegar no sono.

De manhã a aldeia parecia toda mergulhada em agitação, eu diria mesmo, quase cosmopolita. E que contraste isso era com o silêncio da noite! Era deveras um povo engraçado.
Bel-Ygor estava à espera que acordassemos e mal nos viu sair, trouxe as nossas mulas e dirigiu-se a Ratapone:
-- Que a vossa caminhada possa ter também o sentido do regresso! Conforme prometido aqui estão as vossas mulas. Não tiramos nada, pois talvez Memeth não tenha regressado com medo que quisessemos mais ouro, quando no fundo apenas queríamos a sua companhia!
Olhei para Mestre Ludovico, que me olhou com aquele ar de quem não acreditava inteiramente. Mas Bel-Ygor continuou:
-- Juntei mais algumas provisões às vossas... E estou disposto a fornecer-vos um guia para vos conduzir até ao Pico das Águias... – e parou de falar, parecendo com isso dar-nos uma oportunidade de o interpelar. Mestre Ratapone percebeu e delicadamente perguntou:
-- Chefe Bel-Ygor, agradecemos a magnífica hospitalidade e somos por ela eternamente gratos! Ainda mais quando te sabemos amigo do nosso amigo Memeth. Mas estamos curiosos de saber as tuas condições para nos fornecer o guia que nos ajudará na nossa jornada...
Bel-Ygor pareceu agradado e continuou:
-- Vou dar-te como guia o meu filho Bel-Vito!
O rapaz apareceu e para anão era particularmente grande com cerca de 1,5m, bem constituído, de aspecto robusto. O seu rosto era fechado, quase sereno, talvez grave, como se estivesse sempre a esconder as suas emoções. A tez de sua pele era particularmente escura, de um moreno avermelhado. Na mão trazia uma lança maior do que ele e na cintura uma adaga, talvez que no caso deles, pudesse ser uma espada.
-- O meu filho irá levar-vos até ao Pico das Águias, mas depois irá convosco. É a minha única condição. – E calou-se.
Mestre Ratapone também ficou calado por um tempo, talvez pensando em todas as consequências e depois respondeu:
-- Está bem. Concordo, mas o teu filho deverá obedecer-me como se fosse a ti.
-- Nem ele, nem eu, pensaríamos doutra maneira. – Disse Bel-Ygor de pronto.

E lá estava o grupo a aumentar sobremaneira! Era engraçado como íamos recolhendo gente pelo caminho, em especial à medida que sentíamos cada vez mais perto as manifestações da presença de Memeth. Talvez a jornada não estivesse afinal tão longe do seu término!

Já não éramos mais como os dedos de uma mão, mas talvez fossemos agora mais o pulso e daqui a pouco mais o cotovelo!
Junto com Bel-Vito vieram mais dois póneis com provisões que Bel-Ygor fez questão de mandar. E partimos, outra vez, pelos caminhos da montanha. Bel-Vito à frente com um passo firme e decidido eu diria até mesmo rápido para um homem tão pequeno. Será que tinha tanto desejo de ver Memeth? De certo que a ser filho de Bel-Ygor nunca deve ter sequer visto Memeth! Mas que talvez este fizesse agora parte da sua história, da história da sua ladeia, do seu povo e afinal Bel-Vito fosse escrever a parte dela que faltava, como o historiador que persegue os seus heróis de infância!

Bel-Vito seguia em frente e os Mestres acompanhavam-no. Atrás dos Mestres, Godo, Cabelos-de-Fogo, Galimodo e as mulas. E a encerrar o cortejo como era habitual eu e Helmut.
-- Helmut, qualquer dia parecemos uma caravana... de camelos no deserto...
-- Pois! Se julgam que vou caçar para esta gente toda, desenganem-se...
Tudo voltava ao normal, até Helmut a pensar com o estômago.

30 junho 2006

piodao by tb

O Ovo de Rá - 29ª parte

Memeth não regressou

Para nossa surpresa os anões fizeram-nos caminhar três horas por trilhos estreitos às vezes tão estreitos que apenas tinham a da largura de um cu de mula até à sua aldeia. Esta estava pendurada numa escarpa no meio de cedros enormes, que espalhavam por ali as suas raízes e pareciam ser eles a suportar a escarpa!

Quando chegamos fomos muito bem recebidos e organizaram logo uma enorme festa com montanhas de comida! Achei tudo aquilo cómico. Não vimos sinais de carência em lado nenhum o que teve por condão irritar o Mestre Ludovico.

-- Vejam lá estas pestes de tamanho miniatura, sem necessidades, nem carências a dedicarem-se à pilhagem! Apetecia-me atirar-lhes com um bocado do meu ácido...

-- Tende calma Mestre Ludovico e aproveitemos a hospitalidade... – Sugeriu Mestre Ratapone.

As crianças vieram fazer festinhas em Galimodo que adorou! Aliás Galimodo adorava ser o centro das atenções e prendeu a criançada contando intermináveis estórias de fantasia. Também fizeram festas a Helmut mas apenas os mais corajosos. Helmut manteve um ar distante e não se deixava afastar muito de mim.

Na grande praça no centro da aldeia éramos o centro das atenções. Alguém levou as nossas mulas, antes que Godo pudesse reclamar. Esperavamos que entregassem tudo conforme tinham recebido, mas Mestre Ratapone até parecia divertido.

-- Então chefe Bel-Ygor, tem aqui uma bela aldeia!

-- Não nos podemos queixar...

-- Ai não?! Mas podem roubar! – disse Mestre Ludovico, sem poder conter a sua indignação.

-- Ora caro amigo... – respondeu o chefe Bel-Ygor – Nunca sabemos o dia de amanhã, não é?

-- E já vos passou pela cabeça que entretidos nesse desporto radical de salteadores de estrada, alguns de vós possam ficar sem ‘amanhã’? – perguntou Cabelos de Fogo.

-- A menina é bela e faz perguntas pertinentes... – disse Bel-Ygor, mas acho que a fraseologia era para amansar Cabelos de Fogo. – Mas só vão voluntários, não forçamos ninguém a ir nas nossas expedições.

-- Chefe Bel-Ygor, tem sido bem sucedidos? – perguntou Mestre Ratapone.

-- Bem, não nos podemos queixar muito... A fama das Montanhas Negras sempre ajuda para o nosso lado. O nosso problema é que passam por aqui pouco viajantes... A maioria é para consultar um ou outro eremita e não os vêm consultar todos os dias.

-- Como nós. – disse Godo.

-- Mas vamos esquecer o acontecimento... – sugeriu Bel-Ygor.

-- Esquecer, diz ele... – resmordeu Mestre Ludovico.

-- Esse colarzinho que trazeis ao pescoço, foi obtido num desses ‘acontecimentos’? – perguntou subtil Godo.

-- Ah Este aqui? – e Bel-Ygor apontou para o magnífico colar de ouro com o escaravelho engastado.

-- Esse mesmo. – certificou Godo. – Não me parece resultado do vosso artesanato...

Aliás nenhum dos anões usava ouro como adorno, tanto quanto nos era dado ver.

-- Este aqui foi ainda no tempo do meu pai... Era eu ainda um jovem... Mas não foi roubado!

-- Ai não? Pois claro que não! – interrompeu Mestre Ludovico – Pediram gentilmente a alguém e este entregou-o como presente... Claro que se esqueceu de mencionar que o pedido foi feito com lanças apontadas ao peito, mas claro, isso V. Ex. esqueceu-se de mencionar...

-- O Senhor é muito amargo! Por acaso foram uns senhores simpáticos como vocês que também nos ofereceram o colar em troca da nossa hospitalidade!

O Mestre Ludovico engoliu em seco. E Mestre Ratapone retomou a palavra:

-- Amigos, portanto?

-- Sim...

-- Ficaram muito tempo? – perguntou Godo.

-- Algum tempo, talvez uns três dias...

Sussurrei para Helmut:

-- Aqui é tudo medido em três... Três horas de viagem até aqui, três dias que ficaram...

Helmut não disse nada, mas o seu olhar mantinha-se muito atento. E sabia que aquelas orelhas arrebitadas captavam sons de muito longe.

-- Sabes por onde partiram chefe? – perguntou Godo.

-- Hummm... Estão muito interessados... Porquê?

-- Pensamos que esses amigos, são também nossos amigos e seguimos os seus passos, para ter notícias sobre o que lhes aconteceu... – esclareceu Mestre Ratapone.

-- Mas isso foi há muito tempo...

-- Sabemos que sim, mas mesmo assim queremos saber o que se passou com eles, afinal as suas famílias precisam de ser reconfortadas com a verdade sobre o que lhes sucedeu! – explicou Mestre Ratapone.

O chefe Bel-Ygor ficou pensativo:

-- Pois decerto.. Um momento... Bel-Turo! – chamou ele. E esclarecendo : -- Bel-Turo é o nosso cronista, ele deve ter relatos sobre essa época e sobre o que se passou. Eu só me lembro de algumas coisinhas, ainda era pequeno...

O Mestre Ratapone fez um vénia em sinal de agradecimento. E eu não o consegui imaginar mais pequeno!

Entretanto a mesa foi posta e começou o banquete. Este banquete durou até á noite e pela noite até ser manhã.

E enquanto decorria Bel-Turo foi colocando o Mestre Ratapone e Godo ao corrente do que se passara. Bel-Turo socorreu-se de uns velhos pergaminhos guardados na Casa da Memória de Belutine.

-- Ora cá está... – disse Bel-Turo desenrolando um pergaminho, depois de ter arredado pratos e travessas para fazer espaço – Este pergaminho fala da visita de Memeth, o generoso... Conta que pela hospitalidade ofereceu diversas peças de ouro. Tem aqui a lista, mas acho que só resta o colar do chefe, as outras peças desapareceram em épocas de infortúnio...

-- E sabem o que procurava Memeth, porque veio até aqui?

-- Hummm, deixe cá ver... – Bel-Turo, tentava ler os pergaminhos que estavam escritos num alfabeto desconhecido a todos nós. – Aqui apenas diz que Memeth esteve três dias e que depois levou alguns de nós como guias para atravessarem a Garganta Grande que leva ao Pico das Águias.

-- Não tem mais nada? – insistiu Godo.

-- Donde vinha Memeth? – perguntou Cabelos de Fogo.

-- Pensei que eréis seus amigos! – exclamou Bel-Ygor, com a surpresa de ter apanhado alguém a mentir escandalosamente.

Mestre Ratapone explicou que Cabelos de Fogo se juntara a eles a meio da jornada, tal qual Mestre Ludovico. Bel-Ygor descontraiu-se aceitando a explicação.

-- Memeth, vinha de terras distantes ao sul, muito para o sul da cadeia das Montanhas Negras e mesmo para além das Terras Fétidas... – explicou Mestre Ratapone, provando assim que sabia – Uma terra quente e acolhedora, onde os homens ilustres rapavam as suas cabeças...

Bel-Ygor sorriu:

-- É verdade, lembro-me de os ver, até achamos engraçado... Era eu jovem, mas não me esqueci das cabeças rapadas...

-- Bem, então quer dizer, se não for pedir demasiado chefe, que amanhã nos possais designar um guia para seguir o mesmo caminho de Memeth...

-- Vá... Amanhã está ainda distante! Comam, bebam, alegrem-se... Amanhã falaremos de novo.

-- Mas, temo chefe... que não possamos ficar três dias, como o nosso amigo... – disse Godo.

Uma sombra passou pelo rosto do chefe que pareceu profundamente desiludido.

-- Que pena! É tão raro termos visitantes assim distintos... Gostamos de ouvir relatos de terras distantes... Conhecer coisas novas...

-- Prometemos regressar, depois de sabermos de Memeth... – prometeu Ratapone.

O chefe permaneceu triste.

-- Memeth prometeu, mas não regressou...


23 junho 2006

by Rarindra Prakarsa

O Ovo de Rá - 28ª parte


Salteadores


Não tinha dado ainda uma dúzia de passos, quando num estreitamento do caminho com moitas altas a cercarem-nos de ambos os lados, surgiram umas lanças apontadas na nossa direcção! Não víamos ninguém porque as lanças eram compridas e decerto que quem nos ameaçava com elas escondia-se nas moitas cerradas.
Parámos de imediato. Certamente quem nos detinha não era muito agressivo porque se nos quisessem matar tinham tido oportunidade de fazer isso de surpresa. Ouviu-se então uma voz:
-- Senhores viajantes atirem os vossos pertences para as moitas, se não quereis perder as vossas vidas!
Estava claro que se tratava de salteadores.
Godo olhou para o Mestre Ratapone e este com um aceno de cabeça concordou que atirassemos os pertences para as moitas.
Godo começou lentamente a descarregar as mulas e sem avisar atirou judiciosamente os sacos com a velocidade e força necessárias para atravessar as moitas e derrubar os salteadores escondidos. Ouvimos o barulho dos sacos a bater em alguma coisa e algumas lanças a tombar.
Cabelos de Fogo não levava consigo o arco e não havia maneira de o pegar sem se arriscar a ser trespassada. Ficou ali ao lado de Godo, fingindo ajudá-lo a descarregar as mulas. Eu pressentia que apenas esperavamos uma ordem de Ratapone, para nos embrenharmos nas moitas e darmos cabo dos salteadores. Mas eles continuavam sem se mostrar, cautelosamente escondidos. Eu da minha parte tinha pensado atirar-me ao chão e rolar de encontra as moitas, pois como as lanças eram compridas, quem as manejava teria inúmeras dificuldades para me espetar com elas, estando assim tão perto e com uma espada eu bem que podia!
Foi neste entretanto que vimos Helmut subir um penedo mais alto que as moitas com alguma coisa na boca que a princípio não conseguimos perceber mas que depois identificamos como um anão gorducho!
A voz de Helmut fez-se ouvir:
-- Gostaria muito que atentassem para aqui se faz favor!
As moitas abanaram. Helmut continuou:
-- Presumo que esta amostra de gente é o vosso chefe e como devem ter notado está a ficar vermelho com a falta de ar...
De facto Helmut segurava o desgraçado pela parte de trás da camisa e com o peso ela estava a apertar-lhe o pescoço e de facto o homenzinho estava a começar a ter dificuldades respiratórias.
-- A minha sugestão é a seguinte: Largam as lanças e aparecem, ou vemos aqui o nosso amigo a ficar roxo até morrer. É convosco.
As lanças baixaram e Helmut sem cerimónia deixou cair o anãozinho que aflito respirou ofegante durante um bom bocado massajando o pescoço, onde a camisa quase o atafegara.
-- Agora que estamos todos mais serenos, acho que é altura de nos apresentarmos, não? – sugeriu Helmut.
Das moitas começaram a sair anõezinhos. Aquilo surpreendeu-nos a todos.
Mas Godo reparou no colar que o anão capturado por Helmut trazia ao pescoço. Um coalr que no peito do anão parecia enorme. Aproximou-se ligeiro de Mestre Ratapone e segredou-lhe algo. Mestre Ratapone olhou para o anão e disse:
-- Acho que tudo isto se trata de um mal entendido... Eu sou Mestre Ratapone e sigo em direcção a casa de Mestre Erato, o eremita. E vós quem sóis?
O anão no penedo, junto a Helmut pôs-se de pé, a cabeça dele erguido dava precisamente pela cabeça de Helmut e este conservava um olhar atento sobre ele. O anão falou:
-- Sou o chefe da aldeia de Belutine, aqui nas Montanhas Negras...
-- E vivem de assaltar os pobres viajantes? – perguntou-lhe Helmut.
-- Não... Mas somos tão pobres que temos de aproveitar... – respondeu o chefe anão.
-- Como vos chamais chefe? – perguntou respeitoso Mestre Ratapone.
-- Bel-Ygor, Mestre Ratapone...
Os restantes anões olhavam-nos curiosos e aproximavam-se sem medo, como sempre tivessemos sido conhecidos. Aquilo deu-me vontade de rir.
-- Acho que mereciam uma sova! – resmordeu o Mestre Ludovico. – Não tendes vergonha?
O chefe Bel-Ygor encolheu-se como uma criança a comer mais doces do que lhe é permitido.
-- Além do mais somos guerreiros e podíamos ter morto alguns de vós! – Acrescentou Mestre Ratapone.
-- Se não fosse aqui o lobo, acho que não! – disse com algum desafio na voz o chefe Bel-Ygor.
-- Bem ,bem... Não achais que era mais fácil pedir? O que tendes necessidade que vos possamos oferecer de presente? – perguntou Mestre Ratapone.
O anão chefe ficou a pensar, intrigado com a oferta que não devia ser muito comum.
-- Quer dizer que nós tentamos assaltar-vos e afinal bastava pedir-vos?
-- Claro! – disse Mestre Ratapone.
-- Isso é muito estranho!
O chefe anão estava mesmo imerso nos seus pensamentos e o seu grupo de salteadores estava também intrigado.
-- Bem, de facto, não precisamos de nada... – disse Bel-Ygor – Apenas estavamos a ser como as formigas a recolher para quando houvesse necessidade.
-- Mereciam mesmo uma grande sova, era o que mereciam! – resmordeu Mestre Ludovico verdadeiramenete chateado.
-- Peço desculpa! – disse Bel-Ygor a meia voz.
-- Se tivesse morrido gente teria de desculpar-se perante as suas famílias, mas todas as suas desculpas, não serviriam para nada!
-- Desculpe dizer-lhe chefe, mas não vejo que seja um grande chefe! – disse Galimodo de pé na garupa de uma das mulas.
Os anões que estavam junto a nós riram-se e de facto o trocadilho até tinha alguma graça. Alguns dos anões chegaram mesmo a dizer algumas palavras desagradáveis em relação ao seu chefe.
-- Olha, até o gato fala... – disse Bel-Ygor na sua surpresa. – Sóis mágicos?
A multidão de anões olhou para nós com viva expectativa.
-- Porque perguntais?
-- Bem, em jeito de desculpa convido-vos a visitar a minha aldeia!
O Mestre Ratapone olhou bem o colar que ele trazia ao peito, um belo colar de ouro com um enorme escaravelho azul engastado. Sorriu.
-- Claro que aceitamos!
Depois Bel-Ygor perguntou a Helmut:
-- Com é que eu desço daqui?
E Helmut com a sua ironia:
-- Pulas corajosamente para cima de uma moita e esperas que o teu peso não faça muitos estragos!

21 junho 2006


O Ovo de Rá - 27ª parte


Ver claro


De manhã, embrulhamos a tralha toda e partimos bem cedo. Mestre Ratapone queria chegar a outro eremita que ficava a meio de uma encosta e a caminhada afigurava-se difícil.
Aparelhadas as mulas, seguimos caminho.
Galimodo decidiu ir para junto de Godo e Cabelos de Fogo, que continuaram a caminhar juntos.
Eu fiquei para trás como já se vinha tornando hábito e Helmut fazia-me companhia.
Decidi começar a conversar, pois não me apetecia nada ir ali a pensar nas conversas que Godo e Cabelos de Fogo podiam ir a ter. Além do mais, tinha a noção de que Godo bem merecia um pouco de felicidade.
-- Não sabia que Godo tinha passado por tudo aquilo, é uma história comovente.
-- É... – respoondeu lacónico Helmut.
-- Não te tocou?
-- Reconheço que somos um bom bando de desesperados...
Dei uma gargalhada.
-- Não tinha ainda visto as coisas por esse prisma, mas enfim!
-- É realístico Maia... É realístico...
-- Achas que Cabelos de Fogo é desesperada?
-- Nitidamente.
-- Como assim?
-- Procura uma família, uma em substituição daquela que perdeu por andar fugida. Esta é a sua melhor chance. Andamos todos a fugir e o que nos une é quase tão intenso como os laços de família, ou mais ainda.
Aquilo começava a ser interessante.
-- Fugimos de quê Helmut?
-- Ainda não percebeste Maia? Fugimos da nossa incapacidade de sermos felizes, de encontrarmos a felicidade...
-- Tu também Helmut?
-- Claro! Eu também... Em que alcateia estaria eu bem? Um lobo que fala, que pensa, que sente... Só aqui posso ter alguma perspectiva de ser menos infeliz.
-- Pois...
-- E Godo foi um parvo!
Ri-me.
-- Então porquê?
-- Também não viste? – E Helmut meneou a cabeça em sinal de desalento. – Acho que vocês homens, acabam por estar em piores condições do que eu para alcançar a felicidade!
-- Explica lá isso do Godo...
Helmut olhou para mim, como se fosse estranho para ele um homem pedir explicações a um lobo. Mas depois percebeu que eu não o considerava um lobo, mas um amigo, alguém como igual e acho que sorriu:
-- Só tu, para mo perguntares! Mas está bem... Então a amada do Godo perguntou-lhe que garantia podia ter se alimentasse o seu amor por ele, não foi?
-- Pelo menos foi o que Godo contou.
-- Se ela queria garantias fizesse um depósito no banco! Olha-me esta! Garantias que desse certo hein? E que garantias tinha com o namorado de há sete anos?
-- Estou a perceber...
-- Não há garantias! Godo foi um parvo! E perder tudo por essa mulher, só me confirma que ele não bate bem da moleirinha...
Fiquei a pensar na análise tão óbvia de Helmut. Sim, ele tinha razão! E na fragilidade de querer acreditar no valor superior do amor, perdemos de vista as coisas que deviam ser óbvias.
-- Ela não o amava, pois não Helmut?
-- Não sei... Podia amar até, mas não arriscou. Teve medo... O medo, nunca foi bom conselheiro. Amar envolve alguma coragem, pelo menos a coragem que ele inspira!
-- Talvez o amor de Godo não lhe inspirasse muita...
-- Pois se calhar! Mas tenho de admitir que era um amor suficientemente grande, para lhe motivar tamanho sacrifício! Honra lhe seja feita! O problema é que Godo podia ter princípios, mas estes sem sabedoria prática, acabaram por se lhe tornar uma armadilha. Ele julgou que tinha de a libertar do seu amor, mas ela tinha mesmo é de se libertar do seu medo!
Caminhamos um bocadinho em silêncio e depois ocorreu-me uma pergunta:
-- Crês que possa correr melhor com Cabelos de Fogo?
Helmut olhou directamente para mim:
-- Só os vejo a conversar, Maia.
-- E não acreditas que possa nascer mais nada?
-- Quem sabe? Mas se ela te interessa, não achas que desististe com muita facilidade? Talvez quisesses também uma garantia... Ou pensasses que era garantido...
Sorri, Helmut estava a ser irónico e continuou:
-- Nós lobos, lutamos na alcateia para substituir o macho dominante. Podemos nunca conseguir ou acabar em mau estado. Mas pelo menos tentamos. Não há vergonha nenhuma em tentar. Tanto não há, que mesmo depois que tentamos, não somos expulsos da alcateia, apenas esperamos melhor ocasião. E não ouviste o que se passa, com as bolas de pêlo com garras nas patas? O que disse Galimodo? Até se capam! Mas acho que não desistem fácil...
-- Querias que jogasse á porrada com Godo?
--Ora Maia, és mais inteligente do que isso! Claro que não... Mas já te passou pela cabeça que Cabelos de Fogo, pode estar a experimentar-te? A tentar perceber de que massa és feito? Quais os teus sentimentos e a força deles? As mulheres gostam de ‘garantias’...
E aquilo tudo começou a tornar-se muito claro e a clarividência de Helmut era deslumbrantemente reveladora! E ele decidiu concluir:
-- É também por isso que raramente encontram a felicidade... Não percebem, que não saber, é realmente o melhor modo... Porque depois que se sabe, não se pode voltar a fingir que não se sabe!
-- Não percebi, a última parte Helmut...
-- Eu sei que não... – E meteu-se a correr e entrou por umas moitas e deixei de vê-lo.

20 junho 2006


by Roraima M. Rocha in www.olhares.com 

O Ovo de Rá - 26ª parte


O Amor Verdadeiro


Eu e Helmut regressamos ao acampamento. O Sol declinava no horizonte e em breve seria noite.
Mestre Ludovico viu-nos chegar e disse:
-- Chegam na hora certa! Preparei o jantar, o Mestre Ratapone disse que passaremos aqui a noite.
Agradeci mentalmente ao Mestre. De facto estava extenuado e manter uma caminhada seria desumano para mim.
O jantar decorreu sem grandes conversas e Galimodo aproveitou para falar. Falou da sua vida junto do príncipe Dermaier. No final do jantar Mestre Ratapone pediu:
-- Godo, traz o alaúde para o Maia tocar...
Achei o pedido invulgar, mas percebi que o Mestre apenas me estava a ajudar. Assim improvisei uma melodia. Quando acabei Cabelos de Fogo exclamou:
-- Não sabia que sabias tocar! Foi uma música muito bonita, mas tão triste!
Sorri um meio sorriso. Ela olhou para Godo e perguntou:
-- E tu Godo também sabes tocar um instrumento?
-- Deus me livre! – disse ele com uma gargalhada.
Preparamo-nos para dormir.
Godo disse:
-- Mestre... Eu faço o primeiro turno, Helmut pode fazer o segundo e Mestre Ludovico se não se importar pode fazer o terceiro...
Cabelos de Fogo interrompeu:
-- Eu posso fazer o de Mestre Ludovico.
O Mestre concordou e acrescentou:
-- Maia faz o último.
Todos nos deitamos excepto Godo. Eu não conseguia adormecer. Helmut a meu lado parecia dormir. Uma hora depois, Godo chegou até mim.
-- Dormes? – perguntou ele num sussurro.
-- Não...
-- Gostaria de conversar contigo, queres?
Fiquei intrigado, mas Godo era meu amigo e não era por causa de Cabelos de Fogo que essa amizade se haveria de perder.
-- Claro! – respondi.
Ele sorriu-me e afastamo-nos de onde os restantes descansavam. Mas Helmut sempre atento veio atrás de nós.
-- Espero que não se incomodem por vir para junto de vós... – disse ele.
-- Não há problema por mim. – disse eu.
-- Podes vir Helmut. – concordou Godo.
Sentamo-nos junto ao rio sobre um tronco caído.
-- Posso perguntar-te uma coisa Godo?
-- Claro, Maia, pergunta lá.
-- Porque mentiste á pouco?
-- Mentir? Que mentira disse eu? – perguntou Godo admirado.
-- Disseste que não sabias tocar um instrumento e no entanto sei que tocas lindamente flauta.
No seu rosto apareceu um sorriso rasgado.
-- Não menti. Disse "Deus me livre!" E Deus livrou-me.
Foi a minha vez de sorrir.
-- Obrigado, Godo. Foi por mim, não foi?
Ele não disse nada e olhou para o chão como se não soubesse exactamente o que dizer.
-- Sei que foi Godo. És um bom amigo. Mas sabes... Não precisavas de o fazer. Não estou zangado contigo, e se Cabelos de Fogo gostar de ti, que posso fazer? Não é por isso que deixo de gostar de ti.
Havia um brilho nos olhos de Godo. Eu continuei:
-- Devemos ficar felizes com a felicidade dos nossos amigos, não é?
Godo falou:
-- Nunca contei muito da minha vida a ninguém, como sabes... Mas acho que tens o direito de saber uma coisa... Pelo menos, queria contar-te...
Estava atentamente a escutar, pois de facto Godo nunca falara da sua vida. Helmut pareceu-me indiferente a dormitar enroscado atrás de nós.
-- Não sei se Cabelos de Fogo gosta de mim, apesar de que se gostasse seria bom...
Ele sorriu-me um sorriso maroto e eu correspondi-lhe com outro sorriso.
-- Se ambos fossem felizes, eu ficaria feliz, Godo; mesmo que ficasse com uma pontinha de dor aqui dentro...
Godo riu-se baixinho para não acordar os outros. Galimodo dormia com Cabelos de Fogo, enroscadinho nos seus braços, a aproveitar o calor.
-- Galimodo é que ficou com ela! – disse Godo.
Também me ri.
-- Pois, mas eu sei que já te doi e ainda nem aconteceu nada entre nós, não é Maia?
-- Não te vou mentir, sim dói.
-- Pois, mas acho que tu sabes o que o verdadeiro amor é. Pelas tuas palavas noto-o e fico feliz, apesar de saber que o verdadeiro amor às vezes trás mais dor do que a que conseguimos suportar...
-- Que me queres dizer Godo? – senti que ele estava a dar uma grande volta em relação ao que me queria dizer. Talvez lhe fosse difícil.
-- Pois, Maia, o verdadeiro amor não pensa primariamente em si próprio mas no outro, naquilo que é melhor para o outro. O verdadeiro amor perfere a morte à infelicidade do outro...
Aquelas palavras entravam em mim e sentia-lhes o eco. Eram palavras dolorosas e belas. Sim, o verdadeiro amor é feito de dar, dar até ao limite, ou para além dele, nem sei bem. Mas era isso amar, era dar de si, sem qualquer garantia de retorno. Mas se assim era, seria ele a chave da felicidade?
Godo continuou sem olhar para mim, o que nele era sinal de uma certa dificuldade.
-- Eu também um dia amei muito, Maia... Amei demais! Se é possível amar demais! Antes de ser escravo... Era aquele destinado a ser chefe da minha tribo, numa longa linhagem de honrados chefes... Tínhamos os nossos costumes, a nossa religião, mas não passamos de homens e como tal, um dia o amor apanha-nos sem nos deixar outra opção que não seja a rendição incondicional!
Godo parou um pouco, talvez para ganhar fôlego e continuou:
-- Na tribo vizinha, com outros costumes, outra religião, havia uma bela donzela...
Godo voltou a parar e soltou um suspiro. Percebi que era aí que Godo queria de facto chegar e a história não ía ser de final feliz.
-- Ela era bela! Oh como ela era bela! Tinha olhos garços, daqueles que mudam de cor entre o verde, um cinza azulado e o castanho. Cabelos compridos num castanho alourado onde o sol brincava... Um corpo com a graciosidade de uma palmeira-tamareira... O sorriso doce e fácil... Uma personalidade alegre e brincalhona...
Os olhos de Godo brilhavam na noite.
-- Arranjamos eu e ela todas as desculpas para estarmos juntos, para falarmos... Sem darmos conta estavamos profundamente apaixonados, amavamo-nos. Mas nenhum de nós queria de facto admiti-lo... Ela namorava com um ilustre moço de sua tribo, já por sete anos. Também ele um dia seria um chefe... Escrevi-lhe poemas, compus melodias na flauta para ela... E comecei a senti-la perturbada. Os seus olhos lindos, límpidos e brilhantes quando estava contente, começaram com o tempo a ficar embaçados. E sabes porquê?
Não quis perturbá-lo com palavras e acenei que não com a cabeça.
-- Ela começava a perguntar-me o que seria a nossa vida... Se valia arrriscar, deixar tudo para tentarmos nós...
Godo calou-se, respirou fundo e continuou:
-- Ela sabia que tínhamos costumes e religião diferentes. Se ficasse comigo, teria de aceitar a minha religião. Afinal eu era um chefe do meu povo, com a responsabilidade de manter os costumes e as tradições do meu povo.
Sem pensar interrompi:
-- Podiam ter ido pra outro lugar e ter feito a vossa vida...
Ele sorriu-me, um sorriso de compreensão.
-- Podia... Mas sujeitá-la-ía eu a isso? Abandonaria ela os pais, os irmãos, só para ir comigo? E eu, abandonaria todas as minhas responsabilidades para estar com ela? O que pensaria ela disso? Como poderia ela confiar no meu amor, se largasse tudo assim? Como ela dizia: " Que garantia temos nós que dê certo no nosso caso?" E não há garantias, pois não? Nunca há... Embora às vezes acreditemos que o amor possa ser eterno!
Voltou a pausar para respirar.
-- Senti que todos estes pensamentos a estavam a perturbar. Sabes, um dia acordamos e vemos claramente o quadro todo! É como uma revelação. Maravilha-nos e deixa-nos angustiados. Pensa: Ela namorava há sete anos e tinham sido sete anos em vão? Que sentido teria então a palavra "compromisso"? Será que o facto de amar outra pessoa justificava abandonar tudo e todos?
-- Compreendo... Eram ambos pessoas de princípios...
Godo não foi a tempo e uma lágrima rolou-lhe pela face. Limpou-a com as costas da mão e recompôs-se.
-- Sabia o que tinha de fazer, Maia. A prova sublime do amor! E já que fora eu que a perturbara na sua quietude de viver, teria de ser eu a libertá-la do meu fardo. E um dia... Um dia em que a minha tribo se envolvia em batalha contra outra... Deixei-me capturar, e tornei-me escravo.
O silêncio depois destas palavras foi longo e senti ainda mais aguda a dor no meu peito. Mas já não era a minha, era a de Godo!

12 junho 2006


O Ovo de Rá - 25ª parte


A dor


-- Mestre...
-- Sim?
-- Neste momento.. embora procure ser forte... Apenas me apetece chorar...
O Mestre olhou para mim, com uma ternura que nunca lhe vi nos olhos e disse-me:
-- Fica aqui e chora!
-- Não é coisa de fraco?
-- Fraco é não ter coração! Não sentir nada... Não fico contigo, porque teria que me juntar às tuas lágrimas e isso embaraçar-me-ía porque o sofrimento é uma coisa pessoal, íntima. Fica aqui e chora... Faz o teu luto. Enterra essas frustrações que te sufocam. Partiremos só depois que apareceres...
E foi-se embora sem olhar para trás uma única vez.
Afastei-me mais um pouco e ajoelhei num tufo de erva e nem o Sol, nem o cantar alegre dos pássaros naquela Primavera me impediram de chorar, chorar sem parar, chorar sem tino, chorar sem controlo, chorar...
E Helmut, sim o meu querido amigo Helmut que ficara a trinta passos de nós, ficou ali, aquela distância, não sei se embaraçado, se sem saber o que fazer. De focinho no chão, às vezes olhando para um lado, depois para o outro. Pareceu-me que resguardava a minha solidão! Para que nada pudesse perturbar-me naquele momento em que a dor me inundou os olhos e extravasou.
Mas Helmut não foi capaz de suportar na distância o meu choro silencioso, quase envergonhado, mas ainda assim tão intenso que não o conseguia parar, mesmo que quisesse!
E Helmut foi-se aproximando de mansinho, quase como se pedisse desculpa. Achei que às vezes ficava parado, ali atrás, pensando se devia vir até a mim ou não, mas veio. E sentou-se ao meu lado e não disse nada. Podia ter falado, podia ter dito qualquer frase sensata ou jocosa, como era seu costume, mas não disse nada. Ficou só ali, pertinho. Tão pertinho que o abracei e chorei, chorei até não ter mais lágrimas....

Acho que se passaram horas, nem dei conta. Helmut deixou-se abraçar e quando finalmente parei de chorar. Helmut ainda ali estava. As minhas lágrimas tinham-lhe molhado o pelo no pescoço, mas nem se sacudiu nem nada. Foi o meu travesseiro.
Ergui-me, sorri (agora já conseguia sorrir):
-- Desculpa Helmut...
E quando Helmut olhou para mim, notei que também ele tinha os olhos cheios de lágrimas. Repeti-me:
-- Desculpa Helmut, dessculpa... – E abracei-o. – Se calhar fiz-te lembrar também a tua dor. Eu aqui tão preocupado com a minha e a tua é bem maior...
E surpreenderam-me as palavras dele:
-- Não peças desculpa. Tenho é que agradecer, porque agora sinto-me melhor.
-- Melhor Helmut?
-- Sim Maia. Chorar contigo fez-me bem... Pensava que por ser quem sou e como sou, seria uma dor grande, mas a tua acaba por não ser menor...E quem pode compreender o sofrimento de outro se não aquele que sofre de igual modo? Nunca me senti tão humano!
-- E eu nunca me senti tão lobo!
Abracei-o e ele lambeu-me. A nossa amizade cimentava-se numa dor comum.
Fiquei a pensar na camaradagem dos soldados. Dizem que o perigo permanente, o facto de a vida poder ser demasiado breve cria uma indestrutível camaradagem, uma solidez de sentimentos que é difícil de explicar. Nesta guerra que é existir, eu e Helmut eramos camaradas de armas!
Consegui sorrir!
Dirigimo-nos ao rio e lavei a cara de Helmut e a minha.
-- Ainda bem que o Sol se pôs...
-- Porquê Helmut?
-- Porque ninguém vai perceber que tens os olhos inchados!
-- Tenho?
-- Pois...
Regressamos. Não apenas de um lugar...


Depois de ler ouçam aqui

11 junho 2006

O Ovo de Rá - 24ª parte



A procura...


Finalmente paramos para almoçar. O Mestre Ludovico quis presentear-nos com uma sopinha e esta estava de facto sublime! Mas comi pouco, o meu apetite não era grande. E como o Mestre Ludovico fez a sopa, Godo ficou com mais tempo livre para Cabelos de Fogo...
Sentámo-nos debaixo de umas árvores grandes, junto ao rio. Mestre Ludovico e Ratapone próximos, logo ali, um pouco mais afastados Godo e Cabelos de Fogo e bem afastado eu. Depois Helmut e Galimodo (que não comiam sopa) vieram fazer-me companhia. Agradeci-lhes isso e fiquei a pensar que os animais se entendem e claro está que me incluí entre os animais.
A refeição decorreu rápida. As conversas não foram muitas à excepção de Godo e Cabelos de Fogo para os quais a conversa parecia interminável, entrecortada por pequenas gargalhadas de Cabelos de Fogo. Às vezes espreitava-os pelo canto do olho e tive a sensação que Cabelos de Fogo também me olhava e parecia gozar com a minha dor. Acho que Helmut se apercebeu disso e comentou:
-- Quando estamos em baixo, tudo nos parece pior do que realmente é.
Aquela frase simples teve o condão de me equilibrar. Ele tinha razão! Já tinha aprendido do Mestre a não pré-julgar, a não atribuir aos outros intenções que afinal e em último caso desconhecemos. Porque eles são ‘eles’ e nós somos ‘nós’.
Sorri para Helmut. Galimodo aproveitava para uma soneca.
No final da refeição todos decidiram descansar mais um pouco. Godo e Cabelos de Fogo, foram passear ao longo do rio.
Fiz um esforço para ficar feliz por Godo. E até por Cabelos de Fogo. Godo sempre se negara a si mesmo em favor de outros, era justo que na vida sentisse as alegrias do amor. E Cabelos de Fogo nitidamente era mais compatível com Godo do que eu! Afinal, eu era um rapaz e ele era um homem. Godo era sábio, corajoso, e até tinha boa aparência. Sem dúvida Cabelos de Fogo ficaria melhor com ele do que comigo...
Estava eu nestes pensamentos, quando dei conta que o Mestre Ratapone estava junto a mim e me dizia:
-- Maia... Gostavas de ir comigo dar uma caminhada por ali? – E por ‘ali’ designava precisamente um percurso ao longo do rio oposto ao que tinham seguido Godo e Cabelos de Fogo.
-- Não estou pra grandes caminhadas Mestre, aliás acho que hoje já caminhamos bastante...
Mas o Mestre não me deixou terminar as minhas objecções:
-- Insisto, Maia... por favor!
Levantei-me e começamos a caminhar ao longo do rio. Era o tempo dos degelos da primavera e a água corria pressurosa e ligeira numa espécie de cantiga alegre. Tudo à minha volta parecia alegre, excepto eu.
Helmut seguia-nos a uma distância razoável. Tinha a certeza que áquela distância as orelhas apuradas dele conseguiam ouvir toda a conversa, embora pudesse dar a aparência que não.
O Mestre foi directo ao assunto:
-- Passa-se alguma coisa entre ti e Cabelos de Fogo?
-- Acho que não...
A resposta pareceu surpreender-me o Mestre.
-- Como assim?
Tentei sorrir, pelo menos fiz um esforço para que o meu esgar se parecesse minimamente com um sorriso:
-- Somos apenas amigos, ou talvez menos... Conhecidos diria.
O Mestre comentou:
-- Bem, ninguém diria isso quando observamos o afecto que demonstravam um pelo outro...
-- Talvez isso tenha sido desiquilibrado meu Mestre. Uma coisa assim, dominada pelo nosso desejo de ser amado e não tanto pela realidade das coisas...
-- Como assim? – Era a expressão do Mestre para nos levar a ir mais fundo nas nossas afirmações.
-- É assim mesmo Mestre. Desejamos e os nosso desejos toldam o nosso juízo e deixamos de ver o que é, para passarmos a ver o que desejamos. Pode ser que isso se dê por causa das circunstâncias e então é circunstancial, mas não substancial. Estamos naquilo que podia ser, mas é uma mera suposição...
-- E o que supuseste?
Tentei sorrir outra vez.
-- Supûs que do afecto se podia dar lugar ao amor, ou pelo menos à paixão...
-- E?
-- E afinal esfumou-se. Não havia nada.
Procurei demonstrar na última frase, uma serenidade que obviamente não tinha.
-- Tens a certeza?
Decidi tornar-me duro.
-- Vede os factos Mestre. Não haveis notado que prefere a companhia de Godo à minha?
-- Podem ser amigos não é?
-- Exactamente Mestre, como eu sou dela.
O Mestre parou e ficou com aquele ar pensativo que lhe conhecia, quando nos queria dizer algo importante e apenas buscasse as palavras certas.
-- Sabes Maia? A felicidade não vem das relações amorosas entre homem e mulher... Se viessem e seria bastante acessível, bastava casar, ou ter amantes e fazer sexo. E se reconheço que no casamento ou no amor, ou no sexo, há uma medida de felicidade, esta parece temporária e fugidia e volta sempre aquela sensação de vazio... Como o Mestre Ludovico resumiu, acabamos sempre por encontrar a frustração...
-- Sábio o Mestre Ludovico, não é?
Ele sorriu.
-- É. Mas não é uma fatalidade. Devemos buscar a felicidade, a verdadeira, a plena, aquela que realemente nos sacia a alma, noutro lado!
-- Na sabedoria Mestre?
-- Também, não. A sabedoria pode ajudar-nos a chegar lá, mas ainda não é a felicidade...
-- Então o que é?
-- Se eu soubesse seria plenamente sábio e não tenho essa pretensão. Mas procuro...
-- Eu também Mestre.
-- Por isso preciso de ti nesta aventura. Tu e eu procuramos a mesma coisa... E não é um ovo...

09 junho 2006


O Ovo de Rá - 23ª parte


Fêmeas


Lá íamos a caminho da primeira paragem, o Mestre Ratapone a informações de Ludovico pretendia ir falar com Mestre Erato, um eremita que ficava bem para o interior das Montanhas Negras. Aliás todos os eremitas se tinham espalhado pelas Montanhas Negras uma cadeia bem extensa de montanhas cheias de perigos e de vales cavados e altos picos nevados. Pelo menos durante o Inverno.
E lá ía eu ali ao lado de Cabelos de Fogo e comecei a fazer conversa:
-- Até gostei da casinha de Mestre Ludovico...
-- Eu achei pequenina.
-- Mas tinha uma cave grande...
-- Os homens sempre pensam em caves... Não gostas do Sol?
-- Claro que gosto do Sol!
A coisa não se me afigurava de feição e achei que tinha começado mal. Tentei outro assunto.
-- Bom, agora vamos ter Sol que baste, vamos caminhar ao ar livre pelas belas Montanhas...
-- Belas?! – Interrompeu ela quase escandalizada. – Acho que não conheces as Montanhas Negras...
-- Já ouvi falar na sua fama, mas...
-- O menino já se esqueceu do que enfrentámos não é?
E antes que eu respondesse:
-- Precisamos de manter a vigilância. Devias aprender de Godo, ele está sempre atento, prevenido.
Não gostei dela me ter chamado ‘menino’, afinal éramos quase da mesma idade e eu já tinha aprendido de Godo! Ela continuou:
-- Quantos anos tem Godo?
-- Não sei... Quando cheguei a conhecê-lo era rapazinho e ele já estava ao serviço do Mestre...
-- Mas deve ter quê? Uns quarenta anos?
-- Não sei...
-- Parece-me um homem maduro. Seguro de si. Não deve ter mais de cinquenta anos, não achas?
-- Provavelmente não, sei que estava há pelo menos cinco anos com o Mestre, quando para lá fui, e eu já estou há pelo menos...
Voltou a interromper-me:
-- Donde veio ele?
-- Era escravo...
Interrompeu de novo:
-- Isso eu sei! Mas de que nação ou de que tribo?
-- Não sei...
-- Pareces não saber nada! – resmordeu ela.
Aquilo teve o condão de me irritar mas dominei-me e disse-lhe:
-- Olha lá, já que tens tanta curiosidade, porque não lhe vais perguntar?
-- E olha que vou mesmo! – disse ela a mostrar-se ofendida.
-- Quem te impede? Até lhe podias ter perguntado isso tudo enquanto andaste com ele a preparar a expedição,pelo menos tiveram tempo de sobra para isso e muito mais... – disse-lhe eu como se me estivesse marinbando.
-- É o que faz dar confiança a garotos! Tratamo-los como homens mas não passam de garotos com as hormonas aos saltos...
Pensei: Eu tenho as hormonas aos saltos? Quem teve a iniciativa de se deitar ao meu lado? Olha que esta! E ela continuava verdadeiramente irritada:
-- Godo é um homem maduro, ponderado, sábio, a ele é que devo dar a minha atenção...
Decidi interromper:
-- Se queres ligar a homens bem maduros, devias falar com Mestre Ratapone, além disso é mais sábio...
O que eu fui dizer! Parecia ter sido picada por uma abelha.
-- Mas tu achas que Godo não é tão sábio quanto o Mestre?!
Que havia eu de dizer? Godo era meu amigo e sabia lá eu quanto é que o homem sabia! Nunca tinha medido a sabedoria de cada um! Ela continuou:
-- Olha, pelo menos é bem mais corajoso do que tu!
Aquilo estava a magoar-me. Eu que até tinha no bolso um poema que lhe queria ler! De repente senti como se o mundo me tirasse um tapete debaixo dos pés e fosse cair. Senti como se estivesse a ser traído e não compreendia bem nem o como nem o porquê.
E de repente ela arrancou para ir ter com Godo que continuava ao lado das mulas e eu fiquei ali a olhar-lhes os traseiros.
Senti uma vontade quase irresistível de chorar, mas dominei-me. A minha vontade naquele instante era sumir dali para um lugar solitário. Ou atirar-me de um penhasco ou o que pudesse ser, para acabar com aquela dor que se pusera a crescer-me no peito.
Não sei se Helmut fez de próposito se não, mas rapidamente ele e Galimodo me alcançaram. A princípio não disseram nada e limitamo-nos a caminhar lado a lado. Mas depois de alguns passos em silêncio Helmut falou:
-- Concorrência na alcateia?
Fiquei calado, a dor era demasiado forte para poder articular uma frase que fizesse algum sentido.
-- Se isso pode consolar-te fica a saber que com as fêmeas, as relações não são regidas pela lógica.
Sorri-lhe um sorriso que deve ter parecido um esgar e embaraçado Helmut meteu Galimodo na conversa:
-- Não te parece Galimodo?
-- Pois meu caro Helmut nem sei bem o que dizer! Sabes amigo, enquanto nós animais apenas temos de lidar com o nosso cio durante uma breve época do ano, os humanos têm de lidar com ele todo o ano! Deve ser um fardo insuportável!
Helmut tentou amenizar:
-- Bem, acho que eles já estão habituados...
-- Não sei! – Galimodo depois que começava a falar, era difícil de se calar. – Da minha observação os humanos têm uma elevada propensão para se magoarem nas suas relações macho-fêmea. E as fêmeas como o meu amigo disse e muito bem, não regem as suas escolhas pela lógica...
-- Bem, por alguma razão lhes chamam relações amorosas e não relações lógicas! – disse Helmut a tentar fazer graça. E até teve, que voltei a sorrir, por uns instantes.
-- Sabe o que eu acho que vale na fêmea humana? E curiosamente até podíamos dizer que isso é muito animal...
-- O que é? – incentivou Helmut.
-- A fêmea humana é muito sensível à auto-confiança do macho! Basta o macho mostrar-se seguro de si, dominador sem ser propriamente ostensivo, uma espécie de paternalismo, uns miados bem aplicados...
-- A canção do bandido? – perguntou Helmut mais em jeito de afirmação.
-- Exactamente, vejo que acompanha o raciocínio...
-- Por isso nós na alcateia temos de lutar contra o macho dominante se havemos de ter sorte! E com os gatos?
-- É a mesma coisa! Normalmente atacamo-nos uns aos outros para diminuir a concorrência, porque no no fundo cabe sempre à fêmea a escolha! E acredite amigo, nem sempre escolhe o mais forte! Por isso a nossa estratégia felídea é caparmos o adversário!
-- Isso é muito radical amigo Galimodo! Nunca pensei que fossem tão brutos!
-- Brutos?
-- Está certo, elas gostam de brutos! Podem não ter mais nenhuma qualidade, mas são seguros de si!
E foi aí que eu intervi.
-- Quer dizer que perdi pontos quando coloquei em dúvida a minha coragem?
Helmut e Galimodo pararam e com isso eles distanciaram-se mais um pouco. Godo e Cabelos de Fogo, pareciam ir numa conversa muito animada junto às mulas. Achei curioso porque Godo sempre me parecera de pouca conversa, um indíviduo reservado. Agora soltava-se e ganhava luz. Voltou a doer-me, mas não sentia qualquer animosidade para com Godo.
Retomamos o andamento.
-- Bagh! – soltou Helmut – Vá-se lá entender as fêmeas!

08 junho 2006

O Ovo de Rá - 22ª parte



As Mulas


Finalmente a hora de partir chegou. Como estavamos todos bem ocupados, ela pareceu-me chegar repentinamente como algo caído assim de lado nenhum. Ainda bem que aconteceu assim, porque começava a ganhar raízes naquele lugar e ao saber que íamos partir bateu-me uma nostalgia forte. Fiz esforço para não demonstrar a minha vontade de chorar...
Mas talvez não passasse tudo ainda da digestão da afirmação do Mestre Ludovico de que a vida é frustração.
Também me foi dado observar como Mestre Ludovico tinha um sentido prático apurado. No dia da partida já ele tinha arranjado duas mulas para nos levar mantimentos e equipamento. Dizia ele que para as altas montanhas não há nada como as mulas. Em tempos tinha ouvido falar de cães, mas não quis mencionar isso com medo de ofender Helmut, que também já conhecera dias mais animados. Ele e Galimodo continuavam as suas conversas, pontilhadas de fina ironia. Acho que se compraziam numa espécie de luta, mas no domínio da linguagem. Seria engraçado se toda a luta não passasse de uma troca de palavras!
Fiquei também a saber que a casinha de Mestre Ludovico, não ficaria abandonada. Aliás seria uma pena, uma casinha tão simpática quanto aquela. Não sei como, mas Mestre Ludovico lá teria os seus segredos, iria alugá-la a uma eremita! Sim, uma eremita! Sempre pensei que os eremitas fossem todos do sexo masculino, mas pelos vistos era uma ideia falsa. Numa conversa entre ele e Mestre Ratapone ouvi-o explicar que a eremita que iria ficar na sua casa, se fartara de homens e agora queria uma boa distância deles! Custou-me a perceber como isso poderia ser, pois Cabelos de Fogo tinha boas razões para odiar homens e agora seguia numa espécie de jornada com, pelo menos pelas últimas contagens com três! E daqui em diante seriam quatro! Talvez algo me escapasse...
Fui ajudar Godo a carregar as mulas. Essencialmente levavamos algo que comer, beber, mantas e roupa numa delas e na outra uma data de coisas que não faço a mínima ideia! Umas vezes diziam que eram instrumentos, outras que materiais preciosos. Acho que uma parte eram armas. Afinal a fama das Montanhas Negras não era a melhor.
Mestre Ludovico disse-nos que segundo as suas previsões iríamos partir na melhor altura e explicou como havia chegado a essa conclusão com milhares de pormenores que não consegui acompanhar! Falava da temperatura do ar, das pressões, do desenho das nuvens, da época do ano e das luas. Achou que juntou também alguns provérbios relativos ao tempo... Mas de certeza que tínhamos o homem certo para a continuação da nossa aventura. E lá acabei ficando contente, consolando-me de saber que estavamos em boas mãos e não éramos apenas uns aventureiros inconscientes.
Acabei ficando contente por partirmos por uma razão ainda melhor, é que com a azáfama dos preparativos eu e Cabelos de Fogo, não tínhamos tido oportunidades de falar muito, agora durante a viagem, ficaria ao seu lado e teríamos essa oportunidade. E isso acreditem era uma das coisas que mais desejava. Tinha andado a treinar uns poemas, para lhe ler...
Finalmente chegou a hora de Mestre Ludovico fechar a porta. Antes tínhamos tomado uma bela de uma refeição, preparada por ele, acho que um pouco para consolar os nossos estômagos que a partir daí se teriam de contentar com coisas menos frescas. Enfim, Godo também sabia muito de plantas e Cabelos de Fogo sabia como curar com elas, enfim não havia de ser tudo lentilhas, feijão e grão!
Partimos então, eu logo me posicionei junto de Cabelos de Fogo, na cauda do grupo. Na frente os mestres agora sempre muito conversadores. Godo a meio, mantendo um olho nas mulas que dóceis se limitavam a seguir uma atrás da outra pelo caminho. No final de tudo Helmut e Galimodo. Ás vezes Galimodo corria um pouquinho até nós para dar uma palavrinha a Cabelos de Fogo e houve até uma vez que pediu a Godo para o colocar em cima de uma mula que lhe doiam as patas do caminho ser rijo. Notava-se que Galimodo era um gato delicado, habituado a certos confortos e temia que não fosse achar assim tão interessante a aventura, mas sempre tinha Helmut para dois dedos de conversa.
-- Amigo Galimodo, repare por favor naquelas duas mulas que seguem à nossa frente...
-- Sim, que têm amigo Helmut?
-- Que lhe parecem?
-- Como assim? Acho que são uns animais robustos, dóceis... Mas não falam. Acho que são ignorantes por completo.
Helmut acenou com a cabeça em sinal de concordância. Galimodo perguntou:
-- Mas porque me manda olhar para elas?
-- Diria que são felizes? – perguntou Helmut.
Galimodo no seu jeito de gato, olhou espantado Helmut e foi a correr nas suas patas ligeiras até aos dois animais e depois perguntou a Godo:
-- Godo, desculpe perguntar-lhe, sei que é uma pergunta aparentemente estranha, mas para mim tem a sua importância: Acha que estes dois animais, aqui as mulas, vão felizes?
Godo olhou para Galimodo a perguntar-se onde ele queria chegar com aquilo, mas depois lá lhe fez a vontade. Olhou as mulas, foi ao saco de uma delas tirou duas cenouras, deu uma a cada uma e respondeu:
-- Agora estão muito felizes Galimodo.
Galimodo ficou ainda ali a acompanhar os animais e a olhá-los com atenção enquanto roíam as cenouras e depois dessa observação atenta, voltou para junto de Helmut.
-- Caro Helmut, acho que estão muito contentes, mas permita-me observar que contentam-se com muito pouco! Comeram uma cenoura cada uma e lamberam os beiços e pareceu-me que isso lhes era suficiente! Parecem-me tranquilas, sem preocupações. Acho que nem os fardos que levam nos lombos as incomodam por aí além. Podemos dizer que na sua pacatez são muito felizes!
-- Acha que se preocupam com o destino do mundo, ou o futuro sobre qualquer das formas?
-- Acho que não se preocupam com nada.
-- Mas diria que são ignorantes?
-- Quanto a isso, não tenho lá tanta certeza...
-- E são felizes?
-- Diria que sim. Pelo menos parecem...
Caminharam um pouco e Helmut voltou a falar:
-- Sabe quem detém o segredo da felicidade amigo Galimodo?
-- Não...
-- As mulas...As mulas, meu caro amigo.