16 Julho 2009

O Ovo de Rá – 43ª parte



A Vida é Estranha


A manhã chegou, com um céu muito limpo, mas um frio cortante e ventoso. Sentia-me cansado de ter estado de vigia e sentia-me ensonado. Cabelos-de-Fogo espreguiçou-se e sem dizer nada começou a fazer o pequeno-almoço. Bel-Vito embrulhado numa pele parecia dormir tranquilo. Godo estava acordado e aproximou-se para espevitar o lume e aquecer o pequeno-almoço. Os Mestres acordaram tranquilamente.
Helmut e Galimodo ainda não tinham chegado. Um arrepio involuntário percorreu-me o corpo. Uma angústia apertou-me o estômago.
Curiosamente ninguém perguntou por ninguém. Agasalhavam-se o mais que podiam, e sorviam a bebida quente. Senti algo de estranho naquilo. Tropecei e Godo segurou-me antes que me estatelasse em cima de Bel-Vito. Cabelos-de-Fogo lançou-me um olhar que me pareceu de censura.
-- Obrigado Godo. Sinto-me cansado… Bom dia…
Olharam para mim como se tivesse dito algum segredo.
-- Bom dia… -- murmuraram os Mestres, como se se tivessem esquecido da saudação e a redescobrissem.
Até Cabelos de Fogo me sorriu e disse:
-- Bom dia…
Sentei-me perto da fogueira e antes de cair adormecido de cansaço sei que disse:
-- Helmut e Galimodo ainda não voltaram…

Contaram-me depois que Bel-Vito ao acordar perguntou por eles. E ao saber que não tinham vindo, quis partir à sua procura, sozinho! Bel-Vito não deixaria de nos espantar nunca, com as suas atitudes.
Godo não deixou. Aconselhou os Mestres a esperarmos mais um pouco, o que me daria a mim a oportunidade de descansar. Ficaram. Godo e Bel-Vito foram conhecer o terreno à volta. Nada de estranho, apenas ao fundo do vale, longe ainda de onde nos encontrávamos havia o que parecia ser os contornos de um caminho. Quando contaram isso aos Mestres, ficou decidido que iríamos nessa direcção.
Entretanto acordei e deram-me de beber algo confortadoramente quente.
Ouvimos barulho, Godo e Bel-Vito puseram-se imediatamente de pé, mas era Helmut e Galimodo que chegavam. Parecia tudo bem.
Mas Helmut parecia cansado e trazia um Galimodo visivelmente estafado nas suas costas.
-- Meus amigo… -- começou Helmut – Pedimo-vos desculpa por este atraso, mas…
Parou para ganhar fôlego e Galimodo deixou-se cair e arrastou-se para o pé da fogueira quase se deitando dentro dela.
-- Tivemos que dar uma grande volta…
-- Que se passou? – Perguntou Cabelos-de-Fogo com voz aflita.
-- O Vale… é habitado por criaturas… que nunca vi na vida… lembram-se daquele cheiro estranho que senti? São elas… um cheiro leve… quase nada… quase ia caindo em cima delas antes de me aperceber…
-- São perigosas? – Perguntou Godo.
-- Não sei… não quis correr riscos e andei às voltas… Voam… mas não como os pássaros…
A voz arrastada de Galimodo fez-se ouvir de junto da fogueira:
-- São… Mestre … São como dizia o livro: espíritos! São diáfanos…
-- São o quê? – Sussurrou Bel-Vito.
-- Imateriais. – Murmurou o Mestre Ratapone.
-- Mas… Onde habitam essas criaturas, não há caça… -- concluiu Helmut. E também ele se arrastou até Galimodo deitando-se junto dele.
-- Há mais uma coisa… -- acrescentou Galimodo.
-- O quê? Que coisa? – Perguntou Mestre Ludovico de pé.
Cabelos de Fogo aproximou-se dele e fez-lhe uma festinha no pêlo. E Helmut aproveitou:
-- Encontramos uma pedra grande… Mas com coisas escritas…
-- Onde? – Perguntou o Mestre Ratapone.
-- Perto de onde habitam as criaturas… -- concluiu Galimodo.

Olhamos uns para os outros.
-- Godo, tu e Bel-Vito vão até essa rocha e levem isto aqui… Copiem o que estiver nessa rocha e tragam-me! – Ordenou o Mestre Ratapone.
-- Mas não sabemos onde fica essa pedra… -- ia a dizer Godo.
-- Eu levo-vos até lá. – Disse Helmut fazendo esforço para se por de pé.
-- Nada disso Helmut! – Disse eu. – Primeiro descansas, depois podem ir todos nesta expedição de doidos.
Todos ficamos calados. Até que Mestre Ratapone disse:
-- A vida é estranha… Mas se não corremos atrás de alguma coisa, o que faremos com ela?
Helmut lambia uma bebida aquecida que Cabelos de Fogo lhe pusera a jeito.
-- Eu preferia procriar… -- comentou Helmut, lambendo os beiços.
Como sempre Helmut tinha o condão de nos fazer sorrir, com o seu jeito pragmático de ver as coisas. De facto a vida era estranha, mas precisava de se perpetuar, de continuar, de qualquer jeito. Por esse favor, a natureza concedia-nos o prazer do sexo. Fiquei pensando se todas as espécies sentiriam esse prazer, tal como nós. Alguns pensavam que nos animais, o instinto lhes retirava prazer, mas não me queria parecer que fosse assim. Olhei para Cabelos-de-Fogo, acho que por instinto ela evitou o meu olhar.
A vida manifesta-se de muitas formas, até dessa imaterial, ao que parecia pelos relatos de Helmut e Galimodo. A vida é realmente estranha, como se teimasse em persistir em qualquer lugar até mesmo os mais improváveis e das formas mais inimagináveis possíveis. Não parecia haver outro propósito que não fosse existir.

24 Janeiro 2009

O Ovo de Rá – 42ª parte




imagem encontrada aqui

Deserto Azul



Devo dizer que a passei a noite com sonhos estranhos. Acho que as palavras de Bel-Vito me tinham perturbado a alma e tirado o sono, que a despreocupação e as ilusões, traziam sereno à minha existência.
Perturbava-me a visão que Bel-Vito tinha do amor e o meu inconsciente lutava por encontrar argumentos que o contradissessem, e ao não encontrar nenhum, o meu consciente inquietava-se.
Mas agora compreendia melhor a postura de Bel-VIto, a sua distância, a quase antipatia. Compreender, revelava-se tranquilizador, como se deixasse de ter importância o quão desagradável era tê-lo com aquele feitio. Pensei em como era engraçado que a ‘compreensão’ de um assunto, não o resolvesse, mas concedesse paz. Pensei, que compreender é afinal sossegar a alma…
Não era o único naquela noite a não dormir tranquilo. Olhava ali junto à fogueira, as inúmeras voltas que Cabelos-de-Fogo dava. Mas talvez fosse eu a imaginar coisas e ela apenas se voltasse para se ir aquecendo na noite fria.
Godo estava quieto, mas eu conhecia-o e não lhe sentia a respiração profunda.
Os Mestres encostados um ao outro rabujavam ensonados, sempre que um deles se mexia.
Não via Galimodo, nem Helmut e achei que tinham aproveitado a insónia para irem à caça, agora que os dois tinham percebido que colaborando, os resultados eram melhores.
Ergui-me e notei que Bel-Vito fazia guarda entre uns arbustos. Estava atento, sem sinais aparentes de cansaço. Cobrira-se com uma manta e a lança que costumava usar estava ao alto segura pelo seu braço firme. Será que a ausência de laços, essa recusa em deixar que a brisa do amor, o tocasse fazia dele mais forte? Ele temia como qualquer um de nós quando confrontado com os seus medos. Tremera na expectativa dos Yetis, receara os ataques das águias. Não creio que a ausência de laços lhe trouxesse mais vantagens do que a nós. Agradava-me saber que Godo por exemplo, combateria ainda mais afincadamente, pela nossa amizade, porque gostava de nós. Gostava de pensar que Helmut usaria o seu faro, as suas mandíbulas, em meu favor, porque gostava de mim. E tenho a certeza que Galimodo espetaria as suas garras num inimigo dez vezes maior do que ele só porque se sentia parte do grupo, porque havia laços. E de Bel-Vito não tinha a mesma certeza. Acho que se a situação ficasse má, não seria um guerreiro valente e intrépido a defender-nos, mas fugiria para salvar o seu próprio couro, se o sentisse ameaçado!
Senti que acreditar no amor, mesmo que me trouxesse mais dor que a posição fria e distante de Bel-Vito me era mais vantajosa. Eu diria mesmo, até superior, porque por amizade para com ele, lutaria e defendê-lo-ia, e ele não faria isso por mim; talvez…
Tais raciocínios tranquilizaram-me e trouxeram-me o sono. Foi um bocado surpreso que acordei, ainda não era madrugada, agitado pela mão de Bel-Vito. Este fez-me um sinal para que ficasse calado, mas que o seguisse. Segui-o ainda bêbado de sono. Ele levou-me até aos arbustos onde estivera de vigia e apontou para baixo, por entre os parcos arbustos, para o vale lá bem ao fundo. Havia uma névoa, mas uma névoa estranha, num tom azulado. Encostando a sua boca ao meu ouvido segredou:
-- O que será?
Encolhi os ombros em expressão da minha ignorância, e ele acrescentou:
-- Helmut e Galimodo ainda não voltaram…
Não percebi bem se ele relatava apenas factualmente a questão ou se os laços imperceptíveis do amor o alcançavam e mostrava genuína preocupação com o bem-estar deles.
Ficamos ali lado a lado nos arbustos a olhar para a névoa azul. Era delicado e belo. Ele segredou de novo ao meu ouvido:
-- Ficas tu de vigia… Vou dormir.
E afastou-se em direcção à fogueira, onde espevitou o lume e arranjou um lugar por perto para se deitar. Ri-me, pois era típico de Bel-Vito este tipo de atitudes. E quando julgávamos que estava a mudar rapidamente voltava às mesmas reacções. Mas talvez fosse apenas a minha vontade de o ver mais macio, mais afável. A culpa não era tanto dele, mas das expectativas criadas no instante. Talvez moldássemos assim os outros, os nossos amigos, talvez que sem querer em cada instante, nos moldássemos uns aos outros. E afinal o que nos desagradava em Bel-Vito não eram as suas convicções, as suas atitudes, as suas reacções, mas o facto de não ceder nem um milímetro em relação à sua individualidade. Ele não era nunca o que nós queríamos que fosse, o que esperávamos que fosse, ele era sempre Bel-Vito. E era isso que nos era mais insuportável.
E fiquei a pensar quem, se nós, se ele, seria mais execrável.

02 Maio 2008

Ovo de Rá – 41ª parte




Da inutilidade do amor



Acabamos acampados juntos a uns penedos que de algum modo serviram de protecção para passarmos a noite.
O Mestre Ratapone fez a fogueira e Mestre Ludovico e Godo prepararam o jantar que Helmut, Galimodo e Cabelos-de-Fogo tinham caçado; junto com algumas das provisões.
Depois do jantar, o Mestre Ratapone sugeriu que falássemos para nos conhecermos melhor. Ele começou por dar o exemplo e falar da sua procura e do sonho da imortalidade. Mestre Ludovico falou das suas experiências enquanto eremita e como estava entusiasmado por esta aventura. Cabelos-de-Fogo repetiu a sua saga e Godo falou do que fora e do que se tornara.
Eu confessei que apenas procurava aprender.
Bel-Vito manteve-se calado e Mestre Ratapone insistiu.
E Bel-Vito abriu a boca:
-- Não quero conhecer-vos. Conhecer alguém estabelece laços. E o pior dos laços é amar alguém. Nada há de mais inútil do que o amor. Alguns falam do bem que é amar, mas estão enganados. Quer se seja bom, quer se seja mau, todos são obrigados a desistir do que amam, algum dia. Os que amamos deixarão de existir e tudo o que deixam para trás é uma profunda dor em nosso coração. Se alguém nos ama, um dia seremos desapontamento e mágoa para ele. Não acredito na bondade do amor, ou que seja útil sequer. Vede o vosso próprio caso!
Bel-Vito falava devagar e sem pressas, como falar lhe custasse. Falava monocordicamente, como se fizesse um esforço por retirar às palavras a emoção que continham. E continuou:
-- Um lobo que fala! O que pressupõe uma inteligência superior a todos os da sua espécie. Haverá fardo maior? Que lhe valerá ter amor pelos seus irmãos? Não o conseguem entender! E que lhe valerá amar os seus inimigos? Antes que se apercebam que fala, procurarão matá-lo! Que lhe adianta amar?
“E Galimodo não passa de uma espécie de bobo peludo. Que lhe adianta amar? Tudo o que lhe possa interessar está para além da sua capacidade.
“E Godo deve ter uma profunda mágoa. O que contou agora não foi tudo. Como pode alguém que nasce livre, desejar ser escravo? Só uma dor maior pode justificar isso. E que maior dor, do que um amor impossível?
“E Cabelos-de-Fogo procura o amor, sem sequer saber que o procura! Mas é tão desenraizada, tão desconfiada de tudo e todos na sua fuga, na sua luta pela sobrevivência, que nem sabe o que amor significa! Não sabe se ama a atenção que têm por ela, se alguém maduro, confiante, que lhe dê a ideia que a pode cuidar e proteger. Uma espécie de figura paternal! Cabelos-de-Fogo não está preparada para o amor, nem para o amor de alguém por ela. Precisa de crescer e abandonar os seus medos.
“E tu, Maia, como sofres! Como se vê que o teu amor por Cabelos-de-Fogo apenas te trouxe tristeza! O teu amor por ela, podia ser infinito e ainda assim, sem o amor dela por ti, seria apenas uma dor infinita! Querem convencer-ne que o amor é bom? Para quê?
“Mestre Ludovico está mais perto de ser feliz, não porque não acredite no amor, mas antes porque já não o espera. Limita-se a viver. E agora que lhe surge a oportunidade de uma última aventura, aproveita-a. Mas não por amor de nada!
“O que é então mais importante que o amor? Só há duas coisas: A riqueza e a eternidade.
“A riqueza, porque com ela podemos obter o que nos falta. Sim à excepção do amor, mas já demonstrei que ele é inútil e portanto não vale a pena persegui-lo …
Bel-Vito parou, parecia cansado, e Mestre Ratapone estimulou:
-- E a eternidade?
-- Mestre Ratapone – continuou Bel-Vito olhando nos olhos do Mestre – sei que procuras o Ovo de Rá. O ovo da criação, a chave da eternidade. Memeth transportou-o para algures nesta montanha e não mais voltou. Talvez Memeth se tenha tornado eterno como estas montanhas. Não sei. Mas sei que a eternidade é talvez a única coisa que valha a pena, porque estende as possibilidades da nossa experiência até ao infinito. Talvez a eternidade dê realmente uma oportunidade ao amor, não sei… Mas enquanto há vida há esperança.
“Como vedes Mestre Ratapone, seguir convosco foi uma opção minha, quando percebi que buscais a eternidade. Só isso interessa…
E calou-se
Ficamos todos calados e quando pensávamos que ele não ía dizer mais nada ele acrescentou:
-- Por isso não me interessa conhecer-vos. Detestei ouvir-vos. Porque quando conhecemos o outro, corremos o risco de o amar, ou pelo menos de gostar dele. E se ele nos vier a faltar, ou a desapontar, a emoção, a dor que isso causa em nós, há-de perturbar-nos. Há-de alterar o raciocínio e não pensamos, como seria útil pensar. Devo acrescentar que na situação em que nos encontramos, rodeados de perigos desconhecidos isso é um risco que não devíamos acrescentar às nossas vidas. O medo de vos perder tornar-me-á um guerreiro vulnerável. Inútil, talvez mesmo perigoso para vós e para mim. Portanto, quando não vos quero conhecer, não vos quero amar. O amor tornar-me-à inútil para vós e para mim.
Cabelos-de-Fogo parecia furiosa, mas não se atreveu a dizer nada.
Mestre Ratapone suave sugeriu:
-- Vamos dormir…
E Helmut enroscado junto à fogueira disse entre dentes:
-- E o lobo sou eu…

06 Outubro 2007

Ovo de Rá – 40ª parte



foto daqui

Não faz o meu género…



-- Sabes Helmut, somos loucos em muitos aspectos…
-- Como assim? – perguntou Helmut decidido a explorar toda a sua curiosidade.
Era extraordinário como um simples animal, ao adquirir o dom da fala, se tornava mais curioso, como a sua procura de saber se tornava uma jornada de desbravar o desconhecido, de ir sempre um pouco mais além. Talvez fosse isso que nos fazia andar, mesmo quando todas as esperanças pareciam ter soçobrado algures…
-- Nós humanos damos valor a muitas coisas, Helmut. E nem sempre às coisas que nos mantêm vivos…
-- Viver não é importante para vós? – perguntou Helmut com alguma desconfiança.
-- Claro que é, Helmut! Mas às vezes achamos que a vida é menos importante que certas coisas…
Aqui Helmut olhou-me com um terrível espanto e depois resignado a não conseguir entender-nos suspirou:
-- Realmente… Para além de loucos, são ainda mais loucos!
Ri-me. Mas Helmut conservou-se sério e agora a sua renovada ferramenta cerebral, a sua insaciável curiosidade insistiu:
-- E que coisas são essas que vós humanos, achais mais importante que a própria vida?
-- Que coisas Helmut? – fiz uma pausa para pensar – O amor, a esperança…
Helmut fez outra vez aquele risinho escarninho e comentou:
-- Se o amor é encontrar uma fêmea, em parte posso compreender… Mas tu andas desanimado por ali a Cabelos-de-Fogo não te ligar, mas ainda assim não te matas! Se calhar não és tão louco assim…
Caminhei sem dizer nada, a digerir a afirmação de Helmut. É verdade que não me matava, mas era verdade que me sentia morrer.
-- Helmut, há coisas piores que morrer…
E não dissemos nada por um tempo que me pareceu longo demais. Olhei na frete Godo e Cabelos de Fogo que parecia não terem ainda esgotado tema de conversa. Trocavam sorrisos, uma gargalhada de vez em quando. Notava-se que havia algo bom entre eles. Talvez fosse felicidade, não sei… Mas a felicidade deles, magoava-me.
Talvez Helmut tivesse percebido e comentou:
-- Na alcateia também é preciso lutar por uma fêmea, mas às vezes, por muito que queiramos uma, acabamos por nunca ter. Abandonamos a alcateia e tornamo-nos lobos solitários… Depois é preciso fazer pela vida, pelo menos até morrermos. E quando ela chega, prontos, acaba-se! – E depois em jeito de conclusão – Mas não vejo grande vantagem em desistir mais cedo!
-- És capaz de ter razão Helmut… -- Pensei eu alto. Afinal na sua perspectiva de animal, não havia muita preocupação com conceitos abstractos. A vida resumia-se a viver! Mas talvez houvesse para Helmut, apetrechado com o dom da fala, desafios novos. Conceitos novos, como o amor e a esperança. Se já lhe custava perceber o valor do ouro, iria certamente ter dificuldades em perceber valores. Decidi explorar essa via:
-- Helmut…
-- Sim…
-- Na alcateia como encaram os filhotes?
-- Como quê? – Helmut não percebera muito bem.
-- Por exemplo, pelos filhotes estarias disposto a dar a tua vida?
Helmut parou e todos tomaram algum avanço sobre nós.
-- Não só pelos filhotes… -- retomou Helmut – Pelos amigos também. E falo por mim, não sei o que a alcateia pensa…
Senti vontade de o abraçar. Acho que Helmut pensava com uma clareza que às vezes me deixava surpreendido. E quando dizia as coisas elas resultavam mesmo do seu sentir, não eram coisas elaboradas, na procura de serem bonitas ou de nos impressionarem. Era mesmo o Helmut, nu e cru.
-- Pois! Obrigado Helmut, sei que nem pensarias duas vezes, se eu precisasse de ajuda…
Ele riu-se outra vez e foi mordaz:
-- Mas quando se trata de fêmeas, cada um por si!
Ri-me outra vez.
-- Não me digas que também andas atrás de Cabelos-de-Fogo!
-- Não, não faz o meu género…

10 Julho 2007

O Ovo de Rá – 39ª parte
Loucos

Retomamos a caminhada, como dissera Bel-Vito rumo ao inferno, o que quer que isso fosse. Ìamos algo nervosos, mas ainda assim era preferível andar e precipitar os acontecimentos, do que ficarmos naquela modorna, parados, indecisos.
Bel-Vito desde o Pico das Águias raramente seguia à frente e com algum espanto meu, eram os Mestres que seguiam na frente, quase como crianças entusiasmadas, com a perspectiva de algo empolgante e novo. Sei que o Mestre Ratapone, perseguia desde à lomgo tempo a busca daquele ovo mítico, que se julgava conter o segredo da vida, da criação. Quem sabe, talvez mesmo da imortalidade! Mas como já havíamos falado uma vez, o ovo era apenas um pretexto, para termos um objectivo na vida, algo em que a gastar, que não fosse somente desperdício. Mas pensando bem, talvez a vida fosse desperdício…
Se compreendia o Mestre Ratapone, já o Mestre Ludovico era curioso, como se juntara com entusiasmo a esta demanda. Talvez fosse afinal a sua última aventura. Uma espécie de sentimento de que a ter que se despedir da vida, ao menos que fosse com entusiasmo, por alguma causa maior… Podia ser tão só para ter companhia, depois de anos mais ao menos isolado. Não sei. Talvez quando se fique velho, se descubra que afinal o que conta é mesmo viver e não andar por aqui...
Helmut veio ter comigo que ficara para trás. Godo e Cabelos-de-Fogo íam conversar junto das mulas. Bel-Vito seguia à frente deles um pouco afastado.
-- Maia…
-- Sim, Helmut?
-- Aquela pedra amarela que ali o nosso camarada apanhou, era o quê?
-- Era ouro.
Ele continuou a caminhar ao meu lado.
-- Explica por favor…
-- Ouro é um metal, quer dizer, aquela pedra derrete-se no fogo e depois de derretida podemos fazer anéis, colares, brincos… Percebes Helmut?
-- Percebo…
-- Mas? – incentivei eu.
-- Pois…Queria saber como é que acham issomais importante do que comer, por exemplo!
Dei uma gargalhada e Godo e Cabelos-de-Fogo olharam para trás e sorriram, mas nem sequer pararam.
-- Bem Helmut, digamos que com uma pequenina pedrinha daquelas, podes obter muita comida! -- Então como?
Suspirei, às vezes é complicado explicar as coisas:
-- Bom Helmut, um homem com muita comida, pode dar-ta em troca dessa pedrinha…
-- Quer dizer que um homem, prefere trocar a sua comida por um calhau?! – A ideia parecia escandalizar Helmut.
-- É isso mesmo Helmut… -- decidi abreviar.
Helmut caminhou mais um pouco e concluiu:
-- Estes humanos são loucos…
-- Somos… Somos mesmo, Helmut…

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30 Março 2007

by Steven Pinker

O Ovo de Rá - 38ª parte


O Caminho para o inferno


Helmut e Galimodo regressaram já bastante tarde da sua caçada, já o Sol se havia posto e fazia frio. Tínhamos montado as tendas e preparávamo-nos para ir cozinhar alguma coisa quando eles apareceram.
-- Desculpem lá o nosso atraso… -- disse Helmut depois de largar três lebres aos nossos pés. Além disso achei o ‘nosso’ significativo porque ele estava a referir-se a Galimodo. – Mas tivemos de descer ao vale… para encontrar alguma coisa… Estas são para vocês, nós já comemos.
Era óbvio! Helmut a coisa mais sagrada para ele eram sempre as refeições…Mas talvez estivesse a ser mauzinho. Helmut e Galimodo enroscaram-se perto da fogueira.
O Mestre perguntou-lhes:
-- Então e não viram gente?
-- Gente não… Mas notamos outra vez aquele cheiro… diferente.
-- Quer dizer que desta vez Galimodo também sentiu?
-- Sim, senti. – disse Galimodo, mas parecia demasiado cansado para acrescentar mais qualquer coisa.
-- Vêm cansados… -- incentivou Godo.
-- Sim, tivemos descer muito até encontrarmos um vale onde houvesse lebres… Mas depois foi fácil! Eu e Galimodo descobrimos uma maneira de caçar em colaboração, que funcionou às mil maravilhas…
Foi a vez de Cabelos de Fogo interpelar:
-- Trabalha-se sempre melhor em equipa!
-- Pois… -- fungou Helmut. E Galimodo aproveitou para saltar para o colo de Cabelos de Fogo.
Mestre Ludovico e Bel-Vito amanhavam as lebres, e Mestre Ratapone ía dando uma ajuda pondo a panela numa trempe e cuidando dos temperos. Só o cheiro da água com as ervas e o alho, já dava uma fome!
-- Fizemos assim: O Galimodo rastejava pelas tocas e com a sua cara feia assustava as pobres lebres, que desejosas de se verem livres daquele terror com olhos em fenda precipitavam-se para fora das tocas… E aqui o vosso Helmut, com anos de experiência de caça, não lhes perdoava!
-- Caro Helmut, o meu caro amigo apenas as caçou porque estava de boca aberta à saída das tocas e bastava fechar a boca… As que perdeu, foi sempre porque queria gabar-se das suas capacidades ou insultar quem estava a trabalhar! – discursou o Galimodo.
Todos demos uma valente gargalhada.
-- Acho que Galimodo aprendeu muito contigo Helmut… -- disse Cabelos de Fogo, fazendo uma festa no pelo de Galimodo que se pôs a ronronar.
-- Claro! – disse Helmut pondo-se de pé e já se preparava para dizer mais alguma coisa, quando foi interrompido por Cabelos de Fogo.
-- Estão os dois a ficarem sarcásticos.
Helmut resmungou baixo, mas voltando a enroscar-se perto do fogo comentou:
-- E anda pra aqui um gajo a esgalgar-se pra alimentar estes mal-agradecidos…
Mestre Ratapone sem deixar de preparar a panela voltou à carga:
-- Mas esse cheiro… fica no caminho que estamos a tomar ou no vale?
Foi Galimodo que respondeu:
-- No vale é mais intenso… Talvez se deixarmos o caminho e descermos ao vale possamos encontrar a quem pertence. Eu e Helmut não nos aventuramos muito, só queríamos trazer-vos as lebres… No vale há árvores, ratos e lebres… Por este caminho… Parece muito deserto e nem faço ideia para que fizeram aqui um caminho!
Helmut abriu um olho:
-- Se fizeram um caminho, deve ser pra caminhar, não é, ó bigodes?
-- Num te importes com a malcriadez dele, meu querido – disse Cabelos de Fogo enquanto fazia festas no gato – mas ele fica sempre assim quando não está a dormir ou a encher o estômago.
Helmut resmordeu entre dentes:
-- Mulheres…
-- Talvez devêssemos ir então pelo Vale… -- a modos que sugeriu Godo.
Aquilo de algum modo arrepiou-me. Deixaríamos a segurança de um caminho, mesmo que desconhecido e entraríamos à aventura num vale. Não me parecia uma boa medida.
Mas Mestre Ratapone acalmou os meus receios:
-- Um caminho vai sempre dar a um lugar com gente…
E Bel-Vito acrescentou:
-- Ou ao inferno…

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11 Fevereiro 2007

O Ovo de Rá - 37ª parte

A foto foi tirada daqui.

Pepitas

Continuamos a nossa caminhada agora rumo ao desconhecido. Helmut parecia contente e animado. Havia um caminho, não era apenas um carreiro, mas uma estrada estreita e bem cuidada. Se os Gulats nunca tinham vindo para aqui, seria no mínimo estranho. E porque não se aventuraram nunca os da aldeia de Bel-Vito? Talvez estes últimos por medo dos Yétis, e talvez tivessem convencido os Gulats do mesmo.

Mas Memeth viera de certeza por este caminho. Não se perdera. Ele tivera contacto com os conterrâneos de Bel-Vito. Porque nenhum deles teria nunca arriscado vir por aqui?

Ía imerso nestes pensamentos quando reparei que Bel-Vito se abaixara e apanhava alguma coisa do chão que metia no seu saco a tiracolo.

Fiquei curioso e aproximei-me.

Ele endireitou-se de imediato e fingiu olhar a paisagem. Achei aquilo tão suspeito…

-- Então Bel-Vito, alguma coisa interessante?

Demorou a responder:

-- Sim… Não sabia que havia um caminho tão bom por aqui. Não costumamos passar além do Pico das Águias…

-- Eu sei. Já me tinhas dito. É por isso que apanhaste uma pedra do caminho? Para ficar com uma recordação?

Ficou calado e não respondeu e quando insisti em fixar o meu olhar no dele, pôs-se a olhar ostensivamente para a paisagem. Achei que era um grandessíssimo malcriado. Decidi dizer:

-- Bom, vou olhar para o chão também, pode ser que encontre alguma pedra interessante, para ficar como recordação…

E olhei para o chão e não pude deixar de exclamar:

-- Cum catano! Então era isto que tu apanhavas…Godo! Chega aqui.

Tinha apanhado uma pedra um pouco maior que grão-de-bico, só que era dourada e brilhava quando deixava que o sol lhe batesse.

Godo aproximou-se célere e Cabelos de Fogo seguia-o de perto, os Mestres também se aproximaram.

-- Vê! – disse eu para Godo.

Godo olhou bem para a pedra.

-- Parece ouro… -- confirmou ele.

Mestre Ludovico e Mestre Ratapone também se aproximaram.

-- O autor da descoberta é o Bel-Vito… - esclareci – Mas pelo que pressuponho queria ficar com o exclusivo…

Mestre Ratapone censurou-me:

-- Vá Maia , nada de avaliar as intenções dos outros…

Cabelos de Fogo começou a olhar para o chão e rapidamente descobriu mais umas quantas pepitas que apanhou com sofreguidão.

Helmut notou o ajuntamento e veio para trás ao nosso encontro.

-- Ora então, a que se deve esta concentração? – perguntou ele.

Mostrei-lhe a pepita. Ele cheirou e perguntou-me:

-- Isto come-se?

-- Não…

-- Baghh! – bocejou ele – Então porque esta excitação toda?

-- È ouro Helmut! – disse incrédula Cabelos de Fogo.

-- Grande coisa! Se fosse uma lebrezinha…

-- Só pensas com o estômago! – censuoru Cabelos de Fogo.

-- Mas para que serve isso?

-- Ora… -- Cabelos de Fogo ficou asism apanhada de surpresa, mas não desarmou – Pra fazer anéis, colares, pulseiras, brincos…

Helmut riu-se:

-- Obrigado mas não uso! Continuo a preferir lebres…

Galimodo aproximou-se e ao ouvir falar de lebres…

-- Eu já me contentava com um ratito, mas aqui o ar é tão frio que eles nem devem sair das tocas!

Cabelos de Fogo e Bel-Vito começaram a competir pelas pepitas.

-- Parem! – ordenou Mestre Ratapone. – larguem isso imediatamente…

Cabelos de Fogo e Bel-Vito olharam para o Mestre com incredulidade. O Mestre insistiu:

-- Quero que larguem as pepitas no caminho, onde as apanharam… -- e depois quase suplicando – por favor…

-- Mas… -- balbuciou Cabelos de Fogo – Vamos largar isto aqui?!

Isto eram um punhado de pepitas que ela tinha na mão.

Godo falou, com a sua voz calma:

-- Acho que já te deste mal com o ouro… Ou não é por ele que te tornaste errante?

E Mestre Ludovico aproximou-se e falou em voz baixa para Bel-Vito:

-- O ouro tem o condão de desfazer as amizades e trazer do coração o seu lado mais negro…

-- E depois… -- argumentou Mestre Ratapone – Quando voltarmos ele continuará aí…

-- Mas quem vier, apanhará este ouro! -- insistiu Cabelos de Fogo.

-- Ninguém o apanhou antes… -- comentei.

Olhamos todos uns para os outros. Godo concluiu:

-- O importante é que regressemos com vida. Não sabemos o que se passou com Memeth… Terá sido isso a fazer com que se perdessem?

Cabelos de Fogo abriu a mão e as pepitas caíram no chão. Bel-Vito não disse nada, mas abriu o saco, tirou uma pepita e atirou-a para a beira do caminho.

Helmut fungou:

-- Tão complicados que vós sóis…

E Galimodo propôs:

-- E se fossemos tentar caçar amigo Helmut?

-- Ora, acho que ainda nos havemos de tornar grandes amigos, caro Galimodo…