27 abril 2012


O Ovo de Rá – 45ª parte



Descer até ao fundo

— Esperem! — disse Maia, que parecia estar a pensar alto. — Esperem!
Godo e Mestre Ratapone que íam na frente estacaram.
— Que foi?  — Perguntou Godo.
— E se as criaturas estão a dizer-nos para não irmos para o vale? Se estão a avisar-nos?
— Porque dizes isso? — insistiu Godo.
— Galimodo não sabe falar a língua das criaturas, não sabe ao certo se elas o entenderam e também não recebeu nenhuma resposta. Elas limitaram-se a apontar para o Vale e a fugir. Não vos parece que pode ter outro significado?
Mestre Ratapone irritou-se:
— Mas agora todos ficaram covardes? O Ovo de Rá espera-nos no fundo daquele Vale…
Maia encheu o peito e com infinita paciência acrescentou:
— Helmut e Galimodo também nos disseram que não encontraram caça no Vale. E faço notar que as únicas criaturas que encontramos são muito pequenas e voam…
Mestre Ludovico cofiou a barba e disse com seriedade:
— De facto, ainda por cima temos de nos lembrar que os hieróglifos podem ter outra leitura…
Mestre Ratapone ficou apanhado por um ataque de histeria, praguejando alto e bom som que nunca tinha visto tanto miserável junto, covardes, e mais coisas que se foi lembrando para nos injuriar.
Helmut a certa altura disse:
— Alguém tem de o acalmar… — e lançando-se de um salto mordeu-lhe uma perna a sério.
Só pela dor e ao ver o sangue a escorrer é que se calou e acabou por desmaiar.
Cabelos-de-Fogo precipitou-se para o Mestre e começou a fazer uma ligadura e a tratar dele. Censurou Helmut:
— Mordeste-o a sério!
— Sim, ele também já me começa a irritar a sério… — comentou Helmut no seu ar sereno — E com tanto espalhafato, já deve ter acordado todas as criaturas num raio de quilómetros aqui à volta…
Galimodo fungando o ar deixou escapar:
— Há uma névoa azul a levantar-se… E não me digam que é normal, porque esta se está a dirigir na nossa direcção!
Godo agarrou o Mestre Ratapone como se este fosse uma pena, colocou-o às suas costas e dirigindo-se para trás de onde vínhamos perguntou:
— Onde estão as criaturas voadoras?
Galimodo fungou outra vez, mas foi Helmut quem respondeu:
— Estão acolá naquela zona… Naquilo que parece uma clareira neste deserto azulado…
Godo olhou e comentou:
— Acho que conseguimos chegar lá?
Bel-Vito respondeu:
— É longe, só se corrermos muito… Se alguém cair,  a névoa azul apanha-o…
Havia uma electricidade estranha no ar.
Foi Godo quem ordenou:
— Corramos!
E desatamos a correr pelo monte abaixo, como se as nossas vidas dependessem disso. A vegetação rasteira fustigava as nossas pernas e sentia que às vezes a rasgavam, porque sentia um ardume. Mas ninguém se lembrou de resmungar.
Galimodo saltou para cima de Helmut, que não se queixou. E quando já estávamos muito perto da clareira, eles passaram correndo e chegaram lá primeiro. Quando chegamos junto deles, Godo deitou o Mestre Ratapone no chão e deixou-se cair completamente esgotado.
Uma criatura apareceu voando em frente de Galimodo. Depois apareceram mais. Apontavam com insistência para uma rocha ali na clareira. Arrastamo-nos até lá, desta vez com Bel-Vito a ajudar Godo a levar o Mestre Ratapone ainda desmaiado. Na pedra havia uma inscrição, mas não eram hieróglifos. Mestre Ludovico aproximou-se:
— Parecem runas…
A névoa azul tinha inflectido em direcção à clareira, deixando uma espécie de rasto na nossa anterior direcção.
O Mestre Ludovico tentou ler:
— Hemdal… Mordgud… Hagalaz… Nauthiz…Isa…
Ao dizer esta última a rocha abriu-se ao meio revelando uma escada que afundava na terra…
As criaturas apontaram para o fundo que não se conseguia ver e sem pensar descemos todos.
Quando o último de nós que foi Galimodo entrou, a porta fechou-se. Ficou tudo escuro como breu e ficamos paralisados espalhados pelos degraus.
Galimodo disse baixinho, que descêssemos e senti-o roçar nas minhas pernas, em direcção às profundezas.
Helmut como sempre prático sussurrou:
— Galimodo, nem todos vêem como tu neste ambiente…Deixa que alguém te agarre a cauda e serve-nos de guia…
Agarrei a cauda de Galimodo e estiquei a outra mão livre para trás.
— Alguém me estenda a mão…
Não sei quem mas uma mão agarrou-me com firmeza.
Godo cansado voltou a carregar o Mestre Ratapone que ainda não acordara, atrás dele ía Helmut que disse que podia seguir-nos só com o nariz se fosse preciso. Descemos devagar e em silêncio, um caminho que parecia demasiado longo, com cuidado para não tropeçar em nenhum degrau. Às vezes Galimodo parava como se esperasse escutar algo, mas tudo o que conseguíamos ouvir era as nossas respirações temerosas. Depois continuávamos a descer, uma escada que parecia não ter fim.
Bel-Vito disse:
— Bem dizem que mesmo no fundo, há sempre a possibilidade de descer…
— Quem abriu a pedra? — perguntou Cabelos-de-Fogo.
Um murmúrio resmungão fez-nos todos tomar consciência de que Mestre Ratapone estava a acordar.
— Parem por favor. — fez-se ouvir Godo.
A fila estacou no meio daquele escuridão que parecia quase sólida. Maia perguntou a Galimodo:
— Consegues ver alguma coisa neste breu Galimodo?
—Tenho de confessar que não é lá muito fácil, mas parece vir uma estranha claridade lá do fundo… E há também…
— Uma ligeira aragem… — ouviu-se Helmut dizer lá do fundo — Mas esta não é a zona de abrigo das criaturas voadoras que vimos lá em cima, pelo menos não há cheiro delas.
— Onde estou? — perguntou o Mestre Ratapone, ainda com a voz entaramelada.
Bel-Vito disse entre dentes:
— Se não é o inferno já devemos estar próximos…
De facto a temperatura estava alta, embora não fosse  incomodativamente alta.
— É de noite? — insistiu o Mestre Ratapone.
— Fique tranquilo, estamos numa caverna… — disse Mestre Ludovico tentando soar tranquilizador.
— Maia, vê no teu saco se tens aí qualquer coisa com que se possa fazer fogo…
— Haver há, mas o problema é que não temos nada para queimar…— respondeu Maia.
— Rasga-se um pedaço de pano e acende-se e ata-se a ponta na lança de Bel-Vito, deve dar para iluminar…
Ouviram-se os passos de Maia a chegar junto de Godo e do Mestre Ratapone. Godo rasgou um pedaço de uma manta e acendeu-o. Pegando na outra ponta dirigiu-se a Bel-Vito e amarrou-o na ponta da lança. Um fulgor amarelo inundou a galeria e os degraus da escada. Os degraus eram muito lisos e até admirava como nenhum deles ainda escorregara. Depois habituaram-se à luz e puderam constatar que as paredes da galeria eram rugosas, como se tivessem sido abertas à picareta e tivessem ficado assim.
— Para onde vamos? — Perguntou Mestre Ratapone pondo-se de pé com a ajuda de Godo
— Para baixo… — Respondeu Godo pondo-se em movimento. A descida recomeçou, mas agora era mais agradável e menos sufocante. O fumo do pano que ardia, era arrastado para cima, o que confirmava o que dissera Helmut, sobre haver uma aragem.
Depois de percorrermos mais alguns metros da galeria que parecia serpentear cada vez mais para as profundezas da Terra, vimos uma claridade suave. Godo aproximou-se de Bel-Vito e apagando o pano disse num murmúrio:
— Todo o mundo calado!
Helmut aproximou-se dele e segredou:
— Não sinto o cheiro de nada, nem de ninguém, apenas me cheira a ar da montanha…
Galimodo seguia na frente com os seus passinhos de gato, que não se ouvem. Ao dar uma curva, havia um largo buraco e a paisagem era apenas de montanhas. A aragem era mais forte. Quando nos chegamos cautelosamente à beira reparamos que o buraco era na encosta de uma montanha, um penhasco. Os degraus acabavam e não havia nenhum caminho depois…
Bel-Vito chegou próximo:
— Cá está…É sempre possível descer mais, mesmo quando pensamos estar já no fundo...

15 dezembro 2010


O Ovo de Rá – 44ª parte



A Pedra Escrita

Descansámos um pouco e partimos todos. O Mestre Ratapone não conseguia tirar da sua mente o facto de que havia uma pedra com inscrições. Maia notava com algum desagrado seu que a idade não trazia ao seu Mestre nem a desejada serenidade ou tão pouco uma certa razoabilidade. Trazia antes uma impaciência frustrada, quase infantil e birrenta. Só tinha a habilidade de embrulhar isso em frases que pareciam as de um homem sábio. Acho que era por isso que o chamava de Mestre…

Ele prosseguiu caminhando vigorosamente, num passo que fazia lembrar o de Bel-Vito quando se esquecia de que outros seguiam na sua peugada. Helmut ia na sua frente, num passinho miudinho, farejando o ar em todas as direcções e olhando bastas vezes para trás.

Bel-Vito seguia atrás de Godo e Cabelos-de-Fogo, olhando atentamente para os lados do caminho. Galimodo oscilava entre Maia e Bel-Vito. Maia pegou-lhe ao colo e ele trepou-lhe para o ombro e enroscou-se-lhe à volta do pescoço. Estava realmente cansado e nem se importava de ir assim desconfortável.

Ninguém falava, talvez à excepção de Godo e Cabelos-de-Fogo que às vezes faziam uma ou outra observação monossilábica. Que importância teria a pedra escrita? Provavelmente, como tantas coisas na vida, a sua importância era relativa. Em primeiro lugar talvez nem conseguíssemos ler o que estava nela!

Finalmente chegaram diante de uma pedra em nada diferente das que nos rodeavam, mas que tinha estranhos entalhes dispostos em coluna, pelo menos era o que parecia. Helmut conciso:

— É esta aqui…

O Mestre Ratapone ajoelhou-se e passou os dedos pelos sulcos gravados com os olhos fechados.

— Hieroglifos!

O Mestre Ludovico ajoelhou-se também tirou uma bolsa e espalhou um pó branco que depois soprou. Os hieróglifos revelaram-se perante os nossos olhos.

Mestre Ratapone sorriu.

— Memeth passou por aqui…

Galimodo pediu-me para o colocar no chão. Deu uma corrida até à pedra, cheirou-a e afirmou:

— As criaturas estiveram aqui!

Godo perguntou-lhe:

— As diáfonas?

Galimodo acenou com a cabeça que sim e pediu colo a Cabelos-de-Fogo.

Bel-Vito estava tenso com a sua lança pronta. E Godo perguntou baixinho:

— Onde está Helmut?

Maia encolheu os ombros e aproximou-se da pedra.

— Mestre, que te diz este calhau?

— O meu egípcio está um pouco enferrujado… Não sei.

— Temos um calhau mudo então.

O Mestre baixou a cabeça, enquanto o Mestre Ludovico copiava a escrita tão bem quanto era capaz, para um pergaminho, e no final acrescentou:

— Se ainda me lembro, diz que Memeth passou por aqui transportando o Ovo de Rá em direcção à sua nova casa, nos lugares onde o Sol nasce.

Mestre Ratapone perguntou pasmo:

— Pelo Ovo de Rá, o Mestre Ludovico sabe ler hieróglifos?

— Há muita coisa que sei, mas que nem sempre me lembro, e muita coisa que sei e lembro e não quero fazer.

Godo era sempre mais rápido a perceber as subtilezas e perguntou a Mestre Ludovico:

— Mas há mais aí, não há?

— Sim…

— E então?

— Depende da interpretação… — disse cauteloso — Se lermos em vez de colunas, como linhas, o que não era a forma correcta de ler hieróglifos dirá assim: Quando o Sol nascer no seu lugar, vão em direcção de casa transportando a memória de Memeth.

— Mentes, velho senil! — Rugiu Ratapone. — Memeth passou por aqui e estás com medo e queres voltar para trás!

Maia aproximou-se:

— Mestre, tu não sabes ler, ele sabe! Portanto quem lê é ele. Ele leu das duas formas. Não precisa zangar-se com o mensageiro. Zangue-se com a mensagem.

O seu bordão caiu sobre Maia e só a pronta intervenção de Godo evitou que o Mestre lhe batesse uma segunda vez.

— É melhor que nos acalmemos. — disse Godo mas falou olhando o Mestre nos olhos.

Este baixou os olhos e murmurou:

— Desculpai-me!

Cabelos-de-Fogo falou também:

— Estamos muito tensos, este lugar não tem boas energias…

Galimodo voltou a cheirar o ar.

— As criaturas devem vir aí…

Entretanto apareceu Helmut a arfar e disse:

— Retiremos para trás, para trás! Vem aí um bando de criaturas… a voar!

O Mestre Ratapone cravou o seu bastão no chão e disse alto e firme:

— Que venham! Eu fico aqui!

Ficamos todos congelados na indecisão de partir ou ficar. É sempre assim, basta um louco, um louco convicto, para pôr todos em perigo. Uma convicção feita de pedaços de histórias antigas recontadas até perder o sentido. Sonho ou esperança, materializado num artefacto, como uma pedra gravada, mesmo que já não se saiba como perceber o sentido da escrita.

E por causa de uma pedra escrita, ficamos à mercê de coisas sem nome. Criaturas pequenas, azuladas quase translúcidas, voando à nossa volta, fazendo às vezes um suave zumbido. Foi Helmut quem nos explicou que o zumbido eram elas a comunicarem connosco numa linguagem que não percebíamos.

Bel-Vito tinha os músculos tensos e os nós dos dedos que agarravam a lança inútil estavam brancos da força com que a agarrava. Maia colocou-lhe a mão no ombro e falou tranquilizadoramente:

— Não adianta, nem parece que sejam uma ameaça…

Bel-Vito aliviou a lança na sua mão.

Godo perguntou a Galimodo:

— Podias tentar falar com as criaturas? Diz que somos viajantes e nos perdemos…

Galimodo fungou como um gato e ía para se perder no seu diletantismo quando parou ainda sem ter dito nada. Suspirou e começou com uma espécie de miados suaves. As criaturas voaram para ele e rodearam-no. Maia viu-lhe um brilho de gato no olhar e disse:

— Não Galimodo! Não são pássaros…

Ele tapou a cara com mão num gesto envergonhado. Depois com o seu sorriso mais maroto disse:

— Não sei se me entenderam…

Uma das criaturas veio pôr-se na sua frente e apontou num gesto do seu braço na direcção do vale.

— Parece que querem que desçamos para o vale…

— Sigamos então… — disse o Mestre Ratapone que seguiu imediatamente.

As criaturas esvoaçaram em torno dele, pareciam humanos com asas, em ponto muito pequeno. Voaram em bando e depois desapareceram.

— Que estão à espera? — perguntou Ratapone ao ver que o grupo ficara parado.

Godo avançou na sua direcção, depois olhou para nós:

— Em algum lugar temos de morrer…

Godo tinha toda a razão, onde morremos, às vezes põem uma pedra escrita à laia de epitáfio.

16 julho 2009

O Ovo de Rá – 43ª parte



A Vida é Estranha


A manhã chegou, com um céu muito limpo, mas um frio cortante e ventoso. Sentia-me cansado de ter estado de vigia e sentia-me ensonado. Cabelos-de-Fogo espreguiçou-se e sem dizer nada começou a fazer o pequeno-almoço. Bel-Vito embrulhado numa pele parecia dormir tranquilo. Godo estava acordado e aproximou-se para espevitar o lume e aquecer o pequeno-almoço. Os Mestres acordaram tranquilamente.
Helmut e Galimodo ainda não tinham chegado. Um arrepio involuntário percorreu-me o corpo. Uma angústia apertou-me o estômago.
Curiosamente ninguém perguntou por ninguém. Agasalhavam-se o mais que podiam, e sorviam a bebida quente. Senti algo de estranho naquilo. Tropecei e Godo segurou-me antes que me estatelasse em cima de Bel-Vito. Cabelos-de-Fogo lançou-me um olhar que me pareceu de censura.
-- Obrigado Godo. Sinto-me cansado… Bom dia…
Olharam para mim como se tivesse dito algum segredo.
-- Bom dia… -- murmuraram os Mestres, como se se tivessem esquecido da saudação e a redescobrissem.
Até Cabelos de Fogo me sorriu e disse:
-- Bom dia…
Sentei-me perto da fogueira e antes de cair adormecido de cansaço sei que disse:
-- Helmut e Galimodo ainda não voltaram…

Contaram-me depois que Bel-Vito ao acordar perguntou por eles. E ao saber que não tinham vindo, quis partir à sua procura, sozinho! Bel-Vito não deixaria de nos espantar nunca, com as suas atitudes.
Godo não deixou. Aconselhou os Mestres a esperarmos mais um pouco, o que me daria a mim a oportunidade de descansar. Ficaram. Godo e Bel-Vito foram conhecer o terreno à volta. Nada de estranho, apenas ao fundo do vale, longe ainda de onde nos encontrávamos havia o que parecia ser os contornos de um caminho. Quando contaram isso aos Mestres, ficou decidido que iríamos nessa direcção.
Entretanto acordei e deram-me de beber algo confortadoramente quente.
Ouvimos barulho, Godo e Bel-Vito puseram-se imediatamente de pé, mas era Helmut e Galimodo que chegavam. Parecia tudo bem.
Mas Helmut parecia cansado e trazia um Galimodo visivelmente estafado nas suas costas.
-- Meus amigo… -- começou Helmut – Pedimo-vos desculpa por este atraso, mas…
Parou para ganhar fôlego e Galimodo deixou-se cair e arrastou-se para o pé da fogueira quase se deitando dentro dela.
-- Tivemos que dar uma grande volta…
-- Que se passou? – Perguntou Cabelos-de-Fogo com voz aflita.
-- O Vale… é habitado por criaturas… que nunca vi na vida… lembram-se daquele cheiro estranho que senti? São elas… um cheiro leve… quase nada… quase ia caindo em cima delas antes de me aperceber…
-- São perigosas? – Perguntou Godo.
-- Não sei… não quis correr riscos e andei às voltas… Voam… mas não como os pássaros…
A voz arrastada de Galimodo fez-se ouvir de junto da fogueira:
-- São… Mestre … São como dizia o livro: espíritos! São diáfanos…
-- São o quê? – Sussurrou Bel-Vito.
-- Imateriais. – Murmurou o Mestre Ratapone.
-- Mas… Onde habitam essas criaturas, não há caça… -- concluiu Helmut. E também ele se arrastou até Galimodo deitando-se junto dele.
-- Há mais uma coisa… -- acrescentou Galimodo.
-- O quê? Que coisa? – Perguntou Mestre Ludovico de pé.
Cabelos de Fogo aproximou-se dele e fez-lhe uma festinha no pêlo. E Helmut aproveitou:
-- Encontramos uma pedra grande… Mas com coisas escritas…
-- Onde? – Perguntou o Mestre Ratapone.
-- Perto de onde habitam as criaturas… -- concluiu Galimodo.

Olhamos uns para os outros.
-- Godo, tu e Bel-Vito vão até essa rocha e levem isto aqui… Copiem o que estiver nessa rocha e tragam-me! – Ordenou o Mestre Ratapone.
-- Mas não sabemos onde fica essa pedra… -- ia a dizer Godo.
-- Eu levo-vos até lá. – Disse Helmut fazendo esforço para se por de pé.
-- Nada disso Helmut! – Disse eu. – Primeiro descansas, depois podem ir todos nesta expedição de doidos.
Todos ficamos calados. Até que Mestre Ratapone disse:
-- A vida é estranha… Mas se não corremos atrás de alguma coisa, o que faremos com ela?
Helmut lambia uma bebida aquecida que Cabelos de Fogo lhe pusera a jeito.
-- Eu preferia procriar… -- comentou Helmut, lambendo os beiços.
Como sempre Helmut tinha o condão de nos fazer sorrir, com o seu jeito pragmático de ver as coisas. De facto a vida era estranha, mas precisava de se perpetuar, de continuar, de qualquer jeito. Por esse favor, a natureza concedia-nos o prazer do sexo. Fiquei pensando se todas as espécies sentiriam esse prazer, tal como nós. Alguns pensavam que nos animais, o instinto lhes retirava prazer, mas não me queria parecer que fosse assim. Olhei para Cabelos-de-Fogo, acho que por instinto ela evitou o meu olhar.
A vida manifesta-se de muitas formas, até dessa imaterial, ao que parecia pelos relatos de Helmut e Galimodo. A vida é realmente estranha, como se teimasse em persistir em qualquer lugar até mesmo os mais improváveis e das formas mais inimagináveis possíveis. Não parecia haver outro propósito que não fosse existir.

24 janeiro 2009

O Ovo de Rá – 42ª parte




imagem encontrada aqui

Deserto Azul



Devo dizer que a passei a noite com sonhos estranhos. Acho que as palavras de Bel-Vito me tinham perturbado a alma e tirado o sono, que a despreocupação e as ilusões, traziam sereno à minha existência.
Perturbava-me a visão que Bel-Vito tinha do amor e o meu inconsciente lutava por encontrar argumentos que o contradissessem, e ao não encontrar nenhum, o meu consciente inquietava-se.
Mas agora compreendia melhor a postura de Bel-VIto, a sua distância, a quase antipatia. Compreender, revelava-se tranquilizador, como se deixasse de ter importância o quão desagradável era tê-lo com aquele feitio. Pensei em como era engraçado que a ‘compreensão’ de um assunto, não o resolvesse, mas concedesse paz. Pensei, que compreender é afinal sossegar a alma…
Não era o único naquela noite a não dormir tranquilo. Olhava ali junto à fogueira, as inúmeras voltas que Cabelos-de-Fogo dava. Mas talvez fosse eu a imaginar coisas e ela apenas se voltasse para se ir aquecendo na noite fria.
Godo estava quieto, mas eu conhecia-o e não lhe sentia a respiração profunda.
Os Mestres encostados um ao outro rabujavam ensonados, sempre que um deles se mexia.
Não via Galimodo, nem Helmut e achei que tinham aproveitado a insónia para irem à caça, agora que os dois tinham percebido que colaborando, os resultados eram melhores.
Ergui-me e notei que Bel-Vito fazia guarda entre uns arbustos. Estava atento, sem sinais aparentes de cansaço. Cobrira-se com uma manta e a lança que costumava usar estava ao alto segura pelo seu braço firme. Será que a ausência de laços, essa recusa em deixar que a brisa do amor, o tocasse fazia dele mais forte? Ele temia como qualquer um de nós quando confrontado com os seus medos. Tremera na expectativa dos Yetis, receara os ataques das águias. Não creio que a ausência de laços lhe trouxesse mais vantagens do que a nós. Agradava-me saber que Godo por exemplo, combateria ainda mais afincadamente, pela nossa amizade, porque gostava de nós. Gostava de pensar que Helmut usaria o seu faro, as suas mandíbulas, em meu favor, porque gostava de mim. E tenho a certeza que Galimodo espetaria as suas garras num inimigo dez vezes maior do que ele só porque se sentia parte do grupo, porque havia laços. E de Bel-Vito não tinha a mesma certeza. Acho que se a situação ficasse má, não seria um guerreiro valente e intrépido a defender-nos, mas fugiria para salvar o seu próprio couro, se o sentisse ameaçado!
Senti que acreditar no amor, mesmo que me trouxesse mais dor que a posição fria e distante de Bel-Vito me era mais vantajosa. Eu diria mesmo, até superior, porque por amizade para com ele, lutaria e defendê-lo-ia, e ele não faria isso por mim; talvez…
Tais raciocínios tranquilizaram-me e trouxeram-me o sono. Foi um bocado surpreso que acordei, ainda não era madrugada, agitado pela mão de Bel-Vito. Este fez-me um sinal para que ficasse calado, mas que o seguisse. Segui-o ainda bêbado de sono. Ele levou-me até aos arbustos onde estivera de vigia e apontou para baixo, por entre os parcos arbustos, para o vale lá bem ao fundo. Havia uma névoa, mas uma névoa estranha, num tom azulado. Encostando a sua boca ao meu ouvido segredou:
-- O que será?
Encolhi os ombros em expressão da minha ignorância, e ele acrescentou:
-- Helmut e Galimodo ainda não voltaram…
Não percebi bem se ele relatava apenas factualmente a questão ou se os laços imperceptíveis do amor o alcançavam e mostrava genuína preocupação com o bem-estar deles.
Ficamos ali lado a lado nos arbustos a olhar para a névoa azul. Era delicado e belo. Ele segredou de novo ao meu ouvido:
-- Ficas tu de vigia… Vou dormir.
E afastou-se em direcção à fogueira, onde espevitou o lume e arranjou um lugar por perto para se deitar. Ri-me, pois era típico de Bel-Vito este tipo de atitudes. E quando julgávamos que estava a mudar rapidamente voltava às mesmas reacções. Mas talvez fosse apenas a minha vontade de o ver mais macio, mais afável. A culpa não era tanto dele, mas das expectativas criadas no instante. Talvez moldássemos assim os outros, os nossos amigos, talvez que sem querer em cada instante, nos moldássemos uns aos outros. E afinal o que nos desagradava em Bel-Vito não eram as suas convicções, as suas atitudes, as suas reacções, mas o facto de não ceder nem um milímetro em relação à sua individualidade. Ele não era nunca o que nós queríamos que fosse, o que esperávamos que fosse, ele era sempre Bel-Vito. E era isso que nos era mais insuportável.
E fiquei a pensar quem, se nós, se ele, seria mais execrável.

02 maio 2008

Ovo de Rá – 41ª parte




Da inutilidade do amor



Acabamos acampados juntos a uns penedos que de algum modo serviram de protecção para passarmos a noite.
O Mestre Ratapone fez a fogueira e Mestre Ludovico e Godo prepararam o jantar que Helmut, Galimodo e Cabelos-de-Fogo tinham caçado; junto com algumas das provisões.
Depois do jantar, o Mestre Ratapone sugeriu que falássemos para nos conhecermos melhor. Ele começou por dar o exemplo e falar da sua procura e do sonho da imortalidade. Mestre Ludovico falou das suas experiências enquanto eremita e como estava entusiasmado por esta aventura. Cabelos-de-Fogo repetiu a sua saga e Godo falou do que fora e do que se tornara.
Eu confessei que apenas procurava aprender.
Bel-Vito manteve-se calado e Mestre Ratapone insistiu.
E Bel-Vito abriu a boca:
-- Não quero conhecer-vos. Conhecer alguém estabelece laços. E o pior dos laços é amar alguém. Nada há de mais inútil do que o amor. Alguns falam do bem que é amar, mas estão enganados. Quer se seja bom, quer se seja mau, todos são obrigados a desistir do que amam, algum dia. Os que amamos deixarão de existir e tudo o que deixam para trás é uma profunda dor em nosso coração. Se alguém nos ama, um dia seremos desapontamento e mágoa para ele. Não acredito na bondade do amor, ou que seja útil sequer. Vede o vosso próprio caso!
Bel-Vito falava devagar e sem pressas, como falar lhe custasse. Falava monocordicamente, como se fizesse um esforço por retirar às palavras a emoção que continham. E continuou:
-- Um lobo que fala! O que pressupõe uma inteligência superior a todos os da sua espécie. Haverá fardo maior? Que lhe valerá ter amor pelos seus irmãos? Não o conseguem entender! E que lhe valerá amar os seus inimigos? Antes que se apercebam que fala, procurarão matá-lo! Que lhe adianta amar?
“E Galimodo não passa de uma espécie de bobo peludo. Que lhe adianta amar? Tudo o que lhe possa interessar está para além da sua capacidade.
“E Godo deve ter uma profunda mágoa. O que contou agora não foi tudo. Como pode alguém que nasce livre, desejar ser escravo? Só uma dor maior pode justificar isso. E que maior dor, do que um amor impossível?
“E Cabelos-de-Fogo procura o amor, sem sequer saber que o procura! Mas é tão desenraizada, tão desconfiada de tudo e todos na sua fuga, na sua luta pela sobrevivência, que nem sabe o que amor significa! Não sabe se ama a atenção que têm por ela, se alguém maduro, confiante, que lhe dê a ideia que a pode cuidar e proteger. Uma espécie de figura paternal! Cabelos-de-Fogo não está preparada para o amor, nem para o amor de alguém por ela. Precisa de crescer e abandonar os seus medos.
“E tu, Maia, como sofres! Como se vê que o teu amor por Cabelos-de-Fogo apenas te trouxe tristeza! O teu amor por ela, podia ser infinito e ainda assim, sem o amor dela por ti, seria apenas uma dor infinita! Querem convencer-ne que o amor é bom? Para quê?
“Mestre Ludovico está mais perto de ser feliz, não porque não acredite no amor, mas antes porque já não o espera. Limita-se a viver. E agora que lhe surge a oportunidade de uma última aventura, aproveita-a. Mas não por amor de nada!
“O que é então mais importante que o amor? Só há duas coisas: A riqueza e a eternidade.
“A riqueza, porque com ela podemos obter o que nos falta. Sim à excepção do amor, mas já demonstrei que ele é inútil e portanto não vale a pena persegui-lo …
Bel-Vito parou, parecia cansado, e Mestre Ratapone estimulou:
-- E a eternidade?
-- Mestre Ratapone – continuou Bel-Vito olhando nos olhos do Mestre – sei que procuras o Ovo de Rá. O ovo da criação, a chave da eternidade. Memeth transportou-o para algures nesta montanha e não mais voltou. Talvez Memeth se tenha tornado eterno como estas montanhas. Não sei. Mas sei que a eternidade é talvez a única coisa que valha a pena, porque estende as possibilidades da nossa experiência até ao infinito. Talvez a eternidade dê realmente uma oportunidade ao amor, não sei… Mas enquanto há vida há esperança.
“Como vedes Mestre Ratapone, seguir convosco foi uma opção minha, quando percebi que buscais a eternidade. Só isso interessa…
E calou-se
Ficamos todos calados e quando pensávamos que ele não ía dizer mais nada ele acrescentou:
-- Por isso não me interessa conhecer-vos. Detestei ouvir-vos. Porque quando conhecemos o outro, corremos o risco de o amar, ou pelo menos de gostar dele. E se ele nos vier a faltar, ou a desapontar, a emoção, a dor que isso causa em nós, há-de perturbar-nos. Há-de alterar o raciocínio e não pensamos, como seria útil pensar. Devo acrescentar que na situação em que nos encontramos, rodeados de perigos desconhecidos isso é um risco que não devíamos acrescentar às nossas vidas. O medo de vos perder tornar-me-á um guerreiro vulnerável. Inútil, talvez mesmo perigoso para vós e para mim. Portanto, quando não vos quero conhecer, não vos quero amar. O amor tornar-me-à inútil para vós e para mim.
Cabelos-de-Fogo parecia furiosa, mas não se atreveu a dizer nada.
Mestre Ratapone suave sugeriu:
-- Vamos dormir…
E Helmut enroscado junto à fogueira disse entre dentes:
-- E o lobo sou eu…

06 outubro 2007

Ovo de Rá – 40ª parte



foto daqui

Não faz o meu género…



-- Sabes Helmut, somos loucos em muitos aspectos…
-- Como assim? – perguntou Helmut decidido a explorar toda a sua curiosidade.
Era extraordinário como um simples animal, ao adquirir o dom da fala, se tornava mais curioso, como a sua procura de saber se tornava uma jornada de desbravar o desconhecido, de ir sempre um pouco mais além. Talvez fosse isso que nos fazia andar, mesmo quando todas as esperanças pareciam ter soçobrado algures…
-- Nós humanos damos valor a muitas coisas, Helmut. E nem sempre às coisas que nos mantêm vivos…
-- Viver não é importante para vós? – perguntou Helmut com alguma desconfiança.
-- Claro que é, Helmut! Mas às vezes achamos que a vida é menos importante que certas coisas…
Aqui Helmut olhou-me com um terrível espanto e depois resignado a não conseguir entender-nos suspirou:
-- Realmente… Para além de loucos, são ainda mais loucos!
Ri-me. Mas Helmut conservou-se sério e agora a sua renovada ferramenta cerebral, a sua insaciável curiosidade insistiu:
-- E que coisas são essas que vós humanos, achais mais importante que a própria vida?
-- Que coisas Helmut? – fiz uma pausa para pensar – O amor, a esperança…
Helmut fez outra vez aquele risinho escarninho e comentou:
-- Se o amor é encontrar uma fêmea, em parte posso compreender… Mas tu andas desanimado por ali a Cabelos-de-Fogo não te ligar, mas ainda assim não te matas! Se calhar não és tão louco assim…
Caminhei sem dizer nada, a digerir a afirmação de Helmut. É verdade que não me matava, mas era verdade que me sentia morrer.
-- Helmut, há coisas piores que morrer…
E não dissemos nada por um tempo que me pareceu longo demais. Olhei na frete Godo e Cabelos de Fogo que parecia não terem ainda esgotado tema de conversa. Trocavam sorrisos, uma gargalhada de vez em quando. Notava-se que havia algo bom entre eles. Talvez fosse felicidade, não sei… Mas a felicidade deles, magoava-me.
Talvez Helmut tivesse percebido e comentou:
-- Na alcateia também é preciso lutar por uma fêmea, mas às vezes, por muito que queiramos uma, acabamos por nunca ter. Abandonamos a alcateia e tornamo-nos lobos solitários… Depois é preciso fazer pela vida, pelo menos até morrermos. E quando ela chega, prontos, acaba-se! – E depois em jeito de conclusão – Mas não vejo grande vantagem em desistir mais cedo!
-- És capaz de ter razão Helmut… -- Pensei eu alto. Afinal na sua perspectiva de animal, não havia muita preocupação com conceitos abstractos. A vida resumia-se a viver! Mas talvez houvesse para Helmut, apetrechado com o dom da fala, desafios novos. Conceitos novos, como o amor e a esperança. Se já lhe custava perceber o valor do ouro, iria certamente ter dificuldades em perceber valores. Decidi explorar essa via:
-- Helmut…
-- Sim…
-- Na alcateia como encaram os filhotes?
-- Como quê? – Helmut não percebera muito bem.
-- Por exemplo, pelos filhotes estarias disposto a dar a tua vida?
Helmut parou e todos tomaram algum avanço sobre nós.
-- Não só pelos filhotes… -- retomou Helmut – Pelos amigos também. E falo por mim, não sei o que a alcateia pensa…
Senti vontade de o abraçar. Acho que Helmut pensava com uma clareza que às vezes me deixava surpreendido. E quando dizia as coisas elas resultavam mesmo do seu sentir, não eram coisas elaboradas, na procura de serem bonitas ou de nos impressionarem. Era mesmo o Helmut, nu e cru.
-- Pois! Obrigado Helmut, sei que nem pensarias duas vezes, se eu precisasse de ajuda…
Ele riu-se outra vez e foi mordaz:
-- Mas quando se trata de fêmeas, cada um por si!
Ri-me outra vez.
-- Não me digas que também andas atrás de Cabelos-de-Fogo!
-- Não, não faz o meu género…

10 julho 2007

O Ovo de Rá – 39ª parte
Loucos

Retomamos a caminhada, como dissera Bel-Vito rumo ao inferno, o que quer que isso fosse. Ìamos algo nervosos, mas ainda assim era preferível andar e precipitar os acontecimentos, do que ficarmos naquela modorna, parados, indecisos.
Bel-Vito desde o Pico das Águias raramente seguia à frente e com algum espanto meu, eram os Mestres que seguiam na frente, quase como crianças entusiasmadas, com a perspectiva de algo empolgante e novo. Sei que o Mestre Ratapone, perseguia desde à lomgo tempo a busca daquele ovo mítico, que se julgava conter o segredo da vida, da criação. Quem sabe, talvez mesmo da imortalidade! Mas como já havíamos falado uma vez, o ovo era apenas um pretexto, para termos um objectivo na vida, algo em que a gastar, que não fosse somente desperdício. Mas pensando bem, talvez a vida fosse desperdício…
Se compreendia o Mestre Ratapone, já o Mestre Ludovico era curioso, como se juntara com entusiasmo a esta demanda. Talvez fosse afinal a sua última aventura. Uma espécie de sentimento de que a ter que se despedir da vida, ao menos que fosse com entusiasmo, por alguma causa maior… Podia ser tão só para ter companhia, depois de anos mais ao menos isolado. Não sei. Talvez quando se fique velho, se descubra que afinal o que conta é mesmo viver e não andar por aqui...
Helmut veio ter comigo que ficara para trás. Godo e Cabelos-de-Fogo íam conversar junto das mulas. Bel-Vito seguia à frente deles um pouco afastado.
-- Maia…
-- Sim, Helmut?
-- Aquela pedra amarela que ali o nosso camarada apanhou, era o quê?
-- Era ouro.
Ele continuou a caminhar ao meu lado.
-- Explica por favor…
-- Ouro é um metal, quer dizer, aquela pedra derrete-se no fogo e depois de derretida podemos fazer anéis, colares, brincos… Percebes Helmut?
-- Percebo…
-- Mas? – incentivei eu.
-- Pois…Queria saber como é que acham issomais importante do que comer, por exemplo!
Dei uma gargalhada e Godo e Cabelos-de-Fogo olharam para trás e sorriram, mas nem sequer pararam.
-- Bem Helmut, digamos que com uma pequenina pedrinha daquelas, podes obter muita comida! -- Então como?
Suspirei, às vezes é complicado explicar as coisas:
-- Bom Helmut, um homem com muita comida, pode dar-ta em troca dessa pedrinha…
-- Quer dizer que um homem, prefere trocar a sua comida por um calhau?! – A ideia parecia escandalizar Helmut.
-- É isso mesmo Helmut… -- decidi abreviar.
Helmut caminhou mais um pouco e concluiu:
-- Estes humanos são loucos…
-- Somos… Somos mesmo, Helmut…