26 janeiro 2004

A vida e a morte, num breve apontamento


Não sei porquê, gosto mais das pessoas depois que morrem. São todas boas, como se a morte por milagre limpasse do registo todas as sacanices que fizeram em vida. E quanto mais importante o personagem, tanto mais as manifestações de pesar e de homenagem parecem ser amplificadas.
Até na morte há uma distinção social entre os que "são alguma coisa" e os "que nunca foram coisa nenhuma"!
Morrem uns miúdos intoxicados por monóxido de carbono, e prontos olha, azar! Mas já imaginaram? Porque tinham o esquentador na casa-de-banho? Porque não tinham o esquentador na cozinha, ou a instalação bem feita? Eu digo-vos amigos: Condições económicas! Eram pobres! Terem um esquentador já era luxo suficiente, assim não tinham que aquecer água ao lume numa panela e tomar banho numa bacia de plástico! Ainda há muita gente que toma banho assim, neste jardim à beira-mar plantado. É pena que seja um jardim de urtigas para a maioria. Estas duas crianças não precisavam ter morrido. Foram mortes plenamente evitáveis, desnecessárias, um crime no sentido da palavra.
Outros morreram, porque morreram. Não havia nada a fazer. A vida é assim, uma espécie de relógio, um dia pura e simplesmente não tem mais corda. Acaba-se!
É uma tragédia, mas é incontornável. É a tal morte da qual não se pode fugir, mesmo quando apanha alguém cedo na vida.
Lamento. Mas lamento essa, tanto quanto todas as outras.
Sonho um mundo sem morte, onde seremos todos eternos e felizes. Onde mesmo os mortos terão outra oportunidade e voltaram, aí sim, livres de todos os erros passados. Depois poderão escolher se quer repeti-los, ou se vão aproveitar a segunda oportunidade para serem melhores no sentido mais humano de ser melhor.
Sim acredito nisso, porque se não a vida é ainda mais vazia de sentido do que a futilidade actual, e acho a vida demasiado preciosa para se perder em futilidades.
Corram atrás do que quiserem, de uma bola ou de um tempo que sempre nos atraiçoa e nos condena e nos engole no esquecimento.
Prefiro correr atrás de sonhos que tenham sentido e que valham a pena.
Prefiro as ilusões nobres às realidades patéticas e perversas. Prefiro pensar no futuro, do que chorar o passado.
Prefiro sonhar a vida, do que viver a morte!

20 janeiro 2004

Um toque


Não sei porque ainda me lembro de ti, e te mando toques para o telemóvel. Nem sequer respondes, como se o teu tempo, não pudesse dar para o meu tempo. Nem era grande coisa o que esperava de ti, apenas uma retribuição, um toque teu. Mas não. Deves estar cheia de razões para não me ligar de volta. A maior de todas é que deves ter vergonha, porque dizias que me amavas e não passava tudo de uma enorme imposturice. Nunca me amaste, mas quiseste pensar que sim, que amavas. Como podias amar, se tu desconhecias até então o significado do verdadeiro amor?
Ficaste maravilhada quando to dei a descobrir, mas ao mesmo tempo assustada. Amar era dar. Dar dessa maneira como eu te mostrei, desprendida, sem olhar a consequências. Amar loucamente e sem condições. Foi demais para ti.
Não tens culpa. Apenas tens culpa de um corte tão radical. Podias ter ao menos ficado grata. Mas nem isso. Não admira, este mundo é ingrato e tu ainda fazes parte dele. Eu não. Sou um velho e os velhos têm o condão de pertencer a um tempo que se vai esquecendo. Por isso os velhos se esquecem, nesta corrida de andar para a frente, a um tempo onde tu também serás velha, e onde espero te recordes de mim. Será tarde nessa altura, mas é uma espécie de consolo que ainda conservo. Sei que terás saudade das nossas conversas, terás até mesmo saudades das coisas simples como um toque de telemóvel.

19 janeiro 2004

Em fuga!


As guerras sempre foram uma enorme estupidez! Mas agora ao olhar os estropiados que se aproximavam depois de cairem numa emboscada, a conclusão era mais do que óbvia. Chegaram queimados, desalentados, mortos embora respirassem e se mexessem.
E se morressem? Morreriam em nome de quê? Da pátria? Do Império? Da Liberdade?
E que importava isso? Morreriam e ponto final.
Sim, eu sei, os seres humanos são os únicos seres vivos, para quem há coisas que superam o valor da vida. Deve ser por isso que o sentimento religioso emerge. Mas mais vale um adorador vivo, do que um morto. Porque carga de água, os paraísos são sempre após a morte? Se viver é uma passagem como alguns dizem, então Deus é um sádico. Prefiro outra compreensão das coisas: Acho que os homens devem estimar a vida, e devem adorar a Deus, porque Ele é fonte da vida. O resto é mais complicado...
Eu era apenas um médico de uma organização não-governamental a fazer o meu trabalho: salvar vidas! Vidas que se obstinavam para a morte, atrás de um ideal, ou apenas de uma ideia. Não sei se morriam por si mesmos, para fugir à sua existência pobre ou se o faziam por não terem outra coisa para fazer, na pobreza mais extrema de todas.
Sou médico e não filósofo. Mas não entendo a facilidade com que a humanidade aceita cultivar e libertar ódios. Nem entendo esta força que nos impele para matanças sem fim. Não acho isso natural. O instinto mais básico é o da sobrevivêmcia, e a medecina tem vindo a mostrar como a maquinaria da sobrevida está tão bem montada em nós.
Julgo assim, que esta vontade de morte que às vezes nos habita é exógena. Eu diria mesmo que é alíenigena.
Em tempos remotos, julgavasse que era possível algo ser possuído por espíritos malignos. Eu tenho quase a certeza de que eles existem, na devassa que fazem à nossa dignidade, à nossa humanidade.
E acho presentes esses espíritos em cada ditador político, ou nos jogos de poder nas altas esferas. É um xadrez maldito, jogado por forças superiores às nossas. Quem nos acudirá?
E lá estava eu, outra vez interrompido nos meus pensamentos inquietantes, a fazer suturas ou administrar morfina.
Se perguntasse a qualquer destes porque morrem, olhar-me-íam de olhos abertos de pasmo ou de estupefcação e implorar-me-íam que não os deixasse morrer. E contudo depois de curados, seguirão inevitavelmente o rumo de uma qualquer escaramuça, até cairem mortos.
Nunca compreendi as guerras, nem neste continente, nem noutro qualquer. A guerra é contra a humanidade e sempre achei que os vencedores, são os que as evitam! E evitam-se poucas. Dizem que o melhor do mundo são as crianças, mas essas mesmas pegam cedo no gatilho e são capazes das maiores atrocidades. As crianças são afinal tão boas, quanto o mundo em que vivem. Deixei de acreditar em crianças há muito tempo. Por isso, não tenho filhos e foi uma opção deliberada.
As tropas inimigas (não minhas inimigas que não tenho partido em guerra nenhuma), aproximam-se. É a debandada geral! Já vi tantas, que esta é só mais uma. Aconselham-nos a abandonar as instalações, pois correm risco de serem bombardeadas. Os meus colaboradores apanham os medicamentos ainda disponíveis, e colocam-nos dentro do jipe. Por mim decido ir a pé, dar-me-á a possibilidade de ir reflectindo. Olhando so rostos dos sobreviventes dos que fogem. Mas ninguém foge por muito tempo. Sempre acabaremos por sucumbir a esse poder mortífero. Todos acabamos por morrer, de um modo ou de outro.
Talvez afinal a morte seja uma doença que contraímos ao nascer e que é incurável. Se compreendessemos isso, em toda a sua magnitude, devíamos fazer deste mundo um lugar melhor, mais justo, equitativo, amoroso. Afinal somos todos pacientes. Mas comportamo-nos como se fossemos eternos!
Os morteiros começaram a zumbir por cima das nossas cabeças e instintivamente mergulhamos no chão, na valeta à beira da estrada, alguém deixou cair um saco de milho que rolou até ao campo e explodiu. Fora da estrada havia minas nos campos. O pesadelo para as gerações vindouras, uma espécie de sementeira de morte e dor. Pensar que alguém ganhava dinheiro com isso, sentado numa poltrona confortável, tornava surrealista a vida. Como se tudo fosse um filme louco e sem sentido.
Voltamos a caminhar... Em breve todos os caminhos estariam terminados.

17 janeiro 2004

Vítimas das feras


Era noite escura como bréu e chovia torrencialmente. O sargento Almeida, arfava não sei se apenas de nervosismo se tinha apanhado mesmo uma bala como dizia que tinha apanhado.
-- Porra, apanhei uma bala no cu! -- gemia o sargento Almeida.
-- Vire-se lá meu sargento... -- pediu o enfermeiro. -- Não se vê nada...
-- Como quer que se veja neste inferno escuro como breu, meu enfermeiro? -- comentou o soldado Alves.
-- Eu se fosse a vocês falava mais alto... -- gemeu o sargento. -- Assim eles podem vir acabar o trabalho...
A malta percebeu a mensagem e estabelecemos um perímetro de segurança.
-- Tenho a perna presa... -- queixou-se o sargento
O enfermeiro puxou-lhe as calças e com o soldado Alves a segurar a laterna examinou melhor.
-- Tem um cu lindo meu sargento, mas nada de sinal de bala...
-- Queres que te parta o nariz? -- Perguntou o sargento.
-- Caro sargento, antes isso que o meu sargento apanhar uma bala! Mas acho que não apanhou bala nenhuma, mas tem aqui uma mordedura de cobra!
-- De cobra? Raios partam a puta do bicho... -- praguejou o sargento.
-- Vou dar-lhe soro anti-ofídico e esperemos que dê certo.
-- Obrigado pelo optimismo... -- comentou o sargento.
Estava o enfermeiro José a picar o lindo cu do sargento quando pertíssimo, à direita da sua posição rebentou o matraquear de uma metralhadora ligeira.
O enfermeiro deitou-se sobre o sargento para o proteger, e sabe-se lá porque carga de água, nenhum homem da companhia disparou um tiro. Ainda bem! Para dispararem assim tão perto, de certeza que não sabiam que estávamos ali. Em silêncio os homens posicionaram-se e esperaram para a emboscada.
Mas a metralhadora calou-se e nunca mais deu pio. E o silêncio prolongou-se por horas. O sargento adormeceu, e estava com febre. Tínhamos de partir, não podíamos ficar ali à espera que morresse.
Em voz sussurrada ,o enfermeiro mandou improvisar uma maca. Colocaram nela o sargento e partiram com o medo na garganta, e o dedo nervoso no gatilho.
O dia começava a clarear e estavam todos exaustos e cansados. Era pouco provável que voltassem a atacar à luz do dia.
O soldado Alves que carregava o sargento atreveu-se a perguntar:
-- Como está ele enfermeiro?
O enfermeiro aproximou-se, apalpou-lhe o pulso.
-- Está morto soldado.
-- Morto meu sargento? Porra!
-- Sim, não tem pulso... -- confirmou o enfermeiro.
-- Isto é incrível enfermeiro! Um gajo vem prá guerra e morre de picada de cobra!
Os homens pararam. Tudo ficou em silêncio como se fosse uma homenagem.
O céu clareava de vermelho a nascente, o dia ía ser quente.
Puseram-se a caminho, e foram dar a uma picada.
-- Cuidado... -- disse alguém. -- Estes sacanas costumam minar as picadas!
Alguém arranjou uma vara e foi a picar o caminho na frente, e de repente surgindo de lugar nenhum um hipopótamo atacou o rapaz e estralhaçou-o em dois nas suas enormes mandíbulas! Dispararam todos por instinto quando viram que não havia nada a fazer.
-- Meu Deus! Isto é de loucos! Agora um hipopótamo?
Foi então que se ouviu a retaguarda um rugido medonho e gritos.
-- O Zeca foi apanhado por um leão!
-- Estamos feitos! -- disse o soldado Alves.
-- Calma! Tudo em passo de corrida...
-- Foi feitiço... -- disse alguém.
-- Qual feitiço, qual carapuça! -- disse o Luís -- É a maldita seca! Os animais andam tresloucados com a fome...
-- Pois! Somos vítimas das feras!

16 janeiro 2004

Há coisas dos diabos!


Tudo não passaria de um caso comum de mal-entendido, mas os males entendidos nos dias actuais têm tendência a converterem-se num drama, e sem quê nem para quê, este foi um desses tristes casos.
O rapaz ía apressado, todas as testemunhas são unànimes nesse ponto, mas quando ele encontrou o outro sujeito estava longe de imaginar que a sua vida andava no fio da navalha. E acabou por escorregar num dos deslizes impensáveis, que caiem na categoria de improvável! Mas a natureza gosta de confirmar o facto de que embora improvável existe sempre a remota possibilidade de acontecer, ou seja, é improvável mas não de todo impossível. Depois as regras do acaso fazem o resto.
O rapaz avançou na passadeira sem perceber que o camião vinha um nadinha acelerado para aproveitar o sinal verde, que na perspectiva do camionista estaria quase a cair. Destas duas percepções, tanto uma como a outra estavam redondamente desajustadas, deu-se o inevitável: O camião bateu violentamente no rapaz, que foi projectado alguns metros fora da passadeira.
Juntaram-se os mirones habituais, e tal como em todas as coisas improváveis, o espanto começou a tomar conta das pessoas que iam ouvindo a história. Afinal o rapaz era professor do filho do camionista, e como demorara um bocadinho mais do que o habitual para arranjar um estacionamento, atrasara-se. Se fosse um dia de aulas normal, não haveria problema chegar um pouco atrasado, o contínuo segurava os míudos dez minutos, tempo mais do que suficiente, para ele chegar. Mas naquele dia havia um teste, e era precisamente à turma à qual pertencia o filho do camionista. Mais ainda, o professor atrasara-se porque de manhã o carro não pegara, estava com a bateria em baixo e quem o desenrascara fora o irmão do camionista que era mecànico e estava a caminho da oficina!
Mas as coincidências ainda não tinham acabado! O polícia que entretanto chegou para fazer a participação do sinistro era casado com a prima da esposa do professor. O médico do INEM que ocorreu ao local era sobrinho do camionista, e o bombeiro que conduzia a ambulància era vizinho do polícia que fazia a participação e o filho andava na mesma escola onde o professor dava aulas, sendo colega de turma do filho do camionista!
Como alguém resumiu muito bem: Isto é uma coisa dos diabos!

15 janeiro 2004

PERFECT ACTOR MACHINE


---- Connosco o grande inventor Professor Nero! O inventor do ORGASMOTRON e da LOVE REMOVAL MACHINE. Inventos que demos notícia nesta rádio em primeira--mão! Pr. Nero é mais uma vez um grande prazer tê--lo entre nós! O que nos trás desta vez Pr. Nero?
---- Desta vez trata--se de um aparelho biónico, portanto é um implante electrónico, que pode revolucionar a arte de representar...
---- Explique--nos por favor Professor!
---- Recentemente António Damásio, o mais conceituado neurologista e estudioso do funcionamento do cérebro, desenvolveu conceitos muito relevantes sobre emoção, sentimento. Com base no seu trabalho, procurámos criar um dispositivo que intervêm a nível cerebral, gerando os padrões relacionados com a expressão das emoções...
---- Quer dizer Professor, que com essa máquina pode suscitar sentimentos de tristeza ou alegria?
---- Sim, basicamente é isso...
---- Mas Professor essa máquina até pode ser utilizada para ajudar os deprimidos!
---- Bem... É precisa alguma moderação. A máquina cria um mapa cerebral correspondente a uma determinada emoção, mas esta emoção carece de conteúdo. Numa analogia, para o caso de uma pessoa deprimida: É como ter fome e esta máquina dá--lhe a ilusão de saciedade, mas não lhe mata a fome, entende? Portanto será de pouca utilidade para um deprimido, porque findo o efeito da máquina a pessoa continuará deprimida. Eventualmente pode ser um recurso em episódios que envolvam tendências suicidas. Mas como depreende, não seria bom andar sempre com a máquina ligada...
---- Mas porque não Pr.Nero? Afinal há pessoas cuja vida depende de uma máquina todos os dias. Imagine as pessoas que usam pace--makers!
---- Faz uma analogia sem dúvida interessante, mas nutro algumas reservas. De facto e como mostrou o ilustre Damásio, as emoções resultam de configurações corporais percebidas por meio da maquinaria neurológica. Não fazemos ideia do que poderá acontecer, se induzirmos permanentemente no cérebro uma configuração do corpo que não corresponde à realidade. Presumo, e só uma presunção intuitiva, que poderíamos danificar de um modo perigoso o nosso corpo físico. Como sabe há uma correlação entre o corpo e a emoção, e o que percebemos depois como sentimento. Induzir um estado de beatitude permanente, contrário ao que o corpo realmente configura, pode criar uma espécie de divórcio entre o que sentimos que somos e o que realmente somos.
---- Seríamos como que possuídos?
---- Talvez seja uma boa analogia sim. Seria um ser a que não corresponderia o corpo. Temo só de pensar nas consequências. Daí que este implante tenha por orientação, os profissionais da representação. Aqueles que induzem emoções em si mesmos, para expressar sentimentos que afinal não têm enquanto parte integrante das suas vidas. Trata--se de uma representação e não de uma vivência. A máquina actua como facilitadora da expressão dos sentimentos que se pretendem representar...
---- Desculpe interrompê--lo Professor, mas isso não quererá dizer que se perde um pouco o talento? Isto é, com essa máquina qualquer actor menos talentoso pode dar um realismo impressionante à sua actuação!
---- Sim, creio que sim, embora ache, que não basta ter uma representação corporal induzida para expressar bem um sentimento. Ou seja, para expressá--lo com arte. Isso é que constitui o talento do actor. Essa capacidade de povoar a emoção, com conteúdos tirados da sua própria experiência e dessa forma colorir uma emoção, que é apenas um receptáculo para a sua representação.
---- Caro Prof. Nero, o seu trabalho deixa--nos pasmos de admiração! Sinceramente desejo que continue as suas investigações e que o seu génio seja reconhecido...
---- Agradeço as suas amáveis palavras, mas em ciência, avançamos sobre o trabalho dos que nos antecedem ou são nossos contemporàneos e nos estimulam a nossa própria actividade intelectual. Nenhum de nós é um ser isolado e é isso que de alguma forma faz a nossa grandeza. Por isso, sem falsas modéstias, é preciso perceber que o meu trabalho é apenas um contributo no avanço do campo do conhecimento humano e vale apenas como uma diminuta parcela dele.
---- Agradecido por ter vindo Pr.Nero. E reconhecemos nas suas palavras uma humildade que o engrandece como homem. Obrigado! E caros rádio--ouvintes, estivemos com o Pr. Nero e a sua nova invenção o PERFECT ACTOR MACHINE, mais conhecida como PAM!

14 janeiro 2004

O Veneno da Aranha


Agora o planeta era deles. Fora nosso e era inteiramente deles. Chegaram com as suas naves, como embaixadores de um Império distante para comerciar, diziam. Mas foram velhacos subtis. As suas naves espalharam na atmosfera do planeta uma substância que nos entristeceu, desmoralizou. Depois vieram eles como benfeitores, substituíram os nossos líderes e ficaram eles. Só mais tarde compreendemos, mas era tarde demais. Eles eram especialistas em farmácia, dominavam todas as substâncias psicotrópicas existentes e dominavam técnicas de psicologia de massas.
Ainda agora há milhares de compatriotas meus que julgam que a única solução dos nossos problemas são estes estrangeiros. Como é fácil enganar os ignorantes, ou manipular populações inteiras!
Os estrangeiros não queriam saber de nós para nada, apenas lhe interessava o seu comércio. Depois de nos terem rapinado tudo, deixar-nos-íam entregues à nossa sorte, só que bem mais pobres!
Vieram como libertadores, mas a única coisa que lhes interessava era libertarem-nos das nossas riquezas! Era uma espécie de Império com táctica de aranha, deixavam-nos bater na rede, estrebuchar um bocadinho e depois enrolavam-nos em fio de seda e chupavam-nos tudo quanto lhes interessava. Depois largavam a presa e partiam à procura de outra.
Só que neste caso a presa eram planetas inteiros.
Estou na região desértica do meu planeta. Aqui os estrangeiros não têm qualquer interesse e não largam substâncias psicotrópicas, pelo menos se julgarem que não somos nenhuma ameaça. E por agora não somos...
Somos a resistência, uma resistência que nunca lhes passou pela cabeça! Vamos combatê-los com a sua própria doença, estamos a desenvolver uma substância psicotrópica que actua da seguinte maneira: Quanto maior a ganância da pessoa, quanto mais for hipócrita e mentirosa na declaração das suas intenções mais profunda é a sua acção! Ela dá uma sensação de mau estar de náusea e se a pessoa persistir na ganância, na hipocrisia, passa a ter dores viscerais tão intensas que podem levar à loucura! Ainda por cima, não passam imediatamente e apenas podem ser atenuadas pela supressão dos sentimentos de ganância e de hipocrisia.
Fizemos uma experiência num dos mercados próximos com alguns mercadores estrangeiros e foi demais! Até reviravam os olhos com as dores!

Estamos agora curiosos de experimentar esta droga em políticos!

13 janeiro 2004

Sem Nome


Por muitos anos Yago foi chamado Planeta X, porque os seus habitantes se recusavam a dizer o seu nome. Os habitantes de Yago não se tratam nunca pelos nomes. O nome de alguém é-lhe dado pelos pais depois de escutarem o seu mestre. Apenas sabem o seu nome que lhe é transmitido da boca do pai ao seu ouvido numa cerimónia que marca a passagem da adolescência à idade adulta. Só depois de saber o seu nome, é que um yagoano é realmente um homem. No caso das meninas é em tudo semelhante, só que nesse caso é a mãe que diz o nome ao ouvido da sua filha.
Os yagoanos acreditam piamente no poder da palavra. Curiosamente acham que a palavra pode mudar montanhas, e que só com um grito dado de acordo com os antigos ritos, é possível matar um homem.
Eles não dão nomes às coisas, embora cada coisa tenha um nome. A sua literatura mais selecta chama as coisas e os personagens por nome, mas esses livros apenas podem ser lidos por pessoas maduras, isto quer dizer que ninguém os lê antes da meia-idade. Eles acreditam que nomear as coisas condiciona-as. Chamar a pessoa por seu nome imprime nela uma direcção, e eles que amam a liberdade sentem que não podem fazer isso. As coisas e os seres devem seguir o seu próprio caminho, e este é ímpar segundo a filosofia yagoana.
Embora uma rosa, seja uma rosa, talvez descubra que para os yagoanos ela é ‘a flor cor-de-rosa de perfume intenso’ ou ‘a flor de suaves pétalas com perfume intenso’ ou qualquer coisa semelhante. Esta indefinição na coisa referida, a ausência de nomeação, fez dos yagoanos um povo de poetas, de músicos, de artistas. São também extraordinários observadores e percebem subtilezas que nos escapam. É de mau tom, perguntar o nome de alguém. Normalmente a única ocasião em que alguém diz o seu nome é na cerimónia de casamento, quando o noivo diz o seu nome ao ouvido da noiva, e esta faz o mesmo ao noivo. Dizer o nome, é um acto de intimidade, de profunda intimidade. Saber o nome de alguém é como ter a chave que dá acesso à alma da pessoa.
Não sei se eles têm razão, nem se não. Acho que isso nem é o mais importante. Afinal sabemos o nome de muitas pessoas e contudo desconhecemo-las em absoluto. Identificar alguém sem nome, obriga a uma atenção redobrada, a outro interesse, a conhecer a pessoa melhor, de modo a identificá-lo pelas suas peculiaridades, pelo que o faz ímpar entre todos os outros. É algo que confere dignidade e profundidade às relações entre as pessoas.
Estou em Yago há 30 anos, estabeleci-me aqui como comerciante, aqui é também aque le que faz a ponte entre as culturas exógenas e a cultura de Yago. Como depreendem para os yagoanos os estrangeiros são uns bárbaros rudes, que tratam tudo por nome.
Hoje é-me concedida uma grande honra. O círculo de amigos aqui em Yago, decidiu que eu merecia um nome, tal como eles têm, um nome secreto, que só eu e o meu mestre (todo o yagoano tem um mestre), saberemos. Eu di-lo-ei a quem me for mais íntimo apenas.
Até agora fui alguém sem nome, um adolescente, finalmente vou tornar-me um homem.

12 janeiro 2004

Joana


Há dias em que acordo como cego.
Em que olho à volta e nada vejo, ou melhor o que vejo não corresponde ao que lá está. É pura imaginação. Como quando sonho com a Joana, nos seios dela, na curva das costas, na pose que ela faz. A Joana é uma gata que ronrona, que arranha e que no fundo me consegue dar a volta à cabeça. Mas a Joana não existe! Ela é uma pura criação da minha cabeça ou dos meus desejos. Embora me sinta quase levado a concluir que ela é o meu corpo a ultrapassar a frustração.
Não entendo nada disto muito bem. É como os pesadelos. Para que raio de coisa queremos os pesadelos, se a vida já por si, é pesadelo que baste? Será que a nossa mente conserva uma matriz sádica?
No meu caso acho que deve até estar exacerbada essa matriz, porque até sonhar, em especial com a Joana, é no mínimo sadismo puro. Acordo com a boca a saber aos beijos dela, e ela não existe! Podia procurá-la em todos os lugares do mundo, que ela existe apenas na minha cabeça, nos meus sonhos ou quando penso nos sonhos que tive!
Será que isto é endoidar?
Ou à falta de bons programas de televisão, o cérebro compensa com isto? De facto sou pessoa de ver pouca televisão, quase nenhuma. Dantes era um viciado em telejornais, conseguia ver diversos ao mesmo tempo e depois ainda apanhava por inteiro os que davam em horas desencontradas. Mas agora, já não consigo ver as notícias e manter o meu juízo perfeito. As injustiças são tantas, que se continuar a ver as notícias me converto de certeza em terrorista!
Mas se calhar é mesmo para ser assim. Os políticos precisam de terroristas, para justificarem o seu terrorismo de estado.
Mas percebem agora porque o meu cérebro prefere a Joana, não?

11 janeiro 2004

A Flor de Iridanis



No planeta Iridanis, existe uma flor. É uma flor extraordinária de singular beleza, de perfume delicado; o que por si só, já seria digno de nota. Mas a flor de Iridanis, que apenas se dá em Iridanis e em mais lugar nenhum do Universo, tem propriedades que mais nenhuma tem. O povo de Iridanis é feliz, sempre bem-humorado, sorridente, despreocupado. Em Iridanis a tristeza é fugaz, a ansiedade desconhecida. Tudo por causa das flores que aí existem.
Os cientistas estudaram-na e assemelham o seu efeito ao Prozac ou à cocaína, mas suspeitam que por estes princípios serem liberados de forma tão branda, perdem a sua toxicidade e não geram habituação. Não se conhecem nenhuns efeitos secundários desagradáveis ou nefastos.
Os puritanos acham que os habitantes de Iridanis andam sempre ‘pedrados’ e dessa maneira acham que eles são como os hippies dos anos 60. Só que perdoam-lhes o facto de nunca terem tido outra alternativa. Presumo que no entender dos puritanos, a falta de alternativas converte-se numa virtude.
Iridanis atraiu toda a espécie de infelizes à procura da felicidade, mesmo que sustentada a flores psicotrópicas. Abriram-se clínicas de bem-estar e há sempre alguém a lucrar com o que a natureza tão generosa, forneceu de graça. Para aqui vem todos os deprimidos crónicos, os que escaparam de tentativas de suicídio ou os que já não tinham outra alternativa. Aqui dão-se bem, aqui permanecem bem. Mas é só aqui.
Filósofos postulam, que este é verdadeiro paraíso, mas não sabem de que falam. Se isto fosse o paraíso, então o paraíso era um conjunto de infelizes ‘pedrados’, donde um drogado em ‘viagem’ encontrava o paraíso no caminho! Penso que é por isso também que os políticos à falta de melhor alternativa, querem legalizar o consumo. Além disso é a única forma de travar o afluxo para Iridanis, que já tem todas as rotas comerciais congestionadas.
Para aqui vêm também os moribundos, doentes com cancro terminal, ou então velhos que não esperam mais nada do que a morte. Os filhos trazem-nos para aqui, e acham que é tudo o que lhes devem. Embora estes velhos sorriam, nunca os vi rir, e nota-se-lhes nos olhos um negrume que nenhum perfume de flor pode mascarar.
Vim também.
Não sei bem em que categoria me colocar. Devo ser mais um infeliz apenas. Vim de boleia num cargueiro galáctico, a servir refeições a uma tripulação de broncos, que se divertiam a sujar o chão para eu ter que fazer. As humilhações porque passamos à procura da felicidade!
Em novo (agora estou na meia-idade), sempre me portei bem, como era de esperar na sociedade em que vivia. Não bebia em demasia, não fornicava, nem me meti em drogas. Mas também nunca me senti verdadeiramente feliz. É justo equilibrar os pratos da balança agora, embora saiba que os puritanos nunca me perdoarão! Eles acham que o sofrimento e a dor, expurgam a alma de pecados. Mas eu sei que a alma não existe. Por isso, conto passar os meus dias aqui, cheirando flores, como outros cheiram cocaína. Ficarei aqui como os infelizes em busca de felicidade, como os deprimidos ou os suicidas. Ficarei aqui como aqueles com cancro terminal, ou os que vêm de velho para morrer. Pelo menos sentir a felicidade, nem que seja por uns breves dias, ou meses, ou anos. No fundo está tudo muito bem feito.
Nunca digam que Deus é injusto.

10 janeiro 2004

A Caixa de fósforos


Por todo o redor havia sinais de destruição. Nem sabia muito bem como encarar tudo aquilo, mas acordara com a cama a tremer e onde fora a janela e uma parede era um buraco negro escuro, por onde entrava frio.
Sim tinha a percepção de que aquilo era pior que um pesadelo. Fora um terramoto e sentado na cama, ao ar frio da madrugada tomava a consciência do luto e da dor que viria. Tomou rapidamente a decisão, saiu da cama, vestiu as meias, calçou as sapatilhas, arrancou uns cobertores da cama e enrolou-se neles. Gritou:
-- Está alguém a aí?
Ouviu uns gemidos logo abaixo, mas não fazia ideia de como sair dali. Estava escuro como breu, e a única claridade vinha apenas do sítio onde antes houvera uma parede. Qual a decisão mais sensata? Dirigir-se à porta? Foi isso que decidiu. Tacteou ao longo da parede, até à porta e abriu... A corrente de ar, atirou a porta, e tomado de surpresa caiu, e ouviu ranger o chão, uma espécie de gemido da placa, e teve medo. Ficou quieto, sustendo a respiração. Levantou-se com cuidado, e foi fechar a porta, que resistiu, mas por fim lá conseguiu. Teria que aguardar a manhã, até que fosse claro e pudesse ter noção da sua situação.
Invadiu a frustração, ele vivo, talvez centenas a precisarem desesperadamente de ajuda, e ele encurralado no terceiro andar de um prédio, talvez prestes a ruir.
A ansiedade e o cansaço, venceram o frio e o medo, e acabou por adormecer. Acordou, enrolado nos cobertores, ao uivo dos cães domésticos, que anunciariam por certo os dramas dos seus donos. Sem conseguir retê-las, as lágrimas escorreram-lhe pela cara, e sentiu-se profundamente culpado por estar vivo. Ao olhar diante de si, para onde outrora fora uma parede com uma janela para os andares vizinhos, não havia nada. Nem a janela, nem a parede, mas também não havia os prédios, era apenas um mar de entulho, fumegante aqui e ali.
Pateticamente, naquela manhã de Dezembro, o sol nascia radioso, sem qualquer nuvem, e não fazia frio, o tempo estava tépido, e o vento que soprara quando ele acordara acalmara a ponto de ser uma brisa.
Tentou aproximar-se da borda da parede que ruíra, mas a laje de concreto, começou a oscilar de modo perigoso e ele remeteu-se para o canto, onde passara as últimas horas. Pensou nos seus, e voltou de novo a chorar. Pensou nos vizinhos, e continuou a chorar. Pensou em todos aqueles montes de entulho que faziam um mar diante de si, e ao pensar nas pessoas que havia ali, na cidade, continuou a chorar.
Pensou gritar, mas a voz ficou-lhe presa na garganta. Sentiu-se culpado, como se a morte de todos os outros, lhe perguntasse com que direito ficara vivo!
Já o Sol ia alto quando houve um helicóptero sobrevoando a área. O instinto de sobrevivência apoderou-se dele, e sem pensar levantou-se e descobrindo-se, agarrou um cobertor e agitou-o. Não ouviu a laje ranger outra vez, e nem ligou quando pedaços de parede e do tecto foram desabando. O helicóptero aproximou-se e depois deu uma curva e desapareceu. Sentou-se de novo no chão do seu quarto, ou melhor, no que restava dele. Pensou na vida como uma sequência de acontecimentos trágicos, que de salto em salto nos aproximam cada vez mais da morte. Riu-se!
Afinal todas as tentativas de viver, eram apenas mais uma frustração. No fim a morte sairia mais uma vez vitoriosa. O buraco em frente a si, convidava-o a correr e atirar-se para o monte de entulho. Todas as vidas não passavam afinal disso, entulho!
Ao mesmo tempo reflectiu no paradoxo da sua sobrevivência, e ficou curioso de saber o que a vida arquitectara para ele. Como uma folha nas correntes de ar, que acaba sempre por cair. Devia aproveitar o voo, já que é só de ida!

Finalmente uma equipa de resgate veio ao seu encontro. Todo o prédio onde vivia ruíra de alto abaixo e apenas a parede do seu quarto, onde havia a porta, era tudo o que restava. Os vizinhos de baixo, e os vizinhos de cima, estavam lá em baixo no entulho, e ele pateticamente, num pedaço de laje, do que fora o chão do seu quarto, como um pássaro numa gaiola.
A equipa de resgate, não sabia como o tirar de lá. Não havia escadas suficientemente altas disponíveis, e não sabia se o peso das escadas quando as encostassem, não fariam tombar a frágil parede que ainda sustinha o pedaço de chão onde ele estava. Não podia aproximar o helicóptero, pois a deslocação de ar das hélices, seriam com certeza suficiente para deitar abaixo o que restava do prédio. Tinham até medo de lhe atirarem comida, ou água, porque o prédio era como uma flor, e ele como um insecto sem asas.
Só podia esperar... esperar...

As equipas de socorro começaram a remover o entulho, e apressavam-se para fazer chegar a ele uma grua, de modo a que fosse possível tirá-lo daquela situação. Ao fim de dois dias chegaram perto, com a grua. Ele estava cansado, muito cansado, desidratado, com frio. Alternava períodos de consciência, com períodos em que ia por um túnel, e em que os seus o chamavam para um lugar de luz, mas ele não queria ir.
Ficava imaginando que todos somos como fósforos dentro de uma mesma caixa… Sim, e de vez em quando acendesse um. Vão acendendo todos até chegar ao fim da caixa.

Retiraram-no e transportaram-no rápido para um hospital. Depois as coisas seguiram o percurso das coisas rotineiras. Recebeu alta, algum apoio do governo e recomeçou a vida, tal como a cidade recomeçava a sua. Lembrou-se das coisas todas, como eram antes, durante e depois.
Agora sabia: A vida é como o riscar de um fósforo, começa num fulgor e acaba em cinza!

09 janeiro 2004

Os passos dela...


Ouvi os passos dela no andar de cima, nas tábuas rangentes do soalho. Esperava todas as noites aqueles passos leves e delicados e ficava imaginando os seus pés nus beijando as tábuas polidas e lisas, quem sabe até, enceradas.
Vi-a passar por mim às vezes nas escadas do prédio, sorria-lhe, com o meu melhor sorriso, ela sorria quase imperceptível, e eu ficava olhando os seus cabelos loiros compridos, que lhe desciam até ao fundo das costas como uma mantilha de ouro. Ela nunca olhava para trás... Eu ficava um tempo infinito olhando-a subindo os degraus.
Nunca soube se tinha namorado, se era casada, se viúva!
Ouvia-lhe os passos, e quase soavam a música, para o meu doido coração que se entregara, numa paixão platónica. Ouvia os passos dela, lembrava os seus longos cabelos loiros, e ficava a imaginar loucuras, olhando o tecto, deitado na minha cama.
Um dia na entrada do prédio tentara falar-lhe. Sobre o dia estar bonito, tão bonito como ela. Corou, mas mais uma vez furtou-se ao contacto. Que segredo guardaria?
Nunca vi qualquer visita. Entrava discreta, saía com a mesma discrição. Nunca ouvi qualquer tipo de música vir do seu apartamento, nem um ruído mais alto. Nem o barulho de panelas ou coisas a cair.
Ficava imaginando se não seria um anjo, apenas um anjo, que saía para cumprir missões das quais não fazia a menor ideia. Mas era um anjo bom, a fazer bem. A mim fazia! Embora começasse a sentir uma frustraçãozinha a crescer dentro do peito. Eu amava aquele anjo, consolando na ideia de que os anjos são inatingíveis.
Mas um dia, insisti em levar-lhe os sacos de compras, foi um acaso. Eu entrara no prédio e ela ía começar a subir as escadas. Agarrei-lhe nos sacos e ela pareceu assustar-se, mas nem um ai disse. Depois subimos, ela à frente, eu atrás encantado com os longuíssimos cabelos loiros. Chegamos à porta dela, e ela abriu a porta, agarrou os sacos e aproximou-se de mim, e deu-me um beijo na face. Não resisti, agarrei-a por um braço...
-- Desculpe, -- ela olhava-me fixamente, a ponto de me incomodar –- mas eu gostava muito de a conhecer melhor...
Ela sorriu-me de uma maneira tão doce, que quase chorei de emoção. Depois fez um gesto para que eu aguardasse. Fiquei na porta, olhos rasos de lágrimas. Eu amava-a, e temia perdê-la. Ela tão perto...
Quando ela voltou, trazia um caderninho na mão e uma esferográfica e escreveu:
“Eu também gostava muito de te conhecer, mas deves saber que eu sou surda-muda... ”

31 dezembro 2003

Submerso em mim


Havia uma ausência e eu não sabia, mas era eu apenas á procura de mim próprio! Como pode a vida afastar-nos tanto de nós? Por isso sentia este aperto no peito a moer aos poucos como se me faltasse algum pedaço. E faltava!
Faltavam muitos pedaços... Emoç&etilde;es, sentimentos, que se haviam afundado lá bem no íntimo de mim, num medo de despertarem apenas para me magoarem. Agora é região virgem, que tenho de atravessar vencendo o medo das feras escondidas, apenas para descobrir o que é básico que se saiba: Quem somos!
Dói-me a alma. Não porque esteja ferida, mas porque está calada. Calada há tanto tempo e foi enchendo e é agora um mar, um profundo e misterioso mar. Como um explorador, preciso mergulhar cauteloso nesse mundo, que sendo o meu, é como se fosse de outro.
Tenho medo. Seria mentir, se dissesse que não tinha medo. Mas não suporto viver na angústia deste desconhecido. Por mim próprio tenho de ir ao fundo deste mar e voltar. O que descobrirei? Não sei. Espero que não seja outra vez a dor. A dor que me acompanhou tanto tempo, e que me fez rodear o coração de muros, muros que se encheram e se transformaram neste mar. Espero que não seja a crua revelação de que a felicidade me escapou apenas porque tive medo de expor o coração ao amor. E que neste instintivo desejo de o proteger, acabei por o proteger de sentir o que mais queria. Ou talvez descubra uma espécie de daltonismo sentimental, que me impede de sentir a plenitude do sentir.
Tenho medo, de estar carregando uma enorme pedra sobre a cabeça. (Talvez seja por isso que me doem os braços.) Se descobrir que a minha cegueira me impediu de ver, então essa pedra cair-me-á sobre a cabeça e talvez me enterre de vez.
Tenho saudades de mim, de um tempo em que era apenas eu, com todo o tempo do mundo para mim. Um tempo parecido com o de agora, em que me construía ao abrigo dos outros, sem contudo estar plenamente ausente. Um tempo em que todo eu me construía e aprendia a conhecer-me. Suspenso das leis da gravidade, protegido e amado, submerso em líquido amniótico. Mas afinal, era na realidade submerso em mim...

24 dezembro 2003

A Ceia de Natal dos Cardeais



Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência!

Todos os anos o cardeal António convida alguns cardeais seus conhecidos á sua residência, para a habitual ceia de Natal. Era uma ceia descontraída em que se falava sem pudor na língua, como se fosse uma enorme confissão. &Acute;s vezes chegava a ser desagradável, e daquela vez não foi excepção. Tudo começou com uma infeliz afirmação do cardeal Ricardo:
-- Sabem, o meu desejo maior era que um Natal, o Nosso Senhor viesse á Terra, e fosse a esses desgraçados sem abrigo, e os levasse para o seu seio!
-- Porra Ricardo, você e o Hitler estão ao mesmo nível de pensamento!
-- Ah Ah Ah -- riu o cardeal Marcos.
-- Além disso... -- continuou o cardeal Manuel, o mais novo e o mais destravado de língua -- Nosso Senhor num precisa de vir á Terra, está em todo lado!
O cardeal Marcos escangalhava-se a rir torcendo a sua gorda barriga junto á mesa, o que obrigou o criado (único e de confiança) a fazer uma exercício malabarístico para evitar entornar-lhe a sopa quente na barriga.
-- Desculpa aí amigo... -- disse o cardeal Marcos ao criado -- Mas olha lá, deixa a terrina, eu gosto de sopa. E vê se na próxima me cortas esse cabelo, está bem?
O criado fez uma vénia ligeira, deixou-lhe a terrina, e foi buscar outra pra servir os restantes.
O cardeal Rodrigo agastado com o cardeal Manuel fez contra-ataque:
-- Ao menos não roubo as esmolas, pra as ir gastar com putas!
-- Meus Senhores! Então? -- pediu conciliatório o cardeal António, anfitrião da ceia.
O cardeal Pedro, que já tinha bebido uns aperitivos com o estômago vazio comentou:
-- Antes ir ás putas que ser pederasta! -- e riu-se.
-- Os pederastas também so filhos do Senhor... -- comentou o cardeal Daniel.ã
-- Tendes razão! -- e rindo o cardeal Martinho acrescentou -- Ainda num sóis orfão!
-- A conversa tá a azedar...
-- É como esta sopa... -- disse o cardeal Marcos, que já esvaziara meia-terrina.
-- Num acha que comer tanto lhe faz mal? Depois fica mal dos intestinos... -- disse o cardeal Pedro.
-- E que interesse tem nos meus intestinos? Hein? -- disse o cardeal Marcos agastado. Detestava que lhe lembrassem que o seu maior pecado era o da gula. Mas desde que lera Pantugruel, ficara com o mal.
-- Ao cardeal Pedro só lhe interessa a ultima parte do trato intestinal! Eh eh eh... -- gracejou o cardeal Martinho.
-- Se faz favor, deixem-se de remoques, vai ser servido o prato de peixe... -- pediu conciliatório o cardeal António.
-- Ah ah ah! Há gente que não é carne, nem peixe... -- gracejou de novo o cardeal Martinho.
-- Tem razão amigo Martinho, estavamos a precisar de uma nova inquisição, para meter os hereges na ordem...
-- Irra cardeal Rodrigo, se eu acreditasse na reencarnação ía jurar que era o Torquemada! -- comentou com ironia mordaz o cardeal Manuel.
-- O cardeal Manuel, é que não compreende o bem que esses homens fizeram! -- deixou escapar o cardeal Rodrigo.
-- Comam o peixe... -- pediu o cardeal António.
-- Ó Rodrigo se não quiser o peixe, deixe pra mim... -- pediu o cardeal Marcos.
-- Eu dispenso o peixe, apesar de me parecer com excelente aspecto! Criado recolhe o meu peixe... olha podes dá-lo aos gatos. -- disse o cardeal Martinho.
-- Aos gatos?!! -- protestou o cardeal Marcos.
-- Tendes razão! -- disse o cardeal Daniel -- Com tantos pobres, e vai dar o peixe aos gatos!
-- Ora, o que disse Nosso Senhor? "Que pobres sempre teréis..."
-- E isso quer dizer o quê? -- perguntou o cardeal Manuel.
-- Que os pobres nunca hão-de acabar! -- concluiu o cardeal Martinho.
-- Você é um cínico é o que é­-protestou o cardeal Daniel. -- Já agora também deu o corpo dele pra matar a fome não?
-- Pois... Já vi, o peixe é pra cardeais e gatos, e os pobres que papem hóstias! -- comentou o cardeal Manuel.
O criado que sempre passara despercebido falou então:
-- Posso servir a carne?
Todos concentraram os olhares no criado, e como este estava mais perto do cardeal António, este reparou nas mãos do criado e perguntou:
-- Que é isso que tens nas mãos?
-- Até parecem estigmas! -- comentou o cardeal Manuel.
-- Que foi isso? -- voltou a interrogar o cardeal António.
O homem disse de modo simples:
-- Fui crucificado.
Riram-se!
-- Um criminoso a servir-nos a sopa... -- comentou o cardeal Martinho.
-- Mas foste crucificado aonde?
-- Em Jerusalém.
-- Ena! -- exclamou o cardeal Marcos.
-- Por quem?
-- Por vocês.
-- Por nós? Eh eh eh -- riu de modo escarninho o cardeal Marcos
-- Como te chamas, pobre homem?
-- Jesus...

23 dezembro 2003

De novo por aí...


Estive ausente... Ausente por dias a fio, numa viagem ao longo da galáxia. Fui ao encontro das estrelas, porque na Terra, todas me parecem demasiado pequenas, ofuscadas por outras luzes, que não têm garantidamente a mesma beleza. Perdi-me nessa jornada. E andar perdido, no espaço, ou na Terra é sempre um perigo.
Regresso, encontro-te ou talvez não...
A minha ausência modificou-te, ou talvez seja só eu com outro olhar.
Agora ao invés de te causar alegria, gero apenas constrangimento. Perdoa a minha ausência, assim como eu te perdoo esse olhar desolado e triste. És livre!
Juro que és livre! Não te sintas devedora de nada. Eu é que estive ausente, nessa jornada no vazio, e nem sequer devia ter regressado. Talvez nem tivesse muita vontade de regressar.Talvez nem quisesse regressar. Talvez tenha regressado por automatismo, por estar farto de estar ausente. Ou como o cão, vim atrás do cheiro familiar da casa.
Não, não precisas de ficar triste agora. Eu vi as estrelas de perto e se choro, foi apenas a poalha delas que me entrou na vista...
Afinal, quando o cão encontra a porta fechada, dá duas voltas e vai por aí, feito cão vadio.
É isso que vou fazer, irei de novo por aí...

11 dezembro 2003

Meiguinha


vela
A notícia atingiu-o como um soco em cheio na boca do estômago. Contorceu-se numa agonia esquesita que lhe tirou a vontade de brincar. Meiguinha morrera num acidente. Tinha 19 anos.
Como pode morrer alguém que ainda nem sequer vivera por completo?
Não mais a ía encontrar nos espaços que um dia partilharam. Todas as mortes o revisitaram. Todas as saudades. Toda a impotência e frustração, o ter de aceitar o que era inaceitável!
A morte não é um inimigo. É apenas a sombra que nos persegue, com sol e sem ele.
Havia raiva em cada punho fechado, e nessa dor, lágrimas que teimavam em aflorar os olhos. Meiguinha nunca mais voltaria a cerrar os punhos, nem a chorar.
Amanhã as coisas voltariam á sua rotina, mas já não seria a rotina dela. Tentou imaginar os pais, os irmãos, os amigos. Em todos eles havia agora um vazio, que nada podia preencher.
Foi um acidente...
Mas o acidente maior mesmo, é nascer.

10 dezembro 2003

Todas as dores do mundo...


De entre todos nós, ele era sem dúvida o mais dotado! Escrevia poemas tão maravilhosos, tão cheios de musicalidade e sentimento, que causava admiração e inveja a nós, míseros aprendizes de feiticeiros das letras. Quando falava da dor, as palavras dele magoavam-nos a alma, a sua amargura saía-nos pelos poros a ponto de ficarmos incomodados. Mas o que era incompreensível é como alguém que escrevia palavras tão belas podia ser tão execr´vel, um autêntico tartufo.
Não era arrogante, nem imodesto, antes pelo contrário. Parecia escrever com desprezo, como se escrever fosse para ele uma tortura!
Ninguém o percebia. Eu queria perceber. Não por altruísmo, queria que ele fosse pró inferno a mais o seu feitio! Mas já que não escrevia nada de jeito, ao menos podia armar-me em biografo e talvez por mera relação simbiótica pudesse ficar com alguma fama! No fundo, eu reconheço, era mais mesquinho que ele, mas em mim era compreensível, carago! Era uma questão de sobrevivência, nele era o mau feitio, que aturavamos devido à sua genialidade.
Nenhum de nós alguma vez assistira ao parir dos seus versos, ele recusava obstinadamente a presença de alguém enquanto escrevia. Alguns de espírito ainda mais mesquinho que o meu, diziam que não era ele que escrevia, que era outra pessoa. Mas depois também ninguém explicava melhor as palavras do que ele. Vá lá, não pensem que somos todos uma cambada de cabotinos! Apesar de o detestarmos quanto ao feitio, daríamos a alma por apenas um dos seus poemas! Aliás já tínhamos desancado um crítico parvo, que dissera umas barbaridades a respeito dele. Podíamos ser mesquinhos, mas também sabíamos ser amigos.
Mas eu queria, como biografo e apenas para me documentar, de assistir ao parir de um poema. Então um dia com o concluio de uns amigos, consegui ficar dois dias a bolachas e um cantil de whiskey, enfiado no forro do telhado, do velho quarto onde ele habitava. Foram dois dias infernais, sem poder lavar-me e a mijar pra dentro de uma garrafa de cerveja! Uma experiência horrorosa, que tentei descrever num poema de angústia, mas que me pareceu ainda mais horrível que a experiência! Mas estou a desviar-me do tema... Dizia eu que finalmente consegui ver o parir o de um poema. Era tarde da noite e ele regressava dos copos, que era aliás a nossa actividade predilecta. Ele sentou-se na cadeira do quarto, junto a uma pequena secretária e segurou a cabeça entre as mãos, e ouvi-o chorar. Era uma cena indescritível, aquela besta de mau feitio, a chorar. Vi-o agarrar numa esferográfica e num papel e começar a escrever... Contorcia-se, como se tivesse dores horríveis e consegui-a ouvi-lo gemer. Até fiquei com medo que tivesse a ter um ataque e que como o Camões quisesse salvar o seu génio para a posteridade, mas mal acabou de escrever, pareceu ficar bem. E deitou-se vestido e tudo, apenas atirou com os sapatos para o meio do chão.
Um dia decidi confrontá-lo, pedir-lhe o seu segredo, expliquei-lhe que era o seu biografo. Tratou-me mal pra caramba, dizendo:
-- Como é que um imbecil analfabeto como tu, quer ser meu biografo hein? Cusco do carago! Bisbilhoteiro! Se escreveres alguma mentira a meu respeito, desanco-te com tantas, que de pretenso biografo passas a bombo efectivo!
Suportei aquele trato de cão, apenas por amor à arte! Humilhei-me e supliquei que me explicasse o seu segredo. E um dia, em que o arrastei mais bêbado que eu para sua casa e depois de ele me ter vomitado as calças, presumo eu que mais pra me humilhar do que por bebedeira, ele decidiu contar-me o seu segredo:
-- Anda cá palhaço! -- disse-me ele, enquanto eu o deitava na cama.
-- Sim, diz lá...
Com uma das suas manápulas agarrou-me pelos colarinhos e chegou-me a 5 cms da sua face que trezandava ao bafo do álcool e a cheiro de vomitado.
-- Queres saber o meu segredo imbecil? -- E largou-me antes de eu desmaiar com o cheiro. -- Eu conto-te o meu segredo! Trata-se de uma maldição, de uma maldição tão antiga quanto o mundo... O Nosso Senhor teve esse maldição, eu tenho essa maldição, e sei lá quem mais...
Achei que ele estava tão perdido de bêbado que delirava! Mas antes isso que entrar em como alcoólico e deixei-o falar.camelo morto
-- Olha analfabeto, para escrever bem, é preciso estar disposto a pagar o preço...
-- Que preço? -- perguntei curioso. Mais tarde dei graças a Deus de ser apenas um palhaço imbecil e analfabeto, com pretensões de biografo!
Ele sorriu, mas era um sorriso trocista, quase insultuoso e concluiu antes de adormecer:
-- O preço é estar disposto a suportar todas as dores do mundo...

09 dezembro 2003

Doce Irmã Alma


O avô fazia 90 anos, era um velho lúcido, com uma clareza de espírito invejável, e parecia feliz, eu era o seu bisneto e aos 20 anos, achei que me devia aproveitar da sua experiência e como ele estava bem disposto, decidi perguntar-lhe:
-- Avô... Qual é o seu segredo?
Ele olhou-me com doçura e respondeu:
-- Qual deles, meu filho?
Sorri-lhe.
-- Sim, deves ter muitos avô. Mas só queria saber, o teu segredo de estar feliz, de bem com a vida.
Ele sorriu-me e recostou-se na sua cadeira de baloiço, e perguntou com uma firmeza de voz, que me fez ter um arrepio:
-- Tens paciência pra escutar um pobre velho?
-- Tenho avô. E não penso que seja pobre, tem uma rica experiência de vida! E quanto a velho, isso é apenas uma questão de tempo.
Ele sorriu-me afectuoso, quase grato e começou a contar o seu segredo:
-- O meu segredo então?... Acho que foi a descoberta do amor. Do amor mais despojado, mais intenso, mais arrebatador que já vivi... amor divino!
Fiquei preso na expectativa da revelação. Via no brilhar dos seus olhos agora meio-baços da idade que havia fogo nas palavras. E ele continuou:
-- Sabes, não conheci os meus pais. Sou orfão, não sei bem se por acidente, se por vontade. Nunca me disseram e fizeram bem. Cresci sem essa agonia pelo menos. Desde novo, fui recolhido num orfanato, e conheci muitas pessoas, umas boas, outras más...
Ás vezes parava para tomar fôlego, como se estivesse ofegante de contar o seu segredo, antes que a morte viesse sorrateira apagá-lo de todas as memórias.
-- Como calculas, quem vive num orfanato, não pode dizer verdadeiramente que foi amado. Há sempre uma falha uma carência qualquer... Eu era bom aluno, aprendia bem! Talvez fosse porque isso me trouxesse um carinho adicional, não sei... Talvez fizesse com que outros gostassem de mim...
Deu um suspiro, que na altura não compreendi.
-- Devia ter os meus 16 anos, ou talvez 17... Sabes... Ela era a freira mais doce, de rosto mais belo e angelical que alguma vez vi... Apaixonei-me! Apaixonei-me loucamente... Mas nunca o confessei abertamente a ninguém. Escrevi-lhe poesias românticas que guardava escondidas na minha Bíblia...
Ele entrecortava a narração com sorrisos e olhares no vazio. Percebi que a recordação lhe trazia lembranças agradáveis e não interrompi.
-- Queriam que eu fosse padre... E sentia-me tentado a sê-lo. Servir a Deus! A minha amada fazia o mesmo, e com quanta abnegação e desvelo. Quando estavamos doentes, ou tristes, ela sempre tinha um sorriso, uma festa, um carinho para nós. Ela é um anjo, daqueles que Nosso Senhor ás vezes deixa vir á Terra apenas para tornar as nossas vidas menos fúteis...
Parou e olhou pra as suas próprias m6atilde;os no regaço, e vi-lhe uma lágrima. Ía para dizer alguma coisa, mas ele limpou a lágrima com as costas da mão e continuou:
-- Um dia, parti os braços quando caí de uma escada... Andava a pintar os muros do orfanato e nem sei como... catrapumba! Acho que foi o bom Deus, na sua extrema bondade...
Nunca consegui perceber como alguém pode achar Deus na desgraça, mas o avô estava prestes a ajudar-me a perceber.
-- Fiquei na enfermaria... E quem tive a ventura de ficar de serviço nesse domigo maravilhoso? A irmã Alma! Eu tava na cama sózinho, naquele domingo houve uma excursão, e a irmã Alma ofereceu-se pra ficar comigo. Depois pegou na minha Bíblia, não a pude impedir! E ela... encontrou os meus poemas para ela! Vi-a ler, elogiar os meus poemas... Até declamou alguns na sua voz doce, como a voz dos anjos...E depois ela percebeu... Que todos aqules poemas magníficos, como ela disse... eram todos para ela!
Fez uma pausa longa, num sorriso enorme que percebi era de saudade, apenas saudade... ou talvez mais alguma coisa, mas nem me atrevi a respirar, com medo que se calasse.
-- E sabes o que ela fez? Eu não pude fazer nada... Ela despiu-se... Tinha o corpo mais lindo que eu já vi em toda a minha vida!
Os olhos cintilavam-lhe como duas estrelas. E continuou como se tivesse rejuvenescido:
-- Depois tirou a roupa de cima de mim... Sim, não fiques chocado, mas fizemos amor durante o resto do dia... Foi a melhor coisa que me aconteceu em toda a minha vida! Descobri o amor em toda a sua plenutide! Na entrega mais volutariosa, mais despojada de todas! A irmã Alma fez-me acreditar que Deus existe e que se importa realmente connosco!
Falava de uma maneira exaltada, com entusiasmo, até tive medo que lhe desse um ataque, mas depois ele serenou.
-- Nunca mais a vi... Sei que ela foi destacada para outra missão. E sei que Deus na sua justiça lhe deu o melhor lugar que há no céu. Porque ela merece inteiramente esse lugar. A doce irmã Alma...
E dizendo estas palavras, o seu olhar ficou parado olhando o céu.

O Mestre


sobre amores, desamores, vontades e á vontade...
O Mestre desaparecera. Imaginámos que bandos rivais o tivessem raptado, invejosos da sua sabedoria e que estariam agora a torturá-lo num qualquer pardieiro abandonado. Mas depois de algumas diligências e de cobrar favores consegui descobrir o paradeiro do Mestre. Estava numa praia, e era má época, pois estavamos no Inverno, mas decidi ir ter com ele. Estava receoso, mas ele ao ver-me sorriu e convidou-me a dar uma volta na praia. Estava um vento terrível e apesar da roupa a areia batia nas pernas como canivetes. O Mestre parecia divertir-se com aquilo.
-- Sim, adoro o vento, o cheiro a maresia e esta dor finíssima, aguda, nas pernas!
Pensei que o nosso Mestre endoidara, mas com ele era sempre de esperar revelações abruptas. Por isso decidi puxar por ele:
-- Mestre, alguma razão para vires para aqui?
-- Há.
-- Qual?
-- O medo.
Nunca me apercebera que o Mestre tivesse medo fosse do que fosse.
-- Como assim, Mestre?
O Mestre deu uma gargalhada que rivalizou com a rebentação das ondas, e quase fui tentado a dizer que endoidara mesmo. Mas ele continuou:
-- Todos fugimos da dor. Temos medo de sentir dor. É instintivo! Mas será que queremos ficar-nos pelo instinto? E fugir de alguma coisa acaso é solução? Esta dor fina nas pernas é uma bênção. Não sentes?
-- Não, Mestre... -- disse de repente sem pensar. Achava aquele vento que levantava a areia e ma atirava como chicotes ás pernas através da roupa, era mais uma espécie de tortura. Será que o Mestre sofria de dem6ecirc;ncia senil?
-- Pois... Percebo que para ti seja difícil entender. Não estás preparado. Mas talvez entendas se eu te disser de outra forma: Porque é que quando sofremos um desgosto de amor, ainda assim não dizemos mal do amor, mas procuramos nova tentativa, ou pelo menos ansiamos que da próxima seja diferente, tenhamos sorte?
-- Não sei Mestre.
-- Porque a dor que vem do desamor é boa! Recorda-nos que estamos vivos! Só a dor é real!
-- Como assim?
-- Os anglo-saxões são lutadores. Eles afirmam na sua filosofia de vida o poder soberano da vontade, são sobreviventes! Procuram ignorar a dor quando ela vem e julgam que isso lhe traz vantagem! Por isso são 'frios' quase insensíveis e as suas relações amorosas frágeis e menos intensas. E quando são intensas, são doentias. Mas só a dor é real!
Não conseguia acompanhar o Mestre, mas ele parecia entusiasmado e deixei-o continuar.
-- Os amores, os desamores, tudo isso apenas trás dor! Mesmo quando encontramos alguém que amamos muito e nos correponde, vem a dor do medo de a perder! Quando amamos quem não corresponde, fica a dor de não ser correspondido. Mas afinal o que permanece? O que é constante? O que atravessa a nossa vida de uma ponta á outra? A dor! A dor é a essência da vida!
O Mestre olhou para mim, e deve ter visto o espanto estampado na minha face, por isso quase concluiu:
-- Essa é a revelação da areia a bater-te nas pernas!
Pensei que sim, talvez fosse, sim agora percebia! Sabia bem sim, aquela dorzinha aguda nas pernas, como alfinetadas, eram a prova de que eu estava vivo!
Sorri para o Mestre, podia aprender, agora estava á vontade.

05 dezembro 2003

Theo Logias


O império atravessava dias negros, e o Imperador receoso de que o cosmos desmorona-se procurava conselhos em todos os pontos da galáxia! Foi assim que ouvimos falar de Theo Logias, um homem que vivia numa velha estação espacial, convertida num rádio-farol junto á cintura de asteróides do Sistema Solar XV24. Era um local perigoso e raramente alguém ía até lá. Também não se pusera um rádio-farol ali apenas para decorar!
Corria a fama de que Theo Logias falava com o Deus Criador, o que tivera a ideia do Universo e por conseguinte nos originara a todos. O Imperador pensou que para os tempos negros que se atravessavam era um recurso que não se podia desperdiçar. Ordenou que o trouxessem, se o homem quisesse vir, porque queria saber o que devia fazer para evitar que tudo caísse nas trevas. O General Vladimir foi com as suas naves, e não voltou. Soubemos que se despedaçara num dos muitos asteróides á volta da estação espacial. Depois foi o Embaixador Ritto, também não voltou, um asteróide do tamanho de um punho bateu num dos depósitos de oxigénio e este explodiu. Diziam que tinham sido insolentes com Theo Logias, e que Deus os castigara. Não me admirava que tivessem sido insolentes, mas não acreditava que Deus os tivesse matado.
Ofereci-me para ir, e o Imperador dispensou-me das minhas funções no palácio.
O Sistema Solar XV24 fica longe de tudo e era um um sistema solar sem graça, como se fosse uma coisa simples e discreta no meio do cosmos, sem chamar á atenção. Pareceu-lhe adequado que assim fosse. Pediu permissão para aportar na estação espacial, onde estava instalado o rádio-farol.
-- Para que quer aportar? -- perguntaram de lá.
-- Pretendo falar com o Sr. Theo Logias.
-- E quem pretende falar com ele?
-- Um homem, apenas um homem...
Houve um longo silêncio, e depois a voz no rádio disse:
-- Muito bem, pode aportar. Porto Z01... e tenha cuidado com os malditos asteróides! É que nas operações de aportagem não podemos ligar os lasers para os destruir, estão por vossa conta!
-- Ok! Obrigado.
Chegámos até ao Porto Z01 naquelas estação espacial de 300kms de comprimento. Era um mundo em miniatura, e devia ter não mais de 2 milhões de habitantes. Era uma espécie de comunidade, há semelhança dos antigos mosteiros na Terra. Só que aqui vivam ambos os sexos. Diziam todos que o seu mentor era Theo Logias, mas nunca o tinham feito líder de coisa nenhuma. Teoricamente o Sistema Solar XV24 era súbdito do Imperador, mas ali, naquele longínquo lugar do espaço, o Sistema Solar era uma comunidade autónoma. Muito autónoma, sem governador ou comandante.
Um responsável do porto aproximou-se dele:
-- Bem-vindo!
-- Obrigado. Gostava de falar com o Sr. Theo Logias, seria possível?
O homem riu-se e encaminhou-o:
-- Ao menos o Sr, não exige falar com Theo Logias! Pergunta se é possível... Muito bem. O que faz?
-- Eu? Procuro o meu lugar no mundo... Mas no entretanto, trabalho para o Imperador...
O homem sorriu:
-- Não há muita gente á procura do seu lugar no mundo, acham que já têm um lugar e acomodam-se. Seja quem for Senhor, gosto da sua atitude e desejo que encontre o seu lugar.
-- Obrigado.
Tínhamos avançado até um pequeno veículo onde fui convidado a entrar, e onde ao fim de cerca de 15 minutos parámos no que me pareceu uma área residencial.
-- Theo Logias espera-o. Bata nessa porta... -- disse apontando uma porta de madeira. E foi-se embora.
Ficou a olhar a porta, há quanto tempo não via uma porta de madeira. Gostou daquela porta e bateu, como o homem dissera e ao bater a porta abriu-se... Estivera sempre aberta. Lá dentro havia uma luz suave, e havia um cheiro agradável, familiar, mas que não conseguiu definir muito bem.
Um homem desenvolto de cabelos brancos bem aparados sorria-lhe sentado a uma mesa simples.
-- Entre, não tenha receio. Sou Theo Logias e o Sr?
-- Obrigado por me receber, espero não incomodar...
-- Ora, uma visita nunca é um incómodo é um prazer!
-- Não sei bem se a minha presença deva ser encarada como uma visita...
-- Sim, eu sei, o Imperador mandou-o.
-- Não Sr. Theo, eu ofereci-me para vir.
-- Ainda não me disse o seu nome...
Fiquei pensativo, se o meu nome teria importância, se eu faria alguma diferença no caldeirão gigantesco do Universo.
-- Abakuk. Mas o meu nome não tem importância. Se calhar nenhum de nós tem importância...
Theo Logias sorriu-me:
-- De facto o Imperador mandou o homem certo!
-- Já lhe disse que o Imperador não me mandou, fui eu que me ofereci.
-- Mesmo assim. Sabe por que morreram os outros que vieram antes de si?
-- Há quem diga que Deus os matou, porque foram insolentes consigo.
O homem deu uma gargalhada e perguntou:
-- E o que acha Abakuk?
-- Acho que Deus teria muita gente para matar, se quisesse acabar com a insolência.
O homem sorriu e disse:
-- Tem razão amigo, tem razão. Não, não foi Deus quem os matou. Foram eles que na sua arrogância se mataram. Excesso de confiança! Aqui em XV24 isso é quase sempre mortal. Os asteróides não perdoam! Não foi por nada que puseram aqui o rádio-farol. Os que vieram antes de si, estavam cheios de pressa. Exigentes, arrogantes. Foi pena...
-- Talvez estivessem apenas com pressa... -- arrisquei.
-- Não amigo Abakuk. Queriam que eu lhes desse uma reputação. Que fizesse deles uns heróis aos olhos de alguém. Você não veio por isso.
-- Pois não...
-- Porque veio amigo Abakuk?
-- Dizem que fala com Deus...
-- Sim, e quer que eu fale com Ele, por si?
Baixei a cabeça, e depois olhei-o nos olhos:
-- Por mim? Não sou assim tão importante Sr. Theo, mas gostaria de descobrir se há um sentido nas coisas percebe? Se a vida tem sentido, se não é apenas um desperdício, um acaso, um acontecimento fortuito, como o nascer e morrer das estrelas, como se fosse um produto secundário, tal como os planetas...
-- Compreendo... E o que lhe parece?
-- Eu gosto de viver. Mesmo que o Império se torne cada vez mais negro, acho que viver ainda vale a pena. Preferia que fosse melhor, que fosse diferente, mas...
-- Quere saber o que optar, que caminho seguir, que escolhas, não é?
-- Acho que é isso, sim. Mas estou disposto a considerar outras coisas...
-- Incluindo a resposta para o Imperador?
-- Também isso, sim.
-- Apesar de tudo amigo, no fim o que conta mesmo são as nossas opções. Eu limito-me a transmitir o que Deus me transmite, não sou eu o originador da mensagem. Deus diz-nos as coisas e depois deixa que façamos as nossas opções, mesmo quando nos diz o que devíamos fazer, entende?
-- Creio que entendo...
-- Mas uma coisa é certa, Deus sempre acaba conseguindo o seu objectivo. Não há que ter medo, apenas confiar. Confia Nele?
Sorri:
-- Isso significa confiar em si, não é?
-- Um pouco. Mas posso dar-lhe um selo de garantia, de que o que digo vem Dele.
-- Como?
-- Digo-lhe que depois de lhe dizer a mensagem que deve transmitir de viva voz ao Imperador, passará a cintura de asteróides sem que mal nenhum lhe aconteça. É suficiente?
Sorri de novo:
-- Pelo menos garante-me que saio daqui com vida ao contrário dos outros. Mas também a minha vida não é o importante...
-- Tem razão. Mas ás vezes dizemos as coisas, sem percebermos bem a amplitude do que dizemos.
Estava a demorar ali. A conversa parecia não levar a lado nenhum, apenas andavamos em círculos e continuava sem nenhuma resposta. Talvez me tivesse enganado...
-- Podeis dizer-me a mensagem que devo transmitir ao Imperador?
-- Claro! A mensagem é esta e terá que ser você a dizê-la de viva voz, em plena sala do trono, perante todos...
Sentiu medo, sem perceber bem ainda porquê. E Theo Logias repetia:
-- "Abdica do trono em meu favor! É a única maneira de salvares o Império e a tua vida."
Um arrepio gelado percorreu todo o seu corpo.
-- Percebeste? -- perguntou Theo Logias segurando-lhe na mão.
-- Percebi... -- murmurei.
-- Agora vai...E confia!
Não se lembrava de como saíra da estação espacial, mas diziam os seus homens que os asteróides pareciam fugir á sua passagem. Na nave principal em que agora regressavam, pensava nas suas opções.
O Universo era um malho gigantesco a bater na sua cabeça.