PANSPERMIA
Ele fora o último a chegar. Já deviam estar ali uma vintena de pessoas que se aglomeravam em pequenos grupos. Primeiro agrupavam-se por idiomas e depois cindiam-se em pequenos grupos que tentavam em vão compreender o que lhes acontecera. Era mais do que óbvio que nenhum deles tinha nenhuma explicação plenamente satisfatória.Felizmente percebia a maioria das línguas faladas ali e foi fácil fazer-se entender:
-- Presumo que igual a mim, não sabem porque estão aqui, não é?
Os diversos grupos calaram-se e olharam para ele, depois um um homenzinho baixinho e careca com o rosto afogueado dirigiu-se a ele numa espécie de inglês e fortemente furioso declarou:
-- É você seu imbecil, seu idiota! Sabe que me fez perder um negócio importantíssimo? Sabe seu idiota?! Vou processá-lo! De tal forma que se vai arrepender um milhão de vezes de me ter arruinado um negócio fantástico! Vou reduzi-lo a pó...
-- Acalme-se... Afinal ainda está vivo, podia nem ter essa sorte...
O homenzinho acalmou-se e compôs os óculos que lhe tinham tombado com a exaltação. Ele dirigiu-se a uma moça embrulhada numa toalha e com o cabelo completamente molhado.
-- Estava a tomar banho ou a secar-se quando aqui veio parar?
A moça olhou para ele algo constrangida e disse:
-- Tinha acabado de tomara banho e agarrava a toalha de banho quando me vi aqui...
-- E ninguém teve ainda decência de lhe emprestar roupa? Pegue, vista o meu casaco sempre fica mais confortável... Use a toalha como vestido...
Os homens em volta afastaram-se, mais por vergonha de não se terem lembrado do que por pudor. Um jovem aproximou-se e tirou a sua camisola comprida.
-- Talvez seja melhor usar isto...
-- Obrigado. – disse ele e entregou a camisola à moça.
Um senhor de meia idade aproximou-se dele e perguntou-lhe:
-- Tem alguma noção do que nos aconteceu?
-- Sim, tenho. Mas é bom esclarecer que não sou o responsável por isto...
As pessoas começaram a juntar-se a ele.
-- Então? – voltou a perguntar o homem de meia idade.
-- Não sei se já ouviram falar no princípio da incerteza de Heisenberg?
Alguns abanaram a cabeça em sinal afirmativo. Ele decidiu esclarecer:
-- Heisenberg foi um físico contemporâneo de Einstein. Ele postulou que é impossível saber o exacto lugar de uma partícula num determinado tempo e tudo o que podemos determinar são as probabilidades de uma dada partícula estar num dado lugar, num dado tempo. Einstein detestava esta ideia e tentou contrariá-la até ao último dia da sua vida sem conseguir. Mas foi a partir dela que se desenvolveu a mecânica quântica, e que foi possível termos computadores.
-- E que é que isso tem que ver com a nossa situação? – perguntou alguém.
-- Bem, talvez não tenha nada, mas talvez tenha... Seguindo o princípio da incerteza de Heisenberg há a possibilidade remota de as partículas que nos constituem estar aqui e no momento seguinte sabe-se lá onde!
-- Você é doido! – disse alguém.
-- É uma explicação... – disse outro – E até tem o mérito de ser científica!
-- Pode lá ser! – insistiu outra vez alguém.
-- Einstein também achava que tal ideia de Heisenberg era quase sacrílega. Ele disse que ‘Deus não brinca aos dados’. Portanto posso compreender a vossa incredulidade, o vosso espanto. Tentei encontrar uma explicação razoável, mas estou de mente aberta a outras...
Todos ficaram calados, e depois alguém perguntou:
-- Mas como pode ser? Então e porque não aconteceu com as pessoas que estavam ao meu lado, eu ía no metro a caminho do emprego e de repente pareceu que a luz faltou por um milionésimo de segundo e vi-me aqui! Porque não foi toda a carruagem trasportada para aqui com todos os passageiros?
-- Isso, -- disse ele – eu já não lhe sei explicar! Mas há uma função matemática que permite o caso da singularidade, é o Dirac!
-- Bem pensado! – disse alguém.
O homenzinho baixinho e careca, agora mais calmo decidiu voltar à carga:
-- Ó sabichão e como é que isso nos faz voltar para casa?
Ele riu-se:
-- Não faz!
O homem ficou lívido e repetiu:
-- Não faz?
-- Não. Acho que devíamos aceitar a prespectiva de que aqui é o nosso novo lar, o nosso novo mundo...
A moça a quem ele emprestara o casaco, agora vestida com a camisola do outro jovem e com a toalha a fazer de saia aproximou-se dele:
-- Acha que vamos mesmo ficar por aqui?
-- Não posso saber. Mas acho que devíamos encarar essa perspectiva. Devíamos dar-nos por felizes de estarmos vivos! Imaginem as probabilidades de isto acontecer! Acho que são maiores do que a quantidade de átmos no Universo!
-- Talvez seja um milagre de Deus! – disse outro.
-- Ou um programa televisivo de apanhados!
E ele lembrou:
-- Ela estava em casa a tomar banho, não creio que nenhum programa de apanhados pudesse trazê-la para aqui. – e virando-se para ela – Estamos nalguma programa de ‘apanhados’?
A moça começou a chorar e ele abraçou-a.
-- Acalme-se, vai ver que ainda nos havemos de sair muito bem...
A notícia espalhou-se como um fogo aceso numa estepe abrasada. Estavam todos ali, como se tivessem acabado de sair da arca de Noé. Era um Mundo Novo e não tinham a mínima pista de que mundo era, como era. Tudo para descobrir. Descobrirem-se acima de tudo, perceberem o que eram capazes de fazer ou de originar. E ele voltou a falar:
-- Já que temos um mundo novo por nossa conta, acho que seria razoável, sensato, inteligente, não fazer deste uma cópia do outro.Devíamos tentar pelo menos, não repetir os erros que cometemos no outro...
-- Ai sim? Querem lá ver que vais ser tu quem nos vai governar não?
-- Eu não. – disse ele – Hão-de descobrir maneira de se governarem.
E ele partiu numa direcção qualquer. Todas eram boas, ou más.
O homem de meia idade seguiu-o, e a moça e o jovem.
O homem de meia idade perguntou-lhe:
-- Não se importa que vá consigo?
-- Claro que não! – E sorriu.
-- Sabe... – disse o homem – Talvez seja assim que a vida se espalhe pelo Universo!
Ele sorriu:
-- Não sei, mas é uma hipótese...
A moça aproximou-se:
-- Serão os nossos filhos a povoar este mundo
Ele sorriu de novo:
-- É outra hipótese.
O jovem que dera a camisola à moça como se tivesse recordado de algo gritou:
-- Panspermia!
16 maio 2005
09 fevereiro 2005
O Homem dos Torpedos
-- Capitão! A escotilha não abre...
-- Estamos sepultados!
-- Ah! Ah! Ah! Agora é uma boa ocasião para testarem a vossa fé! Peçam a Deus que vos salve! Ou então os que acreditam no poder da mente, mentalizem-se de que vão sair desta! Espíto positivo! -- disse o homem dos torpedos.
Sempre me pareceu ser ele a encarnação do Diabo, e agora que estavamos todos prisioneiros de um submarino sem propulsão aquelas palavras deram-me vontade de o esganar imediatamente.
-- Podíamos fazer algo prático! Metíamos aqui o homem dos torpedos dentro de um tubo e disparavamos! Tinhamos duas vantagens: Era menos um a consumir oxigénio e livravamo-nos de ouvir os seus disparates... -- disse o radio telegrafista.
-- Calma! -- recomendou o capitão -- Não é ainda a altura para desanimar...
-- Pois não capitão! -- disse o homem dos torpedos -- Pelo menos para quem acredita na ressurreição. Ah! Ah! Ah!
Acho que o Diabo em pessoa se candidatava a um linchamento, mas todos ficaram quietos.
-- Radio telegrafista, consegues emitir ou receber alguma coisa?
-- Não capitão, só estática...
-- Acho que o homem dos torpedos faz interferencia... -- disse alguém.
-- Medricas! Homens sem fé, nem fibra! -- rosnou o homem dos torpedos -- É mais fácil culparem alguém do que enfrentar a vossa morte não é? Mas vede que isso não vos adianta muito...
E para irritar todo o mundo, pos-se a cantar uma canção nazi que dizia a certa altura: "O futuro pertence-me!"
-- Puxa capitão! Sei que a situação como é, já é lixada, mas com este tipo é uma espécie de tortura vinda do inferno...
-- Mas um inferno gelado! Ah! Ah! Ah! -- riu o homem dos torpedos.
-- O Sr. se não é capaz de dizer nada animador ou que contribua para sairmos daqui, por favor, cale-se, certo? -- disse o capitão ao homem dos torpedos.
-- Dá licença que fale meu capitão? -- pediu o homem dos torpedos.
-- Até agora não precisou de licença... Fale!
-- Temos torpedos suficientes para todos os membros da tripulação e os lança-torpedos estão operacionais. Proponho que a tripulação se meta dentro dos torpedos e sejam disparados em direcção á superfície.
-- É viável? -- perguntou o capitão.
-- Ser é, mas não é uma perspectiva que nos encha de entusiasmo... -- disse o homem das máquinas. E continuando: -- Mas resta um problema. Alguém tem de ficar a disparar os torpedos!
-- Ok! Eu fico. -- disse o capitão.
-- Permita-me que fale meu capitão. -- pediu de novo o homem dos torpedos.
-- Diga...
-- Fico eu! O meu capitão não percebe nada de disparar torpedos e ainda matava alguém! Por isso fico eu. E se não me deixarem ficar, não ajudo ninguém a disparar os torpedos!
Foi a primeira vez que achei que até o Diabo afinal podia ser boa pessoa, mas ele acrescentou:
-- Tenho um último pedido...
Todos se entre olharam.
-- Diga! -- pediu o capitão.
E com um riso trocista de pleno gozo:
-- Quero que prometam que posso ficar com as vossas almas! Ah! Ah! Ah!
01 janeiro 2005
A voz dentro da cabeça
Lembro-me que me sentei na borda da cama; que juntei as mãos como há muito não o fazia. Naquele momento pareceu-me que seria adequado. Queria falar com Deus.
Dito assim pode parecer uma ocisa natural, que sempre o fiz, como aqueles que há noite antes de deitar, fazem a sua oração. Mas não. Há muito tempo quenão me disponha a falar com Deus. Falar mesmo. Chamam-lhe oração, mas eu não queria isso. Queria perguntar-lhe umas quantas coisas que me perturbavam e queria respostas.
Porque havia Deus de mas dar? Para provar que sou também seu filho e que Ele não é parcial.
Tentei com todas as minhas forças, mas Ele não respondeu. Presumo que seja uma pessoa ocupada. Mas estou mais convencido que pasmou de tédio, pois como pode entreter a sua mente gigantesca? A menos que esteja a criar algo novo,não tem como. Ainda por cima dizem que Ele está num Sábado, ou seja no seu descanso. Deve ser muito aborrecido o seu descanso, pois como Ele já sabe tudo, não pode entreter a mente com algum jogo, ou quebra-cabeças, como nós humanos.
Acho que Deus adormeceu e se esqueceu de nós. Embora sendo Ele auto-suficente,não deve precisar do sono para nada, o que acrescenta mais aborrecimento ao seu tédio.
Entretido nestes pensmanetos soou uma voz dentro da minha cabeça a rir-se e que dizia:
-- És muito engraçado! Então aborreço-me de tédio, não é?
-- Deus?... -- Perguntei, nem sei se em voz alta, tal foi o meu espanto!
-- Ora, quem esperavas? Mas isso nem é realmente importante...
-- Peço desculpa,não queria parecer i nsolente... -- Procurei eu amenizar a coisa...
-- Ora! Deixa lá, se me preocupasse a sério com isso, teria muitos insolentes para me entreter!
Concordei intimamente, mas não o disse e a voz continuou:
-- Sabes, é aborrecido que me estejam sempre a perguntar as mesmas coisas...
-- Presumo, que deva ser por não terem tido respostas satisfatórias...
-- Engraçadinho... Diz-me lá, por exemplo, o que gostarias tu de me perguntar...
-- Porque há sofrimento no mundo?
-- Eu não digo! E porque havia eu de responder a essa questão? Acaso se te explicar acaba o teu? É obviamente uma pergunta para me provocar! É estar a dizer: Eu acho que és o culpado, qual é o teu alibi? Ora francamente, isso é... como é que dizem agora? Ah já sei! Intelectualmente desonesto!
-- Deus... -- Interrompi -- Peço desculpa, acho que efectivamente estais certo, o que me preocupa mesmo, é porque é que vou morrer.
-- Que coisa mais mórbida...
-- Bem, morrer é uma certeza!
-- Como sabes?! Já morreste?
-- Eu presumo que não, mas quem morreu não voltou cá para nos informar, pelo que penso que...
-- Era preciso voltar alguém atrás e informar? Olha lá, quando sais de um acidente, pensas em voltar atrás? Ou queres ver-te livre dele? Para mais, se morres, quem te garante que depois de morto, pensas da mesma maneira que agora?
-- É um bom ponto...
-- Pois claro que é!
-- ...mas devo confessar que... quer dizer não ter assim uma esperança firme...
-- É assustador?
-- Sim, é isso! -- Concordei.
-- Mas olha que não é por ser assustador que fazem um mundo melhor! Suponhamos que esta vida é tudo o que há! Não achas que deviam ter mais juízo, ser mais amorosos uns para com os outros, mais preocupados em viver em harmonia com a natureza, com uma melhor qualidade de vida do que o que fazem?
-- Sim, mas...
-- Mas acham-se no direito de me pedir contas!
Percebi o ponto. De facto, se isto é tudo o que temos possibilidade de conhecer, se a vida é certamente curta e as possibilidades de sofrimento e miséria são tantas, era de esperar que como criaturas inteligentes, aproveitassemos o nosso tempo, para que este período que se nos oferece, pudesse ser o melhor possível e contudo, se já é amargo, convertemo-lo verdadeiramente em absinto.
Queria falar mais um pouco, talvez perguntar-lhe como podia participar em fazer um mundo melhor e mais fraterno, mas a voz já não me falava dentro da cabeça...
(escrito em 29/7/09)
Lembro-me que me sentei na borda da cama; que juntei as mãos como há muito não o fazia. Naquele momento pareceu-me que seria adequado. Queria falar com Deus.
Dito assim pode parecer uma ocisa natural, que sempre o fiz, como aqueles que há noite antes de deitar, fazem a sua oração. Mas não. Há muito tempo quenão me disponha a falar com Deus. Falar mesmo. Chamam-lhe oração, mas eu não queria isso. Queria perguntar-lhe umas quantas coisas que me perturbavam e queria respostas.
Porque havia Deus de mas dar? Para provar que sou também seu filho e que Ele não é parcial.
Tentei com todas as minhas forças, mas Ele não respondeu. Presumo que seja uma pessoa ocupada. Mas estou mais convencido que pasmou de tédio, pois como pode entreter a sua mente gigantesca? A menos que esteja a criar algo novo,não tem como. Ainda por cima dizem que Ele está num Sábado, ou seja no seu descanso. Deve ser muito aborrecido o seu descanso, pois como Ele já sabe tudo, não pode entreter a mente com algum jogo, ou quebra-cabeças, como nós humanos.
Acho que Deus adormeceu e se esqueceu de nós. Embora sendo Ele auto-suficente,não deve precisar do sono para nada, o que acrescenta mais aborrecimento ao seu tédio.
Entretido nestes pensmanetos soou uma voz dentro da minha cabeça a rir-se e que dizia:
-- És muito engraçado! Então aborreço-me de tédio, não é?
-- Deus?... -- Perguntei, nem sei se em voz alta, tal foi o meu espanto!
-- Ora, quem esperavas? Mas isso nem é realmente importante...
-- Peço desculpa,não queria parecer i nsolente... -- Procurei eu amenizar a coisa...
-- Ora! Deixa lá, se me preocupasse a sério com isso, teria muitos insolentes para me entreter!
Concordei intimamente, mas não o disse e a voz continuou:
-- Sabes, é aborrecido que me estejam sempre a perguntar as mesmas coisas...
-- Presumo, que deva ser por não terem tido respostas satisfatórias...
-- Engraçadinho... Diz-me lá, por exemplo, o que gostarias tu de me perguntar...
-- Porque há sofrimento no mundo?
-- Eu não digo! E porque havia eu de responder a essa questão? Acaso se te explicar acaba o teu? É obviamente uma pergunta para me provocar! É estar a dizer: Eu acho que és o culpado, qual é o teu alibi? Ora francamente, isso é... como é que dizem agora? Ah já sei! Intelectualmente desonesto!
-- Deus... -- Interrompi -- Peço desculpa, acho que efectivamente estais certo, o que me preocupa mesmo, é porque é que vou morrer.
-- Que coisa mais mórbida...
-- Bem, morrer é uma certeza!
-- Como sabes?! Já morreste?
-- Eu presumo que não, mas quem morreu não voltou cá para nos informar, pelo que penso que...
-- Era preciso voltar alguém atrás e informar? Olha lá, quando sais de um acidente, pensas em voltar atrás? Ou queres ver-te livre dele? Para mais, se morres, quem te garante que depois de morto, pensas da mesma maneira que agora?
-- É um bom ponto...
-- Pois claro que é!
-- ...mas devo confessar que... quer dizer não ter assim uma esperança firme...
-- É assustador?
-- Sim, é isso! -- Concordei.
-- Mas olha que não é por ser assustador que fazem um mundo melhor! Suponhamos que esta vida é tudo o que há! Não achas que deviam ter mais juízo, ser mais amorosos uns para com os outros, mais preocupados em viver em harmonia com a natureza, com uma melhor qualidade de vida do que o que fazem?
-- Sim, mas...
-- Mas acham-se no direito de me pedir contas!
Percebi o ponto. De facto, se isto é tudo o que temos possibilidade de conhecer, se a vida é certamente curta e as possibilidades de sofrimento e miséria são tantas, era de esperar que como criaturas inteligentes, aproveitassemos o nosso tempo, para que este período que se nos oferece, pudesse ser o melhor possível e contudo, se já é amargo, convertemo-lo verdadeiramente em absinto.
Queria falar mais um pouco, talvez perguntar-lhe como podia participar em fazer um mundo melhor e mais fraterno, mas a voz já não me falava dentro da cabeça...
(escrito em 29/7/09)
08 dezembro 2004
Perdoem-me
Já não me lembro de ti muito bem. Quer dizer que estás a morrer. As memórias de ti começam a ser qualquer coisa indistinta, uma névoa. Lamento. Porque te amei, como nunca amei mais ninguém. É triste quando morre a pessoa que amamos, mesmo que seja só nas nossas memórias.
Esquecer é apenas uma das características de ser moribundo. Talvez não sejas tu que morres quando te esqueço, mas eu que morro, porque sou eu que esqueço. Gostava tanto de ser eterno!
A vida são memórias, coisas frágeis. A nossa vida é o quê?
E quando dizemos que amamos, a que nos referimos efectivamente? Às memórias a que queremos ser fiéis? Trair é então não dar valor às memórias que temos? Menosprezá-las? E sendo as memórias a nossa vida, ao trair, menosprezamos a vida?
Meu Deus! É tão frágil ser humano!
E adulterar memórias? Conferir-lhes um sabor doce ou amargo? É trair também?
Perdoem-me a vontade de adoçar todas as memórias... Mas já nem sei bem o que recordo! Se a minha memória se a cópia que fiz delas, com os retoques necessários. Às vezes fico confuso... Penso que lembro uma coisa, e o que lembro não encaixa com as memórias dos outros, às vezes nem com as outras memórias que tenho. Talvez, à custa de procurar, de recordar, eu as tenha alterado em cada recordação. Necessito delas quando escrevo. Perdoem-me que me confunda em todas as palavras... Sou um mero viajante e andei muitos milhares de quilómetros. É natural que na velhice confunda os lugares e as pessoas. Que na ausência de memórias as invente e por isso julgue que sou uma pessoa, e talvez não seja. Seja apenas uma amálgama, uma baralhada de memórias em atropelo.
Perdoem-me a minha vida ser uma colagem!
Mas esta vida é mesmo a minha, metade inventada, metade por inventar. E até aí há transgressão! Quem inventa memórias cria a sua vida! É um criador a usurpar o Grande de a fazer. Somos nós a tomarmos iniciativas, decisões por conta própria. E depois, não criamos nada é apenas uma fantasia.
É tão frágil ser.
As coisas não são o que parecem, são antes as coisas que julgamos parecerem. E não me importo nada com isso. Porque tudo é mentira!
Perdoem-me que minta!
27 outubro 2004
O Conservador
Livros! São eles a razão da minha existência. Neles resiste a lembrança, permanece a memória de coisas feitas. Não guardo livros. Não sou bibliotecário. Conservo livros. Livros sobre o que é tangível nas nossas curtas vidas.
Os grandes feitos da história são momentos pontuais e sempre sujeitos a interpretações diversas. Os pequenos factos, são isso mesmo: Factos! Como pequenos tijolos que fazem a parede toda.
Eu guardo os pequenos factos da história de um povo. Aquilo que se torna a pátria transmitida de avós para os netos e mais além.
Nos livros que guardo estão implícitas as crises pessoais e nacionais. Os sacrifícios de um ou de vários.
Dramas pessoais, de quando por exemplo a doença era grave e na ausência de Sistema de Saúde ou de Assistência Social era com património que se combatia o mal. Não era menos combate que uma batalha travada por heróis, mas era também a pátria que estava em jogo, passando de mãos.
Tenho diante de mim nomes dos que hipotecaram prédios, alguns por mais de uma vez e fico pensando no esforço e nos dramas por trás destes registos. Seriam dívidas de jogo? Negócios que correram mal? Doença? Talvez as garras do alcoolismo a estender as suas mãos devoradoras. Fome devido à guerra? Crises económicas severas que obrigavam a largar mão do que tinha não apenas valor patrimonial mas emocional, herança dos antigos? Não sei! Apenas posso supor.
Nas transmissões de pais para filhos, alguns menores, vejo a leveza de existir e ao meso tempo essa aposta na continuidade da vida ou do nome da família. E nota-se às vezes a generosidade expressa em favor dos desfavorecidos, quando orfãos herdavam um pedaço de terra. E talvez estejam aqui também as desavenças nas partilhas, agora resolvidas a bem ou a mal.
Estão também aqui presentes os que partiram para outras terras sob a forma de um registo na ausência, ou a favor de alguém em parte incerta! Terá ido para o Brasil e sabe Deus onde estará agora, ou se alguma vez regressou, ou soube que tinha um quinhão neste canto à beira mar plantado.
Penso nisso, nas histórias por trás destes registos tão formais. Convenço-me de que a única coisa que permanece é o pó. O pó que ora cobre os livros, ora somos nós em forma de gente, por um tempo.
Não, também não sou historiador, nem estou na Torre do Tombo. Tenho uma torre só para mim.
Sou Conservador do Registo Predial.
09 outubro 2004
Chegou a minha hora!
-- Doutor, eu pressinto a morte!
-- Como assim?
Era um dos pacientes mais estranhos que tivera. Dizia ter premonições, saber quando uma pessoa ía morrer. Eu achava que ele tinha um problema em lidar com a morte, e aquela era apenas uma forma da sua psique lidar com a consciência da morte.
-- Sei quando uma pessoa vai morrer Dr.!
-- Já me contou isso várias vezes, mas repare, a morte é uma certeza tão grande que pode tratar-se apenas de coincidências, ou no extremo dos casos uma hipersensibilidade...
-- Não Dr, naõ é nada dessas tretas! Juro-lhe!
-- Ok. Eu acredito em si. Mas diga-me, como isso o afecta?
-- Não sei o que fazer Dr.! Devo avisar a pessoa ou não? Que raio de coisa devo fazer?
-- Não faça nada. Haja como se não tivesse esse poder.
O paciente riu-se.
-- Dr. todos nós temos o nosso dom! O do bom Dr é esse de lidar com pessoas que sofrem dos miolos como eu.
-- Tenha calma. Mas o que quer dizer com isso?
-- Sei lá o que quero dizer! Raios me partama, mais as suas malditas perguntas! Até parece que eu é que tenho o dom de resolver a coisa! Dr. meta na cabeça que eu não pedi este poder. Raios!
-- Ok, ok eu entendo isso...
-- Não entende nada Dr! Não percebe patavina do que se passa comigo, mas aprecio o esforço de me tentar ajudar a lidar com isto, mesmo na sua ignorância. Mas vamos pensar num situação hipotética, podemos?
-- Porque não?
-- Raios Dr, tá sempre a fazer perguntas! Será que não é capaz de dar uma resposta, sem ser na forma de uma perguntar?
Ele sentou-se na borda do sofáe pôs os cotovelos nos joelhos e olhou-me no olhos.
-- Vamos supor que eu sei que a próxima morte é o Dr. Gostava que eu lhe dissesse?
Parei a pensar, olhando para ele. Era óbvio que se tratava de uma manipulação. Qualquer resposta que lhe desse ir-me-ía envolver na sua fantasia. Mas não responder era negar acreditar nele e portanto quebrar a relação de confiança mútua. Via-me numa situação difícil.
-- Está muito pensativo Dr. Eu facilito-lhe a resposta! Iria querer saber. Sabe porquê?
-- Explica-me.
Ele sorriu, pareceu-me que lhe agradava a ideia de me poder explicar alguma coisa.
-- Em primeiro lugar, porque é um homem inteligente. Mesmo quenão acreditasse no que eu lhe dissesse, era uma informação preciosa. Segundo, mesmo não acreditando como diz o ditado: "Caldos de galinha e cautelas, nunca fizeram mal a ninguém!" Por isso mesmo sem acreditar, mesmo achando que sou um gajo completamente transtornado por um qualquer trauma de infância escutaria. Terceiro, eu pago-lhe pra me ouvir, portanto teria de ouvir!
Depois riu-se.
-- Consegue ter alguma premonição de morte neste momento?
Riu outravez. Depois calou-se. Fez um ar sério.
-- Diga-me Dr. acha que sou um tipo inteligente?
-- Sem dúvida.
-- E não acha que sabia que se contasse isto, achariam que eu não estava bom da cabeça?
-- Presumo que sim... -- mas não conseguia perceber onde ele queria levar o raciocínio.
-- Pois é Dr. tenho estas premonições há anos e nunca visitei nenhum psicologo por causa disso, porque havia de fazê-lo logo agora? Não se perguntou isso?
-- Achei que há sempre um tempo certo, para resolvermos os nossos problemas. Acho que você achou que este era o tempo certo.
-- Certo Dr!
Riu-se outra vez.
-- E sabe por que é agora o meu tem certo? Sabe porque desejava tanto que o Dr me provasse que estou doido? Ficaria feliz se me internasse Dr!
Eu percebi então e ele concluiu:
-- Chegou a minha hora Dr!
01 setembro 2004
P.E.I.D.O.
-- Bem vindos meus amigos a este espaço radiofónico de divulgação científica! Mais uma vez caros amigos, temos connosco o estimado Prof. Nero! É um prazer tê-lo de novo aqui Prof. Nero. E deixe-me dizer-lhe que não consigo sequer dizer o nome do seu invento. Ah Ah Ah!
-- Está bem amigo eu digo por você. Trata-se do PEIDO.
-- Ah Ah Ah Prof Nero! O senhor tem um fenomenal senso de humor além de tudo o mais. Mas diga-nos professor, isso está relacionado com o dito cujo?
-- Exactamente assim é.
-- Eh Eh Eh! Então isso é o quê?
-- PEIDO são as iniciais de Percursor Enzimático Inibidor de Odor. Trocado por miúdos significa que o dito cujo fica sem cheiro.
-- Fenomenal Prof Nero! Quer dizer que se acabaram de uma vez por todas com aqueles venenosos que matam uma pessoa a 30 metros de distância...
-- Que eu saiba nunca mataram ninguém...
-- Ah Ah Ah!
-- Mas de certeza que se tornarão menos incomodativos! Mas não ficamos por aqui...
-- Não Prof? Quer dizer que há mais?
-- Sim, no meu laboratório nunca estamos satisfeitos, temos sempre outra meta a seguir. Como vê, dominado o processo de redução do odor, era fácil esperar que pudéssemos controlar a formação de qualquer odor resultante das fermentações intestinais. E foi essa via que decidimos prosseguir...
-- A via do intestino, não é Prof? Ah Ah Ah!
-- A via do tubo digestivo para ser mais preciso...
-- Desculpe o gracejo Prof...
-- Enfim, não tem problema. Conseguimos encontrar percursores enzimáticos que estabelecem as chamadas cadeias aromáticas. Em termos simples as cadeias aromáticas são hidrocarbonetos...
-- Meu Deus Prof. Nero, não nos diga que no buraco ao fundo das costas podemos vir a ter uma fonte de petróleo!
-- Graceja novamente o amigo... Mas sim, em termos muito simplistas estes percursores enzimáticos podem fomentar a produção de cadeias aromáticas por agora. Estamos a pesquisar a possibilidade de produção de outros complexos.
-- Mas isso é fantástico Prof! Cada um de nós pode tornar-se energeticamente independente, refinando a sua própria mer... Perdão! Refinando os efluentes domésticos!
-- Bem, não vejo muito bem como, mas reconheço o potencial destes percursores enzimáticos como eventuais intervenientes numa cadeia que possa levar à produção acelerada de hidrocarbonetos de uma forma puramente sintética.
-- No fundo, o petróleo pode estar ao alcance de qualquer nação que detenha a tecnologia desses percursores enzimáticos, natilde;o é Prof Nero?
-- Resumiu muito bem. Por agora apenas estamos interessados na produção do medicamento para evitar o odor na flatulência e continuamos a investigação nessa direcção...
-- Presumo que muitas empresa já o tenham aliciado...
-- Ainda não. Estamos na fase inicial do projecto e esta é uma novidade em primeira mão que damos aos nossos ouvintes...
-- Ouviram! Muito nos honra Prof. Nero! Mas acautele-se Prof! Estou a ver todas as grandes empresas petrolíferas preocupadas consigo.
-- É inútil amigo, porque isto ainda está mesmo muito incipiente...
-- Obrigado Prof. Nero pelas suas declarações! Em rigoroso exclusivo ouviram a nova descoberta do Prof. Nero! Mundo espera-te uma revolução! E tudo graças ao inteligentíssimo Prof. Nero!
-- A equipa... é tudo trabalho de equipa...
30 agosto 2004
28 agosto 2004

foto por Luís Costa in www.olhares.com
A Boa Acção
O homem era um sem-abrigo, um pobre, um desgraçado sem tecto. Era o primeiro mês em que fazia voluntariado e tinham-me mandado para a rua. Eram 1 hora da madrugada. Um sem-abrigo nunca se deita antes dessa hora, pois tem de dar tempo a que todos os que têm abrigo possam regressar a suas casas, pelo menos a maioria deles.
Estava encarregue de distribuir alguns cobertores e tinha também jornais que tinha juntado pra eles colocarem a fazer de colchão.
-- Quer um cobertor? – perguntei a um deles.
-- Obrigado... – disse ele estendendo a mão e fugindo ao contacto visual. Parecia envergonhado. Notei que não tinha saco.
-- Há quanto tempo está na rua?
Olhou-me de relance, a medo, ou vergonha..
-- Hoje... Estou hoje...
Talvez para ele ainda houvesse esperança.
-- O que aconteceu?
Olhou-me, havia um sorriso no rosto, um sorriso forçado quase irónico.
-- Desemprego... E acho que fui ficando estranho...
-- Estranho? – a minha pergunta era mais um encorajamento a que continuasse.
-- Sim... Afastei-me de tudo... Também nunca tive muitos amigos... – o mesmo sorriso.
-- És solteiro?
-- Não...
-- E a esposa?
Encolheu os ombros, baixou a cabeça e notei que fazia um esforço para não chorar.
-- Que aconteceu com a esposa? – insisti.
-- Nada...
-- Como assim?
-- Nada, ela está bem!
-- Expulsou-te? Por estares desempregado?
-- Não, não! Não me expulsou nada... Eu é que decidi vir embora... Ela arranjou trabalho, eu é que me comecei a sentir inútil... – as lágrimas começaram a correr-lhe pela cara abaixo.
-- Espera um pouco aqui. Não te vás embora. Espera.
Fui falar com o meu responsável e em breves palavras contei-lhe o que sabia. Propus que ele fosse usado como voluntário também. Era a sua primeira noite e achava-o completamente despreparado para andar pelas ruas. Ele podia ficar no albergue, pelo menos teria cama, comida e um trabalho para fazer.
O responsável veio comigo ter com ele.
-- Lamento o que se passou amigo, podemos levá-lo para o nosso albergue por esta noite, depis veremos. Quer?
-- Obrigado....
-- Dê-me essa manta, no albergue não vai precisar dela e tenho a certeza que será útil a quem dorme nas ruas. – pediu o meu responsável.
Ele sorriu.
-- Sim ,claro!
O meu responsável sorriu também.
-- É a sua boa acção de hoje...
17 julho 2004

alma negra
Alma Negra
-- Olá, bom dia! Já se perguntou quando o sofrimento vai ter fim?
Olhei o moço jovem, engravatado e sorridente, ao seu lado uma senhora de cabelos brancos, um sorriso meio triste acompanhava-o. Era habitual fazerem as suas visitas, falando de uma esperança que asseguravam firme, tão firme quanto seguravam as Escrituras na mão. Nunca tinham falado comigo. Não porque me excluíssem, mas porque eu me excluía. Mas naquele dia, não sei porquê, a melancolia batera-me forte e precisava de expelir a raiva e a frustração. Sentia-me forte o suficiente para estilhaçar todas as esperanças e pintar o mundo e arredores do negro mais negro que se podia imaginar.
-- O sofrimento acaba, quando se morre, meu jovem. Mas acima de tudo parece-me que ninguém está interessado em acabar com ele... – respondi eu pronto a trazer ao de cimo todo o negrume que me inundava a alma. E o jovem continuou:
-- O senhor estaria interessado em acabar com ele? Se estivesse ao seu alcance?
A pergunta bateu-me com mais força que um murro. Eu que desejava apenas deixar sair o meu azedume, a minha dor, o meu desespero, eu que me procurava para destruir o mundo, via-me confrontado com a pergunta básica! Tão básica, que foi como uma punhalada! Será que eu queria acabar com o sofrimento? Olhei o moço atordoado, a velhinha olhava de olhar ausente, como se visse coisas para além de mim, como se o meu corpo fosse transparente ou eu nem sequer estivesse ali.
Respirei fundo e fui sincero:
-- Não sei...
O moço fez uma pausa e olhou-me. Vi naqueles olhos jovens mais do que apenas um olhar de quem espera uma resposta. Ele procurava a minha alma, a minha alma afundada no fundo do poço, inteiramente negra. Desviei o olhar e ele disse-me:
-- Gostava de lhe ler uma coisa...
E antes que pudesse reclamar, os seus dedos ágeis abriram a Bíblia e ele disse:
-- Está aqui, no livro de Jó capitulo 14 e no versículo 1 e 2, e diz: “O homem, nascido de mulher, é de vida curta e está empanturrado de agitação. Como a flor, ele brota e é cortado, e foge como a sombra e não permanece em existência.”
Depois de ler fez nova pausa olhou-me e comentou:
-- Talvez concorde com estas palavras...
Como eu concordava com essas palavras! Sim a palavra certa era “empanturrado” como se a vida e todas as suas experiências nos tivessem sido forçadas pela goela abaixo, como se forçam os gansos a comer para fazer foie gras.
E o jovem continuou. A velhinha tinha acompanhado a leitura sem dizer uma palavra e deixara de sorrir. Talvez também ela estivesse “empanturrada” com a vida e apenas desejasse outra e buscasse uma esperança.
-- Sabia que Deus não nos fez para viver debaixo das actuais condições?
Vi uma oportunidade de deixar sair a minha alma negra:
-- Pois, se calhar nem nos fez pra viver! É por isso que todas as esperanças que nos dá, são sempre no futuro e como vê o único futuro certo é a morte!
O jovem continuou:
-- Sim, mas a Bíblia dá-nos uma esperança de que a morte será vencida...
Ri-me, muito mais por desespero do que por menosprezo. Para mim a vida eterna era um sonho, era como o acreditar no Pai Natal. Foi então que a velhinha abandonou o seu olhar distante e me olhou nos olhos, com um sorriso que percebi era todo feito de ternura e compreensão, e ela disse:
-- A sua alma é negra, mas não de maldade, consigo ver isso! O senhor tem um coração bom. Mas de tão bom está muito magoado... Magoado pelo sofrimento que vê nos outros, pelas injustiças, pelo egoísmo. A sua alma está negra porque está toda pisada!

engrenagem
Rapariga Atarefada com a Vida
Corremos. Passamos toda uma vida a correr como se a felicidade fosse um atleta profissional da maratona e a vida tivesse como objectivo alcançá-la.
O problema é que levamos sempre demasiado peso, coisas desnecessárias que alguém no caminho nos convenceu a levar com o engano de que seria mais fácil. Mas é engano.
O peso acumula-se e torna os nossos passos mais curtos, mais lentos e a felicidade toma avanço.
Às vezes parece que o avanço é tão grande, mas tão grande, que nem vale mais a pena! Deixamos de a ver, de acreditar. Ficamos para ali parados naquele triste abandono.
E às vezes, chega um companheiro, um sorriso, uma esperança. Até pensamos que é a felicidade que veio ao nosso encontro. Mas não há felicidade no que nos alcança. A felicidade alcança-se, não chega sem esforço, não vem de borla.
Por isso é que os príncipes encantados vêm disfarçados de sapos que é preciso beijar. Ou os génios que satisfazem desejos, escondem-se em garrafas que é preciso esfregar para os convencer a sair.
E tu rapariga? Que labuta é a tua? Carregas coisas, ou corres atarefada atrás da felicidade?
29 junho 2004
O Lamaçal
Tinham ficado atolados, depois do Jorge meter o jipe tracção às quatro rodas novinho em folha pelo declive e ter parado no meio do caminho que estava transformado em lamaçal!
-- Mete-se a tracção e saímos daqui...
Mas a tracção apesar de comparecer satisfeita num ajudou o jipe a sair do lamaçal. Este saracoteava-se mais que uma mulata num samba.
-- Acho que vamos ter de borrar os sapatos... -- escapou o Pacheco com um ar verdadeiramente aborrecido.
-- Bem me queria parecer que pró dia terminar em beleza precisavamos de um azarzinho... -- acrescentou o Fernando.
-- Esta ideia de virem prá aqui engravatados...
-- A ideia era termos uma reunião do partido!
-- Era uma reunião secreta, bolas!
-- Se ficarmos aqui atascados não vai ser nada secreta...
O Jorge calcou o acelerador a fundo de repente, tombaram todos, mas o jipe lá se libertou do abraço de lama e percorreu cambaleante mais uns metros. E antes da próxima poça de lama o Jorge voltou a embalar o Jipe a título preventivo.
A coisa ía.
-- Estava mesmo a ver... -- disse o Pacheco.
-- Eu cá não via é coisa boa!
-- Bem, agora é só esperarmos que o Cherne não dê lugar à Xaputa!
18 junho 2004
Lágrima de um Universo Perdido
Caiu silenciosa, sem um simples suspiro sequer. Caiu como a gota de uma árvore sobre a superfície quieta e branda do lago. A lágrima correu-lhe pela face macia e desprendeu-se para voar até ao chão.
Levou com ela, todos os sonhos de ser feliz e deixou um vazio e uma ausência que lhe emprestou uma tez pálida e um olhar fixo e distante. Distante como o seu amor. Fixo, como se nada pudesse alterar o rumo das coisas.
Inclinou suave o rosto para baixo, a tempo de ver cair aquela gota de sal, embater no chão e espalhar-se. Em pouco tempo, nenhum vestígio mais desse trágico acontecimento. Nenhuma humidade no chão ou na sua face, apenas aquele ardume a consumir-lhe lentamente o peito.
São impressionantes as possibilidades que se abrem em cada decisão nossa, do entrechocar de todas. Quando ela diz que não, ou ele diz que sim. Tudo gera uma multiplicidade de novas opções, como se fossemos berlindes multicolores chocalhados numa caixa a variar continuamente de padrão.
Por isso quando se deixa cair uma lágrima, é um sinal de luto pelo Universo que se perdeu...
08 junho 2004
Distância Intransponível
Não conseguiria saltar a tempo. Ao fugir correra sem saber para onde e ouvia os cães aproximarem-se rapidamente. Não tardaria e estariam sobre ele pronto para o apanhar. A polícia do ditador não era conhecida pela meiguice…
Tinha de saltar, mas o abismo devia ter à vontade uns 10 metros de largura, e mesmo que saltasse para a zona mais abaixo ainda assim arriscava-se a não se conseguir agarrar a nada e era um mergulho no vazio, para se estatelar pelo menos 100 metros mais abaixo. Olhou um ramo que pendia sobre o abismo, mas só dava para ganhar alguns metros e perdia a corrida e o balanço.
Podia tentar descer a parede quase lisa até ao fundo do abismo. Mas se a polícia desconfiasse disso, tinham tempo e sobra para o esperar lá no fundo, ou até talvez para de helicóptero passar para o outro lado da garganta e divertirem-se a disparar sobre ele.
Não havia maneira de fugir, encurralado entre os cães da polícia cada vez mais perto e aquela garganta como um corte na paisagem.
Não era um homem religioso, embora estivesse preso na colónia penal de Colopos por causa do seu apego a príncipios. Recusara-se aceitar que um ditador se auto-impusesse e governasse por usurpação. Não, também não era um político. Apenas tinha dito "Basta!" e fora o bastante.
Conseguira tirar a pulseira electrónica, emagrecera e os carcereiros nãos e deram conta que começava a a ser fácil para ele retirar a pulseira. Depois colocou-a no tornozelo do parceiro de cela. Chamava-se Homero, era um homem calado, demasiado calado. Uns diziam que tinha esmagado o crâneo de um homem apenas com as suas mãos, outros diziam que fora soldado e fugira. Não interessava nada. Colopos era um lugar de desterro, um calhau para todos os que não tinham mais futuro, no grande plano do ditador. Era um lugar para os esquecidos.
Os cães estavam agora tão perto, que teve a sensação de que não escaparia.
Ajoelhou-se e virando a face para o céu exclamou:
-- Deus! Se existes e eu acredito que existas, é uma pena que tenha feito um Universo sem qualquer sentido! E se a culpa é também minha, peço-te desculpa... -- e inclinou a face para o chão prostrado.
Foi então que ouviu uma voz:
-- De facto também tens culpa, mas que interessa isso agora? Segue-me...
Ele olhou estupefacto para todos os lados mas não via ninguém. Assustado perguntou:
-- Quem fala? Onde estás?
-- Estou aqui a aolhar para ti, palerma! Sou o rato á tua frente...
De facto à sua frente parara um rato e parecia mesmo falar com ele.
-- Devo estar doido...
-- Daqui a pouco estás é morto! Segue-me...
Ele seguiu-o sem pensar bem no que estava a fazer. Ouviu o barulho dos cães afastar-se em sentido contrário ao longo da beirada da falésia.
-- Não é possível! -- exclamou -- um rato que fala!
-- Ora essa! Porque não hei-de falar? Há alguma lei que proiba os ratos de falar?
Pensando bem, não havia. Sorriu.
-- Tens razão...
O rato pareceu sorrir e disse-lhe:
-- As únicas distâncias instransponíveis, são as do preconceito. Derrubado o preconceito, tudo se torna possível... Pensa nisso. Agora tenho de ir. Prazer em conhecer-te! -- E sumiu-se por entre a vegetação.
26 maio 2004

Luz do meu ser infinito
Estamos não sei em que tempo no futuro. Não interessa. Apesar de todo o progresso ainda somos humanos. Continuamos a ter as nossas fragilidades e os nosso medos. Mas mais ainda o pesar. A dor de perder para sempre. Mesmo quando se perde tarde.
Eu perdi. E como dói perder!
Esta dor aguda feita toda ela de ausência, uma ausência que nada enche ou preenche. Esta dor que nos apanha inesperadamente nos pequenos gestos quotidianos, ou aparece vinda de lugar nenhum, trazida da memória por coisas fugazes e banais.
Fiquei sem ela, aquela a quem eu amava, a quem mais queria. Um dia, de repente, num dia lindo de Sol, tudo ficou negro. Mais negro ainda do que o vazio do Cosmos.
O tempo passou e aprendi a suportar a dor de a lembrar...
Dizem que há uma coisa que é infinita enquanto houver Universo: a luz!
Por isso, tive de a transformar em infinito, em luz. Há em minha casa uma luz que me recebe e onde mergulho de olhos fechados. Há um som suave, um murmúrio do amor que saía dos seus lábios.
Quando chego a casa sou recebido pelo holograma dela que me recebe e me sorri: a luz do meu ser infinito...
21 maio 2004

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Silêncio Frio
-- Estás aí? Sei que estás aí... Vens perseguir-me, vingar-te dos dias anteriores. Mas és cruel... Eu amei-te, lembras-te? Para que me vens ensombrar os dias e as noites? São bem piores as noites... Ao menos se me deixasses sossegada durante as noites... Estou cansada! Não compreendes que estou cansada? Não podias morrer de vês? Não? Havia ternura no teu olhar, agora é só vazio, um ódio infinito. Mas morto que mal me podes fazer? Hein? Não falas? Não dizes nada? Ah Ah Ah! Estás morto... Não podes dizer nada. Apenas podes ficar a olhar para mim com esses olhos infinitos de um ódio que nunca sentiste... Talvez não seja ódio, talvez seja frustração, um profundo desespero. Mas não... Se há alguém que desespere sou eu! Se há alguém para quem a morte pode ser um alívio sou eu! Estás a chamar-me? Sim? Querido... Querido amor, para sempre nesse silêncio frio...
20 maio 2004

Solidão Madrasta
Estava á espera... Tinham prometido voltar mas o tempo passava e ninguém voltara. Teriams esquecido? Ele ainda os lembrava a todos: a Dina, a Sofia, o Ricardo, o João.
Eram a equipa que descera ao planeta. Depois as coisas complicaram-se, a nave não aguentava o excesso de peso, ele ficou. Voluntariou-se para ficar. Ficaram também todos os equipamentos. Partiram só eles. Teriam morrido?
Se eles tivessem morrido, então ele estaria condenado a ficar ali para sempre, sem que ninguém o viesse buscar. O sistema de comunicações da nave tinhas sido arrancado. Fora mais uma coisa para aligeirar o peso da nave. Apenas tinham levado um radio de emergência, daqueles que emite um SOS continuo.
Será que... Tinham sido salvos e não voltaram inventando uma desculpa quanto a ele? Ele era o membro mais recente da tripulação, e pensando bem... Havia uma grande intimidade entre os quatro, intimidade que ele nunca partilhou. E lembrando bem, era capaz de lembrar-se deumas quantas vezes em que chegara e as conversas deles tinham parado. Nunca pusera grande significado nisso, as pessoas tem direito á sua privacidade, mas agora...
Também quando se ofereceu para ficar eles sorriram-lhe, mal se despediram dele. Era verdade que estavam todos nervosos, o importante era alguém sair dali para ir buscar ajuda. Mas podia ter ido só um, em vez de ficar só um. Se calhar facilitara-lhes os planos! Que idiota!
O vento do planeta soprou na sua direcção e despenteou-lhe os cabelos compridos. Estava há 2 meses no planeta, sem contacto com ninguém. Era um planeta periférico e nem eles sabiam muito bem a localização. Quando a nave avariara, andaram á deriva, e os instrumentos haviam deixado de funcionar. Cairam ali.
Comera dos frutos das árvores do planeta. Frutos que nunca vira, nem nunca saboreara. As rações de emergencia tinham acabado, e tinha de arriscar. Tratava-se de sobreviver.
A solidão madrasta punha-lhe ideias na cabeça...
30 abril 2004

Bela
Ela atravessou o portal inundada de luz!
O meu íntimo inquietou-se, pois nunca se está preparado para a rainha mais bela da galáxia. Diziam que era não apenas belíssima, mas superiormente inteligente. Fora educada de modo espartano, no mundo árido de ascetas, místicos e filósofos de Nova Grécia, e que depois andara feito vagabunda a passear pelo Cosmos. Fora guerreira nas guerras de Pínia, e diziam que fora das mais valentes! Mas nem tudo era heróico. As más línguas afirmavam que havia sido prostituta no mal afamado planeta vermelho de Éden IV. Mas isso não passava de um boato, as testemunhas disso haviam sido caladas para sempre, pelos guerreiros azuis de Varta, fidelíssimos ao Imperador seu pai.
Finalmente, aos 21 anos, a pedido do Imperador, ela tinha consentido integrar o Conselho Supremo da Confederação Universal, uma espécie de plen´rio de todos os planetas habitados. Nele estavam presentes representantes de todos, um por planeta. Os impérios de muitos planetas, podiam sempre unir-se, mas era curioso observar como se construíam e desfaziam coligações, acordos e tratados.
Ela era assumir um lugar de peso, o Império do seu pai estendia-se por mil sóis, e por mais de 1500 planetas habitados. Por isso, para além de bela, de sábia, era poderosa!
Uma mistura assim pode tornar-se perigosa ou salvadora!
O que se faz com beleza, sabedoria e poder?
Os antigos romanos, achavam que o poder conduz á divinização. Os seus imperadores acabavam sendo adorados após a morte. Mas ela, já era uma deusa em vida! O que lhe estaria destinado?
Ser fêmea retirava aos machos a ancestral vontade de lutar, mas os mais matreiros ou sábios, talvez a quisessem conquistar pelo coraçáo!
Deixar-se-ía ela conquistar? Estaria disposta a submeter-se a um macho e passar a ser apenas uma procriadora? Era muito duvidoso, pois ela, por mais de uma vez, revelara um espírito pouco sujeito a papéis de segundo plano! E qual dos outros imperadores, estaria capaz de aceitar um papel secundário deixar que ela brilhasse? O amor não entra muito bem, nestas equações de poder! Estaria condenada a ficar só? Porque era bela, sábia e poderosa?
Talvez mandasse fazer um clone de si própria... Mas seria um paliativo e nunca uma solução!
A ideia talvez fosse casar-se com um governante menor, daqueles que governam apenas os planetas de uma estrela. Mas estaria o Imperador disposto a isso? Era preciso escolher com muito cuidado...
Além disso estaria ela disposta a casar-se com um insignificante?
Até aos 21 anos fora feliz, fora ela própria, experimentara tudo, o amargo e o doce. Compreendia a vida melhor do que nunca. Assumir o fardo do poder, era uma espécie de enterro.
Quem quer ser bela, sábia e poderosa? E não havia maneira de fugir aquilo... ou havia?
Diziam que andava estranha, muito estranha antes daquilo acontecer. Cantava quando tomava banho, ria alto, partia os copos e falava de tudo numa misturada que ninguém conseguia acompanhar. Examinaram-na, e parecia de boa saúde. Mas ela andara por tanto lado, que não se podia saber. Talvez fosse uma doença nova, que lhe alterasse o humor.
Mas quando ela apareceu completamente nua perante o Conselho Supremo da Confederação Universal e se babou durante o discurso sem qualquer nexo, -- o que pôs a cabeça em água aos tradutores, -- o Imperador decidiu dar-lhe umas férias prolongadas num dos seus planetas privados.
Pareceu melhorar, apesar de ainda assim fazer pequenas coisas sem nexo.
Se ela tivesse sido homem, chamar-se-ía Cláudio pela certa.
15 março 2004
Tic-Tac
Os dias pareciam passar moles e espessos como cola. Estava aborrecida, presa numa espécie de limbo que a sufocava. Tanta injustiça no mundo! Porque não acabava?
E um dia, que as coisas são feitas de acasos, encontrara-o num chat. Coisas de nada, conversas sem consequência. Mas nãoé assim que começam as amizades? Partilha-se um lugar comum, mete-se conversa e... As coisas vão acontecendo!
E foi assim. Alguns dizem que é virtual, mas o que é este espaço electrónico se não uma extensão de nós mesmos como o telefone ou uma carta? Que é isso de virtual?
Partilham-se ideias, coisas que são nossas e se põe no espaço comum e nem é preciso que se vejam físicamente ou ouçam, os sentidos podem ficar resguardados. Até tem mais graça imaginar o outro, é estimulante! Talvez seja isso depois que arruma com as ditas amizades virtuais. Mas são apenas especiais por isso, o resto nem é muito importante!
O tempo passa, e neste quebrar de rotina, o tic-tac quotidiano ganha contornos de música.
16 fevereiro 2004
Plug-In
-- Ei Márcia já viste o meu último bio plug-in?
-- Não! Que curtição é?
-- Aqui na língua sob a forma de piercing! Tás a ver? -- disse a Juliana metendo a língua de fora, onde uma bola de um cristal azul iridescente fazia a sua aparição. -- Esta bola tem um produto à base de flúor e vai libertando lentamente o seu conteúdo. Quando gastar depois troco por outra. Evita as cáries! Mesmo que num possa lavar os dentes...
-- Que fixe! Isso é porreiro! Sabes que a Paula mandou meter um piercing piezo-electrico na coisinha?
As duas riram--se, mas acho que mais com dor de cotovelo que outra coisa!
-- Por isso é que ela às vezes fica com um brilho no olhar! -- e riram-se outra vez.
-- Pois é! Aquilo de vez em quando vibra e põe-na a vibrar! -- concluiu a Juliana.
-- Será que os rapazes também tem dessas coisas? -- perguntou a Márcia.
-- Os rapazes num precisam, tão sempre a vibrar! -- e voltaram a rir.
-- Os rapazes agora usam é uns no nariz, que dizem que liberam coca...
-- Sério?!
-- Eu sei lá, ouvi dizer que era ilegal, mas sabes como é!
-- O namorado da Xanoca, colocou um piezo-electrico na orelha, diz que curte melhor a música!
-- Isso num é nada, o amigo do Pedro, implantou um atrás da orelha que veio do Japão e ouve mp3!
-- Ena, esse deve ser muita fixe! Cool à brava!
-- Não Cool mesmo, é o da Mara no umbigo!
-- Atão?
-- Controla o apetite! Assim ela pode conservar sempre aquele corpinho de miss.
-- Que fixe! E sabes onde se arranjam desses?
-- Ó pá num sei, mas a gente pergunta-lhe!
E voltaram a rir. Presumo que um qualquer plug-in poderia contribuir para isso.
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