09 fevereiro 2005

O Homem dos Torpedos


-- Capitão! A escotilha não abre...
-- Estamos sepultados!
-- Ah! Ah! Ah! Agora é uma boa ocasião para testarem a vossa fé! Peçam a Deus que vos salve! Ou então os que acreditam no poder da mente, mentalizem-se de que vão sair desta! Espíto positivo! -- disse o homem dos torpedos.
Sempre me pareceu ser ele a encarnação do Diabo, e agora que estavamos todos prisioneiros de um submarino sem propulsão aquelas palavras deram-me vontade de o esganar imediatamente.
-- Podíamos fazer algo prático! Metíamos aqui o homem dos torpedos dentro de um tubo e disparavamos! Tinhamos duas vantagens: Era menos um a consumir oxigénio e livravamo-nos de ouvir os seus disparates... -- disse o radio telegrafista.
-- Calma! -- recomendou o capitão -- Não é ainda a altura para desanimar...
-- Pois não capitão! -- disse o homem dos torpedos -- Pelo menos para quem acredita na ressurreição. Ah! Ah! Ah!
Acho que o Diabo em pessoa se candidatava a um linchamento, mas todos ficaram quietos.
-- Radio telegrafista, consegues emitir ou receber alguma coisa?
-- Não capitão, só estática...
-- Acho que o homem dos torpedos faz interferencia... -- disse alguém.
-- Medricas! Homens sem fé, nem fibra! -- rosnou o homem dos torpedos -- É mais fácil culparem alguém do que enfrentar a vossa morte não é? Mas vede que isso não vos adianta muito...
E para irritar todo o mundo, pos-se a cantar uma canção nazi que dizia a certa altura: "O futuro pertence-me!"
-- Puxa capitão! Sei que a situação como é, já é lixada, mas com este tipo é uma espécie de tortura vinda do inferno...
-- Mas um inferno gelado! Ah! Ah! Ah! -- riu o homem dos torpedos.
-- O Sr. se não é capaz de dizer nada animador ou que contribua para sairmos daqui, por favor, cale-se, certo? -- disse o capitão ao homem dos torpedos.
-- Dá licença que fale meu capitão? -- pediu o homem dos torpedos.
-- Até agora não precisou de licença... Fale!
-- Temos torpedos suficientes para todos os membros da tripulação e os lança-torpedos estão operacionais. Proponho que a tripulação se meta dentro dos torpedos e sejam disparados em direcção á superfície.
-- É viável? -- perguntou o capitão.
-- Ser é, mas não é uma perspectiva que nos encha de entusiasmo... -- disse o homem das máquinas. E continuando: -- Mas resta um problema. Alguém tem de ficar a disparar os torpedos!
-- Ok! Eu fico. -- disse o capitão.
-- Permita-me que fale meu capitão. -- pediu de novo o homem dos torpedos.
-- Diga...
-- Fico eu! O meu capitão não percebe nada de disparar torpedos e ainda matava alguém! Por isso fico eu. E se não me deixarem ficar, não ajudo ninguém a disparar os torpedos!
Foi a primeira vez que achei que até o Diabo afinal podia ser boa pessoa, mas ele acrescentou:
-- Tenho um último pedido...
Todos se entre olharam.
-- Diga! -- pediu o capitão.
E com um riso trocista de pleno gozo:
-- Quero que prometam que posso ficar com as vossas almas! Ah! Ah! Ah!

2 comentários:

tb disse...

Até parece um bocadinho uma pessoa que conheço....será???
Beijinhos

Graça disse...

O Mitro é um excelente ficcionista, capaz de fazer prender a respiração até ao último instante.
Ainda estou a pensar na simbologia desta história...

Beijinho.