03 dezembro 2018

Paquiderme



Uma vez na savana africana veio uma seca terrível que condenou à morte muitos animais. Não é incomum a morte visitar África de muitas maneiras, pelo que se calhar todas as criaturas que por lá vivem já deviam estar habituadas e considerar como parte normal do ciclo da vida, nunca morrerem de velhice.
Mas a história que vos quero hoje contar fala de solidariedade e da mais nobre que é aquela que ultrapassa até as fronteiras da espécie, e sobre a ingratidão. Uma ingratidão que poderíamos considerar natural, já que a vida aprendeu há muito que o egoísmo funciona.
Então neste cenário de seca horrível, uma manada de elefantes sofrendo também com a falta de chuva decidiu por ordem da sua matriarca ir procurar água. Um dos elefantes observava já por dias uma leoa esquelética que mal se mexia à sombra das poucas árvores habituadas a resistir. Não sei qual o pensamento do bicho que nunca privei com nenhum, mas é sabido que os elefantes são empáticos entre si, percebendo e procurando consolar-se quando perdem um deles. Fazem luto. Enterram as ossadas dos seus semelhantes num costume que nós, algures no processo evolutivo aprendemos a copiar.
Dizia eu que este elefante se compadeceu da moribunda leoa e se aproximou dela, que rosnou debilmente e sem convicção, talvez aceitando resignada morrer espezinhada por um elefante irritado. Mas não, o elefante com a delicadeza dos elefantes, usou a sua tromba e colocou-a sobre os seus dentes e transportou-a junto com a manada por muitos quilómetros, muitos dias. À noite, quando a manada parava para dormir, ele tirava-a dos seus dentes e procurava-lhe uma cama confortável no pó ou nas ervas secas.
Temos de considerar que os elefantes são os animais que mais sofrem de “bulling” entre o Reino Animal. Gozam do seu ar anafado, meio sem jeito, como se o seu criador fosse uma criança de 3 anos sem grande jeito para o desenho. Aquelas orelhas enormes, a incapacidade de pularem, o medo que têm dos ratos, a sua tromba… Oh quantas vezes se gozou com a sua tromba! Só o seu tamanho impõe respeito e mesmo os leões sabem que embora sejam os reis da floresta, o elefante está fora da sua soberania.
Apesar do nicho que ocupam, este gesto do elefante de transportar por quilómetros uma leoa até um local onde houvesse água, tem de ser designado como sinal de empatia, de abnegação, de solidariedade e arriscaria mesmo dizer de bondade. Apesar da debilidade de também sofrer com a falta de água, o elefante fazia o sacrifício adicional de a transportar. E havia intencionalidade neste transporte, não era uma transferência como às vezes acontece quando uma mãe perde um filho e adota outro em substituição. Este elefante ia levar a leoa a uma fonte de água. Os elefantes são os especialistas nesta questão da água na savana africana, percorrendo centenas de quilómetros e encontram-na. Naturalmente bichos tão grandes não teriam sobrevivido sem estes dons particulares.
Chegaram ao leito seco de um rio que costumava parecer-se com um mar. Andaram por ali a farejar com as trombas e depois começaram a cavar com as patas e as trombas, o que resultou numa espécie de poços, onde a água não tardou a acumular-se. Os elefantes dessedentaram-se e o nosso elefante encheu a sua tromba de água e foi molhar a leoa. Esta recebeu aquela água como uma bênção e apesar da sua fraqueza conseguiu arrastar-se depois até à borda da poça que os elefantes haviam criado e com a sua língua felina bebeu até inchar a barriga. E deixou-se ficar por ali, até que a água milagrosa lhe trouxesse a vida às células traumatizadas. Lentamente a leoa sentiu voltarem-lhe as forças e arrebitou as orelhas. Sonhou que tinha sido transportada nos dentes de um elefante até ali.
E sim, diante de si, a pouca distância um elefante sereno vigiava sobre ela. Sentiu uma dor no estômago, era de fome. Com uma presa tão grande ali ao lado não podia perder a oportunidade. E sem pensar lançou-se sobre o elefante tentando atacar-lhe a tromba. No entanto, talvez estivesse ainda mais fraca do que pensava e o elefante recuou, levantou a tromba para evitar as suas garras e urrou numa espécie de aviso. Mas ela precisava de bifes e não se fazia de esquisita se fossem duros e de elefante. Tentou rodear o elefante para novo ataque, mas esse foi um erro que o elefante estava em melhores condições e agarrou-a pelo rabo com a tromba e fê-la girar no ar duas voltas completas, e atirando-a para longe disse:
-- Vá ser ingrata para a puta que a pariu!
A experiência tirou-lhe o resto das forças e a leoa deixou-se ficar onde caíra e o elefante virou-lhe as costas e foi ter com a sua manada, onde foi recebido com urros de carinho, eu diria mesmo com felicitações por ter dado uma malha na ingrata.
Conclusão moral: Nunca sejas ingrato para o paquiderme que te deu ajuda, porque ele te pode dar cabo do canastro.

02 dezembro 2018

Poesia Revolucionária


Manuel é um estivador. Não é bem, porque não tem nenhum vínculo com a empresa que lhe paga quando o contrata. É contratado dia a dia, ou como já pensava que tinha caído em desuso ou só se usava em trabalhos por natureza sazonais à jorna. Pode entrar à uma da manhã e sair às oito, sem ter a certeza de ter trabalho no dia seguinte. Pode até acontecer que tenha de fazer dois turnos seguidos e ao invés de sair às 8h, saia à 16h da tarde.
Manuel anda à jorna vai para vinte anos. Vinte anos de anulação de todo o progresso civilizacional que nos trouxe aqui, como se aqui houvesse uma bolha que nos remetesse para tempos remotos ou pelo menos que se haviam extinguido nos meados do século vinte, após a queda das ditaduras fascistas. Parece que a bolha é fascista e está infetada…
Manuel já teve mulher, que o deixou porque queria uma vida menos no arame, menos ansiosa. Felizmente não tiveram filhos, porque Manuel teria mais um problema para lidar caso fosse obrigado a pagar pensão de alimentos. Manuel ficou triste que nenhum homem é para viver sozinho. Mas é melhor ter emprego do que não ter. E aqui não é a falta de trabalho que impede o emprego. É apenas um bando de exploradores capitalistas semelhantes a aranhas, que depois das vítimas caírem na sua teia os suga até não terem mais nada para sugar.
Manuel fartou-se desta precariedade. Ele e os camaradas com ele, da estiva, que arriscam a vida para que os gordos continuem anafados. Manuel e os camaradas do sindicato, decidiram dizer basta e fizeram greve. Vieram de imediato as hienas e os abutres dizer que por causa deles a economia nacional seria afetada e quem sabe uma grande fábrica, com um importante peso no PIB talvez decidisse deixar o país!
Manuel perguntava-se se seriam todos idiotas: Então se a sua greve era assim com tais repercussões, não seria mais sensato a entidade contratadora dar-lhes um vínculo permanente, já que trabalho para justificar a criação de emprego existia? Não seria mais sensato vincularem todos os precários que realmente precisavam, pois se não precisassem a greve teria pouco impacto, do que estarem a fazer finca-pé?
Manuel ficou pasmado quando estando no piquete de greve sentado à entrada do porto, viu um autocarro chegar com estivadores contratados para furar a greve. Mais pasmado ficou quando a polícia de choque chegou e tirou um a um os grevistas. A Lei dizia que é ilegal contratar trabalhadores para substituir os trabalhadores em greve. Mas desta vez a ilegalidade veio acompanhada pela ação da polícia.
Manuel nunca se sentiu com vocação de estivador. E não estava contente por ser precário e trabalhador á jorna. Até fora bom aluno na escola, mas o pai não o pudera manter a estudar e aceitou começar a trabalhar logo a seguir ao ensino obrigatório. Ainda tirou um curso profissional e depois de vários empregos mal pagos, viu na estiva uma oportunidade. Ganhava bem, mas bem que lhe saia do pêlo e nunca era certo. Por isso nunca comprou um carro novo ou uma casa. Mas aqui o importante é que o Manuel não foi por vocação que se tornou estivador. Foram mais as circunstâncias. Quando era mais novo ainda sonhava ser um desportista famoso. Mas com a idade isso passou-lhe. Às vezes sonhava em ser artista, e como na escola fora bom a português sendo que o professor sempre lhe elogiava os trabalhos, talvez ser um escritor, um poeta!
Manuel recebeu um dia de um primo seu que tinha vindo da América um bastão de basebol. Ficou admirado com a prenda, mas achou que o ignorante do primo não fazia ideia que em Portugal não jogamos basebol. Mas agora até achava que era um sinal. Algo a alimentar-lhe os sonhos antigos, a dirigir os seus passos. Muitas vezes pensamos que não somos nada, mas só somos nada até que tudo se conjura para nos transportar nas asas do que tem de ser, sendo que este tem de ser tem realmente muita força. Manuel compreendeu que tinha de cumprir o seu destino…
Pegou no taco de basebol e foi escrever poesia revolucionária nas trombas de exploradores capitalistas.

01 dezembro 2018

Torrada ou cacete



Blozonov era rico, muito rico, mas não fora por trabalhar muito ou ter algum dom artístico e feito uma brilhante carreira. Blozonov era rico porque como todo o indivíduo que não herda e enriquece, era um ladrão. Não, não um desses pilha-galinhas ou mesmo um habilidoso carteirista ou assaltante de Bancos. Aliás hoje em dia são os Bancos que assaltam. Blozonov fez fortuna como é de regra fazer-se fortuna a roubar o Estado. Quando se deu o colapso da União Soviética, ele “nacionalizou” em seu favor algumas propriedades coletivas, ou seja que pertenciam ao Estado.
É sempre bom, de vez em quando, o Estado andar assim perdido sem autoridade, para que uns indivíduos como Blozonov possam ter uma oportunidade de se tornarem uns oligarcas. Claro que não foi sozinho que o conseguiu, teve de haver umas cumplicidades, uns jogos de cintura e uns idiotas úteis, mas depois tudo se resolveu em seu benefício e à cautela meteu logo algum dinheiro no estrangeiro. O dinheiro não conhece pátria e ficar assim onde se ganhou podia ser a tentação de alguém mais ladrão do que ele. Ou então algum patriota decidido a fazer voltar ao Estado o que dele tinha sido. A sorte de Blozonov foi nesse época gloriosa para todos os candidatos a oligarcas, haver muitos! Alguns até com ainda mais ambição que ele ou vivendo em zonas mais favoráveis e ricas.
Finalmente veio um patriota que lhes tornou as coisas claras: Desde que não fizessem muita merda e não se metessem na política ele deixava-os governar-se com o saque. Mas um pé fora do risco e ficavam sem nada. Alguns tentaram desafiá-lo e com o seu poderio económico quiseram também a parte política. Azar! Processos relativos a fuga aos impostos e rapidamente acabaram na prisão, pelo menos os que não conseguiram fugir a tempo para Londres, que desde que o roubo fosse fora das terras de Sua-Majestade, não se importava de lhes receber as fortunas.
Blozonov ganhara tanto dinheiro que desenvolveu certas bizarrias tão típicas de quem não consegue resolver todas as psicoses que adquire. Blozonov tinha uma relação violenta com os telemóveis. Gostava deles, mas às vezes eles não se comportavam como ele esperava, ou não lhe davam as notícias que ele queria. Ele tinha um mau acordar. Os seus empregados, procuravam não manter muito contacto com ele após o seu acordar. (Acho que é um traço comum a todos os psicopatas…) Mas já se tinham habituado a perguntar-lhe:
-- Torradas ou cacete, Senhor?
Se ele acenasse com a mão queria dizer torradas, mas se abanasse o telemóvel na sua mão direita queria dizer cacete. Um dos seus guarda-costas, neste último caso entregar-lhe-ia um bastão de basebol, enquanto ele lhe passaria o telemóvel para a mão. Depois numa espécie de coreografia previamente encenada, o guarda-costas procuraria lançar-lhe o telemóvel que ele tentaria acertar com o bastão de basebol. Nem sempre lhe acertava e nesses casos, pularia com evidente ataque de fúria, sobre o telemóvel a pés juntos até este ficar irremediavelmente perdido.
Claro que Blozonov usava sempre os mais caros telemóveis. Não por causa das características, que a maioria não usava, mas pelo status que conferiam. A principio os seus empregados observavam a cena estarrecidos mas sem protestarem, não fosse Blozonov usar-lhes a cabeça com o taco! O tempo foi passando até que algum deles se lembrou de trocar o telemóvel novo por um que já antes tivesse conhecido destino semelhante, enganando Blozonov que pensava estar a largar a sua fúria no telemóvel culpado e não num que já havia sofrido semelhante sentença. Assim todos os empregados acabaram a ter telemóveis de topo de gama, coisa a que com os seus magros salários nunca poderiam chegar. Blozonov era rico, mas capitalista convicto e por isso nunca pagava salários altos. Depois os empregados compravam umas capas para disfarçar e a coisa tinha corrido bem, com benefícios para todos os envolvidos. Blozonov também era ligeiramente míope, mas recusava-se a usar óculos ou lentes de contacto o que também facilitava.
Mas quis um dia que um empregado menos dotado de inteligência, lançasse um telemóvel com uma capa cor de rosa. Blazonov nunca usaria um telemóvel com uma capa cor de rosa e de imediato reconheceu que ali havia qualquer coisa fora do lugar.
Felizmente um outro empregado, mais dotado de cérebro e anterior carteirista, apanhou rápido o telemóvel de capa cor de rosa, trocando-o pelo de Blozonov e que tinha sido temporariamente safo do martírio. Blozonov olhou para o telemóvel que lhe foi entregue reconhecendo-o como seu mas perguntou:
-- Então e qual era o cor-de-rosa que vi?
-- Era o meu… -- disse o empregado carteirista – Sua Excelência deve ter visto o meu.
Blozonov continuou na dúvida, mas já tinha o seu telemóvel na mão e sem apelo nem agravo decidiu executar-lhe a sentença, colocando-o em cima da mesa e mandando-lhe uma tremenda tacada que o fez entregar a alma e as tripas. A chávena de porcelana e o pires que estavam sobre  a mesa para o pequeno-almoço, em solidariedade também saltaram e acabaram em cacos no chão.
Criaturas como Blozonov tem este dom de fazer tudo em cacos.

03 novembro 2018

Ácido


Às vezes não sei se as pessoas não vêem ou não querem ver. Bem diz o ditado que "maior cego é o que não quer ver"!
Ou aquele outro tão apropriado agora que as multidões seguem qualquer idiota por mais barbaridades que debite: "Em terra de cegos, quem tem um olho é rei!"
E contudo apenas vemos cegos conduzindo outros cegos e ambos caindo num buraco. A cegueira foi crescendo, como previu Saramago.
Uns poucos gritam e avisam, mas são apenas como os profetas de antanho que acabavam no deserto, ou a falar para os peixes ou apedrejados na primeira oportunidade.
Sim que as multidões são acéfalas e se conduzem como as ovelhas a quem um cão conhecedor do ofício ladra, para as conduzir para onde o pastor pretende!
Vivemos uma época que repete a história que afinal ainda não acabou! Um século que ficará conhecido como o Século da Estupidez, das oportunidades perdidas, do retrocesso civilizacional. Haverão sempre os vândalos prontos a destruir a civilização e a mergulhar o mundo nas trevas, como foi com Roma. Antes as civilizações caiam diante de outras, agora só se cai...
Mas hoje é tudo mais global, interconectado, o que significa que a estupidez vem em vagas e cresce, sendo que o nivelamento é sempre feito por baixo. Onde está o grande dique que as torrentes de grunhos querem demolir?

Já não tenho histórias.

As histórias devem contar-se aos ouvidos sensíveis, às criaturas que ainda olham para o alto e se querem transcender e não serem apenas reféns da evolução, da ditadura dos genes, que os obriga a voltar sempre às mesmas estratégias animais, agressivas e egoístas, porque a vida aprendeu há muito, que só o egoísmo sobrevive.

Dizem que as pessoas são pacíficas por natureza. Talvez sejam, mas é fácil estimulá-las ao ódio e à destruição, pelo que esse pacifismo é frágil. Talvez seja um pacifismo egoísta, um não quer incomodar-se. Mas finda a apatia irrompe a besta violenta e sem travão.
Esta falta de travões, com as armas colossais que inventámos, podem levar ao fim da espécie.

Acho que sei agora porque me custa escrever. O amor acabou e sem ele, criar deixa de fazer sentido. Podia escrever para as gerações futuras, dizer-lhes sobre os nossos erros, sobre as nossas fraquezas e grandezas, a nossa curta visão da coisas, a falta de vontade de nos transcendermos em algo maior que a nossa genética. Mas não haverá quem leia, na bronquice galopante do imediatismo, na vontade de uma elite que adora multidões ignaras que de preferência morram antes de se organizar para exigirem um mundo mais justo. Sim, não vale a pena escrever, porque não haverá quem leia e os que lerem, a existirem, serão uma elite que terá vencido e a quem a minha escrita saberá a ácido.




18 dezembro 2017

"O OVO DE RÁ" - FINALMENTE, O LIVRO!


A história que durante tanto tempo (anos!) aqui acompanharam, está finalmente em livro!
Podem comprar em vários lugares tais como a WOOK, a Bertrand, a FNAC, etc.

Em Dezembro fará um ano do seu lançamento!

Foi no Porto, na FNAC de Santa Catarina

P.S. - Se quiserem que vos autografe um exemplar, têm de me pedir para o meu email.

09 outubro 2017


Só eu me basto a esta solidão que me transforma numa ilha rodeada de gente por todos os lados. E mesmo assim só, olhando firme o horizonte que se estende quietamente diante de mim e a que chamam futuro.
Só eu me basto a este calor breve no meio da neve. Como tristes icebergs que se vão afastando dos pais e rumam no mar da existência, onde aos poucos nos vamos diluindo. Passando de uma rigidez juvenil à flacidez dos dias finais. Só o tremor permanece.
Só eu me basto a este despertar em que me mantenho pelo receio de não ter aprendido nada e chegar o sono eterno, que nos faz esquecer tudo, com uma rapidez maior do que alguma vez pensámos. Na morte de cada um, enterram-se memórias irrecuperáveis. E a vida é só memória.
Só eu me basto como a luz tremeluzente da vela a rasgar a noite escura. No percurso entre o nada e o oblívio, riscamos cintilantes o céu. E mesmo que haja uma infinidade de sóis, a escuridão é o nosso quinhão.
Só eu me basto na tentativa inglória de me compreender. É a fundamental incompreensão, que faz de nós estranhos aos outros. Mas o paradoxo exige que para nos compreendermos precisemos dos estranhos, que nos hão-de dizer na cara, coisas que nunca pensámos que pudéssemos ser. Coisas que colidirão com a nossa dissonância cognitiva sempre presente e que por isso nos magoarão de tão clamorosamente evidentes.
Só eu sou uma ilha solitária em voluntário exílio dos outros. Porque há sempre um lugar a que regresso, dentro de mim próprio, onde faço as pazes entre o que sou e o que pensava que era. É preciso tempo para lá chegar e estar. Sair é sempre fácil.
Só eu me basto nesta mudez feita de uma floresta de palavras. Crescem as árvores silenciosas e abrem os braços ao encontro da luz, alimentam-se de sol e produzem sombra refrescante, numa folha de papel a traços negros. Às vezes é terapia.
Só eu me basto nesta dança sem música das rotinas diárias. Coisas repetidas porque a vida é ciclo que nos acaba por fartar e onde saímos carregados de tédio, cansados do rodopio.
Só eu me basto quando nada é bastante, nas misérias de ser.




15 março 2006

Sombras na Água



Podia ter sido um sonho, porque agora tinha dificuldade em recordar. Não sabia sequer se era importante recordar. O problema é esse, como não sabemos o que devíamos lembrar, não somos capazes de lhe atribuir a devida importância e isso afecta-nos, enerva!
Colocou na mala as suas coisas e tentou colocá-las nos lugares respectivos, como se a mala tivesse lugares próprios para cada coisa. Voltou a enervar-se só de pensar nisso.
Dava conta de que ultimamente se enervava com cada vez maior facilidade. Tinha medo de se estar a tornar um carro sem travões, algo como um desastre na eminência de acontecer.
Pegou um caderno de viagem, que o costumava acompanhar e desfolhou as páginas ao acaso. Havia poemas, esboços de edifícios e de paisagens, às vezes apenas uma frase que sintetizava um pensamento. Ao ver os apontamentos tentou lembrar-se de quando os havia escrito e não conseguia. Aquilo era-lhe familiar, sabia que fora ele o autor de tudo aquilo, mas não se lembrava do quando. Atirou o caderno para dentro da mala, ao acaso e fechou-a.
Desceu as escadas de madeira que foram rangendo à medida que pisou os degraus até ao rés-do-chão. O rés-do-chão estava vazio. Chamou, não pelo nome de ninguém, mas apenas um grito, uma espécie de apelo, na esperança que aparecesse alguém. Não apareceu e dirigiu-se à porta que abriu, o Sol atingiu-o em cheio e cerrou os olhos até se habituar à luz. Havia um longo relvado e para lá dele montes sem nenhuma casa. Olhou em volta. Nada lhe era familiar...
E veio de novo aquela sensação, aquele enervamento miúdo. Onde estava? Como viera ali parar? Tudo perguntas para as quais não achava resposta.
Procurou pensar no seu trabalho, na sua família... E tudo o que lhe vinha à memória, era como os sonhos. Coisas que pareciam lógicas e eram agora desconexas. Ao longe viu o que lhe parecia um vulto, uma pessoa que se deslocava para a casa.
Ficou estático, a pensar se devia correr na direcção do vulto ou ficar ali, aguardando que ele chegasse...
Olhou para a mala na sua mão e reparou que esta tinha um nome que não era o seu. Seria a sua mala?
Porquê era tudo tão dolorosamente confuso? Voltou a olhar e o vulto já não estava lá e a casa não parecia ter a mesma arquitectura de à pouco.
Voltou a entrar na casa. Estava doente. Só podia estar muito doente. Devia deitar-se, alguém viria para tomar conta de si. Depois de entrar notou que as escadas não lhe pareciam no mesmo lugar, por onde ainda antes tinha descido. E depois que subiu, não sabia onde ficava o seu quarto e foi experimentando as portas, até uma abrir.
E quando uma delas se abriu, deixou-se cair na cama e quis adormecer, para que o acordassem daquele pesadelo.
Quando adormeceu, sonhou que o mundo inteiro, todas as pessoas do mundo, eram apenas sombras sobre a superfície das águas...

12 fevereiro 2006

A Esperança Fria



Já nada lhe importava mais. A nave ficara sem combustível e dali até ao frio do espaço era nda menos que um passo e ele sabia-o. Ninguém o mandara naquela viagem, mas convencera-se de que podia...
Teimosias que se pagam caro. Sorriu. Desligou todos os sistemas excepto o de sustentação de vida. Sempre lhe haviam dito que a esperança era a última a morrer. Portanto a esperança só devia morrer quando ele morresse. Sorriu.
Achou que era uma boa altura para reflectir no que a sua vida fora. Olhou para o negro do espaço cintilado de estrelas. Teria feito alguma diferença cá ter andado?
A natureza parecia responder-lhe com um categorico: Não!
Era pó. Camada a mais, camada a menos, não passava de pó. Não havia nada que pudesse fazer para mudar isso. Talvez só os generais que sacodem e varrem o pó humano, sejam recordados por serem mais que pó! São espanadores!
Alguém o lembraria? Um punhado de amigos, familiares?
Somos enquanto somos e depois não somos. Que esperança fica?
Lembrou-se de um velho em Rigula, que lhe dissera que todas as esperanças servem, desde que sejam suficientemente boas para nos enganar.
Agora compreendia.

02 janeiro 2006

Pedra de Música



a foto veio daqui


Eram pedras lisas. Umas tinham cores vivas, outras eram discretas, outras tinham riscos.
Era preciso escolher. E só o povo de Kunmar sabia escolher. Sim eram as pedras musicais de Vilmaar. Ninguém sabia o porquê das pedras musicais. Mas encostavamo-las ao ouvido, ou à cabeça, e até os surdos conseguiam ouvir as melodias do vento, e das águas.
A minha era apenas uma nave de carga e a única coisa que Vilmaar exportava eram a pedras de música! No resto, era sem interesse, um planeta periférico, bucólico. Era raro as naves de carga ou de passageiros aportarem por ali. Um pouco de turismo às vezes fazia chegar alguém. E os habitantes do planeta também não eram dados a viagens de modo que o movimento era pouco. Mas quando apareciam nos mercados cosmopolitas de Baira, ou no mega-mundo de Fomlhaut, conseguíamos um bom preço por elas. Para nós, pequenos transportadores as pedras musicais de Vilmaar acabavam por compensar.
Lassa, a mais bela das mulheres da aldeia foi pegar as que tinham as mais belas músicas, possívelmente percorrendo os ribeiros com os seus pés descalços. Conheci Lassa quando cheguei a Vilmaar. Conheci Lassa de olhos azuis. Loira de cabelos de ouro e um sorriso de nuvem primaveril, mais branco que lençóis de hospital. Lassa era bela, jovem e despreocupada. Sorri-lhe com a manha toda de marinheiro de mil portos e com a tarimba de muitos triliões de anos-luz no pêlo. Mas Lassa ficou indiferente. Limitou-se a sorrir-me de modo simpático e fiquei sem saber se lhe causara alguma impressão. Trouxe pedras no outro dia. Tentei regatear o preço, mais para prolongar a conversa que por outro motivo. Mas Lassa sorria apenas e não se demovia do que pretendia. Era firme e decidida, como os seus seios firmes apontando à sua frente. Havia música não apenas nas pedras que trouxera, mas no seu corpo quando se mexia.
Diziam alguns que as pedras de Vilmaar, tinham feitiço. Mas só Lassa me enfeitiçara! Outros diziam que era uma ilusão, como ouvir o mar ao encostar um búzio no ouvido. Talvez fosse Lassa uma ilusão também, a bailar no meu coração. Mas fosse o que fosse ouviam-se melodias nas pedras de Vilmaar. Notas suaves como as mãos de Lassa.
Carregamos a nave e aproximou-se o tempo de partir. Tentei encontrar Lassa, mas era como se procurasse pedras de música nos ribeiros, não as encontrei!
Partimos, no coração uma música de cabelos loiros e olhos azuis, no peito uma pedra… uma pedra de música.

01 janeiro 2006

Nuvem Negra




a foto veio daqui



Outra vez. Havia de repetir o gesto inúmeras vezes. Talvez a vida seja isso, uma repetição enfadonha de gestos. Mexia o café da manhã com a colher habitual. Ligara a TV. Ouvia as notícias mas mais como ruído de fundo do que propriamente a prestar atenção. Ùltimamente as rotinas, quaisquer que fossem eram uma tortura.
Voltou a concentrar os esforços no mexer do leite com café, mas já nem se lembrava se tinha juntado o açucar. Provou e estava demasiado doce. Já devia ter pensado no assunto duas vezes e repetira o gesto de tirar o açiucar amarelo. Sorriu porque sentia que as coisas íam piorar e tinha de ter alguma força para as enfrentar.
Pousou a colher e bebeu lentamente. Não era hábito, mas estava só a respirar fundo.
Era 2ª feira. E como todos sabemos as 2 ª feiras são dias maus. Mas tinha a sensação de que todos os dias eram 2ª feiras.
Desceu as escadas em direcção à garagem. Olhou o carro velho. E deixou que por momentos aquele pensamento mortífero o invadisse e lhe dissesse que era um fracasso.
A porta da garagem estava avariada, como a sua vida. Sorriu. Enfrentar um dia de cada vez, ou uma hora, ou minuto e não restaria muito seria um segundo de cada vez.
Pensou na vida como um milagre, e pensou no seu azar de lhe ter calhado a si.
Riu-se.
Quando olhavam para ele achavam que era uma pessoa feliz, sem problemas. Apenas aprendera a esconder a sua dor. E esta vingativa, comera-o por dentro como um cancro que alastra até ao sufoco. Mas não tenha nenhum cancro, apenas uma saúde razoável.
A estrada para o emprego era a mesma. Conhecia os sítios perigosos e abrandava. Sorriu de novo. Se a vida era pesada, um fardo, porquê abrandar? Mas temia que no seu azar de nascer, de existir; se porventura desejasse morrer, a vida troçaria dele. Ìa deixá-lo vivo, mas tetraplégico, só para o frustrar ainda mais.
Desejara filhos e agora, sem nenhum, não arriscava! Temia que a ter essa sorte, lhe sairia na rifa um filho deficiente. E o futuro da criança seria mais uma tortura a juntar às que tinha.
Pensou que a vida fosse uma anedota e ele era a piada. Chegara à conclusão que era um inútil. E que nada havia de mais inútil que o amor não correspondido. Sim, quando o amor em vez de construir, destrói e esvazia um homem…
E a nuvem negra que o acompanhava, voltou a cobri-lo como um manto.

24 dezembro 2005

O Quarto de Espelhos


Não sei ao certo o que se passa, possívelmente estou apenas a endoidecer. É como se através da minha visão periférica tivesse vislumbres de mim. Vejo-me a mim próprio. À pouco foi no café, estava a pagar a bica e pareceu-me ver distintamente pelo canto do olho, a mim próprio a estender a mão com a moeda para pagar.
A coisa tem piorado nos últimos dias, vejo-me nos meus próprios sonhos, mas descobri que não são sonhos nenhuns, são pedaços das minhas memórias que agora me são dadas observar, como se eu me tivesse cindido e um dos meus ‘eu’s tenha agora o privilégio de ser o observador.
Ainda ao menos se isto tivesse algum sentido! E anda a pôr-me louco! Observar-me em quase permanência é como se nos andassem sempre a espreitar por cima do ombro. Nem sequer consigo deixar de me avaliar, julgar, criticar em cada situação.
Falei com a minha esposa e ela diz que ando nervoso demais e que devia tentar acalmar-me. Não insisti, pois tenho medo de descobrir que estou a ficar louco. Tento acalmar-me, dizer para mim próprio que por pior que esteja a situação, ainda não está em causa a sobrevivência.
Mas que me importa isso? Apenas queria saber porque razão caí nesta espécie de quarto de espelhos...

01 novembro 2005

Na própria pele


Quero. Não sei ainda. Mas persisto em construir na minha mente uma imagem, porque me disseram que não tenho direito a nada. Nada! Já não se condena à morte aqui neste Sistema Estelar. Aqui domina-se a morte e a vida e colocam os condenados num sistema de hibernação. Sonhamos dizem. Educam-nos explicam, através de cursos hipnóticamente induzidos no nosso cérebro. Que interessa? Talvez devessem ter-nos moldado antes, que agora chega sempre tarde. É sempre tarde depois dos desastres. Eles não tem remédio, tal como esta impaciência humana.
Dizem que cometi um crime, mas não me consigo lembrar. Um crime de tamanha enormidade que me queriam por a hibernar para sempre. Dizem que levei uma praga qualquer a um planeta e dizimei a maior parte da população. Dizem que sou um terrorista, mas não me lembro. Que raio de causa defenderia eu ao dizimar um planeta? Que culpa, na minha opinião teriam esses desgraçados?
Mas o colectivo de juízes e o júri, achavam que não havia dúvida razoável para me não condenarem. Encontrarem um culpado nas catastrofes apazigua o colectivo. Acho que era por isso que as civilizações antigas faziam sacrifícios humanos. Eu sou mais um.
Sei que quando fui colocado no tubo de hibernação, as máquinas assinalaram uma onda estranha emanando do meu corpo. Os ‘hibernantes’ nas proximidades acordaram e depois de entrevistados falaram de uma sensação de plenitude, de felicidade, como nunca antes tinham sentido e quando tentaram hiberná-los de novo, pura e simplesmente não foi possível. Mas os psicologos ao entrevistá-los achavam que havia uma profunda mudança na personalidade deles e que estavam curados.
Curados? Há alguma cura para o facto de sermos imperfeitos?
Agora estou dentro de um tubo. Um hibernante. Mas estão enganados. Eu não estou ali onde está o meu corpo. A minha mente projectou-se e saltei para a mente de Joaniquem. Ele é o pretor dos górdios, um povo orgulhoso algures em Sigma 3. Joaniquem quer estabelecer penas de hibernação aos criminosos, como me aconteceu.
Troquei a minha mente pela dele e coloquei-o no meu corpo e habito agora o corpo de Joaniquem. Em Sigma 3 não haverá hibernação.
Antes de mandar no futuro dos outros, é conveniente senti-lo na própria pele...

15 outubro 2005

Abraçar-te de novo


O chão juncado de folhas e um corpo caído. Pareciam afinal duas faces da mesma moeda ou talvez não. Talvez fosse apenas uma coincidência e o corpo erecto caísse como folhas de árvore. Afinal tudo não passava de pó. Pó que por um tempo se erguia do chão com vontade própria... Até cair, tombar.
Ajoelhei-me junto ao corpo caído e concedi-lhe do meu fôlego, mas era tarde. Já não havia espírito e extinguira-se a luz do olhar.
Não queria que fosse assim. Não queria que tudo terminasse, fazendo de todos os nossos esforços passados uma futilidade. Mas de todas asvezes foi esse amargo pensamento que me inundou. E nos braços uma impotência maior ainda do que a minha amargura. O corpo rolou novamente para o chão.
Mas dessa vez não consegui chorar.
Apenas me apetecia caminhar, correr, fugir dali para bem longe, até me cansar ou também eu cair.
A tristeza foi pesada e apenas consegui ficar, até virem os bombeiros e a polícia. Esta última fez-me um longo interrogatório, como se eu fosse o culpado pela tua morte súbita. Não sei porquê quis ser culpado. Mas descobriram que não era.
Que interessa isso? Enterraram-te.
Seguiremos as nossas tristes vidas à procura de uma razão para esta repetição de dor. Haverá mais. Acaba por ser tudo tão sem sentido que não me importava de estar no teu lugar!
Talvez seja por isso que partimos resignados, fartos de tudo!
Haverá alguma boa razão para isto? Dizem que sim, que em breve esta dor terá fim. Que os mortos voltarão outra vez a viver. Quanto a mim, é apenas um jogo demasiado macabro.
Se um dia tudo isto tiver sentido, espero abraçar-te de novo...