27 abril 2012


O Ovo de Rá – 45ª parte



Descer até ao fundo

— Esperem! — disse Maia, que parecia estar a pensar alto. — Esperem!
Godo e Mestre Ratapone que íam na frente estacaram.
— Que foi?  — Perguntou Godo.
— E se as criaturas estão a dizer-nos para não irmos para o vale? Se estão a avisar-nos?
— Porque dizes isso? — insistiu Godo.
— Galimodo não sabe falar a língua das criaturas, não sabe ao certo se elas o entenderam e também não recebeu nenhuma resposta. Elas limitaram-se a apontar para o Vale e a fugir. Não vos parece que pode ter outro significado?
Mestre Ratapone irritou-se:
— Mas agora todos ficaram covardes? O Ovo de Rá espera-nos no fundo daquele Vale…
Maia encheu o peito e com infinita paciência acrescentou:
— Helmut e Galimodo também nos disseram que não encontraram caça no Vale. E faço notar que as únicas criaturas que encontramos são muito pequenas e voam…
Mestre Ludovico cofiou a barba e disse com seriedade:
— De facto, ainda por cima temos de nos lembrar que os hieróglifos podem ter outra leitura…
Mestre Ratapone ficou apanhado por um ataque de histeria, praguejando alto e bom som que nunca tinha visto tanto miserável junto, covardes, e mais coisas que se foi lembrando para nos injuriar.
Helmut a certa altura disse:
— Alguém tem de o acalmar… — e lançando-se de um salto mordeu-lhe uma perna a sério.
Só pela dor e ao ver o sangue a escorrer é que se calou e acabou por desmaiar.
Cabelos-de-Fogo precipitou-se para o Mestre e começou a fazer uma ligadura e a tratar dele. Censurou Helmut:
— Mordeste-o a sério!
— Sim, ele também já me começa a irritar a sério… — comentou Helmut no seu ar sereno — E com tanto espalhafato, já deve ter acordado todas as criaturas num raio de quilómetros aqui à volta…
Galimodo fungando o ar deixou escapar:
— Há uma névoa azul a levantar-se… E não me digam que é normal, porque esta se está a dirigir na nossa direcção!
Godo agarrou o Mestre Ratapone como se este fosse uma pena, colocou-o às suas costas e dirigindo-se para trás de onde vínhamos perguntou:
— Onde estão as criaturas voadoras?
Galimodo fungou outra vez, mas foi Helmut quem respondeu:
— Estão acolá naquela zona… Naquilo que parece uma clareira neste deserto azulado…
Godo olhou e comentou:
— Acho que conseguimos chegar lá?
Bel-Vito respondeu:
— É longe, só se corrermos muito… Se alguém cair,  a névoa azul apanha-o…
Havia uma electricidade estranha no ar.
Foi Godo quem ordenou:
— Corramos!
E desatamos a correr pelo monte abaixo, como se as nossas vidas dependessem disso. A vegetação rasteira fustigava as nossas pernas e sentia que às vezes a rasgavam, porque sentia um ardume. Mas ninguém se lembrou de resmungar.
Galimodo saltou para cima de Helmut, que não se queixou. E quando já estávamos muito perto da clareira, eles passaram correndo e chegaram lá primeiro. Quando chegamos junto deles, Godo deitou o Mestre Ratapone no chão e deixou-se cair completamente esgotado.
Uma criatura apareceu voando em frente de Galimodo. Depois apareceram mais. Apontavam com insistência para uma rocha ali na clareira. Arrastamo-nos até lá, desta vez com Bel-Vito a ajudar Godo a levar o Mestre Ratapone ainda desmaiado. Na pedra havia uma inscrição, mas não eram hieróglifos. Mestre Ludovico aproximou-se:
— Parecem runas…
A névoa azul tinha inflectido em direcção à clareira, deixando uma espécie de rasto na nossa anterior direcção.
O Mestre Ludovico tentou ler:
— Hemdal… Mordgud… Hagalaz… Nauthiz…Isa…
Ao dizer esta última a rocha abriu-se ao meio revelando uma escada que afundava na terra…
As criaturas apontaram para o fundo que não se conseguia ver e sem pensar descemos todos.
Quando o último de nós que foi Galimodo entrou, a porta fechou-se. Ficou tudo escuro como breu e ficamos paralisados espalhados pelos degraus.
Galimodo disse baixinho, que descêssemos e senti-o roçar nas minhas pernas, em direcção às profundezas.
Helmut como sempre prático sussurrou:
— Galimodo, nem todos vêem como tu neste ambiente…Deixa que alguém te agarre a cauda e serve-nos de guia…
Agarrei a cauda de Galimodo e estiquei a outra mão livre para trás.
— Alguém me estenda a mão…
Não sei quem mas uma mão agarrou-me com firmeza.
Godo cansado voltou a carregar o Mestre Ratapone que ainda não acordara, atrás dele ía Helmut que disse que podia seguir-nos só com o nariz se fosse preciso. Descemos devagar e em silêncio, um caminho que parecia demasiado longo, com cuidado para não tropeçar em nenhum degrau. Às vezes Galimodo parava como se esperasse escutar algo, mas tudo o que conseguíamos ouvir era as nossas respirações temerosas. Depois continuávamos a descer, uma escada que parecia não ter fim.
Bel-Vito disse:
— Bem dizem que mesmo no fundo, há sempre a possibilidade de descer…
— Quem abriu a pedra? — perguntou Cabelos-de-Fogo.
Um murmúrio resmungão fez-nos todos tomar consciência de que Mestre Ratapone estava a acordar.
— Parem por favor. — fez-se ouvir Godo.
A fila estacou no meio daquele escuridão que parecia quase sólida. Maia perguntou a Galimodo:
— Consegues ver alguma coisa neste breu Galimodo?
—Tenho de confessar que não é lá muito fácil, mas parece vir uma estranha claridade lá do fundo… E há também…
— Uma ligeira aragem… — ouviu-se Helmut dizer lá do fundo — Mas esta não é a zona de abrigo das criaturas voadoras que vimos lá em cima, pelo menos não há cheiro delas.
— Onde estou? — perguntou o Mestre Ratapone, ainda com a voz entaramelada.
Bel-Vito disse entre dentes:
— Se não é o inferno já devemos estar próximos…
De facto a temperatura estava alta, embora não fosse  incomodativamente alta.
— É de noite? — insistiu o Mestre Ratapone.
— Fique tranquilo, estamos numa caverna… — disse Mestre Ludovico tentando soar tranquilizador.
— Maia, vê no teu saco se tens aí qualquer coisa com que se possa fazer fogo…
— Haver há, mas o problema é que não temos nada para queimar…— respondeu Maia.
— Rasga-se um pedaço de pano e acende-se e ata-se a ponta na lança de Bel-Vito, deve dar para iluminar…
Ouviram-se os passos de Maia a chegar junto de Godo e do Mestre Ratapone. Godo rasgou um pedaço de uma manta e acendeu-o. Pegando na outra ponta dirigiu-se a Bel-Vito e amarrou-o na ponta da lança. Um fulgor amarelo inundou a galeria e os degraus da escada. Os degraus eram muito lisos e até admirava como nenhum deles ainda escorregara. Depois habituaram-se à luz e puderam constatar que as paredes da galeria eram rugosas, como se tivessem sido abertas à picareta e tivessem ficado assim.
— Para onde vamos? — Perguntou Mestre Ratapone pondo-se de pé com a ajuda de Godo
— Para baixo… — Respondeu Godo pondo-se em movimento. A descida recomeçou, mas agora era mais agradável e menos sufocante. O fumo do pano que ardia, era arrastado para cima, o que confirmava o que dissera Helmut, sobre haver uma aragem.
Depois de percorrermos mais alguns metros da galeria que parecia serpentear cada vez mais para as profundezas da Terra, vimos uma claridade suave. Godo aproximou-se de Bel-Vito e apagando o pano disse num murmúrio:
— Todo o mundo calado!
Helmut aproximou-se dele e segredou:
— Não sinto o cheiro de nada, nem de ninguém, apenas me cheira a ar da montanha…
Galimodo seguia na frente com os seus passinhos de gato, que não se ouvem. Ao dar uma curva, havia um largo buraco e a paisagem era apenas de montanhas. A aragem era mais forte. Quando nos chegamos cautelosamente à beira reparamos que o buraco era na encosta de uma montanha, um penhasco. Os degraus acabavam e não havia nenhum caminho depois…
Bel-Vito chegou próximo:
— Cá está…É sempre possível descer mais, mesmo quando pensamos estar já no fundo...