02 maio 2008

Ovo de Rá – 41ª parte




Da inutilidade do amor



Acabamos acampados juntos a uns penedos que de algum modo serviram de protecção para passarmos a noite.
O Mestre Ratapone fez a fogueira e Mestre Ludovico e Godo prepararam o jantar que Helmut, Galimodo e Cabelos-de-Fogo tinham caçado; junto com algumas das provisões.
Depois do jantar, o Mestre Ratapone sugeriu que falássemos para nos conhecermos melhor. Ele começou por dar o exemplo e falar da sua procura e do sonho da imortalidade. Mestre Ludovico falou das suas experiências enquanto eremita e como estava entusiasmado por esta aventura. Cabelos-de-Fogo repetiu a sua saga e Godo falou do que fora e do que se tornara.
Eu confessei que apenas procurava aprender.
Bel-Vito manteve-se calado e Mestre Ratapone insistiu.
E Bel-Vito abriu a boca:
-- Não quero conhecer-vos. Conhecer alguém estabelece laços. E o pior dos laços é amar alguém. Nada há de mais inútil do que o amor. Alguns falam do bem que é amar, mas estão enganados. Quer se seja bom, quer se seja mau, todos são obrigados a desistir do que amam, algum dia. Os que amamos deixarão de existir e tudo o que deixam para trás é uma profunda dor em nosso coração. Se alguém nos ama, um dia seremos desapontamento e mágoa para ele. Não acredito na bondade do amor, ou que seja útil sequer. Vede o vosso próprio caso!
Bel-Vito falava devagar e sem pressas, como falar lhe custasse. Falava monocordicamente, como se fizesse um esforço por retirar às palavras a emoção que continham. E continuou:
-- Um lobo que fala! O que pressupõe uma inteligência superior a todos os da sua espécie. Haverá fardo maior? Que lhe valerá ter amor pelos seus irmãos? Não o conseguem entender! E que lhe valerá amar os seus inimigos? Antes que se apercebam que fala, procurarão matá-lo! Que lhe adianta amar?
“E Galimodo não passa de uma espécie de bobo peludo. Que lhe adianta amar? Tudo o que lhe possa interessar está para além da sua capacidade.
“E Godo deve ter uma profunda mágoa. O que contou agora não foi tudo. Como pode alguém que nasce livre, desejar ser escravo? Só uma dor maior pode justificar isso. E que maior dor, do que um amor impossível?
“E Cabelos-de-Fogo procura o amor, sem sequer saber que o procura! Mas é tão desenraizada, tão desconfiada de tudo e todos na sua fuga, na sua luta pela sobrevivência, que nem sabe o que amor significa! Não sabe se ama a atenção que têm por ela, se alguém maduro, confiante, que lhe dê a ideia que a pode cuidar e proteger. Uma espécie de figura paternal! Cabelos-de-Fogo não está preparada para o amor, nem para o amor de alguém por ela. Precisa de crescer e abandonar os seus medos.
“E tu, Maia, como sofres! Como se vê que o teu amor por Cabelos-de-Fogo apenas te trouxe tristeza! O teu amor por ela, podia ser infinito e ainda assim, sem o amor dela por ti, seria apenas uma dor infinita! Querem convencer-ne que o amor é bom? Para quê?
“Mestre Ludovico está mais perto de ser feliz, não porque não acredite no amor, mas antes porque já não o espera. Limita-se a viver. E agora que lhe surge a oportunidade de uma última aventura, aproveita-a. Mas não por amor de nada!
“O que é então mais importante que o amor? Só há duas coisas: A riqueza e a eternidade.
“A riqueza, porque com ela podemos obter o que nos falta. Sim à excepção do amor, mas já demonstrei que ele é inútil e portanto não vale a pena persegui-lo …
Bel-Vito parou, parecia cansado, e Mestre Ratapone estimulou:
-- E a eternidade?
-- Mestre Ratapone – continuou Bel-Vito olhando nos olhos do Mestre – sei que procuras o Ovo de Rá. O ovo da criação, a chave da eternidade. Memeth transportou-o para algures nesta montanha e não mais voltou. Talvez Memeth se tenha tornado eterno como estas montanhas. Não sei. Mas sei que a eternidade é talvez a única coisa que valha a pena, porque estende as possibilidades da nossa experiência até ao infinito. Talvez a eternidade dê realmente uma oportunidade ao amor, não sei… Mas enquanto há vida há esperança.
“Como vedes Mestre Ratapone, seguir convosco foi uma opção minha, quando percebi que buscais a eternidade. Só isso interessa…
E calou-se
Ficamos todos calados e quando pensávamos que ele não ía dizer mais nada ele acrescentou:
-- Por isso não me interessa conhecer-vos. Detestei ouvir-vos. Porque quando conhecemos o outro, corremos o risco de o amar, ou pelo menos de gostar dele. E se ele nos vier a faltar, ou a desapontar, a emoção, a dor que isso causa em nós, há-de perturbar-nos. Há-de alterar o raciocínio e não pensamos, como seria útil pensar. Devo acrescentar que na situação em que nos encontramos, rodeados de perigos desconhecidos isso é um risco que não devíamos acrescentar às nossas vidas. O medo de vos perder tornar-me-á um guerreiro vulnerável. Inútil, talvez mesmo perigoso para vós e para mim. Portanto, quando não vos quero conhecer, não vos quero amar. O amor tornar-me-à inútil para vós e para mim.
Cabelos-de-Fogo parecia furiosa, mas não se atreveu a dizer nada.
Mestre Ratapone suave sugeriu:
-- Vamos dormir…
E Helmut enroscado junto à fogueira disse entre dentes:
-- E o lobo sou eu…