15 dezembro 2006

by Rosina Villela

O Ovo de Rá - 36ª parte


Dúvidas


Depois dos instantes de descanso, agasalhamo-nos o mais que podemos e seguimos a trilha que continuava para além do Pico das Águias. Era estranho pensar que nos cumes de neve existiria alguém que necessitasse de tal trilha. Estávamos convencidos que o fim do caminho era ali, mas não era.
Bel-Vito já não seguia à frente mas sim os mestres. Achei que Bel-Vito se sentia aliviado mas que o seu medo dos Yétis ainda o não deixava completamente tranquilo. À frente dos Mestres e a uma distância larga seguia Helmut, farejando o ar. Aproximei-me dele, porque me andavam a bailar na mente algumas perguntas:
-- Helmut…
-- Sim…
-- O cheiro das criaturas, continuas a senti-lo?
-- Sim… Porque perguntas?
-- Nunca sentiste este cheiro antes?
-- Não.
-- Então deixa-me perguntar-te, como podes saber se elas estão a três dias de distância?
-- Bem… A minha experiência…
-- Tretas Helmut! A tua experiência só te pode dizer alguma coisa, em relação aos cheiros que conheces! O que não é o caso!
-- Pronto! Não te zangues! Talvez não sejam três dias… Mas que queres? Querias que dissesse que as criaturas estavam ali ao virar da esquina? Ficávamos todos em pânico e não andávamos para lado nenhum…
-- Não achas que pelo menos Godo devia saber?
-- Adianta-lhe de muito!
-- Como assim?
-- Eu não sei o cheiro das criaturas e tu queres que Godo saiba como são?
Fiquei a pensar naquilo e apercebi-me de como a ignorância pode ser tão… tão sufocante!
Helmut pareceu notar o meu nervosismo e comentou:
-- Ora, se todos ficássemos tolhidos pelo desconhecido, nunca dávamos um passo! Ânimo! Isto é uma aventura!
Deixei-me ficar para trás e Helmut continuou a trotar no seu passo de lobo, parecendo deliciado com a ideia de haver coisas desconhecidas.
Como fui ficando para trás os Mestres acabaram por me apanhar e Mestre Ludovico comentou:
-- Animada a tua conversa com Helmut…
-- Oh! Sim, de facto… Comentávamos o facto de daqui para a frente, tudo ser desconhecido…
-- Nem tudo… -- disse Mestre Ludovico. – As árvores, as montanhas, o céu, o ar, são coisas conhecidas!
Apeteceu-me mandá-lo bugiar mas como Mestre Ratapone lhe achou graça, deixei-os ultrapassarem-me e meti conversa com Bel-Vito que vinha isolado logo atrás:
-- Então, nunca tinhas vindo por estas bandas?
-- Nunca foi necessário…
-- Nem por curiosidade?
-- Pagam-nos para os trazermos ao Pico das Águias e não mais à frente…
-- Mas desta vez mesmo sem te pagarem, vais mais à frente…
Ele franziu o sobrolho como se dissesse, que só ía porque era obrigado. Mas calou-se e não disse mais nada e deixei-me ficar ainda mais para trás.
Godo, Cabelos de Fogo e Galimodo vinham muito animados a conversar.
-- Por aqui reina a boa disposição… -- comentei.
-- Galimodo, contava-nos as suas estórias… -- sorriu-me Cabelos de Fogo.
-- Pois, mas eu acho que devíamos ir com atenção, afinal estamos em terreno desconhecido.
-- Alguma coisa te perturba? – perguntou Godo com a sua perspicácia habitual.
-- Bem… Acho que vamos muito descontraídos, só isso.
-- O teu amigo Bel-Vito, vai contraído e isso não faz dele uma pessoa feliz pois não?
-- perguntou-me Godo.
Sorri.
-- Mas ele tem poucos motivos de alegria na vida…
Cabelos de Fogo riu. Eu gostava quando ela ria.
Galimodo decidiu intervir:
-- Se pensarmos bem, toda a nossa vida é uma jornada no desconhecido.
-- Filosófico! – sorriu Cabelos de Fogo.
Galimodo sorriu com todos os seus bigodes de gato.
-- As dúvidas fazem parte da nossa existência! Por isso, a única certeza é a de estarmos aqui e existirmos, mesmo que não compreendamos a nossa natureza ou que nos rodeia! Aliás se não formos capazes de ter consciência de nós mesmos, a nossa existência apesar de factual, não terá para nós qualquer importância.
-- Pois.. mas eu cá prefiro manter a minha existêcia ‘factual’ e consciente pelo período mais longo possível… -- comentei.
-- Está certo! – concordou Galimodo – Acho até que a isso se chama de instinto de sobrevivência!
-- Perdoa-lhe Galimodo! – disse cabelos de Fogo – Mas ele às vezes nem o óbvio é capaz de ver, mesmo que lhe passeie debaixo do nariz…
Não apreciei muito o sarcasmo de Cabelos de Fogo e Galimodo apreciava as festas que ela lhe fazia no pelo do lombo. Fiquei invejoso. Mas Godo percebeu que o meu nervosismo era incomum.
-- Maia, a quantos dias disse Helmut que as criaturas estavam?
-- Três dias…
-- Mas podiam estar mais perto não?
-- Presumo que Helmut não tem uma certeza absoluta. – respondi.
-- Compreendo.