01 setembro 2006

O Ovo de Rá - 34ª parte


foto por Tom Harpel 

As águias


Caminhamos no ritmo apressado que caracterizava Bel-Vito e presumo que se apressasse ainda mais convencido que estava de que naquela região existiam Yétis, homens das montanhas, um cruzamento qualquer entre ursos e humanos segundo os relatos que mais tarde Bel-Vito nos consentiu dar.
Aproximamo-nos de uma espécie de garganta e via-se distintamente ao longe um pico que parecia uma agulha apontando para o céu, presumi tratar-se do Pico das Águias e disse apontando-o:
-- Olhem!
No mesmo instante Bel-Vito parou e ergueu uma das mãos fazendo sinal de que parássemos, com aquele jeito que lhe era peculiar. Depois virou-se para o Mestre Ratapone, como se só ele fosse digno de lhe dirigir a palavra.
-- Mestre Ratapone... Queria prevenir-vos de uma coisa!
O Mestre aproximou-se dele, seguido de perto por Mestre Ludovico.
-- Sim, e de que se trata, amigo?
-- O Pico das Águias é aquele ali...
-- Estou vendo. – disse o Mestre Ratapone.
-- Vamos entrar no domínio das águias e estas não gostam de intrusos nos seus domínios...
Também nós nos aproximamos para ouvir a explicação, de algum modo já nos habituáramos a que a cada passo tropeçassemos numa surpresa qualquer e tinham todas tendência para ser desagradáveis. Bel-Vito continuou:
-- As águis não gostam de ser caçadas, aprenderam a ripostar...
-- Isso quer dizer o quê? – perguntou Godo, que se começava a fartar do melodramatismo que Bel-Vito parecia colocar em tudo o que dizia.
-- Lançam ossos sobre as cabeças e atacam os póneis e as mulas! – despachou ele – Já vi pessoas morrerem com ossos caídos de bem alto a abrirem-lhes o crânio como se fosse um melão. E também vi elas virem contra o Sol para que não as pudéssemos ver e assustam os póneis e as mulas e facilmente caiem por essas ravinas por onde teremos de passar...
-- Eu logo vi, que o passeio estava a ser demasiado turístico! – escapou-se-me.
-- Pois é, para nós só nos calha disto! – anuiu Helmut – E aqui o amigo Galimodo é melhor esconder-se bem escondido ou ainda acaba petisco de águia! Ou ainda se lembram de nos aturar com um gato na mona!
-- Muito engraçadinho... – disse Galimodo – Veja lá é se não é levantado de surpresa nas quatro patas e pratica vôo livre!
-- Deixem-se de coisas... – sugeriu Godo – E tem alguma sugestão?
A última questão era para Bel-Vito e este respondeu:
-- Fiquem atentos, protejam a cabeça e defendam-se como puderem!
Entretanto ele aproximou-se de um dos póneis e de um alforge tirou um capacete metálico forrado a couro que amarrou na sua cabeça. E depois ordenou:
-- Vamos!
E desatou a caminhar.
Ficamos a olhar uns para os outros atónitos. Este gajo, vinha preparado e nós olha... Lei do desenrasca! Apeteceu-me cair-lhe em cima e desancá-lo até lhe soltar os músuclos do esqueleto.
-- Espera! – gritou-lhe Godo.
Ele condescendeu em olhar para trás e o Mestre Ratapone reforçou o pedido:
-- Um momento por favor.
Bel-Vito parou com enfado evidente.
Godo foi buscar uma foice e pôs-se a cortar as ervas altas que havia por ali. Depois mandou que Cabelos de Fogo fizesse assim umas rodilhas com as ervas e com algumas outras fosse prendendo aquilo num jeito de turbante. Fez várias, uma para cada um de nós. Bel-Vito observava com espanto as actividades.
Godo cortou ainda mais erva e fez umas bolas grandes que pôs sobre o dorso dos animais incluindo Helmut. Galimodo não teve direito a nada disso e foi colocado nas costas de Cabelos de Fogo com a ordem de Godo:
-- Tu guardas as costas de Cabelos de Fogo, se vires uma águia gritas!
Galimodo sentiu-se um cavaleiro guardando a sua donzela, mesmo que fosse numa mochila às costas dela.
Helmut protestou quando Godo lhe amarrou o monte de erva nas costas.
-- Mas eu agora sou convertido em mula?
-- Helmut, isto é um engodo de águias! Se ela te quiser espetar as garras fará pontaria a este monte de erva e tentará levantar vôo, quando levantar apenas leva erva percebes?
Helmut pareceu sorrir:
-- Que excelente ideia!
Godo fez com que usassemos as tais rodilhas de erva na cabeça em forma de turbante.
-- Se lançaram ossos, pode ser que isto evite que nos rachem o crâneo...
Rimo-nos das figuras patéticas com que ficamos com aquilo na cabeça.
Godo deu-me um arco dos dele e uma aljava com setas.
-- Tu e Cabelos de Fogo serão os nossos arqueiros de serviço, mas lembrem-se, só disparam depois do primeiro ataque das águias. Se elas não atacarem, nós não atacamos.
Achei aquilo perfeitamente sensato, apesar de pensar que as primeiras baixas podiam ser nossas. As mulas também levaram um fardo de palha em cima, mas Godo não fez nenhuma provisão para os póneis de Bel-Vito.
Bel-Vito pareceu protestar quando disse:
-- Não lhe custava nada ter feito uns fardos desses para os meus póneis...
Godo sorriu cinicamente:
-- Pois era e também não te custava nada ter-nos dito para arranjarmos uns capacetes antes de sairmos da aldeia não era?
Bel-Vito virou-lhe as costas e voltou a repetir:
-- Vamos!
E metemo-nos todos novamente em marcha. Começavamos agora a descer e ía jurar que não havia nenhum caminho e de facto o que havia era uma estreita plataforma rochosa onde mal cabíamos em fila indiana rumo ao vale que circundava o Pico das Águias!
Como éramos os arqueiros de serviço eu fui posicionar-me mais junto aos Mestres, Godo e Helmut ficaram mais ao menos a meio junto às mulas e Cabelos de Fogo ía atrás com Galimodo atento á retaguarda a olhar para trás.
Como ía atrás de Mestre Ludovico comentei:
-- Tem razão Mestre! Não é preciso nem Yétis para imaginar que uma avalanche ou um ataque de águias pode ter sido o fim da expedição de Memeth!
-- Pois é amiguinho... – disse ele – As explicações óbvias devem ser sempre as preferidas, se bem que acredite que muitos de nós gostamos dos perigos fantasiados!
Era óbvio estar a referir-se aos medos de Bel-Vito. Depois continuou:
-- Mas Memeth veio até aqui com guias experientes e deve ter vindo preparado. Ele esteve mais tempo na aldeia de Bel-Vito...
-- Bem, se foi tratado conforme esta amostra...
Lá atrás Galimodo gritou:
-- Águia!
Paramos e agachamo-nos quase por instinto e olhamos para trás, Cabelos de Fogo retesara o arco em prontidão e eu fiz o mesmo., mas a águia estava lá bem alto no céu e parecia nem nos ter dado a mínima importância.
-- Podem seguir! – disse Godo – Muito bem, Galimodo! Fica atento, mas não fixes o olhar nessa, pode ser apeas um engodo para nos distrair...
Confesso que o coração me começava a pular como um doido. Posted by Picasa