15 dezembro 2010


O Ovo de Rá – 44ª parte



A Pedra Escrita

Descansámos um pouco e partimos todos. O Mestre Ratapone não conseguia tirar da sua mente o facto de que havia uma pedra com inscrições. Maia notava com algum desagrado seu que a idade não trazia ao seu Mestre nem a desejada serenidade ou tão pouco uma certa razoabilidade. Trazia antes uma impaciência frustrada, quase infantil e birrenta. Só tinha a habilidade de embrulhar isso em frases que pareciam as de um homem sábio. Acho que era por isso que o chamava de Mestre…

Ele prosseguiu caminhando vigorosamente, num passo que fazia lembrar o de Bel-Vito quando se esquecia de que outros seguiam na sua peugada. Helmut ia na sua frente, num passinho miudinho, farejando o ar em todas as direcções e olhando bastas vezes para trás.

Bel-Vito seguia atrás de Godo e Cabelos-de-Fogo, olhando atentamente para os lados do caminho. Galimodo oscilava entre Maia e Bel-Vito. Maia pegou-lhe ao colo e ele trepou-lhe para o ombro e enroscou-se-lhe à volta do pescoço. Estava realmente cansado e nem se importava de ir assim desconfortável.

Ninguém falava, talvez à excepção de Godo e Cabelos-de-Fogo que às vezes faziam uma ou outra observação monossilábica. Que importância teria a pedra escrita? Provavelmente, como tantas coisas na vida, a sua importância era relativa. Em primeiro lugar talvez nem conseguíssemos ler o que estava nela!

Finalmente chegaram diante de uma pedra em nada diferente das que nos rodeavam, mas que tinha estranhos entalhes dispostos em coluna, pelo menos era o que parecia. Helmut conciso:

— É esta aqui…

O Mestre Ratapone ajoelhou-se e passou os dedos pelos sulcos gravados com os olhos fechados.

— Hieroglifos!

O Mestre Ludovico ajoelhou-se também tirou uma bolsa e espalhou um pó branco que depois soprou. Os hieróglifos revelaram-se perante os nossos olhos.

Mestre Ratapone sorriu.

— Memeth passou por aqui…

Galimodo pediu-me para o colocar no chão. Deu uma corrida até à pedra, cheirou-a e afirmou:

— As criaturas estiveram aqui!

Godo perguntou-lhe:

— As diáfonas?

Galimodo acenou com a cabeça que sim e pediu colo a Cabelos-de-Fogo.

Bel-Vito estava tenso com a sua lança pronta. E Godo perguntou baixinho:

— Onde está Helmut?

Maia encolheu os ombros e aproximou-se da pedra.

— Mestre, que te diz este calhau?

— O meu egípcio está um pouco enferrujado… Não sei.

— Temos um calhau mudo então.

O Mestre baixou a cabeça, enquanto o Mestre Ludovico copiava a escrita tão bem quanto era capaz, para um pergaminho, e no final acrescentou:

— Se ainda me lembro, diz que Memeth passou por aqui transportando o Ovo de Rá em direcção à sua nova casa, nos lugares onde o Sol nasce.

Mestre Ratapone perguntou pasmo:

— Pelo Ovo de Rá, o Mestre Ludovico sabe ler hieróglifos?

— Há muita coisa que sei, mas que nem sempre me lembro, e muita coisa que sei e lembro e não quero fazer.

Godo era sempre mais rápido a perceber as subtilezas e perguntou a Mestre Ludovico:

— Mas há mais aí, não há?

— Sim…

— E então?

— Depende da interpretação… — disse cauteloso — Se lermos em vez de colunas, como linhas, o que não era a forma correcta de ler hieróglifos dirá assim: Quando o Sol nascer no seu lugar, vão em direcção de casa transportando a memória de Memeth.

— Mentes, velho senil! — Rugiu Ratapone. — Memeth passou por aqui e estás com medo e queres voltar para trás!

Maia aproximou-se:

— Mestre, tu não sabes ler, ele sabe! Portanto quem lê é ele. Ele leu das duas formas. Não precisa zangar-se com o mensageiro. Zangue-se com a mensagem.

O seu bordão caiu sobre Maia e só a pronta intervenção de Godo evitou que o Mestre lhe batesse uma segunda vez.

— É melhor que nos acalmemos. — disse Godo mas falou olhando o Mestre nos olhos.

Este baixou os olhos e murmurou:

— Desculpai-me!

Cabelos-de-Fogo falou também:

— Estamos muito tensos, este lugar não tem boas energias…

Galimodo voltou a cheirar o ar.

— As criaturas devem vir aí…

Entretanto apareceu Helmut a arfar e disse:

— Retiremos para trás, para trás! Vem aí um bando de criaturas… a voar!

O Mestre Ratapone cravou o seu bastão no chão e disse alto e firme:

— Que venham! Eu fico aqui!

Ficamos todos congelados na indecisão de partir ou ficar. É sempre assim, basta um louco, um louco convicto, para pôr todos em perigo. Uma convicção feita de pedaços de histórias antigas recontadas até perder o sentido. Sonho ou esperança, materializado num artefacto, como uma pedra gravada, mesmo que já não se saiba como perceber o sentido da escrita.

E por causa de uma pedra escrita, ficamos à mercê de coisas sem nome. Criaturas pequenas, azuladas quase translúcidas, voando à nossa volta, fazendo às vezes um suave zumbido. Foi Helmut quem nos explicou que o zumbido eram elas a comunicarem connosco numa linguagem que não percebíamos.

Bel-Vito tinha os músculos tensos e os nós dos dedos que agarravam a lança inútil estavam brancos da força com que a agarrava. Maia colocou-lhe a mão no ombro e falou tranquilizadoramente:

— Não adianta, nem parece que sejam uma ameaça…

Bel-Vito aliviou a lança na sua mão.

Godo perguntou a Galimodo:

— Podias tentar falar com as criaturas? Diz que somos viajantes e nos perdemos…

Galimodo fungou como um gato e ía para se perder no seu diletantismo quando parou ainda sem ter dito nada. Suspirou e começou com uma espécie de miados suaves. As criaturas voaram para ele e rodearam-no. Maia viu-lhe um brilho de gato no olhar e disse:

— Não Galimodo! Não são pássaros…

Ele tapou a cara com mão num gesto envergonhado. Depois com o seu sorriso mais maroto disse:

— Não sei se me entenderam…

Uma das criaturas veio pôr-se na sua frente e apontou num gesto do seu braço na direcção do vale.

— Parece que querem que desçamos para o vale…

— Sigamos então… — disse o Mestre Ratapone que seguiu imediatamente.

As criaturas esvoaçaram em torno dele, pareciam humanos com asas, em ponto muito pequeno. Voaram em bando e depois desapareceram.

— Que estão à espera? — perguntou Ratapone ao ver que o grupo ficara parado.

Godo avançou na sua direcção, depois olhou para nós:

— Em algum lugar temos de morrer…

Godo tinha toda a razão, onde morremos, às vezes põem uma pedra escrita à laia de epitáfio.