16 julho 2009

O Ovo de Rá – 43ª parte



A Vida é Estranha


A manhã chegou, com um céu muito limpo, mas um frio cortante e ventoso. Sentia-me cansado de ter estado de vigia e sentia-me ensonado. Cabelos-de-Fogo espreguiçou-se e sem dizer nada começou a fazer o pequeno-almoço. Bel-Vito embrulhado numa pele parecia dormir tranquilo. Godo estava acordado e aproximou-se para espevitar o lume e aquecer o pequeno-almoço. Os Mestres acordaram tranquilamente.
Helmut e Galimodo ainda não tinham chegado. Um arrepio involuntário percorreu-me o corpo. Uma angústia apertou-me o estômago.
Curiosamente ninguém perguntou por ninguém. Agasalhavam-se o mais que podiam, e sorviam a bebida quente. Senti algo de estranho naquilo. Tropecei e Godo segurou-me antes que me estatelasse em cima de Bel-Vito. Cabelos-de-Fogo lançou-me um olhar que me pareceu de censura.
-- Obrigado Godo. Sinto-me cansado… Bom dia…
Olharam para mim como se tivesse dito algum segredo.
-- Bom dia… -- murmuraram os Mestres, como se se tivessem esquecido da saudação e a redescobrissem.
Até Cabelos de Fogo me sorriu e disse:
-- Bom dia…
Sentei-me perto da fogueira e antes de cair adormecido de cansaço sei que disse:
-- Helmut e Galimodo ainda não voltaram…

Contaram-me depois que Bel-Vito ao acordar perguntou por eles. E ao saber que não tinham vindo, quis partir à sua procura, sozinho! Bel-Vito não deixaria de nos espantar nunca, com as suas atitudes.
Godo não deixou. Aconselhou os Mestres a esperarmos mais um pouco, o que me daria a mim a oportunidade de descansar. Ficaram. Godo e Bel-Vito foram conhecer o terreno à volta. Nada de estranho, apenas ao fundo do vale, longe ainda de onde nos encontrávamos havia o que parecia ser os contornos de um caminho. Quando contaram isso aos Mestres, ficou decidido que iríamos nessa direcção.
Entretanto acordei e deram-me de beber algo confortadoramente quente.
Ouvimos barulho, Godo e Bel-Vito puseram-se imediatamente de pé, mas era Helmut e Galimodo que chegavam. Parecia tudo bem.
Mas Helmut parecia cansado e trazia um Galimodo visivelmente estafado nas suas costas.
-- Meus amigo… -- começou Helmut – Pedimo-vos desculpa por este atraso, mas…
Parou para ganhar fôlego e Galimodo deixou-se cair e arrastou-se para o pé da fogueira quase se deitando dentro dela.
-- Tivemos que dar uma grande volta…
-- Que se passou? – Perguntou Cabelos-de-Fogo com voz aflita.
-- O Vale… é habitado por criaturas… que nunca vi na vida… lembram-se daquele cheiro estranho que senti? São elas… um cheiro leve… quase nada… quase ia caindo em cima delas antes de me aperceber…
-- São perigosas? – Perguntou Godo.
-- Não sei… não quis correr riscos e andei às voltas… Voam… mas não como os pássaros…
A voz arrastada de Galimodo fez-se ouvir de junto da fogueira:
-- São… Mestre … São como dizia o livro: espíritos! São diáfanos…
-- São o quê? – Sussurrou Bel-Vito.
-- Imateriais. – Murmurou o Mestre Ratapone.
-- Mas… Onde habitam essas criaturas, não há caça… -- concluiu Helmut. E também ele se arrastou até Galimodo deitando-se junto dele.
-- Há mais uma coisa… -- acrescentou Galimodo.
-- O quê? Que coisa? – Perguntou Mestre Ludovico de pé.
Cabelos de Fogo aproximou-se dele e fez-lhe uma festinha no pêlo. E Helmut aproveitou:
-- Encontramos uma pedra grande… Mas com coisas escritas…
-- Onde? – Perguntou o Mestre Ratapone.
-- Perto de onde habitam as criaturas… -- concluiu Galimodo.

Olhamos uns para os outros.
-- Godo, tu e Bel-Vito vão até essa rocha e levem isto aqui… Copiem o que estiver nessa rocha e tragam-me! – Ordenou o Mestre Ratapone.
-- Mas não sabemos onde fica essa pedra… -- ia a dizer Godo.
-- Eu levo-vos até lá. – Disse Helmut fazendo esforço para se por de pé.
-- Nada disso Helmut! – Disse eu. – Primeiro descansas, depois podem ir todos nesta expedição de doidos.
Todos ficamos calados. Até que Mestre Ratapone disse:
-- A vida é estranha… Mas se não corremos atrás de alguma coisa, o que faremos com ela?
Helmut lambia uma bebida aquecida que Cabelos de Fogo lhe pusera a jeito.
-- Eu preferia procriar… -- comentou Helmut, lambendo os beiços.
Como sempre Helmut tinha o condão de nos fazer sorrir, com o seu jeito pragmático de ver as coisas. De facto a vida era estranha, mas precisava de se perpetuar, de continuar, de qualquer jeito. Por esse favor, a natureza concedia-nos o prazer do sexo. Fiquei pensando se todas as espécies sentiriam esse prazer, tal como nós. Alguns pensavam que nos animais, o instinto lhes retirava prazer, mas não me queria parecer que fosse assim. Olhei para Cabelos-de-Fogo, acho que por instinto ela evitou o meu olhar.
A vida manifesta-se de muitas formas, até dessa imaterial, ao que parecia pelos relatos de Helmut e Galimodo. A vida é realmente estranha, como se teimasse em persistir em qualquer lugar até mesmo os mais improváveis e das formas mais inimagináveis possíveis. Não parecia haver outro propósito que não fosse existir.

21 comentários:

O Árabe disse...

Com certeza, ouro propósito existe. Mas não é aqui que oiremos descobrir. :) Bom resto de semana.

Å®t Øf £övë disse...

Mitro,
A vida é realmente estranha, e nós temos que fazer alguma coisa com ela. E se nessa alguma coisa podermos incluir muito sexo, tanto melhor.
Abraço.

KOTTA disse...

Uns de uma maneira outros doutra em grupo ou sós todos são figuras estranhas que caminham à procura do desconhecido.

▒▓█► JOTA ENE ® disse...

๏̯͡๏

.....oooO.............
....(....)....Oooo....
.....)../. ...(....)..
.....(_/.......)../...
.............. (_/....
... PASSEI POR .......
.......... AQUI ......
......................

GK disse...

Escreves muito bem, parabéns! :)

Poetíssima disse...

Nossa...
muita intensidade em um blog só..?!
Obrigada pela visita, tá?!
Gostei daqui...
Abraços!

Amordemadrugada disse...

Olá
Sim, levar a vida a rasgar nao é de todo muito mau
agora legar alguns rasgoes na vida, já nao me seduz nada
lol
bgda beso

Frioleiras disse...

lindo. gostei, pois! (daqui...)


quanto a gárgulas....

são uma 'imitação' , claro...................

tb disse...

lá nos vamos seguindo... :)
pois é a vida e o que fazemos com ela. Isso é apenas uma das nossas escolhas.
Gostei que tivesses continuado.
abriinhus

Melita disse...

Para cada existencia um propósito...
ou melhor em cada altura da existencia um proposito ...
Bjitooooooooo

diana disse...

E seria vida se não fosse estranha?

Pearl disse...

Gostei muito de ler-te.

beijos

Spiritual disse...

A vida tem de ser estranha... se fosse familiar, se já conhecessemos tudo, o que andaríamos nós cá a fazer? Já conhecemos tudo, é verdade, afinal, somos o TODO... mas esta condição de humanos leva-nos a recordar e é esse recordar que nos faz deambular por cá...

Spiritual disse...

A vida tem de ser estranha... se fosse familiar, se já conhecessemos tudo, o que andaríamos nós cá a fazer? Já conhecemos tudo, é verdade, afinal, somos o TODO... mas esta condição de humanos leva-nos a recordar e é esse recordar que nos faz deambular por cá...

Titá disse...

Uma personagem...que escreve muito bem.
VOltarei.

Porcelain Doll disse...

Queremos maissss!! :D Beijinhoss!!

Dri Viaro disse...

Passei pra conhecer seu blog, e desejar bom fim de semana
bjs

aguardo sua visita :)

DairHilail disse...

voltei...
gostei de estar aqui...

Maria, Simplesmente disse...

"A vida é estranha… Mas se não corremos atrás de alguma coisa, o que faremos com ela?"

Esta frase, Vito, leva-nos a pensar em tanta coisa que podemos fazer na vida!
Tudo é vida... tudo faz parte dela e não podemos desperdiçar. A razão porque viemos nunca saberemos, mas o conhecimento do que nela existe,
as lições que aprendemos, do bem e do mal, será que têm alguma finalidade?
Quem pode negar?... e quem pode afirmar?...
Estranha a vida...!
Gostei do que li e voltarei para ler mais.
Maria

Canto da Boca disse...

Será que toda espécie é escravo da própria natureza? Uma indagação levantada a partir da sua última frase:"Não parecia haver outro propósito que não fosse existir". Para atender ao propósito de quê ou quem? Existimos sem dotar a vida de algum sentido?

;)

Obrigada pela sua gentil visita ao Canto, volte sempre que quiser, será um prazer. Sim, a África tem feitiço! Enfeitiçou-me desde que eu passei a perceber o mundo, na minha mais tenra idade.

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

É, a vida é cheia de razoēs....
Martha
Um abraço