24 janeiro 2009

O Ovo de Rá – 42ª parte




imagem encontrada aqui

Deserto Azul



Devo dizer que a passei a noite com sonhos estranhos. Acho que as palavras de Bel-Vito me tinham perturbado a alma e tirado o sono, que a despreocupação e as ilusões, traziam sereno à minha existência.
Perturbava-me a visão que Bel-Vito tinha do amor e o meu inconsciente lutava por encontrar argumentos que o contradissessem, e ao não encontrar nenhum, o meu consciente inquietava-se.
Mas agora compreendia melhor a postura de Bel-VIto, a sua distância, a quase antipatia. Compreender, revelava-se tranquilizador, como se deixasse de ter importância o quão desagradável era tê-lo com aquele feitio. Pensei em como era engraçado que a ‘compreensão’ de um assunto, não o resolvesse, mas concedesse paz. Pensei, que compreender é afinal sossegar a alma…
Não era o único naquela noite a não dormir tranquilo. Olhava ali junto à fogueira, as inúmeras voltas que Cabelos-de-Fogo dava. Mas talvez fosse eu a imaginar coisas e ela apenas se voltasse para se ir aquecendo na noite fria.
Godo estava quieto, mas eu conhecia-o e não lhe sentia a respiração profunda.
Os Mestres encostados um ao outro rabujavam ensonados, sempre que um deles se mexia.
Não via Galimodo, nem Helmut e achei que tinham aproveitado a insónia para irem à caça, agora que os dois tinham percebido que colaborando, os resultados eram melhores.
Ergui-me e notei que Bel-Vito fazia guarda entre uns arbustos. Estava atento, sem sinais aparentes de cansaço. Cobrira-se com uma manta e a lança que costumava usar estava ao alto segura pelo seu braço firme. Será que a ausência de laços, essa recusa em deixar que a brisa do amor, o tocasse fazia dele mais forte? Ele temia como qualquer um de nós quando confrontado com os seus medos. Tremera na expectativa dos Yetis, receara os ataques das águias. Não creio que a ausência de laços lhe trouxesse mais vantagens do que a nós. Agradava-me saber que Godo por exemplo, combateria ainda mais afincadamente, pela nossa amizade, porque gostava de nós. Gostava de pensar que Helmut usaria o seu faro, as suas mandíbulas, em meu favor, porque gostava de mim. E tenho a certeza que Galimodo espetaria as suas garras num inimigo dez vezes maior do que ele só porque se sentia parte do grupo, porque havia laços. E de Bel-Vito não tinha a mesma certeza. Acho que se a situação ficasse má, não seria um guerreiro valente e intrépido a defender-nos, mas fugiria para salvar o seu próprio couro, se o sentisse ameaçado!
Senti que acreditar no amor, mesmo que me trouxesse mais dor que a posição fria e distante de Bel-Vito me era mais vantajosa. Eu diria mesmo, até superior, porque por amizade para com ele, lutaria e defendê-lo-ia, e ele não faria isso por mim; talvez…
Tais raciocínios tranquilizaram-me e trouxeram-me o sono. Foi um bocado surpreso que acordei, ainda não era madrugada, agitado pela mão de Bel-Vito. Este fez-me um sinal para que ficasse calado, mas que o seguisse. Segui-o ainda bêbado de sono. Ele levou-me até aos arbustos onde estivera de vigia e apontou para baixo, por entre os parcos arbustos, para o vale lá bem ao fundo. Havia uma névoa, mas uma névoa estranha, num tom azulado. Encostando a sua boca ao meu ouvido segredou:
-- O que será?
Encolhi os ombros em expressão da minha ignorância, e ele acrescentou:
-- Helmut e Galimodo ainda não voltaram…
Não percebi bem se ele relatava apenas factualmente a questão ou se os laços imperceptíveis do amor o alcançavam e mostrava genuína preocupação com o bem-estar deles.
Ficamos ali lado a lado nos arbustos a olhar para a névoa azul. Era delicado e belo. Ele segredou de novo ao meu ouvido:
-- Ficas tu de vigia… Vou dormir.
E afastou-se em direcção à fogueira, onde espevitou o lume e arranjou um lugar por perto para se deitar. Ri-me, pois era típico de Bel-Vito este tipo de atitudes. E quando julgávamos que estava a mudar rapidamente voltava às mesmas reacções. Mas talvez fosse apenas a minha vontade de o ver mais macio, mais afável. A culpa não era tanto dele, mas das expectativas criadas no instante. Talvez moldássemos assim os outros, os nossos amigos, talvez que sem querer em cada instante, nos moldássemos uns aos outros. E afinal o que nos desagradava em Bel-Vito não eram as suas convicções, as suas atitudes, as suas reacções, mas o facto de não ceder nem um milímetro em relação à sua individualidade. Ele não era nunca o que nós queríamos que fosse, o que esperávamos que fosse, ele era sempre Bel-Vito. E era isso que nos era mais insuportável.
E fiquei a pensar quem, se nós, se ele, seria mais execrável.