06 outubro 2007

Ovo de Rá – 40ª parte



foto daqui

Não faz o meu género…



-- Sabes Helmut, somos loucos em muitos aspectos…
-- Como assim? – perguntou Helmut decidido a explorar toda a sua curiosidade.
Era extraordinário como um simples animal, ao adquirir o dom da fala, se tornava mais curioso, como a sua procura de saber se tornava uma jornada de desbravar o desconhecido, de ir sempre um pouco mais além. Talvez fosse isso que nos fazia andar, mesmo quando todas as esperanças pareciam ter soçobrado algures…
-- Nós humanos damos valor a muitas coisas, Helmut. E nem sempre às coisas que nos mantêm vivos…
-- Viver não é importante para vós? – perguntou Helmut com alguma desconfiança.
-- Claro que é, Helmut! Mas às vezes achamos que a vida é menos importante que certas coisas…
Aqui Helmut olhou-me com um terrível espanto e depois resignado a não conseguir entender-nos suspirou:
-- Realmente… Para além de loucos, são ainda mais loucos!
Ri-me. Mas Helmut conservou-se sério e agora a sua renovada ferramenta cerebral, a sua insaciável curiosidade insistiu:
-- E que coisas são essas que vós humanos, achais mais importante que a própria vida?
-- Que coisas Helmut? – fiz uma pausa para pensar – O amor, a esperança…
Helmut fez outra vez aquele risinho escarninho e comentou:
-- Se o amor é encontrar uma fêmea, em parte posso compreender… Mas tu andas desanimado por ali a Cabelos-de-Fogo não te ligar, mas ainda assim não te matas! Se calhar não és tão louco assim…
Caminhei sem dizer nada, a digerir a afirmação de Helmut. É verdade que não me matava, mas era verdade que me sentia morrer.
-- Helmut, há coisas piores que morrer…
E não dissemos nada por um tempo que me pareceu longo demais. Olhei na frete Godo e Cabelos de Fogo que parecia não terem ainda esgotado tema de conversa. Trocavam sorrisos, uma gargalhada de vez em quando. Notava-se que havia algo bom entre eles. Talvez fosse felicidade, não sei… Mas a felicidade deles, magoava-me.
Talvez Helmut tivesse percebido e comentou:
-- Na alcateia também é preciso lutar por uma fêmea, mas às vezes, por muito que queiramos uma, acabamos por nunca ter. Abandonamos a alcateia e tornamo-nos lobos solitários… Depois é preciso fazer pela vida, pelo menos até morrermos. E quando ela chega, prontos, acaba-se! – E depois em jeito de conclusão – Mas não vejo grande vantagem em desistir mais cedo!
-- És capaz de ter razão Helmut… -- Pensei eu alto. Afinal na sua perspectiva de animal, não havia muita preocupação com conceitos abstractos. A vida resumia-se a viver! Mas talvez houvesse para Helmut, apetrechado com o dom da fala, desafios novos. Conceitos novos, como o amor e a esperança. Se já lhe custava perceber o valor do ouro, iria certamente ter dificuldades em perceber valores. Decidi explorar essa via:
-- Helmut…
-- Sim…
-- Na alcateia como encaram os filhotes?
-- Como quê? – Helmut não percebera muito bem.
-- Por exemplo, pelos filhotes estarias disposto a dar a tua vida?
Helmut parou e todos tomaram algum avanço sobre nós.
-- Não só pelos filhotes… -- retomou Helmut – Pelos amigos também. E falo por mim, não sei o que a alcateia pensa…
Senti vontade de o abraçar. Acho que Helmut pensava com uma clareza que às vezes me deixava surpreendido. E quando dizia as coisas elas resultavam mesmo do seu sentir, não eram coisas elaboradas, na procura de serem bonitas ou de nos impressionarem. Era mesmo o Helmut, nu e cru.
-- Pois! Obrigado Helmut, sei que nem pensarias duas vezes, se eu precisasse de ajuda…
Ele riu-se outra vez e foi mordaz:
-- Mas quando se trata de fêmeas, cada um por si!
Ri-me outra vez.
-- Não me digas que também andas atrás de Cabelos-de-Fogo!
-- Não, não faz o meu género…