24 novembro 2006



O Ovo de Rá - 35ª parte


A Pausa


Atravessamos o caminho estreito com passo bem apressado, um caminho que mal dava para irmos em fila indiana, muitas vezes tínhamos de colar a barriga na parede rochosa e esperar não ter tonturas!
Um ataque de águias naquela situação e seria o fim de algum de nós. Bel-Vito apressou-se, a águia lá no alto continuava às voltas e parecia solitária. Talvez procurasse avaliar as nossas intenções apenas.
Contornamos o Pico das Águias e voltamos a avançar em direcção ao interior das montanhas. Havia uma trilha.
-- Bel-Vito, para onde vai esta trilha? – perguntou Mestre Ratapone.
Bel-Vito parou debaixo da única árvore que por ali havia, uma velhinha árvore retorcida e determinada.
-- Não sei, Mestre… O máximo até onde fomos foi até esta árvore, depois voltamos para trás.
-- Não sabes se os Gulats vão mais para a frente nesta trilha?
-- Acho que não… Os que não morrem, regressam com os nossos guias…
-- Estamos em terra incógnita a partir daqui… -- acrescentou Cabelos de Fogo.
-- Alguém me podia tirar este monte de feno de cima? É que é mau prá minha imagem… Afinal sou um lobo, e não tenho pretensão nenhuma a transformar-me em jerico!
O Helmut sempre jocoso nas suas observações, quebrou a tensão e fomos capazes de rir.
-- Aqui estamos fora de perigo Bel-Vito? – perguntou Mestre Ludovico, muito cansado.
-- Debaixo da árvore estamos.
-- Bem… Vamos descansar um pouco e depois seguimos pela trilha. – Concluiu Mestre Ratapone.
-- Helmut… -- chamou Godo – Cheira-te a alguma coisa?
-- A muitas… Mas não me cheira a perigo. – Respondeu Helmut enquanto godo lhe tirava o monte de palha das costas. – Obrigado.
Galimodo espreitou do seu lugar:
-- Já passou o perigo?
-- Ainda não… -- respondi – Estamos só em intervalo!
Helmut farejou novamente o ar de focinho erguido e apontando em diversas direcções.
-- Há cheiro de gente na trilha… -- Disse ele.
-- Fresco? – perguntou Godo.
-- Talvez três dias… -- Deduziu Helmut.
-- Quantas pessoas? – insistiu Godo.
-- Não disse que eram pessoas… -- murmurou Helmut avançado uns passos na trilha.
-- Então? – quisemos saber.
-- Não sei… -- responde Helmut – Para mim é um cheiro novo, nunca antes o senti.
Bel-Vito ficou pálido como cera e murmurou:
-- Yétis…
-- Calma! – Tranquilizou-o o Mestre. – O Helmut não conhece o cheiro de todos os animais do mundo… Se calhar é algum que ele não conhece…
Bel-Vito ganhou um bocadinho de cor, mas não me pareceu ficar completamente tranquilo.
Cabelos de Fogo sugeriu:
-- É melhor mantermo-nos alertas…
Helmut voltou para nós:
-- Não está perto. Passou por aqui à três dias e vai para o interior das montanhas…
-- Vai à nossa frente! – concluí.
-- Depende… -- gracejou Helmut – podemos regressar e então estará atrás de nós.
-- Não vamos voltar para trás! – disse quase irritado o Mestre Ratapone.
-- Espero que valha a pena a jornada… -- acrescentou Cabelos de Fogo.
-- Bagh! Eu como gosto de turismo, aproveito e aprecio as vistas… -- acrescentei.
-- Espero que haja alguma caça por aqui… Tenho um buraquinho no estômago… -- disse o Helmut.
-- Ía contigo… -- disse Galimodo saltando lá da garupa da mula.
-- Pois é! – sorriu Helmut com aquele sorriso trocista – Se tivermos fome ainda há aqui um gato!
-- Tens cá um mau feitio, apre! – murmurou Galimodo.
Mas afastaram-se os dois pela trilha farejando alguma presa.
Godo descarregou as mulas e deixou-as comer as raras ervas da beira do caminho.
Mestre Ratapone tirou o seu caderno de apontamentos e pôs-se a ler compenetrado.
Mestre Ludovico tirou uma soneca.
Bel-Vito e Cabelos de Fogo postaram-se de atalaia.
O único barulho para além da nossa presença era a brisa que às vezes fazia abanar os ramos da árvore.
A águia havia desaparecido do céu.