23 agosto 2006

O Ovo de Rá - 33ª parte


foto by Irina

Yétis


Quando acordei no outro dia, o ar estava inundado por um perfume de bacon frito que me deu logo água na boca. Mas não me adiantou nada, pois só havia o perfume do bacon no ar, Bel-Vito já tomara o pequeno-almoço, desfizera a sua tenda e tinha já carregado os póneis e estava pronto a partir.
Quando acordei ele tinha acabado de acordar os Mestres e insistia que estavam atrasados e que deviam partir o mais rápido possível. Curiosamente não ofereceu a ninguém o pequeno-almoço o que se me afigurou de muito má educação, até mesmo de uma avareza rude. Depois pensei que eram um bando de ladrões por ganância e tentei compreender. Acordei Cabelos-de-Fogo, que ainda ensonada, quando percebeu que era eu, me ofereceu um sorriso que iluminou o meu dia.
Como o Mestre tivesse concordado com Bel-Vito em partir este acabou a aborrecer toda a gente para desfazer as tendas e se por a caminho o mais depressa possível.
-- Podemos comer qualquer coisa antes de partir? – perguntei.
Bel-Vito respondeu como se fosse ele o encarregado de todos:
-- Não, se precisarem, comem no caminho.
-- E comemos o quê?
-- Desfaçam as tendas e eu já vos dou que comer...
Desfizemos as tendas, eu pelo menos desfiz a minha e ajudei a desfazer a de Godo, enquanto este se encarregou de desfazer a dos Mestres. Estavamos ainda todos demasiado ensonados para reagir com alguma lucidez, acho eu.
Carregamos as mulas e mal o acabamos de fazer, sem sequer esperar ordens do Mestre, Bel-Vito começou a andar.
-- Não te esqueces de nada? – perguntei eu.
-- Que queres? – respondeu ele como se a minha pergunta o tivesse irritado soberanamente.
-- O que quero?! Mas isto é alguma brincadeira, ou a má educação é uma qualidade que te esforças por cultivar?
Ele ficou irritado, por eu o tratar por tu, afinal era filho de chefe e só devia obedecer ao Mestre!
-- Temos de partir...
-- Mas que raio de bicho lhe mordeu?
Godo olhou para mim e foi ele quem disse:
-- Bel-Vito, vamos caminhar se calhar todo o dia, ainda por cima em terreno de alta montanha, acho que é sensato que comamos qualquer coisa...
Ele ficou pensativo a olhar pra nós, olhou para o Mestre e vendo que este também esperava uma resposta, dirigiu-se a um dos seus póneis e de um saco tirou cenouras que começou a distribuir por cada um de nós. Ficamos a olhar-nos e ele acrescentou:
-- Eram para os meus póneis, mas podem ir roendo isso pelo caminho... Se os póneis aguentam, vocês também devem aguentar!
Helmut chegou-se á frente:
-- Ó miniatura de gente, eu não me alimento a cenouras... Aliás olhando pra ti, até te começo a achar um bom petisco!
Galimodo riu-se com aquele riso asmático de gato e acrescentou:
-- Helmut, deixa o fígado dele ou os bofes pra mim por favor... Embora depois de comer esse canastrão, acho que vou ficar doente...
Fiquei soberanamente irritado e Godo também.
Godo aproximou-se de Bel-Vito e agarrando-o pelos ombros levantou-o do chão.
-- Caro amigo, vais explicar-te muito bem, sobre a razão da tua pressa, pois enquanto não nos explicares isso devidamente, não voltas a por os pés no chão!
Bel-Vito com uma espécie de cara de índio no rosto, ficou impassível sem abrir a boca.
O Mestre veio apaziguar as coisas:
-- Meu filho, precisamos que nos digas o que nos deves dizer...
Bel-Vito olhou para o Mestre e depois para Godo, mas o Mestre foi inflexível:
-- Quando começares a explicar-nos, Godo por-te-á no chão...
Ele teve um trejeito de desagrado mas lá se resignou e acrescentou:
-- Se isto fosse um passeio à montanha os Gulats não precisariam de nós...
Godo continuou a mantê-lo com os pés acima do chão e ele começava a ficar desconfortável com o aperto de Godo.
-- Podiam pôr-me no chão? – pediu.
Foi o Mestre quem se aproximou e falou:
-- Ainda não, pois ainda não nos disseste nada sobre a tua pressa...
-- Existem perigos...
-- De que perigos tens receio?
Ele fez uma careta, como se o obrigassem a beber um líquido amargo:
-- Yétis.
O Mestre tocou no braço de Godo e este pousou-o no chão, mas sem o largar. Ele tentou libertar-se mas Godo não lhe deu possibilidade. O Mestre perguntou-lhe metendo o seu rosto junto ao rosto de Bel-Vito:
-- O que são Yétis?
Ele olhou para nós com um olhar estarrecido, como se não compreender o que fosse um Yéti fosse qualquer coisa próxima de um pecado mortal e escandalizado perguntou:
-- Não sabem o que são Yétis?!
-- Eu gostava de saber e acho que nos vais explicar não é? – perguntei eu.
Cabelos de Fogo e os restantes aproximaram-se mais de Bel-Vito para ouvirem.
E reparamos que o impassível Bel-Vito estava a suar!
-- Os Yétis são os homens da montanha... São enormes como ursos... E aproximam-se sem que ninguém dê conta deles...
-- Acho isso difícil, no nosso caso... – comentou Helmut
Por curioso que possa parecer, Bel-Vito ficou pensativo e pareceu descontrair. Era óbvio que nunca tinha pensado que um lobo poderia ser um aliado de peso!
-- O problema é que os Yétis são como sombras... Eu nunca vi nenhum, mas já vi pegadas... E soube de inteiras expedições que desapareceram sem deixar rasto...
-- Podiam ter sido vítimas de avalanches... – Comentou Mestre Ludovico.
Houve silêncio.
-- Quer fosse isso, quer não, sentia-me mais tranquilo se avançassemos rapidamente para o Pico das Águias. – rematou Bel-Vito.
-- Vamos então. – ordenou o Mestre.
E lá retomamos a marcha em passo acelerado.

-- Godo, se os Yétis são os homens das montanhas e perigosos como diz o nosso amigo, porque razão este nosso rude guia, quer lá chegar o mais depressa possível?
Cabelos de Fogo que ía ao pé de mim levava o arco na mão, percebi que pronta a disparar ao menor indício de ameaça e foi ela quem comentou:
-- Cá por mim, venderam-nos aos Gulats e a ‘mercadoria’ está atrasada para a entrega...
Godo não disse nada, mas olhou para trás para Helmut que também se aproximou:
-- Se for isso, juro que o hei-de comer... – resmordeu Helmut.
-- O fígado e os bofes tens de mos deixar... – pediu Galimodo de cima da garupa da mula.
-- Helmut, sentes alguma presença? – perguntou Godo.
-- Nada! Nem de lebres...
-- Não admira, nesta altitude não há muito que comer, preferem ir para altitudes mais abaixo... E a propósito... – Godo dirigiu-se à saca de uma dasmulas e tirou um naco de carne. – É pra ti Helmut.
Depois cortou um pedacinho mais pequeno e deu-o a Galimodo.
-- Nós roemos as cenouras, pra ficar com olhos lindos... – e depois virei-me para Cabelos de Fogo – Tunão precisas, os teus já são muito lindos.
-- Melhora a visão... Se aparecer algum o meu arco encontra-o!
-- Não nos precepitemos... – sugeriu Godo – Todas as culturas têm os seus medos, esta deve ter os seus e podem muito bem ser os Yétis, que se calher nem existem, como a maior parte dos medos...
Caminhando na frente, com passo apressado, talvez Bel-Vito fugisse de coisa nenhuma.
 Posted by Picasa

7 comentários:

indie girl disse...

o teemmmmmmmmmpppppppppooooooo k ja nao vinha a net..mas sabes km e tenho andado a servir a pátria como bombeira..bjus

A Cor do Mar disse...

Beijinho ;***

tb disse...

mais uma "pitada de sal" para aguçar a curiosidade e aumentar o interesse pelo destino dos caminhantes...
Muito bem!
Jinhos

Mikas disse...

A comidinha não pode faltar, venha ela!

a retratada disse...

E essas asas não vão continuar a nos fazer "voar"?
Beijo

Å®t_Øf_£övë disse...

Mitro,
Com Yétis, ou sem Yétis, é sempre necessário comer para se seguir em frente.

PS:. Hoje arranjei um bocadinho de tempo ler alguns capitúlos mais atrasados.
Abraço.

Porcelain Doll disse...

Hum... é impressão minha ou a tua caminhada foi-se tornando progressivamente mais espiritual?? Eu sou suspeita, mas acredita que acho a história toda ela magnífica, este é o estilo de coisa que eu gosto, mas as achegas em forma de conselho espiritaul à Richard Bach ou à Paulo Coelho dão um toque muito particular a isto tudo... se quizesses acrescentar por aqui umas coisas, não sei, são apenas bocas, como deves calcular... mas acho que além do talento para imaginares a sequência da história e os próprios diálogos, tens muito jeito para certas intervenções de carácter algo filosófico que aqui assentam que nem uma luva... esta ideia dos medos e de cada cultura ter os sues medos... podia ser desenvolvida... eheheh, se me dás permissão que meta o nariz, obviamente... :-PP

Bjoka!!