17 julho 2006

O Ovo de Rá - 31ª parte



foto by Daniel Krafft

Saber


Com Bel-Vito na frente em passo quase de corrida, íamos avançando velozmente. Comentei com Helmut:
-- Com este ritmo, não é preciso que haja perigos no percurso... O tipo se encarrega de nos matar de estafa!
-- Se calhar...
-- E se fossemos falar com ele?
-- Acho que o moço é de poucas falas...
-- Tentemos!
E lá aceleramos ainda mais o passo para chegar junto de Bel-Vito. Quando passei por Godo e Cabelos de Fogo não resisti e mandei-lhe um piropo:
-- Então coisa linda, estás a apreciar a caminhada? Afinal isto é lindo como tu!
Mas não parei para ouvir a resposta, continuei em passo acelerado para alcançar Bel-Vito. Foi Helmut com o seu ouvido apurado que me contou o resto do diálogo. Ele ouviu Cabelos de Fogo dizer a Godo:
-- Que parvo! Parece mesmo uma criancinha...
E que Godo lhe respondeu:
-- Parvo não, ele tem toda a razão és muito bonita, tão linda quanto a paisagem... E bem pode ser uma criancinha, dizem que é da boca das crianças que sai a verdade!
Helmut não se conteve e riu-se com aquele típico risinho de hiena.
-- Helmut, o Godo marcou mais uns pontos não achas?
-- Acho! Na amizade... Afinal sem perder a face ele defendeu-te.
Senti-me envergonhado pelo meu ciúme. Entretanto alcançámos os Mestres que pareciam também eles um bocadinho cansados demais para conversarem. Ao passarmos o Mestre Ratapone comentou para mim:
-- Arre que o pequenitates, tem fôlego para dez de nós...
Helmut disse:
-- A gente já lhe vai perguntar em que maratona é que estamos a participar...

Galimodo a dormir no lombo de uma mula, nem seuqer se dignou abrir os olhos, para ele, resfastelado como estava, qualquer andamento seria bom. Mais ainda, acho que ele até se consolava com os balanços!

Chegamos juntos de Bel-Vito que se manteve com aquela cara impenetrável. Eu sorri e perguntei:
-- Vamos em bom ritmo, fazes isto todos os dias?
Ele pareceu ficar surpreso com a pergunta e abriu a boca, mas não disse nada e depois moderando o andamento respondeu:
-- Todos os dias não...
-- Então? Só em dias especiais?
Ele voltou a ficar embasbacado e moderou ainda mais o passo, como se pensar e caminhar ao mesmo tempo fossem inversamente proporcionais.
-- Só faço este caminho quando há viajantes e temos de os levar ao Passo das Águias...
-- E há por aqui viajantes?
Quase parou.
-- Sim, alguns, algumas vezes...
-- Que espécie de viajantes?
-- Bem.... – desta vez parou mesmo e acho que todos ficaram agradecidos, até mesmo as mulas. – Os Gulats costumam vir por aqui, quando querem criar uma nova linhagem de águias por exemplo...
-- E vocês guiam os Gulats?
-- Sim.
-- Muito interessante... E últimamente os Gulats passaram por aqui?
-- Não... Quer dizer, andaram a voar por aí, mas não vieram ter connosco.
-- Obrigado. – disse eu voltando para trás.
Ele ficou parado a olhar para nós, sem se mexer, consciente de que alguma coisa estranha se tinha passado.
Ao passar pelos Mestres, Helmut não se conteve:
-- Devia ter mordido o chefe... Estes gajos são amigos dos Gulats!
-- Amigos? Talvez apenas prestem serviços Helmut... – disse o Mestre Ratapone depois que lhe contamos o que nos dissera Bel-Vito.
-- Isso melhora muito... – comentou Helmut – Bem gostava de saber que ‘serviço’ está ele a prestar neste momento. Pelo menos com esta pressa toda!
-- Bem... Mantenhamo-nos atentos... – disse o Mestre – Helmut, o teu faro ou o teu ouvido, não te dizem se estamos a ser seguidos, pois não?
Helmut ficou calado e depois disse:
-- Não... Mas eu e o Maia vamos para trás e vamos estar atentos.
-- Obrigado.
Bel-Vito que estava afastado na frente, ergueu a sua lança e fez sinal de que era hora de continuar. Mas desta vez ía mais lento, presumimos que ía a pensar.

Ao passarmos junto de Godo e Cabelos de Fogo, Helmut falou:
-- Acho que devem ir preparados para qualquer eventualidade... Ali o nosso pigmeu maratonista tens uns amigos pouco recomendáveis...
-- Como assim? – perguntou Cabelos de Fogo.
-- Gulats! – respondi eu.
-- Estás a brincar!
Foi Helmut quem respondeu:
-- Foi ele que nos disse. Quando os Gulats querem novas águias vêm ter com eles e eles guiam-nos ao Passo das Águias... prá caçada.
Deixamos Godo e Cabelos de Fogo a ruminar a situação e colocamo-nos na cauda do grupo. Atentos.
Ainda assim a certa altura começamos de novo a conversar:
-- Helmut, lembras-te daquela conversa que tivemos, antes de encontrarmos os anões?
-- Que falamos sobre o Godo e as suas relações amorosas?
-- Isso mesmo...
-- E então?
-- Tu falaste que depois que se sabe não se pode voltar atrás.
Helmut parou e o grupo distanciou-se um bocado.
-- Quis dizer-te que depois que sabemos alguma coisa, não a podemos voltar a ignorar. É um caminho só de ida, sem retorno.
-- Isso eu entendo, mas neste contexto...
-- É ainda mais premente. Saber se o outro gosta ou não de ti, pode fazer uma enorme diferença.
-- Pois pode...
-- Mas saber, não significa ser feliz...
-- Pois não.

12 comentários:

tb disse...

Interessante a forma como acaba o conto de hoje...
Continuam as aventuras do grupo e adensa-se o mistério.
Bjinhos

Sea disse...

Não posso comentar grande coisa, porque tenho de ler os post para trás.
Obrigada pela visita.
Kisses e viva as loiras :)

Maresi@ disse...

Migoooooooooo finalmente nasceu!!!!!!!!!! lindo teto...deixaste me a viajar...

Beijo Maresi@

filomena disse...

Encantadora a história.

Beijinhos

XannaX disse...

Saber não significa ser feliz, de facto, mas ajuda.
Continua a caminhada em bom ritmo.
Beijinhos

collybry disse...

Que bela história esta...Giro teu espaço...voltarei para ler todas as outras, adora histórias...
Sabes ainda bem que os gostos diverem para assim se apreciar e partilhar o saber de cada um...
eu pessoalmente gosto de variar
a forma de formatar,tudo que se possa, as mudanças são uma constante na vida, daí a apredizagem...não achas...
Gostei deste teu espaço e voltarei...
Meu esvoaçar...
Cõllybry

collybry disse...

Pois aqui estou a conhecer este teu espaço e agradecer a visita...
e adoro histórias, esta é linda é começo ou fim?...voltarei para ler todas elas...
Meu esvoaçar num doce olharindiscreto...
Cõllybry

sugcrasis disse...

Uma história agradável.
Gabo a paciência de estar a passar tudo.
Breves cenas dos próximos capítulos?

Sugcrasis

sugcrasis disse...

Uma história agradável.
Gabo a paciência de estar a passar tudo.
Breves cenas dos próximos capítulos?

Sugcrasis

Ana P. disse...

Continuo a seguir cada episódio...

Beijinhos

Eternal disse...

Vim agradecer a tua visita =)
Gostei bastante do teu espaço. Voltarei
Beijinho Lunar

Porcelain Doll disse...

Esta imagem está tão bonita... com as gotinhas em cima das folhas... :)Sabes... aprendi que é preciso ter mesmo muito cuidado com a verdade... há que tentar manter-nos fiéis a ela, sobretudo no que diz respeito à sinceridade para connosco mesmos, mas se pretendemos dirigir-nos aos outros, temos de tentar adaptar-nos aos seus parâmetros e adaptar aquilo que pode ou não ser dito e como deve ser dito... :)

A tua história tem uma atmosfera de aventura e mistério fascinante... sabes que tenho na minha vida uma pessoa muito especial, que cria em mim uma sensação semelhante à que esta história cria... curioso!! Trata-se de uma história com um ritmo cadenciado, que prende... que nos faz esquecer do resto... :) Uma história tranquila que nos hipnotiza... e que nos leva com ela... e que nos faz crescer com ela... fabuloso... :)

Dizes aqui que depois que se sabe uma coisa, não há caminho de volta... não há forma de ignorar... é bem verdade isso... o conhecimento é um caminho só de ida... mas eu acho que se pode voltar atrás para completar; não para esquecer, mas para completar aquilo que se soube e torná-lo mais completo e, portanto, mais harmonioso e perfeito... :) Acho que saber significa ser-se feliz; quando não significa é porque não sabemos tudo o que devíamos saber, é porque alguma ligação está a falhar... Beijinhos!!