07 julho 2006


O Ovo de Rá - 30ª parte


O Guia


Com o desgosto estampado no rosto Bel-Ygor mandou parar os festejos e apesar de pequeno foi prontamente obedecido. Tão prontamente que estranhamos o facto de em apenas um instante a aldeia mergulhar num repousante silêncio.
Bel-Ygor levou-nos a uma casa um pouco afastada das outras e que parecia maior, ele explicou:
-- Construímos esta casa maior, para acolher Memeth, quando ele chegasse... Acho que ele não se importaria que pudésseis repousar aqui. -- Fez uma pausa para respirar fundo e continuou: -- Amanhã, ser-vos-ão entregues as vossas mulas, provisões para a viagem e as minhas condições para vos fornecer um guia que vos conduza até ao Pico das Águias. – Virou-nos as costas e desapareceu.
Só a luz da fogueira no meio da praça iluminava as casas no largo, fazendo brincadeiras com as sombras.
Acomodamo-nos conforme pudemos. As camas apesar de grandes para os habitantes da aldeia continuavam a ser pequenas para nós. Mas dormindo de pernas encolhidas e com mantas grandes era possível.
Antes de nos deitarmos a dormir fui até junto do Mestre Ratapone:
-- Mestre, isto é que foi sorte hein? Quem nos havia de assaltar tinham logo de ser os que conheceram Memeth!
-- Tu chamas-lhe sorte? Mas repara bem que não é! Temos vindo a seguir de modo sistemático o percurso de Memeth e com isso apenas aumentamos as probabilidades de passarmos pelos mesmos sítios por onde ele passou. Ou de nos acontecerem as mesmas coisas que lhe aconteceram a ele! E agora sabermos que Memeth prometeu e não regressou, apenas nos deve fazer cientes de que os perigos são bem reais!
Fiquei a pensar naquilo. Quer dizer que o que tinha impedido Memeth de regressar, podia ser o mesmo que nos impedira a nós. Era uma perspectiva assustadora!
E isso fez difícil pegar no sono.

De manhã a aldeia parecia toda mergulhada em agitação, eu diria mesmo, quase cosmopolita. E que contraste isso era com o silêncio da noite! Era deveras um povo engraçado.
Bel-Ygor estava à espera que acordassemos e mal nos viu sair, trouxe as nossas mulas e dirigiu-se a Ratapone:
-- Que a vossa caminhada possa ter também o sentido do regresso! Conforme prometido aqui estão as vossas mulas. Não tiramos nada, pois talvez Memeth não tenha regressado com medo que quisessemos mais ouro, quando no fundo apenas queríamos a sua companhia!
Olhei para Mestre Ludovico, que me olhou com aquele ar de quem não acreditava inteiramente. Mas Bel-Ygor continuou:
-- Juntei mais algumas provisões às vossas... E estou disposto a fornecer-vos um guia para vos conduzir até ao Pico das Águias... – e parou de falar, parecendo com isso dar-nos uma oportunidade de o interpelar. Mestre Ratapone percebeu e delicadamente perguntou:
-- Chefe Bel-Ygor, agradecemos a magnífica hospitalidade e somos por ela eternamente gratos! Ainda mais quando te sabemos amigo do nosso amigo Memeth. Mas estamos curiosos de saber as tuas condições para nos fornecer o guia que nos ajudará na nossa jornada...
Bel-Ygor pareceu agradado e continuou:
-- Vou dar-te como guia o meu filho Bel-Vito!
O rapaz apareceu e para anão era particularmente grande com cerca de 1,5m, bem constituído, de aspecto robusto. O seu rosto era fechado, quase sereno, talvez grave, como se estivesse sempre a esconder as suas emoções. A tez de sua pele era particularmente escura, de um moreno avermelhado. Na mão trazia uma lança maior do que ele e na cintura uma adaga, talvez que no caso deles, pudesse ser uma espada.
-- O meu filho irá levar-vos até ao Pico das Águias, mas depois irá convosco. É a minha única condição. – E calou-se.
Mestre Ratapone também ficou calado por um tempo, talvez pensando em todas as consequências e depois respondeu:
-- Está bem. Concordo, mas o teu filho deverá obedecer-me como se fosse a ti.
-- Nem ele, nem eu, pensaríamos doutra maneira. – Disse Bel-Ygor de pronto.

E lá estava o grupo a aumentar sobremaneira! Era engraçado como íamos recolhendo gente pelo caminho, em especial à medida que sentíamos cada vez mais perto as manifestações da presença de Memeth. Talvez a jornada não estivesse afinal tão longe do seu término!

Já não éramos mais como os dedos de uma mão, mas talvez fossemos agora mais o pulso e daqui a pouco mais o cotovelo!
Junto com Bel-Vito vieram mais dois póneis com provisões que Bel-Ygor fez questão de mandar. E partimos, outra vez, pelos caminhos da montanha. Bel-Vito à frente com um passo firme e decidido eu diria até mesmo rápido para um homem tão pequeno. Será que tinha tanto desejo de ver Memeth? De certo que a ser filho de Bel-Ygor nunca deve ter sequer visto Memeth! Mas que talvez este fizesse agora parte da sua história, da história da sua ladeia, do seu povo e afinal Bel-Vito fosse escrever a parte dela que faltava, como o historiador que persegue os seus heróis de infância!

Bel-Vito seguia em frente e os Mestres acompanhavam-no. Atrás dos Mestres, Godo, Cabelos-de-Fogo, Galimodo e as mulas. E a encerrar o cortejo como era habitual eu e Helmut.
-- Helmut, qualquer dia parecemos uma caravana... de camelos no deserto...
-- Pois! Se julgam que vou caçar para esta gente toda, desenganem-se...
Tudo voltava ao normal, até Helmut a pensar com o estômago.

19 comentários:

tb disse...

um desenrolar interessante...imagens nas palavras que brotam como a água da nascente.
Fico à espera ansiosamente do desenrolar da saga.
Bjinhos

Fox disse...

Gostava de saber como isto vai acabar...

Queria também lançar um desafio ao Mitro. Disse no meu blog que "Acho que esta Selecção já merecia um capítulo extra nos Lúsiadas". Desafio-o a puxar pela cabeça e a inventar aí umas belas de umas estrofes (onde de preferência o Ricardo esteja bem realçado) à nossa selecçao para eu colocar ali no meu cantinho da blogosfera =) Será que um escritor de prosa com tal talento também rima com o mesmo "à vontade"??? Vamos ver ;)
Um grande abraço!

Åñäii§ disse...

Vim deixar um beijinho...ainda não consegui juntar as pontas todas da história, mas vou no bom caminho...estou a adorar toda a mensagem que a história pretende passar...Obrigada pela partilha e pelas tuas visitas ao Delta de Vénus...

Aqui, ofereço-te palavras minhas...as ditas entrelinhas que procuras, será?

XannaX disse...

Tenho reparado o quão inclusivo o grupo está a ficar e isso é uma perspectiva muito interessante desta história!
beijinhos e bfs

filomena disse...

Tão agradável passar por aqui.

Beijinhos

Ana P. disse...

Hoje deixo-te um beijinho

Joana disse...

Não, não vás tratar da horta...

mitro disse...

Joana,

Obrigado! Sendo assim continuo a escrever...

Ana P. disse...

Beijinhos, beijinhos.
Continuo a acompanhar os teus contos

topas disse...

Bela imagem ...como é abitual!

http://maistopas.blogspot.com/

.*.Magia.*. disse...

Respira-se imaginação por estes lados...gostei muito do que li...voltarei para me inteirar pouco a pouco de todas as partes...e tanto que tenho para ler ;)

It's a Kind of Magic

Inês Diana disse...

Vim fazer-te uma visita e dar-te um beijo :)

P.S.- Para a semana vou de férias e ja tenho o que ler, sabes? ;)

Safada disse...

=) Obrigada
Prometo ler-te, mas depois, com a devida atenção. Agora tenho um hotel para projectar e hoje é dia de me portar bem (seja lá o q isso for) =)

*

White Angel disse...

Venho retribuir o carinho me que deixaste...
Continua a escrever, sabes o que fazes...
Beijos com muito carinho...

Clife disse...

Obrigado pelo seu comentário no meu texto "Adeus". Disse-me que "Acreditar que a felicidade vem do amor... é uma ilusão!", porém eu digo-lhe que em parte e talvez até tenha razão, mas todavida sem amor também não há felicidade...

E assim vim aqui parar e surpreendeu-me com os seus contos, tenho de cá voltar, e agora que as férias se aproximam terei muito tempo pra ler (:

Um bem haja.

_+*A Elite in Paris*+_ disse...

Este livro é de tua pertença? beijokas

jm disse...

Excelente "estória"!
Vou ler a "saga" até ao fim!
Interessante!

Um abraço

Cris disse...

Conseguiste chamar-me a atenção, vou voltar.
Deixo-te um beijo

Catharina disse...

mais uma caminhada...