25 julho 2006

O Ovo de Rá - 32ª parte


foto de foto por Brane 

Parece...


No fim de um dia de caminhada estavamos tão estafados que nem deu para grandes conversas ou sequer para pensar antes de adormecer! Adormecemos todos tão rapidamente quanto era possível.
Cabelos-de-Fogo conhecedora do poder das ervas ainda tentou encontrar algumas que conhecia para combater o cansaço e a fadiga. Mas aquela altitude a maioria dasplantas que conhecia faltou à chamada.
Mestre Ludovico tentou convencer-nos a beber uma das poções por si inventadas, mas ninguém quis arriscar eele foi o único a experiemntar-lhe o efeito. De facto, fez bom efeito que dormiu quen em um calhau até ao dia seguinte, onde nos custou imenso convecê-lo a levantar-se! Na próxima teria de diminuir a dose!
Sei que Mestre Ratapone embora não se quisesses precipitar no seu julgamento, ficara apreensivo ácerca do facto de os habitantes de Belutine levarem os Gulats até ao Passo das Águias.
-- Depois do Passo das Águias sabes o caminho? – perguntou Mestre Ratapone a Bel-Vito.
-- Sim, Mestre. Mas apenas alguns quilómetros mais.
-- Depois não conheces?
-- Não senhor.
-- Há alguém que nos possa guiar?
-- Nesta altitude não creio senhor.
-- Está bem... Teremos de ir com cautela.
Bel-Vito fez uma tenda estranha, com meia dúzia de paus. E aí abrigado adormeceu também rápido.
Aproximei-me de Godo e de Cabelos-de-Fogo.
-- Querem ajuda para montar a vossa tenda?
Godo ficou surpreso, mas quem falou foi Cabelos-de-Fogo:
-- Podias ajudar-me a fazer a minha... – e com um sorriso iresistível acrecsentou -- ... por favor.
E ajudei-a a montar tenda, curioso pela expressão dela ‘fazer a minha’! Mas o que é certo é que Godo passou a montar uma também para ele. Pensei que no final talvez acabássemos com tendas a mais! Os Mestre estavam numa, Bel-Vito meteu-se na sua, restavamos nós.
Galimodo procurava dar-nos intruções sobre o melhor modo de montar a tenda.
-- Eu acho que vocês deviam primeiro saber para que lado é o norte e virara a cabeceira para norte... E a entrada para Sul...
Apareceu Helmut que tinha tentado ajudar Godo a montar a sua e falou para Galimodo:
-- E tu ó bola de pelo cor de cenoura? Num fazes a tua tenda?
-- De facto devíamos fazer a nossa! – respondeu Galimodo agradado.
-- E já agora convidavamos também as mulas para se juntar a nós e o pónei ali do miniatura não?
Foi só aí que Galimodo percebeu que Helmut estava a gozar com ele!
-- Ai o senhor canídeo de mau humor acha que um gato, não sabe montra uma tenda?
-- Eu acho que sabe... –disse Helmut – Mas não basta saber... Aliás está como eu! Sabe uma data de coisas que não lhe aproveitam nada!
-- Você é um chato! – bufou Galimodo.
-- Decerto que sou! Um chato cansado... Mas já decobri ali um montinho de ervas sequinhas que vai dar um colchão maravilhoso!
Depois foi até Godo.
-- Ali, o camarada pigmeu, parece estar-se nas tintas para os quartos de vigia... E ainda bem que não tenho confiança na amostra de gente! Eu faço o primeiro quarto Godo. Fazes o quarto seguinte?
-- Sim... Depois o Maia faz o terceiro e Cabelos-de-Fogo o quarto.
Eu e ela acenamos em concordãncia. Os Mestres ja ressonavam.
Afastei-me para começar a montar a minha tenda e Cabelos-de-Fogo convidou:
-- Aqui na alta montanha as noites são frias... Dorme na minha tenda. Aliás temos depois os quartos de vigia seguidos e escusamos de incomodar os outros, acordamo-nos um ao outro...
E meio aparvalhado com a proposta disse:
-- E Godo?
-- Ele tem a tenda dele, não tem? Galimodo far-lhe-à companhia...
-- Eu?! – disse Galimodo apanhado de surpresa como eu.
-- Sim, tu. Godo não é teu amigo? Além disso ambos têm o nome começado por ‘G’ de modo que podem partilhar a mesma tenda!
Era uma lógica nova aplicável certamente em alta montanha e que determinava quem ficava na tenda de quem.
Deixei-me ir para a tenda com ela. Enrolamo-nos nas peles que serviam de cobertores e ela disse-me:
-- Boa noite... Dorme bem...
-- Tu também. – disse eu.

E a noite foi quente e cheia de sonhos, pelo menos até ser acordado por Godo para fazer o meu quarto de vigia. Helmut desistira das suas folhas e pude perceber que se tinha recolhido na tenda de Godo.
Godo sussurrou-me:
-- Nem Helmut, nem eu, ouvimos nada de suspeito. Mas isto aqui é demasiado silencioso...
-- Achas que podem haver surpresas?
-- Esta noite não, mas se amanhã não chegarmos ao Passo das Águias, acho que podemos ter?
-- Porque dizes isso?
-- É só u ma sensação... O Helmut pensa como eu e acho que Bel-Vito sabe mais do que o que conta. Reparaste? Deitou-se sem estabelecer qualquer vigia, mas quase nos fez correr até aqui. E estou em crer que nos fará correr de novo amanhã. De qualquer modo, faz o teu quarto de vigia com os olhos abertos, está?
-- Está descansado.
Godo sorriu e depois acrescentou apontando com o queixo para a tenda:
-- Ela sabe torturar-te, não é?
Sorri-lhe e respondi-lhe já ele ía a caminho da sua tenda:
-- Parece-me que sim... Posted by Picasa

17 julho 2006

O Ovo de Rá - 31ª parte



foto by Daniel Krafft

Saber


Com Bel-Vito na frente em passo quase de corrida, íamos avançando velozmente. Comentei com Helmut:
-- Com este ritmo, não é preciso que haja perigos no percurso... O tipo se encarrega de nos matar de estafa!
-- Se calhar...
-- E se fossemos falar com ele?
-- Acho que o moço é de poucas falas...
-- Tentemos!
E lá aceleramos ainda mais o passo para chegar junto de Bel-Vito. Quando passei por Godo e Cabelos de Fogo não resisti e mandei-lhe um piropo:
-- Então coisa linda, estás a apreciar a caminhada? Afinal isto é lindo como tu!
Mas não parei para ouvir a resposta, continuei em passo acelerado para alcançar Bel-Vito. Foi Helmut com o seu ouvido apurado que me contou o resto do diálogo. Ele ouviu Cabelos de Fogo dizer a Godo:
-- Que parvo! Parece mesmo uma criancinha...
E que Godo lhe respondeu:
-- Parvo não, ele tem toda a razão és muito bonita, tão linda quanto a paisagem... E bem pode ser uma criancinha, dizem que é da boca das crianças que sai a verdade!
Helmut não se conteve e riu-se com aquele típico risinho de hiena.
-- Helmut, o Godo marcou mais uns pontos não achas?
-- Acho! Na amizade... Afinal sem perder a face ele defendeu-te.
Senti-me envergonhado pelo meu ciúme. Entretanto alcançámos os Mestres que pareciam também eles um bocadinho cansados demais para conversarem. Ao passarmos o Mestre Ratapone comentou para mim:
-- Arre que o pequenitates, tem fôlego para dez de nós...
Helmut disse:
-- A gente já lhe vai perguntar em que maratona é que estamos a participar...

Galimodo a dormir no lombo de uma mula, nem seuqer se dignou abrir os olhos, para ele, resfastelado como estava, qualquer andamento seria bom. Mais ainda, acho que ele até se consolava com os balanços!

Chegamos juntos de Bel-Vito que se manteve com aquela cara impenetrável. Eu sorri e perguntei:
-- Vamos em bom ritmo, fazes isto todos os dias?
Ele pareceu ficar surpreso com a pergunta e abriu a boca, mas não disse nada e depois moderando o andamento respondeu:
-- Todos os dias não...
-- Então? Só em dias especiais?
Ele voltou a ficar embasbacado e moderou ainda mais o passo, como se pensar e caminhar ao mesmo tempo fossem inversamente proporcionais.
-- Só faço este caminho quando há viajantes e temos de os levar ao Passo das Águias...
-- E há por aqui viajantes?
Quase parou.
-- Sim, alguns, algumas vezes...
-- Que espécie de viajantes?
-- Bem.... – desta vez parou mesmo e acho que todos ficaram agradecidos, até mesmo as mulas. – Os Gulats costumam vir por aqui, quando querem criar uma nova linhagem de águias por exemplo...
-- E vocês guiam os Gulats?
-- Sim.
-- Muito interessante... E últimamente os Gulats passaram por aqui?
-- Não... Quer dizer, andaram a voar por aí, mas não vieram ter connosco.
-- Obrigado. – disse eu voltando para trás.
Ele ficou parado a olhar para nós, sem se mexer, consciente de que alguma coisa estranha se tinha passado.
Ao passar pelos Mestres, Helmut não se conteve:
-- Devia ter mordido o chefe... Estes gajos são amigos dos Gulats!
-- Amigos? Talvez apenas prestem serviços Helmut... – disse o Mestre Ratapone depois que lhe contamos o que nos dissera Bel-Vito.
-- Isso melhora muito... – comentou Helmut – Bem gostava de saber que ‘serviço’ está ele a prestar neste momento. Pelo menos com esta pressa toda!
-- Bem... Mantenhamo-nos atentos... – disse o Mestre – Helmut, o teu faro ou o teu ouvido, não te dizem se estamos a ser seguidos, pois não?
Helmut ficou calado e depois disse:
-- Não... Mas eu e o Maia vamos para trás e vamos estar atentos.
-- Obrigado.
Bel-Vito que estava afastado na frente, ergueu a sua lança e fez sinal de que era hora de continuar. Mas desta vez ía mais lento, presumimos que ía a pensar.

Ao passarmos junto de Godo e Cabelos de Fogo, Helmut falou:
-- Acho que devem ir preparados para qualquer eventualidade... Ali o nosso pigmeu maratonista tens uns amigos pouco recomendáveis...
-- Como assim? – perguntou Cabelos de Fogo.
-- Gulats! – respondi eu.
-- Estás a brincar!
Foi Helmut quem respondeu:
-- Foi ele que nos disse. Quando os Gulats querem novas águias vêm ter com eles e eles guiam-nos ao Passo das Águias... prá caçada.
Deixamos Godo e Cabelos de Fogo a ruminar a situação e colocamo-nos na cauda do grupo. Atentos.
Ainda assim a certa altura começamos de novo a conversar:
-- Helmut, lembras-te daquela conversa que tivemos, antes de encontrarmos os anões?
-- Que falamos sobre o Godo e as suas relações amorosas?
-- Isso mesmo...
-- E então?
-- Tu falaste que depois que se sabe não se pode voltar atrás.
Helmut parou e o grupo distanciou-se um bocado.
-- Quis dizer-te que depois que sabemos alguma coisa, não a podemos voltar a ignorar. É um caminho só de ida, sem retorno.
-- Isso eu entendo, mas neste contexto...
-- É ainda mais premente. Saber se o outro gosta ou não de ti, pode fazer uma enorme diferença.
-- Pois pode...
-- Mas saber, não significa ser feliz...
-- Pois não.

07 julho 2006


O Ovo de Rá - 30ª parte


O Guia


Com o desgosto estampado no rosto Bel-Ygor mandou parar os festejos e apesar de pequeno foi prontamente obedecido. Tão prontamente que estranhamos o facto de em apenas um instante a aldeia mergulhar num repousante silêncio.
Bel-Ygor levou-nos a uma casa um pouco afastada das outras e que parecia maior, ele explicou:
-- Construímos esta casa maior, para acolher Memeth, quando ele chegasse... Acho que ele não se importaria que pudésseis repousar aqui. -- Fez uma pausa para respirar fundo e continuou: -- Amanhã, ser-vos-ão entregues as vossas mulas, provisões para a viagem e as minhas condições para vos fornecer um guia que vos conduza até ao Pico das Águias. – Virou-nos as costas e desapareceu.
Só a luz da fogueira no meio da praça iluminava as casas no largo, fazendo brincadeiras com as sombras.
Acomodamo-nos conforme pudemos. As camas apesar de grandes para os habitantes da aldeia continuavam a ser pequenas para nós. Mas dormindo de pernas encolhidas e com mantas grandes era possível.
Antes de nos deitarmos a dormir fui até junto do Mestre Ratapone:
-- Mestre, isto é que foi sorte hein? Quem nos havia de assaltar tinham logo de ser os que conheceram Memeth!
-- Tu chamas-lhe sorte? Mas repara bem que não é! Temos vindo a seguir de modo sistemático o percurso de Memeth e com isso apenas aumentamos as probabilidades de passarmos pelos mesmos sítios por onde ele passou. Ou de nos acontecerem as mesmas coisas que lhe aconteceram a ele! E agora sabermos que Memeth prometeu e não regressou, apenas nos deve fazer cientes de que os perigos são bem reais!
Fiquei a pensar naquilo. Quer dizer que o que tinha impedido Memeth de regressar, podia ser o mesmo que nos impedira a nós. Era uma perspectiva assustadora!
E isso fez difícil pegar no sono.

De manhã a aldeia parecia toda mergulhada em agitação, eu diria mesmo, quase cosmopolita. E que contraste isso era com o silêncio da noite! Era deveras um povo engraçado.
Bel-Ygor estava à espera que acordassemos e mal nos viu sair, trouxe as nossas mulas e dirigiu-se a Ratapone:
-- Que a vossa caminhada possa ter também o sentido do regresso! Conforme prometido aqui estão as vossas mulas. Não tiramos nada, pois talvez Memeth não tenha regressado com medo que quisessemos mais ouro, quando no fundo apenas queríamos a sua companhia!
Olhei para Mestre Ludovico, que me olhou com aquele ar de quem não acreditava inteiramente. Mas Bel-Ygor continuou:
-- Juntei mais algumas provisões às vossas... E estou disposto a fornecer-vos um guia para vos conduzir até ao Pico das Águias... – e parou de falar, parecendo com isso dar-nos uma oportunidade de o interpelar. Mestre Ratapone percebeu e delicadamente perguntou:
-- Chefe Bel-Ygor, agradecemos a magnífica hospitalidade e somos por ela eternamente gratos! Ainda mais quando te sabemos amigo do nosso amigo Memeth. Mas estamos curiosos de saber as tuas condições para nos fornecer o guia que nos ajudará na nossa jornada...
Bel-Ygor pareceu agradado e continuou:
-- Vou dar-te como guia o meu filho Bel-Vito!
O rapaz apareceu e para anão era particularmente grande com cerca de 1,5m, bem constituído, de aspecto robusto. O seu rosto era fechado, quase sereno, talvez grave, como se estivesse sempre a esconder as suas emoções. A tez de sua pele era particularmente escura, de um moreno avermelhado. Na mão trazia uma lança maior do que ele e na cintura uma adaga, talvez que no caso deles, pudesse ser uma espada.
-- O meu filho irá levar-vos até ao Pico das Águias, mas depois irá convosco. É a minha única condição. – E calou-se.
Mestre Ratapone também ficou calado por um tempo, talvez pensando em todas as consequências e depois respondeu:
-- Está bem. Concordo, mas o teu filho deverá obedecer-me como se fosse a ti.
-- Nem ele, nem eu, pensaríamos doutra maneira. – Disse Bel-Ygor de pronto.

E lá estava o grupo a aumentar sobremaneira! Era engraçado como íamos recolhendo gente pelo caminho, em especial à medida que sentíamos cada vez mais perto as manifestações da presença de Memeth. Talvez a jornada não estivesse afinal tão longe do seu término!

Já não éramos mais como os dedos de uma mão, mas talvez fossemos agora mais o pulso e daqui a pouco mais o cotovelo!
Junto com Bel-Vito vieram mais dois póneis com provisões que Bel-Ygor fez questão de mandar. E partimos, outra vez, pelos caminhos da montanha. Bel-Vito à frente com um passo firme e decidido eu diria até mesmo rápido para um homem tão pequeno. Será que tinha tanto desejo de ver Memeth? De certo que a ser filho de Bel-Ygor nunca deve ter sequer visto Memeth! Mas que talvez este fizesse agora parte da sua história, da história da sua ladeia, do seu povo e afinal Bel-Vito fosse escrever a parte dela que faltava, como o historiador que persegue os seus heróis de infância!

Bel-Vito seguia em frente e os Mestres acompanhavam-no. Atrás dos Mestres, Godo, Cabelos-de-Fogo, Galimodo e as mulas. E a encerrar o cortejo como era habitual eu e Helmut.
-- Helmut, qualquer dia parecemos uma caravana... de camelos no deserto...
-- Pois! Se julgam que vou caçar para esta gente toda, desenganem-se...
Tudo voltava ao normal, até Helmut a pensar com o estômago.