04 junho 2006

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O Ovo de Rá - 18ª parte


A vida é frustração


O Mestre Ratapone sempre me ensinara que não devemos atribuir intenções aos outros, pois pode sempre ocorrer que estejamos enganados! E não é que o Mestre Ludovico afinal não tivera nenhuma intenção de nos entregar?
Mas ficara tão desejoso de companhia que esquecera as suas limitações em termos de hospedagem, o bom homem!
A casa embora parecesse pequena à primeira vista, de quem apenas a observasse por fora, era afinal uma bela instalação. Fora construída sobre a entrada de uma gruta e tinha como dizia o Mestre Ludovico uma ‘cave’. Era uma cave enorme, onde o laborioso homem instalara uma biblioteca bem fornecida e um laboratório para as suas pesquisas. Havia espaço para uma adega e amplo espaço em que montar camas... O que ele fizera para nós. Conforme nos disse depois, "a menina ficaria no seu quarto e os homens ficariam na cave"!
A temperatura na cave era agradável e Mestre Ratapone deliciou-se a consultar os vários volumes da biblioteca. Acerquei-me dele:
-- Mestre...
-- Sim Maia, que é?
-- Já percebi que Godo e Helmut foram fazer de sentinelas enquanto estivemos a beber chá com Mestre Ludovico. Mas... Não foi arriscado bebermos o chá?
-- Em relação a ti e a Cabelos de Fogo, bem precisavam de dormir, não achas?
-- Pois... É verdade, mas e o Mestre?
-- Eu não bebi chá!
-- Não
-- Não Maia. Fingi beber. E já que ele esperava que eu adormecesse fiz-lhe a vontade! – e voltou a piscar-me o olho.
-- E não teve medo? Podia ter-nos cortado a cabeça!
-- Se fosse ganancioso como chegámos a pensar, não faria isso! Cabelos de Fogo vale muito mais viva, do que morta!
-- Será que ele sabia da oferta das 500 moedas de prata que oferecem por Cabelos de Fogo?
-- Claro! Não te lembras quando nos disse que sabia o que se passara connosco no Passo de Ziz e com os Gulats? Ora eu não lhe contara essas coisas e ele sabia-as. É claramente um homem bem informado. E se o foi em relação a isso, não o seria em relação ao resto?
-- Pois, também devia saber do resto...
-- E de certeza que quem lhe contou do Passo de Ziz ou dos Gulats, não foram os soldados que vieram cá falar com ele. Portanto tem outra fonte fidedigna. Também quando ouviu falar aos soldados nas 100 moedas de prata, deve ter-se sentido ofendido. Percebeu imediatamente a desonestidade deles. E digo-te mais, mesmo que fosse ganancioso deve ter ficado na dúvida se seria bom entregar-nos a esses ou fazer de outro modo. Se alguma vez teve tentações nesse respeito, quase que apostava que ele faria a denúncia ‘de outro modo’!
-- Então Mestre, como é que ele se comunica?
-- Godo quando foi estabelecer o perímetro de segurança, achou no penhasco sobranceiro a esta casa um pombal. Acho que todos os eremitas devem ter pombais e deve haver alguém da sua confiança lá embaixo na planície... Assim mantêm-se informados.
Fiquei calado a pensar nos dotes de observador do Mestre e na sua inteligência. Reconheci que ainda tinha muito a aprender.
Dirigi-me a Mestre Ludovico que andava entretido na cozinha a fazer a refeição.
-- Quer ajuda Mestre Ludovico? –perguntei sorridente.
-- Claro! Mais pela companhia e menos pelo trabalho! – respondeu rindo. Reparei nessa altura que ainda tinha os dentes todos, o que em pessoas de idade como ele, era raro. E tinha uns dentes branquinhos como os de um bébé.
-- Mestre, porque associamos os eremitas à sabedoria?
Ele parou a pensar na pergunta.
-- Talvez... Porque como falamos pouco, erramos menos, não? – sorriu e depois vendo que eu não achara assim tanta graça continuou: -- Ou então, que longe da humanidade seja mais fácil ser sábio. Não te parece?
-- Mas como se pode aprender algo no isolamento dos outros? Assim como se pode partilhar conhecimento?
-- Hummmm... – disse enquanto provava a comida para saber como estava de sal – Um eremita é só moderadamente isolado... E sabes? Quando vimos para cá, já trazemos uma bagagem de experiências, ou julgas que envelhecemos aqui? Quando para cá viemos já tinhamos uma idade jeitosa, eu pelo menos! – E riu.
Depois voltou a acrescentar:
-- E falamos uns com os outros... Não é mau de todo! Embora pessoalmente esteja a ficar aborrecido! O teu Mestre... Ah! O teu Mestre sim...
E ficou parado com um brilhozinho nos olhos por instantes e voltou a atacar a preparação do jantar. Cheirava bem.
-- Parece-me Mestre que dotes culinários não vos faltam!
-- É bom saber, não é?
Ficamos em silêncio um bocadito.
-- Mestre do que aprendeste... da sabedoria que já adquiriste... poderias condensá-la numa frase?
O Mestre sentou-se em frente à lareira, com a panela de ferro de três pernas, onde se apurava a sua sopa de pedra. Ficou com um ar profundamente pensativo e comentou brevemente:
-- Que belo desafio, meu rapaz...
A noite chegava fresca e estava-se bem ao pé da lareira. Galimodo fora ter com Cabelos de Fogo ao quarto e conversavam os dois em cima da cama. O Mestre Ratapone continuava entretido na biblioteca na cave. Godo, por incumbência do Mestre Ludovico escolhia um vinho da garrafeira, onde tudo estava etiquetado a preceito. Helmut preferia fazer companhia a Godo, mas parecia abatido. Foi quando o Mestre Ludovico saiu da sua reflexão para me dizer:
-- Pois... Se tivesse de resumir toda a sabedoria que encontrei numa só frase e em vista de mesmo quando achamos alguma sabedoria é só para lá chegados perceber que ainda há mais a saber, eu diria: A vida é frustração!

1 comentário:

XannaX disse...

Óh... muito desanimado o mestre Ludovico...
Gostei de ler mais um episódio e que bem encaminhada que está a caminhada... :-)