03 junho 2006

O Ovo de Rá - 17ª parte



by Christoph Rehage Posted by Picasa

Iremos com eles


Chegados a casa de Mestre Ludovico este foi muito amável. Fez-nos entrar e quis servir-nos um chá. Eu e Cabelos de Fogo aceitamos. Godo disse que tinha de ir lá fora, fazer uma coisa que ninguém podia fazer por ele. Helmut que nem tinha entrado, aproveitou e foi logo atrás de Godo. Para mim achou um óptimo pretexto para fugir de Galimodo. Acho que o bichano tinha afectado Helmut de uma forma profunda. Era compreensível, pois até aí, penso eu, Helmut suportara a sua solidão consolando-se que era uma singularidade, algo único que a mãe Natureza fizera, para nos surpreender com as suas capacidades de maravilhar. Um lobo que falava? Onde já se ouviu isso? Como é possível? Nas velhas estórias os animais sempre falaram, mas sempre remetemos isso para o reino da fantasia. Acontecer-nos, era outra coisa! Mas acontecer-nos na primeira pessoa era ainda mais dolorosamente extraordinário.
Agora a dor acentuava-se, pois a natureza ao repetir o milagre, se bem que em outra espécie, atormentava Helmut, retirando-lhe o consolo de ser único.
Curiosamente Ratapone não dissera nada sobre isso, se bem que as ocasiões pouco se propiciassem.
O chá era agradável, muito aromático e de sabor delicado. Fomos beberricando das nossas chávenas. Galimodo saltou para o colo de Cabelos de Fogo sem muita cerimónia:
-- Linda menina, sabia que o chá foi uma descoberta do acaso? Numa exótica e distante terra, um imperador longínquo tomava água quente quando umas folhas de um arbusto próximo cairam na sua chavéna. Sem se aperceber bebeu e gostou do sabor e foi assim que nasceu o chá!
Cabelos de Fogo sorriu-lhe fez uma festa na cabeça que estendeu ao lombo.
-- Sir Galimodo, o senhor é um gato culto!
Ele aceitou aquilo como um convite e enroscou-se-lhe no colo.
-- Estou certo que teremos muitas oportunidades de conversar... – e começou a dormitar ronronando como é próprio dos gatos.
-- Gosto de gatos e tu? – perguntou-me Cabelos de Fogo.
-- Sim, também gosto...
-- Se calhar gostas mais de cães? Lobos?
Fiquei a pensar em Helmut, a sentir aquela dor de já não ser único, mas ser apenas mais um fenómeno no circo da vida.
-- Sim, gosto muito de Helmut...
-- Eu também simpatizei com esse canídeo... Espero trocar algumas boas conversas com ele. – Disse Galimodo sem abrir os olhos como que saboreando o colo de Cabelos de Fogo.

-- O seu amigo Godo não vem? Não bebe um cházinho?
De facto o Mestre Ratapone não tocara na sua chávena.
-- Vem... Dentro em pouco ele vem.
-- E não bebe o chá? É uma delícia! – insistiu o Mestre Ludovico, que parecia feliz por ter visitas.
-- Estou certo que sim, mas não gosto muito de bebidas quentes, fico à espera que arrefeça. Obrigado.
-- Como queira... – disse Mestre Ludovico um pouco desapontado.

Penso que por causa das últimas emoções, a luta com a serpente e a caminhada até à casa de Mestre Ludovico, comecei a sentir sono e Cabelos de Fogo que bebera já o seu chá, dormitava no meu ombro.
Mestre Ludovico deu conta e disse:
-- Se quiser pode ir deitar a menina no meu quarto. Tem uma cama... Confortável. – esclareceu ele.
Enxotei Galimodo do colo dela e levantei-a, mas nãome senti com forças para lhe pegar ao colo e levá-la. O Mestre Ratapone veio ajudar-me. Ele pegou nela por um braço e enquanto a levávamos para o quarto com Ludovico á frente, o Mestre sussurrou-me muito baixinho:
-- Efeitos do chá... – E piscou-me o olho.
Percebi imediatamente! Será que o velho Mestre Ludovico sucumbira à tentação e o seu chá era apenas uma tentativa de nos anestesiar? Será que depois de adormecermos, ele nos ía denunciar aos Senhores do Eixo para receber a sua recompensa?
Deitamos Cabelos de Fogo na cama do quartinho minúsculo de Ludovico, onde mal cabia a cama. A janela era grande e não tinha grades. Se fosse necessário tirar Cabelos de Fogo pela janela podíamos fazê-lo.
Que andaria Godo e Helmut a fazer?

Eu voltei à sala que era também a cozinha, sentei-me numa cadeira e embora quisesse e fizesse esforço por manter os olhos abertos, acabei por adormecer, acordando de vez em quando a ponto de apanhar aqui e ali excertos de conversas.
-- Gosta do chá?
-- Uma delícia! – dizia o Mestre Ratapone, sorvendo o líquido.
Passado um bocadinho, o Mestre segurou a cabeça com as mãos e acabou por adormecer, ou pelo menos assim pensava eu!

Na outra vez que consegui ouvir as vozes o Mestre Ludovico falava com Galimodo.
-- Que me dizeis Sir Galimodo?
-- Não parecem nada avisados estes! Como foi impossível gente tão ingénua vencer os Gulats?
-- Preocupa-me o amigo deles, o alto e magro que saiu mal chegaram... Godo se bem me lembro...
-- Ora quando chegar não perceberá nada Mestre Ludovico. Verá os amigos a dormir, que coisa mais inocente que essa pode haver?
Voltei a perder a consciência e a recuperá-la um pouco mais tarde. Travava uma luta contra aquela sonolência estranha que me procurava invadir.
-- Mas o canídeo é muito interessante Mestre! – dizia Galimodo.
E embora ouvisse estes excertos de conversa, ainda não me apercebera claramente das suas intenções. Não nos haviam revistado, também presumo que a dormir não seríamos ameaça para ninguém mesmo que transportassemos o maior dos arsenais!
E Godo e Helmut ainda não tinham chegado. Mais um pedaço de conversa entre os dois:
-- Sabeis Sir Galimodo, esta vida de eremita... É muito solitária, era bom ter amigos.
-- Compreendo Mestre Ludovico! Compreendo! Quando estava na taverna do meu amigo Ferdinando a vida tinha outro atractivo. Não é que desgoste da companhia do Mestre, nada disso! O Mestre é muito sábio e ainda bem que o príncipe Dermaier me mandou para junto de vós!
-- Fiquei contente de ter a tua companhia! – sorriu-lhe o Mestre Ludovico.
-- Eu também! Pelos dois motivos que sabeis: Para me preservar vivo e aprender da vossa sabedoria!
O Mestre Ludovico riu-se.
Voltei a cair na inconsciência. Quando acordei a conversa já ía adiantada pelos vistos. O Mestre Ratapone dormia à solta com a cabeça sobre a mesa e nem sinais de Godo ou de Helmut.
-- Estão bem ferrados no sono... Que tenham bons sonhos! – dizia Galimodo.
-- Ainda bem que o chá os fez dormir! Já viste a minha cabeça Galimodo? Oferecer-lhes hospitalidade e não ter camas? Vou lá abaixo... Enquanto dormem, prepararei umas camas na cave e estarão mais confortáveis depois!
-- Dá-me a impressão que quererão partir, tão rápido quanto seja possível!
-- Achas? – mas a pergunta era mais para si próprio do que para Galimodo.
E Galimodo percebendo-o apenas acenou que sim com a cabeça.
O Mestre Ludovico ficou assim parado, imerso em pensamentos vários e talvez profundos e depois sentenciou:
-- Quando eles partirem iremos com eles!

2 comentários:

Mag disse...

Outra lenda sobre o chá:
Consta que Darumá (apóstolo indiano do budismo que tem uma lenda engraçada +passava a vida de joelhos, tendo desistido das alegrias terrenas nem se dando ao luxo de dormir), certa noite, as pálpebras cerraram-se-lhe de fadiga, só acordando no dia seguinte. Furioso, pegou numa tesoura, ou instrumento parecido e cortou as ditas, atirando-as ao chão de zangado. Por milagre, as pálpebras enraizaram e deram origem a uma planta cujas folhas em infusão eram um remédio precioso contra o sono e o cansaço das vigilias.
e esta hem?
Tá espectacular o conto e as imagens ainda lhe dão mais força.

bjinhos.

tb disse...

tá espectacular. Conduz para um ponto e depois não é nada disso!
Beijinhos