08 junho 2006

O Ovo de Rá - 22ª parte



As Mulas


Finalmente a hora de partir chegou. Como estavamos todos bem ocupados, ela pareceu-me chegar repentinamente como algo caído assim de lado nenhum. Ainda bem que aconteceu assim, porque começava a ganhar raízes naquele lugar e ao saber que íamos partir bateu-me uma nostalgia forte. Fiz esforço para não demonstrar a minha vontade de chorar...
Mas talvez não passasse tudo ainda da digestão da afirmação do Mestre Ludovico de que a vida é frustração.
Também me foi dado observar como Mestre Ludovico tinha um sentido prático apurado. No dia da partida já ele tinha arranjado duas mulas para nos levar mantimentos e equipamento. Dizia ele que para as altas montanhas não há nada como as mulas. Em tempos tinha ouvido falar de cães, mas não quis mencionar isso com medo de ofender Helmut, que também já conhecera dias mais animados. Ele e Galimodo continuavam as suas conversas, pontilhadas de fina ironia. Acho que se compraziam numa espécie de luta, mas no domínio da linguagem. Seria engraçado se toda a luta não passasse de uma troca de palavras!
Fiquei também a saber que a casinha de Mestre Ludovico, não ficaria abandonada. Aliás seria uma pena, uma casinha tão simpática quanto aquela. Não sei como, mas Mestre Ludovico lá teria os seus segredos, iria alugá-la a uma eremita! Sim, uma eremita! Sempre pensei que os eremitas fossem todos do sexo masculino, mas pelos vistos era uma ideia falsa. Numa conversa entre ele e Mestre Ratapone ouvi-o explicar que a eremita que iria ficar na sua casa, se fartara de homens e agora queria uma boa distância deles! Custou-me a perceber como isso poderia ser, pois Cabelos de Fogo tinha boas razões para odiar homens e agora seguia numa espécie de jornada com, pelo menos pelas últimas contagens com três! E daqui em diante seriam quatro! Talvez algo me escapasse...
Fui ajudar Godo a carregar as mulas. Essencialmente levavamos algo que comer, beber, mantas e roupa numa delas e na outra uma data de coisas que não faço a mínima ideia! Umas vezes diziam que eram instrumentos, outras que materiais preciosos. Acho que uma parte eram armas. Afinal a fama das Montanhas Negras não era a melhor.
Mestre Ludovico disse-nos que segundo as suas previsões iríamos partir na melhor altura e explicou como havia chegado a essa conclusão com milhares de pormenores que não consegui acompanhar! Falava da temperatura do ar, das pressões, do desenho das nuvens, da época do ano e das luas. Achou que juntou também alguns provérbios relativos ao tempo... Mas de certeza que tínhamos o homem certo para a continuação da nossa aventura. E lá acabei ficando contente, consolando-me de saber que estavamos em boas mãos e não éramos apenas uns aventureiros inconscientes.
Acabei ficando contente por partirmos por uma razão ainda melhor, é que com a azáfama dos preparativos eu e Cabelos de Fogo, não tínhamos tido oportunidades de falar muito, agora durante a viagem, ficaria ao seu lado e teríamos essa oportunidade. E isso acreditem era uma das coisas que mais desejava. Tinha andado a treinar uns poemas, para lhe ler...
Finalmente chegou a hora de Mestre Ludovico fechar a porta. Antes tínhamos tomado uma bela de uma refeição, preparada por ele, acho que um pouco para consolar os nossos estômagos que a partir daí se teriam de contentar com coisas menos frescas. Enfim, Godo também sabia muito de plantas e Cabelos de Fogo sabia como curar com elas, enfim não havia de ser tudo lentilhas, feijão e grão!
Partimos então, eu logo me posicionei junto de Cabelos de Fogo, na cauda do grupo. Na frente os mestres agora sempre muito conversadores. Godo a meio, mantendo um olho nas mulas que dóceis se limitavam a seguir uma atrás da outra pelo caminho. No final de tudo Helmut e Galimodo. Ás vezes Galimodo corria um pouquinho até nós para dar uma palavrinha a Cabelos de Fogo e houve até uma vez que pediu a Godo para o colocar em cima de uma mula que lhe doiam as patas do caminho ser rijo. Notava-se que Galimodo era um gato delicado, habituado a certos confortos e temia que não fosse achar assim tão interessante a aventura, mas sempre tinha Helmut para dois dedos de conversa.
-- Amigo Galimodo, repare por favor naquelas duas mulas que seguem à nossa frente...
-- Sim, que têm amigo Helmut?
-- Que lhe parecem?
-- Como assim? Acho que são uns animais robustos, dóceis... Mas não falam. Acho que são ignorantes por completo.
Helmut acenou com a cabeça em sinal de concordância. Galimodo perguntou:
-- Mas porque me manda olhar para elas?
-- Diria que são felizes? – perguntou Helmut.
Galimodo no seu jeito de gato, olhou espantado Helmut e foi a correr nas suas patas ligeiras até aos dois animais e depois perguntou a Godo:
-- Godo, desculpe perguntar-lhe, sei que é uma pergunta aparentemente estranha, mas para mim tem a sua importância: Acha que estes dois animais, aqui as mulas, vão felizes?
Godo olhou para Galimodo a perguntar-se onde ele queria chegar com aquilo, mas depois lá lhe fez a vontade. Olhou as mulas, foi ao saco de uma delas tirou duas cenouras, deu uma a cada uma e respondeu:
-- Agora estão muito felizes Galimodo.
Galimodo ficou ainda ali a acompanhar os animais e a olhá-los com atenção enquanto roíam as cenouras e depois dessa observação atenta, voltou para junto de Helmut.
-- Caro Helmut, acho que estão muito contentes, mas permita-me observar que contentam-se com muito pouco! Comeram uma cenoura cada uma e lamberam os beiços e pareceu-me que isso lhes era suficiente! Parecem-me tranquilas, sem preocupações. Acho que nem os fardos que levam nos lombos as incomodam por aí além. Podemos dizer que na sua pacatez são muito felizes!
-- Acha que se preocupam com o destino do mundo, ou o futuro sobre qualquer das formas?
-- Acho que não se preocupam com nada.
-- Mas diria que são ignorantes?
-- Quanto a isso, não tenho lá tanta certeza...
-- E são felizes?
-- Diria que sim. Pelo menos parecem...
Caminharam um pouco e Helmut voltou a falar:
-- Sabe quem detém o segredo da felicidade amigo Galimodo?
-- Não...
-- As mulas...As mulas, meu caro amigo.

2 comentários:

tb disse...

Elas conhecem a essência da vida...
Gostei muito!
Beijinhos

tb disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.