12 junho 2006


O Ovo de Rá - 25ª parte


A dor


-- Mestre...
-- Sim?
-- Neste momento.. embora procure ser forte... Apenas me apetece chorar...
O Mestre olhou para mim, com uma ternura que nunca lhe vi nos olhos e disse-me:
-- Fica aqui e chora!
-- Não é coisa de fraco?
-- Fraco é não ter coração! Não sentir nada... Não fico contigo, porque teria que me juntar às tuas lágrimas e isso embaraçar-me-ía porque o sofrimento é uma coisa pessoal, íntima. Fica aqui e chora... Faz o teu luto. Enterra essas frustrações que te sufocam. Partiremos só depois que apareceres...
E foi-se embora sem olhar para trás uma única vez.
Afastei-me mais um pouco e ajoelhei num tufo de erva e nem o Sol, nem o cantar alegre dos pássaros naquela Primavera me impediram de chorar, chorar sem parar, chorar sem tino, chorar sem controlo, chorar...
E Helmut, sim o meu querido amigo Helmut que ficara a trinta passos de nós, ficou ali, aquela distância, não sei se embaraçado, se sem saber o que fazer. De focinho no chão, às vezes olhando para um lado, depois para o outro. Pareceu-me que resguardava a minha solidão! Para que nada pudesse perturbar-me naquele momento em que a dor me inundou os olhos e extravasou.
Mas Helmut não foi capaz de suportar na distância o meu choro silencioso, quase envergonhado, mas ainda assim tão intenso que não o conseguia parar, mesmo que quisesse!
E Helmut foi-se aproximando de mansinho, quase como se pedisse desculpa. Achei que às vezes ficava parado, ali atrás, pensando se devia vir até a mim ou não, mas veio. E sentou-se ao meu lado e não disse nada. Podia ter falado, podia ter dito qualquer frase sensata ou jocosa, como era seu costume, mas não disse nada. Ficou só ali, pertinho. Tão pertinho que o abracei e chorei, chorei até não ter mais lágrimas....

Acho que se passaram horas, nem dei conta. Helmut deixou-se abraçar e quando finalmente parei de chorar. Helmut ainda ali estava. As minhas lágrimas tinham-lhe molhado o pelo no pescoço, mas nem se sacudiu nem nada. Foi o meu travesseiro.
Ergui-me, sorri (agora já conseguia sorrir):
-- Desculpa Helmut...
E quando Helmut olhou para mim, notei que também ele tinha os olhos cheios de lágrimas. Repeti-me:
-- Desculpa Helmut, dessculpa... – E abracei-o. – Se calhar fiz-te lembrar também a tua dor. Eu aqui tão preocupado com a minha e a tua é bem maior...
E surpreenderam-me as palavras dele:
-- Não peças desculpa. Tenho é que agradecer, porque agora sinto-me melhor.
-- Melhor Helmut?
-- Sim Maia. Chorar contigo fez-me bem... Pensava que por ser quem sou e como sou, seria uma dor grande, mas a tua acaba por não ser menor...E quem pode compreender o sofrimento de outro se não aquele que sofre de igual modo? Nunca me senti tão humano!
-- E eu nunca me senti tão lobo!
Abracei-o e ele lambeu-me. A nossa amizade cimentava-se numa dor comum.
Fiquei a pensar na camaradagem dos soldados. Dizem que o perigo permanente, o facto de a vida poder ser demasiado breve cria uma indestrutível camaradagem, uma solidez de sentimentos que é difícil de explicar. Nesta guerra que é existir, eu e Helmut eramos camaradas de armas!
Consegui sorrir!
Dirigimo-nos ao rio e lavei a cara de Helmut e a minha.
-- Ainda bem que o Sol se pôs...
-- Porquê Helmut?
-- Porque ninguém vai perceber que tens os olhos inchados!
-- Tenho?
-- Pois...
Regressamos. Não apenas de um lugar...


Depois de ler ouçam aqui

16 comentários:

tb disse...

...entendi...obrigada pela amizade. É assim mesmo... ainda bem que sentiste, porque o melhor é sempre o sentir partilhado em silêncio. Como sabes não posso ouvir a música, mas quase a adivinho. (e tenho que ir lavar a cara...)
Um abraço forte

XannaX disse...

Comovente. A musica faz jus à torrente de emoções...
Proporcionaste-me um belo momento.
Bj e boa semana

musalia disse...

ouvi a música...belissima :) condizem com as tua spalavras...

beijos.

Suzy disse...

Fiquei feliz por sua generosidade.
Aguardo então seu email.
suzy-br@bol.com.br
Um abraço.

Ana P. disse...

Adorei....

Eu também choro....

Luiz Carlos Reis disse...

O choro é o consolo dos indomáveis! Lágrimas são a saudade da partida e a emotividade da alegria contida. Sejamos alegres todos os dias!Portanto choremos para o bem do nosso espírito!Abraços!

camille disse...

Seu blog é muito interessante. Prosa rica. Abraço.

alice disse...

eu confesso

não li... mas fui ouvir... e gostei

vim agradecer a tua visita

tenho de vir noutro dia ler-te do início para acompanhar o conto

então até breve

beijinhos

alice

Mar disse...

Adorei. a evolução do conto e a música que me ofereceste no fim. Muito bom. jinhos.

António disse...

Olá!
Como não tenho pachorra para ler todos os episódios desta história, limito-me a agradecer a visita e sugerir que alugues a casa e outra qualquer.
A Cátia já tem dono: eu, pois o futuro dela está nas minhas mãos...ah ah ah

Um abraço

poca disse...

ai, o chorar (suspiros)... sim, faz bem.... e às vezes a única maneira de se ser forte é deixar sair a fragilidade... é deixar ir...
e sim, é bom ter pessoas que nos "resguardam a solidão"...

(apesar de não saber a história para trás, acho que este excerto vale por ele próprio. beijinhos)

Fox disse...

Isto cada vez fica melhor :)

Rosalina disse...

"Não fico contigo, porque teria que me juntar às tuas lágrimas e isso embaraçar-me-ía porque o sofrimento é uma coisa pessoal, íntima. Fica aqui e chora... Faz o teu luto. Enterra essas frustrações que te sufocam. Partiremos só depois que apareceres..."


"E Helmut foi-se aproximando de mansinho, quase como se pedisse desculpa."


"E quem pode compreender o sofrimento de outro se não aquele que sofre de igual modo? Nunca me senti tão humano!"


momentos deliciosos.

obrigada.

amigona disse...

Sê bem-vindo no meu cantinho... voltarei...

amigona disse...

qundo puderes passa pelo meu canto... beijo...

A Cor do Mar disse...

Que bela foto. Deviamos ser sp crianças... mesmo com lagrima ao canto dee olho dar um sorriso a quem nos olha. Beijinho*