06 junho 2006


O Ovo de Rá - 20ª parte


No teu caso ou no meu?


Naquela noite deitamo-nos todos mais pesados e não foi por causa da sopa de pedra! Ficara combinado que partiríamos daí a uns dias, o Mestre Ratapone apenas queria estudar melhor uns volumes que estavam na biblioteca de Mestre Ludovico.
Nos dias seguintes Godo meteu-se a reabastecer as nossas provisões e equipamentos com a ajuda de Cabelos de Fogo. Quanto a mim, o Mestre chamara-me para a sua beira e quis que estudasse com ele algumas coisas, inclusivé uns velhos mapas das Montanhas Negras que ninguém sabia ao certo se seriam exactos, mas que tive a incumbência de copiar.
Mestre Ludovico já falara com Mestre Ratapone na sua vontade de nos acompanhar e achei curioso que o Mestre Ratapone tivesse aceite sem qualquer reticência. Presumo que o fez por bondade e por considerações práticas. Bondade porque para Ludovico partir à aventura, à descoberta era como se rejuvenescesse, e por considerações práticas porque afinal Mestre Ludovico era um sábio! Apesar de a sua sabedoria me deixar angustiado.
Era curioso como a nossa trupe ía engrossando, com cada elemento mais original que o outro. Achei alguma coisa de divertido nisso e claro está que para mim bastava que no grupo permanecesse Cabelos de Fogo.
Ás vezes Cabelos de Fogo inundava todo o meu pensamento e atrasava-me na cópia dos mapas. Mestre Ratapone num velho mau hábito que pensava ele havia esquecido, dava-me carolos com o seu bastão quando o meu tempo de sonhar se prolongava.
Nunca me perguntou porque eu ficava assim com aquele sorriso nos lábios e os olhos parados, mas ou sabia, ou não lhe interessava minimamente.
Por outro lado Helmut ía suportando melhor Galimodo e passavam os dias juntos a passear pelos campos. Um dia fui com eles e pela conversa percebi que afinal estavam muito mais próximos.
-- Sabe amigo Helmut... Estive a pensar naquela conversa ao jantar outro dia...
-- Sim, e então? Aliás acho que com a sua cabeça pequenina lhe deve doer pensar tanto, não?
-- O que conta Sr. Helmut não é a quantidade, mas a qualidade! E interrompeu-me! – disse Galimodo a tentar mostrar-se zangado.
-- Peço desculpa ‘Sir’! – disse Helmut.
-- Pois... Quer conversar ou hoje doi-lhe a cabeça? – retrucou Galimodo.
Helmut riu-se, percebendo a subtileza de Galimodo.
-- Tem razão, tem razão amigo Galimodo! Talvez nos devessemos tratar por tu, o que acha?
-- Acho muito bem! – concordou Galimodo.
-- Então ías a dizer...
Galimodo sorriu-lhe.
-- Ía a dizer que tinha estado a pensar, naquela conversa ao jantar do outro dia e que me anda a ensimesmar... Em especial o que disse...
-- Lembra-me lá por favor...
-- Disses-te que se encontrasses o Criador da Vida lhe perguntavas porque te deu o dom da fala, lembras?
-- Lembro sim...
-- Tens razão! Quanto mais penso nisso, mais acho a tua pergunta a propósito! Eu acho que lhe perguntaria a mesma coisa! Vê só: A minha mãe não falava, os meus irmãos não falavam, nunca conheci nenhum gato que falasse, nem qualquer outra espécie de animal para ser franco!
Aliás o primeiro animal que fala para além de mim e que conheço és tu!
-- Pois, tem graça que comigo se passa o mesmo!
-- Achas que o Criador se enganou?
-- No teu caso ou no meu?

4 comentários:

tb disse...

Por acaso acho que todos eles falam...nós é que não conseguimos entender a sua linguagem, ao contrário deles!
Cada vez mais interesante a história e fica sempre a vontade de mais e mais.
parabéns!
Beijinhos e abraços

Mendes Ferreira disse...

dos naturais...tem dias....:)

________________________excelente imagética por aqui. voráz leitora que sou....fico "cliente".


obrigada.


(doladodomar)

alice disse...

olá mitro,

agradeço a tua visita e comentário

perdoa-me a ignorância, mas apenas conheço dali da pintura, não conheço nenhum da literatura...

amigo da isa?

meu amigo também

beijinhos

alice

poca disse...

bem... um pouco pretensão nossa, achar que somos os únicos animais falantes, não?!
será que os cães e os gatos não acharam o mesmo de nós? será que eles não têm uma linguagem animal em que se entendem não obstante o tipo de animal? não será que eles dominem aquela linguagem sem falar? a intuitiva? a que ouve no silêncio? a que percebe um olhar?

não sei mitro... limito-me a partilhar contigo as perguntas que se fazem na minha mente em virtude do teu texto... já apanhei a história a meio...
beijinhos