11 junho 2006

O Ovo de Rá - 24ª parte



A procura...


Finalmente paramos para almoçar. O Mestre Ludovico quis presentear-nos com uma sopinha e esta estava de facto sublime! Mas comi pouco, o meu apetite não era grande. E como o Mestre Ludovico fez a sopa, Godo ficou com mais tempo livre para Cabelos de Fogo...
Sentámo-nos debaixo de umas árvores grandes, junto ao rio. Mestre Ludovico e Ratapone próximos, logo ali, um pouco mais afastados Godo e Cabelos de Fogo e bem afastado eu. Depois Helmut e Galimodo (que não comiam sopa) vieram fazer-me companhia. Agradeci-lhes isso e fiquei a pensar que os animais se entendem e claro está que me incluí entre os animais.
A refeição decorreu rápida. As conversas não foram muitas à excepção de Godo e Cabelos de Fogo para os quais a conversa parecia interminável, entrecortada por pequenas gargalhadas de Cabelos de Fogo. Às vezes espreitava-os pelo canto do olho e tive a sensação que Cabelos de Fogo também me olhava e parecia gozar com a minha dor. Acho que Helmut se apercebeu disso e comentou:
-- Quando estamos em baixo, tudo nos parece pior do que realmente é.
Aquela frase simples teve o condão de me equilibrar. Ele tinha razão! Já tinha aprendido do Mestre a não pré-julgar, a não atribuir aos outros intenções que afinal e em último caso desconhecemos. Porque eles são ‘eles’ e nós somos ‘nós’.
Sorri para Helmut. Galimodo aproveitava para uma soneca.
No final da refeição todos decidiram descansar mais um pouco. Godo e Cabelos de Fogo, foram passear ao longo do rio.
Fiz um esforço para ficar feliz por Godo. E até por Cabelos de Fogo. Godo sempre se negara a si mesmo em favor de outros, era justo que na vida sentisse as alegrias do amor. E Cabelos de Fogo nitidamente era mais compatível com Godo do que eu! Afinal, eu era um rapaz e ele era um homem. Godo era sábio, corajoso, e até tinha boa aparência. Sem dúvida Cabelos de Fogo ficaria melhor com ele do que comigo...
Estava eu nestes pensamentos, quando dei conta que o Mestre Ratapone estava junto a mim e me dizia:
-- Maia... Gostavas de ir comigo dar uma caminhada por ali? – E por ‘ali’ designava precisamente um percurso ao longo do rio oposto ao que tinham seguido Godo e Cabelos de Fogo.
-- Não estou pra grandes caminhadas Mestre, aliás acho que hoje já caminhamos bastante...
Mas o Mestre não me deixou terminar as minhas objecções:
-- Insisto, Maia... por favor!
Levantei-me e começamos a caminhar ao longo do rio. Era o tempo dos degelos da primavera e a água corria pressurosa e ligeira numa espécie de cantiga alegre. Tudo à minha volta parecia alegre, excepto eu.
Helmut seguia-nos a uma distância razoável. Tinha a certeza que áquela distância as orelhas apuradas dele conseguiam ouvir toda a conversa, embora pudesse dar a aparência que não.
O Mestre foi directo ao assunto:
-- Passa-se alguma coisa entre ti e Cabelos de Fogo?
-- Acho que não...
A resposta pareceu surpreender-me o Mestre.
-- Como assim?
Tentei sorrir, pelo menos fiz um esforço para que o meu esgar se parecesse minimamente com um sorriso:
-- Somos apenas amigos, ou talvez menos... Conhecidos diria.
O Mestre comentou:
-- Bem, ninguém diria isso quando observamos o afecto que demonstravam um pelo outro...
-- Talvez isso tenha sido desiquilibrado meu Mestre. Uma coisa assim, dominada pelo nosso desejo de ser amado e não tanto pela realidade das coisas...
-- Como assim? – Era a expressão do Mestre para nos levar a ir mais fundo nas nossas afirmações.
-- É assim mesmo Mestre. Desejamos e os nosso desejos toldam o nosso juízo e deixamos de ver o que é, para passarmos a ver o que desejamos. Pode ser que isso se dê por causa das circunstâncias e então é circunstancial, mas não substancial. Estamos naquilo que podia ser, mas é uma mera suposição...
-- E o que supuseste?
Tentei sorrir outra vez.
-- Supûs que do afecto se podia dar lugar ao amor, ou pelo menos à paixão...
-- E?
-- E afinal esfumou-se. Não havia nada.
Procurei demonstrar na última frase, uma serenidade que obviamente não tinha.
-- Tens a certeza?
Decidi tornar-me duro.
-- Vede os factos Mestre. Não haveis notado que prefere a companhia de Godo à minha?
-- Podem ser amigos não é?
-- Exactamente Mestre, como eu sou dela.
O Mestre parou e ficou com aquele ar pensativo que lhe conhecia, quando nos queria dizer algo importante e apenas buscasse as palavras certas.
-- Sabes Maia? A felicidade não vem das relações amorosas entre homem e mulher... Se viessem e seria bastante acessível, bastava casar, ou ter amantes e fazer sexo. E se reconheço que no casamento ou no amor, ou no sexo, há uma medida de felicidade, esta parece temporária e fugidia e volta sempre aquela sensação de vazio... Como o Mestre Ludovico resumiu, acabamos sempre por encontrar a frustração...
-- Sábio o Mestre Ludovico, não é?
Ele sorriu.
-- É. Mas não é uma fatalidade. Devemos buscar a felicidade, a verdadeira, a plena, aquela que realemente nos sacia a alma, noutro lado!
-- Na sabedoria Mestre?
-- Também, não. A sabedoria pode ajudar-nos a chegar lá, mas ainda não é a felicidade...
-- Então o que é?
-- Se eu soubesse seria plenamente sábio e não tenho essa pretensão. Mas procuro...
-- Eu também Mestre.
-- Por isso preciso de ti nesta aventura. Tu e eu procuramos a mesma coisa... E não é um ovo...

3 comentários:

suzy disse...

Essa caminhada parece-me muito interessante, e pelo que vejo andei perdendo algumas partes. Tentarei ver onde ela começou e acompanhá-la de perto, se me permitires.
Obrigada pelo carinho em meu blog, ficarei imensamente feliz se retornares por lá.

Um abraço e um lindo domingo pra ti.

tb disse...

...como a vida! Uma caminhada sempre na procura constante...
Cada vez gosto mais!
Beijinhos

tb disse...

gostei muito da imagem. Esqueci-me de dizer!
Beijocas