21 junho 2006


O Ovo de Rá - 27ª parte


Ver claro


De manhã, embrulhamos a tralha toda e partimos bem cedo. Mestre Ratapone queria chegar a outro eremita que ficava a meio de uma encosta e a caminhada afigurava-se difícil.
Aparelhadas as mulas, seguimos caminho.
Galimodo decidiu ir para junto de Godo e Cabelos de Fogo, que continuaram a caminhar juntos.
Eu fiquei para trás como já se vinha tornando hábito e Helmut fazia-me companhia.
Decidi começar a conversar, pois não me apetecia nada ir ali a pensar nas conversas que Godo e Cabelos de Fogo podiam ir a ter. Além do mais, tinha a noção de que Godo bem merecia um pouco de felicidade.
-- Não sabia que Godo tinha passado por tudo aquilo, é uma história comovente.
-- É... – respoondeu lacónico Helmut.
-- Não te tocou?
-- Reconheço que somos um bom bando de desesperados...
Dei uma gargalhada.
-- Não tinha ainda visto as coisas por esse prisma, mas enfim!
-- É realístico Maia... É realístico...
-- Achas que Cabelos de Fogo é desesperada?
-- Nitidamente.
-- Como assim?
-- Procura uma família, uma em substituição daquela que perdeu por andar fugida. Esta é a sua melhor chance. Andamos todos a fugir e o que nos une é quase tão intenso como os laços de família, ou mais ainda.
Aquilo começava a ser interessante.
-- Fugimos de quê Helmut?
-- Ainda não percebeste Maia? Fugimos da nossa incapacidade de sermos felizes, de encontrarmos a felicidade...
-- Tu também Helmut?
-- Claro! Eu também... Em que alcateia estaria eu bem? Um lobo que fala, que pensa, que sente... Só aqui posso ter alguma perspectiva de ser menos infeliz.
-- Pois...
-- E Godo foi um parvo!
Ri-me.
-- Então porquê?
-- Também não viste? – E Helmut meneou a cabeça em sinal de desalento. – Acho que vocês homens, acabam por estar em piores condições do que eu para alcançar a felicidade!
-- Explica lá isso do Godo...
Helmut olhou para mim, como se fosse estranho para ele um homem pedir explicações a um lobo. Mas depois percebeu que eu não o considerava um lobo, mas um amigo, alguém como igual e acho que sorriu:
-- Só tu, para mo perguntares! Mas está bem... Então a amada do Godo perguntou-lhe que garantia podia ter se alimentasse o seu amor por ele, não foi?
-- Pelo menos foi o que Godo contou.
-- Se ela queria garantias fizesse um depósito no banco! Olha-me esta! Garantias que desse certo hein? E que garantias tinha com o namorado de há sete anos?
-- Estou a perceber...
-- Não há garantias! Godo foi um parvo! E perder tudo por essa mulher, só me confirma que ele não bate bem da moleirinha...
Fiquei a pensar na análise tão óbvia de Helmut. Sim, ele tinha razão! E na fragilidade de querer acreditar no valor superior do amor, perdemos de vista as coisas que deviam ser óbvias.
-- Ela não o amava, pois não Helmut?
-- Não sei... Podia amar até, mas não arriscou. Teve medo... O medo, nunca foi bom conselheiro. Amar envolve alguma coragem, pelo menos a coragem que ele inspira!
-- Talvez o amor de Godo não lhe inspirasse muita...
-- Pois se calhar! Mas tenho de admitir que era um amor suficientemente grande, para lhe motivar tamanho sacrifício! Honra lhe seja feita! O problema é que Godo podia ter princípios, mas estes sem sabedoria prática, acabaram por se lhe tornar uma armadilha. Ele julgou que tinha de a libertar do seu amor, mas ela tinha mesmo é de se libertar do seu medo!
Caminhamos um bocadinho em silêncio e depois ocorreu-me uma pergunta:
-- Crês que possa correr melhor com Cabelos de Fogo?
Helmut olhou directamente para mim:
-- Só os vejo a conversar, Maia.
-- E não acreditas que possa nascer mais nada?
-- Quem sabe? Mas se ela te interessa, não achas que desististe com muita facilidade? Talvez quisesses também uma garantia... Ou pensasses que era garantido...
Sorri, Helmut estava a ser irónico e continuou:
-- Nós lobos, lutamos na alcateia para substituir o macho dominante. Podemos nunca conseguir ou acabar em mau estado. Mas pelo menos tentamos. Não há vergonha nenhuma em tentar. Tanto não há, que mesmo depois que tentamos, não somos expulsos da alcateia, apenas esperamos melhor ocasião. E não ouviste o que se passa, com as bolas de pêlo com garras nas patas? O que disse Galimodo? Até se capam! Mas acho que não desistem fácil...
-- Querias que jogasse á porrada com Godo?
--Ora Maia, és mais inteligente do que isso! Claro que não... Mas já te passou pela cabeça que Cabelos de Fogo, pode estar a experimentar-te? A tentar perceber de que massa és feito? Quais os teus sentimentos e a força deles? As mulheres gostam de ‘garantias’...
E aquilo tudo começou a tornar-se muito claro e a clarividência de Helmut era deslumbrantemente reveladora! E ele decidiu concluir:
-- É também por isso que raramente encontram a felicidade... Não percebem, que não saber, é realmente o melhor modo... Porque depois que se sabe, não se pode voltar a fingir que não se sabe!
-- Não percebi, a última parte Helmut...
-- Eu sei que não... – E meteu-se a correr e entrou por umas moitas e deixei de vê-lo.

3 comentários:

Ana P. disse...

Deixo um beijo, na expectativa do próximo episódio

Mar disse...

Tb não percebi a última parte Helmut... Voltarei para ver se entendo.
Beijo

tb disse...

Aí está como um lobo pode ser um inteligente conselheiro!... gosto deste lobo!
jinhos