
O Ovo de Rá - 29ª parte
Memeth não regressou
Para nossa surpresa os anões fizeram-nos caminhar três horas por trilhos estreitos às vezes tão estreitos que apenas tinham a da largura de um cu de mula até à sua aldeia. Esta estava pendurada numa escarpa no meio de cedros enormes, que espalhavam por ali as suas raízes e pareciam ser eles a suportar a escarpa!
Quando chegamos fomos muito bem recebidos e organizaram logo uma enorme festa com montanhas de comida! Achei tudo aquilo cómico. Não vimos sinais de carência em lado nenhum o que teve por condão irritar o Mestre Ludovico.
-- Vejam lá estas pestes de tamanho miniatura, sem necessidades, nem carências a dedicarem-se à pilhagem! Apetecia-me atirar-lhes com um bocado do meu ácido...
-- Tende calma Mestre Ludovico e aproveitemos a hospitalidade... – Sugeriu Mestre Ratapone.
As crianças vieram fazer festinhas em Galimodo que adorou! Aliás Galimodo adorava ser o centro das atenções e prendeu a criançada contando intermináveis estórias de fantasia. Também fizeram festas a Helmut mas apenas os mais corajosos. Helmut manteve um ar distante e não se deixava afastar muito de mim.
Na grande praça no centro da aldeia éramos o centro das atenções. Alguém levou as nossas mulas, antes que Godo pudesse reclamar. Esperavamos que entregassem tudo conforme tinham recebido, mas Mestre Ratapone até parecia divertido.
-- Então chefe Bel-Ygor, tem aqui uma bela aldeia!
-- Não nos podemos queixar...
-- Ai não?! Mas podem roubar! – disse Mestre Ludovico, sem poder conter a sua indignação.
-- Ora caro amigo... – respondeu o chefe Bel-Ygor – Nunca sabemos o dia de amanhã, não é?
-- E já vos passou pela cabeça que entretidos nesse desporto radical de salteadores de estrada, alguns de vós possam ficar sem ‘amanhã’? – perguntou Cabelos de Fogo.
-- A menina é bela e faz perguntas pertinentes... – disse Bel-Ygor, mas acho que a fraseologia era para amansar Cabelos de Fogo. – Mas só vão voluntários, não forçamos ninguém a ir nas nossas expedições.
-- Chefe Bel-Ygor, tem sido bem sucedidos? – perguntou Mestre Ratapone.
-- Bem, não nos podemos queixar muito... A fama das Montanhas Negras sempre ajuda para o nosso lado. O nosso problema é que passam por aqui pouco viajantes... A maioria é para consultar um ou outro eremita e não os vêm consultar todos os dias.
-- Como nós. – disse Godo.
-- Mas vamos esquecer o acontecimento... – sugeriu Bel-Ygor.
-- Esquecer, diz ele... – resmordeu Mestre Ludovico.
-- Esse colarzinho que trazeis ao pescoço, foi obtido num desses ‘acontecimentos’? – perguntou subtil Godo.
-- Ah Este aqui? – e Bel-Ygor apontou para o magnífico colar de ouro com o escaravelho engastado.
-- Esse mesmo. – certificou Godo. – Não me parece resultado do vosso artesanato...
Aliás nenhum dos anões usava ouro como adorno, tanto quanto nos era dado ver.
-- Este aqui foi ainda no tempo do meu pai... Era eu ainda um jovem... Mas não foi roubado!
-- Ai não? Pois claro que não! – interrompeu Mestre Ludovico – Pediram gentilmente a alguém e este entregou-o como presente... Claro que se esqueceu de mencionar que o pedido foi feito com lanças apontadas ao peito, mas claro, isso V. Ex. esqueceu-se de mencionar...
-- O Senhor é muito amargo! Por acaso foram uns senhores simpáticos como vocês que também nos ofereceram o colar em troca da nossa hospitalidade!
O Mestre Ludovico engoliu em seco. E Mestre Ratapone retomou a palavra:
-- Amigos, portanto?
-- Sim...
-- Ficaram muito tempo? – perguntou Godo.
-- Algum tempo, talvez uns três dias...
Sussurrei para Helmut:
-- Aqui é tudo medido em três... Três horas de viagem até aqui, três dias que ficaram...
Helmut não disse nada, mas o seu olhar mantinha-se muito atento. E sabia que aquelas orelhas arrebitadas captavam sons de muito longe.
-- Sabes por onde partiram chefe? – perguntou Godo.
-- Hummm... Estão muito interessados... Porquê?
-- Pensamos que esses amigos, são também nossos amigos e seguimos os seus passos, para ter notícias sobre o que lhes aconteceu... – esclareceu Mestre Ratapone.
-- Mas isso foi há muito tempo...
-- Sabemos que sim, mas mesmo assim queremos saber o que se passou com eles, afinal as suas famílias precisam de ser reconfortadas com a verdade sobre o que lhes sucedeu! – explicou Mestre Ratapone.
O chefe Bel-Ygor ficou pensativo:
-- Pois decerto.. Um momento... Bel-Turo! – chamou ele. E esclarecendo : -- Bel-Turo é o nosso cronista, ele deve ter relatos sobre essa época e sobre o que se passou. Eu só me lembro de algumas coisinhas, ainda era pequeno...
O Mestre Ratapone fez um vénia em sinal de agradecimento. E eu não o consegui imaginar mais pequeno!
Entretanto a mesa foi posta e começou o banquete. Este banquete durou até á noite e pela noite até ser manhã.
E enquanto decorria Bel-Turo foi colocando o Mestre Ratapone e Godo ao corrente do que se passara. Bel-Turo socorreu-se de uns velhos pergaminhos guardados na Casa da Memória de Belutine.
-- Ora cá está... – disse Bel-Turo desenrolando um pergaminho, depois de ter arredado pratos e travessas para fazer espaço – Este pergaminho fala da visita de Memeth, o generoso... Conta que pela hospitalidade ofereceu diversas peças de ouro. Tem aqui a lista, mas acho que só resta o colar do chefe, as outras peças desapareceram em épocas de infortúnio...
-- E sabem o que procurava Memeth, porque veio até aqui?
-- Hummm, deixe cá ver... – Bel-Turo, tentava ler os pergaminhos que estavam escritos num alfabeto desconhecido a todos nós. – Aqui apenas diz que Memeth esteve três dias e que depois levou alguns de nós como guias para atravessarem a Garganta Grande que leva ao Pico das Águias.
-- Não tem mais nada? – insistiu Godo.
-- Donde vinha Memeth? – perguntou Cabelos de Fogo.
-- Pensei que eréis seus amigos! – exclamou Bel-Ygor, com a surpresa de ter apanhado alguém a mentir escandalosamente.
Mestre Ratapone explicou que Cabelos de Fogo se juntara a eles a meio da jornada, tal qual Mestre Ludovico. Bel-Ygor descontraiu-se aceitando a explicação.
-- Memeth, vinha de terras distantes ao sul, muito para o sul da cadeia das Montanhas Negras e mesmo para além das Terras Fétidas... – explicou Mestre Ratapone, provando assim que sabia – Uma terra quente e acolhedora, onde os homens ilustres rapavam as suas cabeças...
Bel-Ygor sorriu:
-- É verdade, lembro-me de os ver, até achamos engraçado... Era eu jovem, mas não me esqueci das cabeças rapadas...
-- Bem, então quer dizer, se não for pedir demasiado chefe, que amanhã nos possais designar um guia para seguir o mesmo caminho de Memeth...
-- Vá... Amanhã está ainda distante! Comam, bebam, alegrem-se... Amanhã falaremos de novo.
-- Mas, temo chefe... que não possamos ficar três dias, como o nosso amigo... – disse Godo.
Uma sombra passou pelo rosto do chefe que pareceu profundamente desiludido.
-- Que pena! É tão raro termos visitantes assim distintos... Gostamos de ouvir relatos de terras distantes... Conhecer coisas novas...
-- Prometemos regressar, depois de sabermos de Memeth... – prometeu Ratapone.
O chefe permaneceu triste.
-- Memeth prometeu, mas não regressou...
11 comentários:
adensa-se o mistério...excelente prosa na esteia das anteriores.
Não me passou despercebido o laço de amizade que vai fortalecendo entre o Maia e o lobo...
Lindas as imagens que alindam o texto.
Beijinhos
Está cada vez mais interessante. Já quase que sinto o sabor da história.
Gostei, continua a escrever.
Beijinhos, fica bem.
:)
Já vi que tenho muito para ler mas como já vi que vou gostar de te ler, vou voltar... :)
Obrigado pela visita!
Beijo
O que se seguirá? Deixas-nos sempre na expectativa, o que é bom...
Beijinhos
Continuas a envolver-nos de mistério...
Beijinhos.
testamento??
Belo post!!!!!! belas imagens!!!!!
http://maistopas.blogspot.com/
Vá lá, o menino anda muito preguiçoso para escrever últimamente... serão os efeitos do mundial?
p.s. Gostas do meu novo visual? ;-)
beijinhos
muitas promessas jamais são cumpridas
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