20 junho 2006


by Roraima M. Rocha in www.olhares.com 

O Ovo de Rá - 26ª parte


O Amor Verdadeiro


Eu e Helmut regressamos ao acampamento. O Sol declinava no horizonte e em breve seria noite.
Mestre Ludovico viu-nos chegar e disse:
-- Chegam na hora certa! Preparei o jantar, o Mestre Ratapone disse que passaremos aqui a noite.
Agradeci mentalmente ao Mestre. De facto estava extenuado e manter uma caminhada seria desumano para mim.
O jantar decorreu sem grandes conversas e Galimodo aproveitou para falar. Falou da sua vida junto do príncipe Dermaier. No final do jantar Mestre Ratapone pediu:
-- Godo, traz o alaúde para o Maia tocar...
Achei o pedido invulgar, mas percebi que o Mestre apenas me estava a ajudar. Assim improvisei uma melodia. Quando acabei Cabelos de Fogo exclamou:
-- Não sabia que sabias tocar! Foi uma música muito bonita, mas tão triste!
Sorri um meio sorriso. Ela olhou para Godo e perguntou:
-- E tu Godo também sabes tocar um instrumento?
-- Deus me livre! – disse ele com uma gargalhada.
Preparamo-nos para dormir.
Godo disse:
-- Mestre... Eu faço o primeiro turno, Helmut pode fazer o segundo e Mestre Ludovico se não se importar pode fazer o terceiro...
Cabelos de Fogo interrompeu:
-- Eu posso fazer o de Mestre Ludovico.
O Mestre concordou e acrescentou:
-- Maia faz o último.
Todos nos deitamos excepto Godo. Eu não conseguia adormecer. Helmut a meu lado parecia dormir. Uma hora depois, Godo chegou até mim.
-- Dormes? – perguntou ele num sussurro.
-- Não...
-- Gostaria de conversar contigo, queres?
Fiquei intrigado, mas Godo era meu amigo e não era por causa de Cabelos de Fogo que essa amizade se haveria de perder.
-- Claro! – respondi.
Ele sorriu-me e afastamo-nos de onde os restantes descansavam. Mas Helmut sempre atento veio atrás de nós.
-- Espero que não se incomodem por vir para junto de vós... – disse ele.
-- Não há problema por mim. – disse eu.
-- Podes vir Helmut. – concordou Godo.
Sentamo-nos junto ao rio sobre um tronco caído.
-- Posso perguntar-te uma coisa Godo?
-- Claro, Maia, pergunta lá.
-- Porque mentiste á pouco?
-- Mentir? Que mentira disse eu? – perguntou Godo admirado.
-- Disseste que não sabias tocar um instrumento e no entanto sei que tocas lindamente flauta.
No seu rosto apareceu um sorriso rasgado.
-- Não menti. Disse "Deus me livre!" E Deus livrou-me.
Foi a minha vez de sorrir.
-- Obrigado, Godo. Foi por mim, não foi?
Ele não disse nada e olhou para o chão como se não soubesse exactamente o que dizer.
-- Sei que foi Godo. És um bom amigo. Mas sabes... Não precisavas de o fazer. Não estou zangado contigo, e se Cabelos de Fogo gostar de ti, que posso fazer? Não é por isso que deixo de gostar de ti.
Havia um brilho nos olhos de Godo. Eu continuei:
-- Devemos ficar felizes com a felicidade dos nossos amigos, não é?
Godo falou:
-- Nunca contei muito da minha vida a ninguém, como sabes... Mas acho que tens o direito de saber uma coisa... Pelo menos, queria contar-te...
Estava atentamente a escutar, pois de facto Godo nunca falara da sua vida. Helmut pareceu-me indiferente a dormitar enroscado atrás de nós.
-- Não sei se Cabelos de Fogo gosta de mim, apesar de que se gostasse seria bom...
Ele sorriu-me um sorriso maroto e eu correspondi-lhe com outro sorriso.
-- Se ambos fossem felizes, eu ficaria feliz, Godo; mesmo que ficasse com uma pontinha de dor aqui dentro...
Godo riu-se baixinho para não acordar os outros. Galimodo dormia com Cabelos de Fogo, enroscadinho nos seus braços, a aproveitar o calor.
-- Galimodo é que ficou com ela! – disse Godo.
Também me ri.
-- Pois, mas eu sei que já te doi e ainda nem aconteceu nada entre nós, não é Maia?
-- Não te vou mentir, sim dói.
-- Pois, mas acho que tu sabes o que o verdadeiro amor é. Pelas tuas palavas noto-o e fico feliz, apesar de saber que o verdadeiro amor às vezes trás mais dor do que a que conseguimos suportar...
-- Que me queres dizer Godo? – senti que ele estava a dar uma grande volta em relação ao que me queria dizer. Talvez lhe fosse difícil.
-- Pois, Maia, o verdadeiro amor não pensa primariamente em si próprio mas no outro, naquilo que é melhor para o outro. O verdadeiro amor perfere a morte à infelicidade do outro...
Aquelas palavras entravam em mim e sentia-lhes o eco. Eram palavras dolorosas e belas. Sim, o verdadeiro amor é feito de dar, dar até ao limite, ou para além dele, nem sei bem. Mas era isso amar, era dar de si, sem qualquer garantia de retorno. Mas se assim era, seria ele a chave da felicidade?
Godo continuou sem olhar para mim, o que nele era sinal de uma certa dificuldade.
-- Eu também um dia amei muito, Maia... Amei demais! Se é possível amar demais! Antes de ser escravo... Era aquele destinado a ser chefe da minha tribo, numa longa linhagem de honrados chefes... Tínhamos os nossos costumes, a nossa religião, mas não passamos de homens e como tal, um dia o amor apanha-nos sem nos deixar outra opção que não seja a rendição incondicional!
Godo parou um pouco, talvez para ganhar fôlego e continuou:
-- Na tribo vizinha, com outros costumes, outra religião, havia uma bela donzela...
Godo voltou a parar e soltou um suspiro. Percebi que era aí que Godo queria de facto chegar e a história não ía ser de final feliz.
-- Ela era bela! Oh como ela era bela! Tinha olhos garços, daqueles que mudam de cor entre o verde, um cinza azulado e o castanho. Cabelos compridos num castanho alourado onde o sol brincava... Um corpo com a graciosidade de uma palmeira-tamareira... O sorriso doce e fácil... Uma personalidade alegre e brincalhona...
Os olhos de Godo brilhavam na noite.
-- Arranjamos eu e ela todas as desculpas para estarmos juntos, para falarmos... Sem darmos conta estavamos profundamente apaixonados, amavamo-nos. Mas nenhum de nós queria de facto admiti-lo... Ela namorava com um ilustre moço de sua tribo, já por sete anos. Também ele um dia seria um chefe... Escrevi-lhe poemas, compus melodias na flauta para ela... E comecei a senti-la perturbada. Os seus olhos lindos, límpidos e brilhantes quando estava contente, começaram com o tempo a ficar embaçados. E sabes porquê?
Não quis perturbá-lo com palavras e acenei que não com a cabeça.
-- Ela começava a perguntar-me o que seria a nossa vida... Se valia arrriscar, deixar tudo para tentarmos nós...
Godo calou-se, respirou fundo e continuou:
-- Ela sabia que tínhamos costumes e religião diferentes. Se ficasse comigo, teria de aceitar a minha religião. Afinal eu era um chefe do meu povo, com a responsabilidade de manter os costumes e as tradições do meu povo.
Sem pensar interrompi:
-- Podiam ter ido pra outro lugar e ter feito a vossa vida...
Ele sorriu-me, um sorriso de compreensão.
-- Podia... Mas sujeitá-la-ía eu a isso? Abandonaria ela os pais, os irmãos, só para ir comigo? E eu, abandonaria todas as minhas responsabilidades para estar com ela? O que pensaria ela disso? Como poderia ela confiar no meu amor, se largasse tudo assim? Como ela dizia: " Que garantia temos nós que dê certo no nosso caso?" E não há garantias, pois não? Nunca há... Embora às vezes acreditemos que o amor possa ser eterno!
Voltou a pausar para respirar.
-- Senti que todos estes pensamentos a estavam a perturbar. Sabes, um dia acordamos e vemos claramente o quadro todo! É como uma revelação. Maravilha-nos e deixa-nos angustiados. Pensa: Ela namorava há sete anos e tinham sido sete anos em vão? Que sentido teria então a palavra "compromisso"? Será que o facto de amar outra pessoa justificava abandonar tudo e todos?
-- Compreendo... Eram ambos pessoas de princípios...
Godo não foi a tempo e uma lágrima rolou-lhe pela face. Limpou-a com as costas da mão e recompôs-se.
-- Sabia o que tinha de fazer, Maia. A prova sublime do amor! E já que fora eu que a perturbara na sua quietude de viver, teria de ser eu a libertá-la do meu fardo. E um dia... Um dia em que a minha tribo se envolvia em batalha contra outra... Deixei-me capturar, e tornei-me escravo.
O silêncio depois destas palavras foi longo e senti ainda mais aguda a dor no meu peito. Mas já não era a minha, era a de Godo!

9 comentários:

Mag disse...

Bem... que maldade acabar este episódio aqui!!
Fico ansiosamente à espera do próximo.
Beijo

filomena disse...

E que continue...gostei.

Beijinhos e boa noite.

Ana P. disse...

É verdade. cada episódio prende-me ao computador e fico sempre na expectativa...

Beijos

Åñäii§ disse...

Pensei que serias uma pessoa de poucas palavras, deixaste tão poucas no meu blog...!!!!
Mas quando cheguei aqui surpreendi-me...com as tuas (muitas) palavras...Voltarei para me inteirar do enredo desta tua história...
Obrigada pela visita ao Delta de Vénus

Åñäii§ disse...

Pensei que serias uma pessoa de poucas palavras, deixaste tão poucas no meu blog...!!!!
Mas quando cheguei aqui surpreendi-me...com as tuas (muitas) palavras...Voltarei para me inteirar do enredo desta tua história...
Obrigada pela visita ao Delta de Vénus

Åñäii§ disse...

Pensei que serias uma pessoa de poucas palavras, deixaste tão poucas no meu blog...!!!!
Mas quando cheguei aqui surpreendi-me...com as tuas (muitas) palavras...Voltarei para me inteirar do enredo desta tua história...
Obrigada pela visita ao Delta de Vénus

Åñäii§ disse...

Pensei que serias uma pessoa de poucas palavras, deixaste tão poucas no meu blog...!!!!
Mas quando cheguei aqui surpreendi-me...com as tuas (muitas) palavras...Voltarei para me inteirar do enredo desta tua história...
Obrigada pela visita ao Delta de Vénus

heidy disse...

:) Que grande contador de histórias. Estava a torcer para que ficassem juntos. :)

tb disse...

Interessante este conflito/confronto de sentires e deveres...