23 junho 2006

by Rarindra Prakarsa

O Ovo de Rá - 28ª parte


Salteadores


Não tinha dado ainda uma dúzia de passos, quando num estreitamento do caminho com moitas altas a cercarem-nos de ambos os lados, surgiram umas lanças apontadas na nossa direcção! Não víamos ninguém porque as lanças eram compridas e decerto que quem nos ameaçava com elas escondia-se nas moitas cerradas.
Parámos de imediato. Certamente quem nos detinha não era muito agressivo porque se nos quisessem matar tinham tido oportunidade de fazer isso de surpresa. Ouviu-se então uma voz:
-- Senhores viajantes atirem os vossos pertences para as moitas, se não quereis perder as vossas vidas!
Estava claro que se tratava de salteadores.
Godo olhou para o Mestre Ratapone e este com um aceno de cabeça concordou que atirassemos os pertences para as moitas.
Godo começou lentamente a descarregar as mulas e sem avisar atirou judiciosamente os sacos com a velocidade e força necessárias para atravessar as moitas e derrubar os salteadores escondidos. Ouvimos o barulho dos sacos a bater em alguma coisa e algumas lanças a tombar.
Cabelos de Fogo não levava consigo o arco e não havia maneira de o pegar sem se arriscar a ser trespassada. Ficou ali ao lado de Godo, fingindo ajudá-lo a descarregar as mulas. Eu pressentia que apenas esperavamos uma ordem de Ratapone, para nos embrenharmos nas moitas e darmos cabo dos salteadores. Mas eles continuavam sem se mostrar, cautelosamente escondidos. Eu da minha parte tinha pensado atirar-me ao chão e rolar de encontra as moitas, pois como as lanças eram compridas, quem as manejava teria inúmeras dificuldades para me espetar com elas, estando assim tão perto e com uma espada eu bem que podia!
Foi neste entretanto que vimos Helmut subir um penedo mais alto que as moitas com alguma coisa na boca que a princípio não conseguimos perceber mas que depois identificamos como um anão gorducho!
A voz de Helmut fez-se ouvir:
-- Gostaria muito que atentassem para aqui se faz favor!
As moitas abanaram. Helmut continuou:
-- Presumo que esta amostra de gente é o vosso chefe e como devem ter notado está a ficar vermelho com a falta de ar...
De facto Helmut segurava o desgraçado pela parte de trás da camisa e com o peso ela estava a apertar-lhe o pescoço e de facto o homenzinho estava a começar a ter dificuldades respiratórias.
-- A minha sugestão é a seguinte: Largam as lanças e aparecem, ou vemos aqui o nosso amigo a ficar roxo até morrer. É convosco.
As lanças baixaram e Helmut sem cerimónia deixou cair o anãozinho que aflito respirou ofegante durante um bom bocado massajando o pescoço, onde a camisa quase o atafegara.
-- Agora que estamos todos mais serenos, acho que é altura de nos apresentarmos, não? – sugeriu Helmut.
Das moitas começaram a sair anõezinhos. Aquilo surpreendeu-nos a todos.
Mas Godo reparou no colar que o anão capturado por Helmut trazia ao pescoço. Um coalr que no peito do anão parecia enorme. Aproximou-se ligeiro de Mestre Ratapone e segredou-lhe algo. Mestre Ratapone olhou para o anão e disse:
-- Acho que tudo isto se trata de um mal entendido... Eu sou Mestre Ratapone e sigo em direcção a casa de Mestre Erato, o eremita. E vós quem sóis?
O anão no penedo, junto a Helmut pôs-se de pé, a cabeça dele erguido dava precisamente pela cabeça de Helmut e este conservava um olhar atento sobre ele. O anão falou:
-- Sou o chefe da aldeia de Belutine, aqui nas Montanhas Negras...
-- E vivem de assaltar os pobres viajantes? – perguntou-lhe Helmut.
-- Não... Mas somos tão pobres que temos de aproveitar... – respondeu o chefe anão.
-- Como vos chamais chefe? – perguntou respeitoso Mestre Ratapone.
-- Bel-Ygor, Mestre Ratapone...
Os restantes anões olhavam-nos curiosos e aproximavam-se sem medo, como sempre tivessemos sido conhecidos. Aquilo deu-me vontade de rir.
-- Acho que mereciam uma sova! – resmordeu o Mestre Ludovico. – Não tendes vergonha?
O chefe Bel-Ygor encolheu-se como uma criança a comer mais doces do que lhe é permitido.
-- Além do mais somos guerreiros e podíamos ter morto alguns de vós! – Acrescentou Mestre Ratapone.
-- Se não fosse aqui o lobo, acho que não! – disse com algum desafio na voz o chefe Bel-Ygor.
-- Bem ,bem... Não achais que era mais fácil pedir? O que tendes necessidade que vos possamos oferecer de presente? – perguntou Mestre Ratapone.
O anão chefe ficou a pensar, intrigado com a oferta que não devia ser muito comum.
-- Quer dizer que nós tentamos assaltar-vos e afinal bastava pedir-vos?
-- Claro! – disse Mestre Ratapone.
-- Isso é muito estranho!
O chefe anão estava mesmo imerso nos seus pensamentos e o seu grupo de salteadores estava também intrigado.
-- Bem, de facto, não precisamos de nada... – disse Bel-Ygor – Apenas estavamos a ser como as formigas a recolher para quando houvesse necessidade.
-- Mereciam mesmo uma grande sova, era o que mereciam! – resmordeu Mestre Ludovico verdadeiramenete chateado.
-- Peço desculpa! – disse Bel-Ygor a meia voz.
-- Se tivesse morrido gente teria de desculpar-se perante as suas famílias, mas todas as suas desculpas, não serviriam para nada!
-- Desculpe dizer-lhe chefe, mas não vejo que seja um grande chefe! – disse Galimodo de pé na garupa de uma das mulas.
Os anões que estavam junto a nós riram-se e de facto o trocadilho até tinha alguma graça. Alguns dos anões chegaram mesmo a dizer algumas palavras desagradáveis em relação ao seu chefe.
-- Olha, até o gato fala... – disse Bel-Ygor na sua surpresa. – Sóis mágicos?
A multidão de anões olhou para nós com viva expectativa.
-- Porque perguntais?
-- Bem, em jeito de desculpa convido-vos a visitar a minha aldeia!
O Mestre Ratapone olhou bem o colar que ele trazia ao peito, um belo colar de ouro com um enorme escaravelho azul engastado. Sorriu.
-- Claro que aceitamos!
Depois Bel-Ygor perguntou a Helmut:
-- Com é que eu desço daqui?
E Helmut com a sua ironia:
-- Pulas corajosamente para cima de uma moita e esperas que o teu peso não faça muitos estragos!

13 comentários:

Mag disse...

Por que caminhos mais tu nos levarás? Imaginaçãozinha fértil, heim!
beijinhos e bfs

tb disse...

caminhos da boa disposição a serpentear de imaginação. Gosto de percorrer contigo os caminhos...

Infidel_Enigma disse...

Obrigada pela visita.
Boa Noite.

Mar disse...

ena ena! agora anões, e a seguir? dragões? :-))
Continua, continua.
jinhos

.:: Jasmine ::. disse...

Quase nos envolves em histórias fabulosas. um beijinho

Promenade Du Feu disse...

Está bom o teu conto, muito embora só tenha lido os primeiros 2 capitulos.

Dae-su Oh disse...

Mágico, não pares.

JPD disse...

Agradeço a tua visita.
Estarei atento às tuas ediçoes.

Goiaoia disse...

Bom, bombombom bom-bom...
Já num há-de ser hoje que vou começar a digerir este universo.
Terá de ser com calma e particular atenção. Penso, inclúsive, que vou ter de te lincar para que me seja mais fácil acompanhar os arquivos.
(Ao teu Blhógue nunca o tinha visto em lado nenhum.)
Felicidades

mary disse...

Obrigada pela visita,gostava de linkar este,gostei mais...vá-se lá saber porquê?!Posso? ;))

mitro disse...

Obrigado a todos quantos visitam este blog e acompanham esta estória!
Já sabem quem quiser receber até ao último post em formato word, é enviar-me um email a pedir (escusam de estragar os olhos a ler isto no écran)!

Mary:
Podes linkar á vontade!

Ruby Sackville-Baggins disse...

:D:D
Obrigada pelos teus comentários no meu quarto azul, volta sempre.

Humm uma história?! Sim senhor, estou para ler :D

Beijinho**

filomena disse...

Não pares de escrever, está fantástica.

Beijinhos