09 junho 2006


O Ovo de Rá - 23ª parte


Fêmeas


Lá íamos a caminho da primeira paragem, o Mestre Ratapone a informações de Ludovico pretendia ir falar com Mestre Erato, um eremita que ficava bem para o interior das Montanhas Negras. Aliás todos os eremitas se tinham espalhado pelas Montanhas Negras uma cadeia bem extensa de montanhas cheias de perigos e de vales cavados e altos picos nevados. Pelo menos durante o Inverno.
E lá ía eu ali ao lado de Cabelos de Fogo e comecei a fazer conversa:
-- Até gostei da casinha de Mestre Ludovico...
-- Eu achei pequenina.
-- Mas tinha uma cave grande...
-- Os homens sempre pensam em caves... Não gostas do Sol?
-- Claro que gosto do Sol!
A coisa não se me afigurava de feição e achei que tinha começado mal. Tentei outro assunto.
-- Bom, agora vamos ter Sol que baste, vamos caminhar ao ar livre pelas belas Montanhas...
-- Belas?! – Interrompeu ela quase escandalizada. – Acho que não conheces as Montanhas Negras...
-- Já ouvi falar na sua fama, mas...
-- O menino já se esqueceu do que enfrentámos não é?
E antes que eu respondesse:
-- Precisamos de manter a vigilância. Devias aprender de Godo, ele está sempre atento, prevenido.
Não gostei dela me ter chamado ‘menino’, afinal éramos quase da mesma idade e eu já tinha aprendido de Godo! Ela continuou:
-- Quantos anos tem Godo?
-- Não sei... Quando cheguei a conhecê-lo era rapazinho e ele já estava ao serviço do Mestre...
-- Mas deve ter quê? Uns quarenta anos?
-- Não sei...
-- Parece-me um homem maduro. Seguro de si. Não deve ter mais de cinquenta anos, não achas?
-- Provavelmente não, sei que estava há pelo menos cinco anos com o Mestre, quando para lá fui, e eu já estou há pelo menos...
Voltou a interromper-me:
-- Donde veio ele?
-- Era escravo...
Interrompeu de novo:
-- Isso eu sei! Mas de que nação ou de que tribo?
-- Não sei...
-- Pareces não saber nada! – resmordeu ela.
Aquilo teve o condão de me irritar mas dominei-me e disse-lhe:
-- Olha lá, já que tens tanta curiosidade, porque não lhe vais perguntar?
-- E olha que vou mesmo! – disse ela a mostrar-se ofendida.
-- Quem te impede? Até lhe podias ter perguntado isso tudo enquanto andaste com ele a preparar a expedição,pelo menos tiveram tempo de sobra para isso e muito mais... – disse-lhe eu como se me estivesse marinbando.
-- É o que faz dar confiança a garotos! Tratamo-los como homens mas não passam de garotos com as hormonas aos saltos...
Pensei: Eu tenho as hormonas aos saltos? Quem teve a iniciativa de se deitar ao meu lado? Olha que esta! E ela continuava verdadeiramente irritada:
-- Godo é um homem maduro, ponderado, sábio, a ele é que devo dar a minha atenção...
Decidi interromper:
-- Se queres ligar a homens bem maduros, devias falar com Mestre Ratapone, além disso é mais sábio...
O que eu fui dizer! Parecia ter sido picada por uma abelha.
-- Mas tu achas que Godo não é tão sábio quanto o Mestre?!
Que havia eu de dizer? Godo era meu amigo e sabia lá eu quanto é que o homem sabia! Nunca tinha medido a sabedoria de cada um! Ela continuou:
-- Olha, pelo menos é bem mais corajoso do que tu!
Aquilo estava a magoar-me. Eu que até tinha no bolso um poema que lhe queria ler! De repente senti como se o mundo me tirasse um tapete debaixo dos pés e fosse cair. Senti como se estivesse a ser traído e não compreendia bem nem o como nem o porquê.
E de repente ela arrancou para ir ter com Godo que continuava ao lado das mulas e eu fiquei ali a olhar-lhes os traseiros.
Senti uma vontade quase irresistível de chorar, mas dominei-me. A minha vontade naquele instante era sumir dali para um lugar solitário. Ou atirar-me de um penhasco ou o que pudesse ser, para acabar com aquela dor que se pusera a crescer-me no peito.
Não sei se Helmut fez de próposito se não, mas rapidamente ele e Galimodo me alcançaram. A princípio não disseram nada e limitamo-nos a caminhar lado a lado. Mas depois de alguns passos em silêncio Helmut falou:
-- Concorrência na alcateia?
Fiquei calado, a dor era demasiado forte para poder articular uma frase que fizesse algum sentido.
-- Se isso pode consolar-te fica a saber que com as fêmeas, as relações não são regidas pela lógica.
Sorri-lhe um sorriso que deve ter parecido um esgar e embaraçado Helmut meteu Galimodo na conversa:
-- Não te parece Galimodo?
-- Pois meu caro Helmut nem sei bem o que dizer! Sabes amigo, enquanto nós animais apenas temos de lidar com o nosso cio durante uma breve época do ano, os humanos têm de lidar com ele todo o ano! Deve ser um fardo insuportável!
Helmut tentou amenizar:
-- Bem, acho que eles já estão habituados...
-- Não sei! – Galimodo depois que começava a falar, era difícil de se calar. – Da minha observação os humanos têm uma elevada propensão para se magoarem nas suas relações macho-fêmea. E as fêmeas como o meu amigo disse e muito bem, não regem as suas escolhas pela lógica...
-- Bem, por alguma razão lhes chamam relações amorosas e não relações lógicas! – disse Helmut a tentar fazer graça. E até teve, que voltei a sorrir, por uns instantes.
-- Sabe o que eu acho que vale na fêmea humana? E curiosamente até podíamos dizer que isso é muito animal...
-- O que é? – incentivou Helmut.
-- A fêmea humana é muito sensível à auto-confiança do macho! Basta o macho mostrar-se seguro de si, dominador sem ser propriamente ostensivo, uma espécie de paternalismo, uns miados bem aplicados...
-- A canção do bandido? – perguntou Helmut mais em jeito de afirmação.
-- Exactamente, vejo que acompanha o raciocínio...
-- Por isso nós na alcateia temos de lutar contra o macho dominante se havemos de ter sorte! E com os gatos?
-- É a mesma coisa! Normalmente atacamo-nos uns aos outros para diminuir a concorrência, porque no no fundo cabe sempre à fêmea a escolha! E acredite amigo, nem sempre escolhe o mais forte! Por isso a nossa estratégia felídea é caparmos o adversário!
-- Isso é muito radical amigo Galimodo! Nunca pensei que fossem tão brutos!
-- Brutos?
-- Está certo, elas gostam de brutos! Podem não ter mais nenhuma qualidade, mas são seguros de si!
E foi aí que eu intervi.
-- Quer dizer que perdi pontos quando coloquei em dúvida a minha coragem?
Helmut e Galimodo pararam e com isso eles distanciaram-se mais um pouco. Godo e Cabelos de Fogo, pareciam ir numa conversa muito animada junto às mulas. Achei curioso porque Godo sempre me parecera de pouca conversa, um indíviduo reservado. Agora soltava-se e ganhava luz. Voltou a doer-me, mas não sentia qualquer animosidade para com Godo.
Retomamos o andamento.
-- Bagh! – soltou Helmut – Vá-se lá entender as fêmeas!

3 comentários:

tb disse...

Nem sei se ria se chore!...
Bem caracterizada a dor (chamada de cotovelo) e as relações que se estabelecem.
Conheço-te e por isso por aqui me fico!
Beijocas

XannaX disse...

Uma interessante reflexão sobre as relações homem/mulher: "...os humanos têm uma elevada propensão para se magoarem nas suas relações macho-fêmea. E as fêmeas (...) não regem as suas escolhas pela lógica" - duas grandes verdades!
Beijos e continuação de uma boa caminhada!

Galeria Colectiva disse...

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