02 junho 2006


by Kai Sehlke Posted by Picasa

O Ovo de Rá - 16ª parte


Sempre calada


Depois que vimos a bicha rebentar lá no fundo do penhasco, Godo disse:
-- Bem agora a caverna fica sem dono, podemos ficar por cá em sossego.
-- Nem pensar! Vão para minha casa! Faço questão disso! – insistiu Mestre Ludovico.
O Mestre Ratapone aproximou-se com um sorriso:
-- Espero amigo Ludovico que o que o torna tão hospitaleiro, não sejam as moedas que oferecem pelas nossas cabeças...
Mestre Ludovico largou uma gargalhada:
-- Devia ficar ofendido, mas seria hipócrita. Por acaso até pensei... Como mera hipótese... Apenas como mera hipótese... Sabe como é, uma pessoa com ouro ou prata neste caso, suscita logo a ganância dos outros e deixa de viver sossegado.
-- Tem muita razão... – aquiesceu o Mestre Ratapone – Ainda para mais temos o mau feitio de vender caras as nossas cabeças...
E como fizesse uma pausa Godo acrescentou:
-- Normalmente ficamos com as nossas e os outros sem as deles.
Mestre Ludovico voltou a gargalhar e Galimodo parecia igualmente divertido.
-- Eu sei! Eu sei! Apesar de ser eremita, não quer dizer que não saiba o que vai acontecendo... Sei a ‘coça’ que deram no Passo de Ziz e depois como tiraram os Gulats fora do caminho. Para mim o mais admirável, permitam-me, foi darem a volta aos Gulats, são extraordinários como guerreiros e saber que... Bem, que vocês os derrotaram, é para mim um feito extraordinário! Sendo assim para que iria arriscar o meu pescoço por 100 moedas de prata?
-- Oferecem isso por qual de nós? – perguntou Godo, com um sorriso a aflorar-lhe os lábios.
-- Como? – perguntou Mestre Ludovico sem ter percebido bem o alcance da pergunta.
-- Por qual de nós dão 100 moedas de prata? – repetiu o Mestre Ratapone.
-- Ah! Por todos vocês...
Cabelos de Fogo com um ar chateado disse-me em voz baixa:
-- Agora é que me começam a chatear à séria! Estão a desvalorizar-nos! Dantes só por mim eram 500 moedas de prata!
O Mestre Ratapone passou um braço pelos ombros do Mestre Ludovico e explicou-lhe:
-- Estamos em crer que quem te disse isso não era de todo honesto...
-- Não?
-- Não.
-- Quer dizer que valeis mais? – E os olhos de Mestre Ludovico brilharam.
-- Muito mais, caríssimo amigo!
-- Ah Ah Ah! Quereis tentar-me não é? Mas não vos vou vender, não senhor! – disse peremptório Mestre Ludovico. – Ainda pra mais se dizeis que quem oferece é desonesto!
-- Desonestíssimo! – acrescentei eu.
-- Bom, vinde comigo! Deixemos esta conversa que não leva a lado nenhum. Em minha casa estaremos confortáveis e podeis Mestre Ratapone, consultar os meus livros. Aliás seria uma honra discutir convosco alguns assuntos. De que vale o dinheiro em comparação com a sabedoria?A propósito faz-me lembrar um livro de provérbios que comprei a um viajante...
E continuando uma enorme conversa com Ratapone, Ludovico simplesmente nos fez ir a sua casa.

Cá trás no cortejo, seguia Helmut demasiado silencioso para o seu hábito. Pelo menos até Galimodo se meter com ele.
-- Caro exemplar canídeo, presumo que o vosso nome seja Helmut...
Helmut rosnou quase imperceptívelmente e eu pra desanuviar a coisa disse:
-- Sim, o nosso amigo chama-se Helmut...
Helmut olhou para mim como se dissesse: "Mas para que tens tu de dar trela a esta bola de pêlo cor de cenoura, que é alimento de burros?" (Aliás disse-me isso mesmo, mais tarde!)
-- Pois é um prazer Sr.Helmut! – começou Galimodo a falar com visível entusiasmo – Nunca pensei que os canídeos fossem capaz de mais do que uivar e ladrar... Sim, é certo que também rosnam...
-- E mordem... – avisou Helmut a querer cortar a conversa.
Mas Galimodo pareceu nem dar pela interrupção:
-- Quer dizer que a sua mãezinha já falava também, não era?
E antes que Helmut pudesse responder Galimodo continuou de enfiada:
-- A minha mãe coitadinha devia ser muda, nunca me disse uma só palavra e os meus irmãos saíram a ela. Só eu é que falava lá na família, mas só o descobri mais tarde... muito mais tarde! Foi quando conheci um humano, o bom do meu amigo Ferdinando que tinha uma taverna! Há que bons tempos esses! Nunca faltava que comer e podia falar à vontade! A princípio falava com os clientes habituais, mas cheguei a pensar que tinham um raciocínio desconexo e baboso. Não admira! Descobri que estava a falar com bêbados! – e riu um esquesito riso de gato, ligeiramente parecido com um ataque de asma.
Neste intervalo, Helmut aproveitou para suspirar. Galimodo continuou:
-- Vejo que teve o mesmo azar, não? Mas olhe, para alguns até foi bom, depois que falaram comigo deixaram de beber! Depois disso o meu amigo Ferdinando o taverneiro passou a dar-me muito mais atenção e ficou tão maravilhado comigo que passou a ter longas conversas! Mas não percebi muito bem o que se passou com ele, um dia meteu-me num cesto e fomos até à cidade, ao Castelo de Varrene, onde habitava o príncipe Dermaier. Chegamos lá e o meu amigo disse que queria uma entrevista com o príncipe para um assunto da máxima importância... E olha, coisa curiosa, o Dermaier era ruivo, ali como aquela moça... E como eu, claro está! Se calhar ainda tenho sangue de tigre! – E voltou a rir com o seu riso típico. Pensei que era um pensamento giro a Cabelos de Fogo ter ascendentes de tigresa!
Entretanto tínhamos chegado perto da casa do Mestre Ludovico e Helmut estugou ligeiramente o passo, até porque ele e Galimodo se tinham deixado ficar para trás.
Galimodo correu nas suas patitas de gato acompanhando Helmut.
-- Veja só a minha sorte... – ele pausava mais agora, para poder correr e acompanhar o passo de Helmut – Ofereceu-me ao príncipe!... Não acha que fui afortunado?... O príncipe deu-me uma educação primorosa... Estudei com os melhores Mestres... Sei sete línguas... Geografia... Não vamos muito depressa? – disse Galimodo parando para tomar fôlego.
Mas Helmut não respondeu, mas como todos nós já estivesssemos à porta de casa, Helmut também parou e Galimodo alcançou-nos com facilidade, mas não desarmou:
-- O príncipe Dermaier era muito inteligente! Proibiu-me de falar na corte com quer que fosse e ameaçou os que soubessem do meu segredo, que se o revelassem, perderiam as cabeças! Ele estimava-me e não queria que algum invejoso me roubasse da sua companhia...
Aqui no seu tom mais irónico Helmut não resistiu:
-- Devia ser, de certeza...
E Galimodo:
-- Exacto! E sabeis uma coisa, um dia ouvi uma conversa de uns fidalgos num banquete... Uns ranhosos que nem me davam uns ossitos para ir lambendo debaixo da mesa! Estavam a falar de um plano para matar o príncipe Dermaier e usurpar-lhe o domínio. Claro está que avisei o príncipe! A coisa foi averiguada e os fidalgos decepados!
Helmut voltou à carga:
-- É preciso cuidado ao falar contigo, pode-se perder a cabeça...
Galimodo nem se deu por achado e continuou:
-- Depois disso o príncipe Dermaier armou-me cavaleiro e passei a ser Sir Galimodo! – Fez uma breve pausa. – Penso que não sóis Sir, pois não? E não me chegastes a dizer se a vossa mãezinha falava... Eu ainda hoje tenho saudades da minha mãezinha. Confesso que quando vejo assim um pano de pelo, ou um velo, me atacam as saudades de uma forma irresístivel e começo a mamar num novelinho de tecido ou de pelo. A minha mãe era uma bela gata.. Acho que ainda hoje, gosto imenso de mamas... Mas sabe como são as gatas, entregam-nos ao mundo logo que começamos a andar e partem para outra ninhada! A sua mãezinha também era assim? Carinhosa consigo?
-- Muito... – respondeu paciente Helmut – E tinha uma enorme vantagem...
-- Ai sim, qual era? – perguntou curioso Galimodo.
-- Estava sempre calada...

2 comentários:

XannaX disse...

Fabuloso! As imagens 'tão espectaculares! Este episodio dedicado a Galimodo levanta algumas questões interessantes "De que vale o dinheiro em comparação com a sabedoria?" (quando tens que optar)
Bjinhos e um fim de semana criativo.

tb disse...

Muito bem. Imagens!
Grande produção no final de semana...Com que então, resquícios???!!! ah ah ah ah
Beijinhos