30 junho 2006

piodao by tb

O Ovo de Rá - 29ª parte

Memeth não regressou

Para nossa surpresa os anões fizeram-nos caminhar três horas por trilhos estreitos às vezes tão estreitos que apenas tinham a da largura de um cu de mula até à sua aldeia. Esta estava pendurada numa escarpa no meio de cedros enormes, que espalhavam por ali as suas raízes e pareciam ser eles a suportar a escarpa!

Quando chegamos fomos muito bem recebidos e organizaram logo uma enorme festa com montanhas de comida! Achei tudo aquilo cómico. Não vimos sinais de carência em lado nenhum o que teve por condão irritar o Mestre Ludovico.

-- Vejam lá estas pestes de tamanho miniatura, sem necessidades, nem carências a dedicarem-se à pilhagem! Apetecia-me atirar-lhes com um bocado do meu ácido...

-- Tende calma Mestre Ludovico e aproveitemos a hospitalidade... – Sugeriu Mestre Ratapone.

As crianças vieram fazer festinhas em Galimodo que adorou! Aliás Galimodo adorava ser o centro das atenções e prendeu a criançada contando intermináveis estórias de fantasia. Também fizeram festas a Helmut mas apenas os mais corajosos. Helmut manteve um ar distante e não se deixava afastar muito de mim.

Na grande praça no centro da aldeia éramos o centro das atenções. Alguém levou as nossas mulas, antes que Godo pudesse reclamar. Esperavamos que entregassem tudo conforme tinham recebido, mas Mestre Ratapone até parecia divertido.

-- Então chefe Bel-Ygor, tem aqui uma bela aldeia!

-- Não nos podemos queixar...

-- Ai não?! Mas podem roubar! – disse Mestre Ludovico, sem poder conter a sua indignação.

-- Ora caro amigo... – respondeu o chefe Bel-Ygor – Nunca sabemos o dia de amanhã, não é?

-- E já vos passou pela cabeça que entretidos nesse desporto radical de salteadores de estrada, alguns de vós possam ficar sem ‘amanhã’? – perguntou Cabelos de Fogo.

-- A menina é bela e faz perguntas pertinentes... – disse Bel-Ygor, mas acho que a fraseologia era para amansar Cabelos de Fogo. – Mas só vão voluntários, não forçamos ninguém a ir nas nossas expedições.

-- Chefe Bel-Ygor, tem sido bem sucedidos? – perguntou Mestre Ratapone.

-- Bem, não nos podemos queixar muito... A fama das Montanhas Negras sempre ajuda para o nosso lado. O nosso problema é que passam por aqui pouco viajantes... A maioria é para consultar um ou outro eremita e não os vêm consultar todos os dias.

-- Como nós. – disse Godo.

-- Mas vamos esquecer o acontecimento... – sugeriu Bel-Ygor.

-- Esquecer, diz ele... – resmordeu Mestre Ludovico.

-- Esse colarzinho que trazeis ao pescoço, foi obtido num desses ‘acontecimentos’? – perguntou subtil Godo.

-- Ah Este aqui? – e Bel-Ygor apontou para o magnífico colar de ouro com o escaravelho engastado.

-- Esse mesmo. – certificou Godo. – Não me parece resultado do vosso artesanato...

Aliás nenhum dos anões usava ouro como adorno, tanto quanto nos era dado ver.

-- Este aqui foi ainda no tempo do meu pai... Era eu ainda um jovem... Mas não foi roubado!

-- Ai não? Pois claro que não! – interrompeu Mestre Ludovico – Pediram gentilmente a alguém e este entregou-o como presente... Claro que se esqueceu de mencionar que o pedido foi feito com lanças apontadas ao peito, mas claro, isso V. Ex. esqueceu-se de mencionar...

-- O Senhor é muito amargo! Por acaso foram uns senhores simpáticos como vocês que também nos ofereceram o colar em troca da nossa hospitalidade!

O Mestre Ludovico engoliu em seco. E Mestre Ratapone retomou a palavra:

-- Amigos, portanto?

-- Sim...

-- Ficaram muito tempo? – perguntou Godo.

-- Algum tempo, talvez uns três dias...

Sussurrei para Helmut:

-- Aqui é tudo medido em três... Três horas de viagem até aqui, três dias que ficaram...

Helmut não disse nada, mas o seu olhar mantinha-se muito atento. E sabia que aquelas orelhas arrebitadas captavam sons de muito longe.

-- Sabes por onde partiram chefe? – perguntou Godo.

-- Hummm... Estão muito interessados... Porquê?

-- Pensamos que esses amigos, são também nossos amigos e seguimos os seus passos, para ter notícias sobre o que lhes aconteceu... – esclareceu Mestre Ratapone.

-- Mas isso foi há muito tempo...

-- Sabemos que sim, mas mesmo assim queremos saber o que se passou com eles, afinal as suas famílias precisam de ser reconfortadas com a verdade sobre o que lhes sucedeu! – explicou Mestre Ratapone.

O chefe Bel-Ygor ficou pensativo:

-- Pois decerto.. Um momento... Bel-Turo! – chamou ele. E esclarecendo : -- Bel-Turo é o nosso cronista, ele deve ter relatos sobre essa época e sobre o que se passou. Eu só me lembro de algumas coisinhas, ainda era pequeno...

O Mestre Ratapone fez um vénia em sinal de agradecimento. E eu não o consegui imaginar mais pequeno!

Entretanto a mesa foi posta e começou o banquete. Este banquete durou até á noite e pela noite até ser manhã.

E enquanto decorria Bel-Turo foi colocando o Mestre Ratapone e Godo ao corrente do que se passara. Bel-Turo socorreu-se de uns velhos pergaminhos guardados na Casa da Memória de Belutine.

-- Ora cá está... – disse Bel-Turo desenrolando um pergaminho, depois de ter arredado pratos e travessas para fazer espaço – Este pergaminho fala da visita de Memeth, o generoso... Conta que pela hospitalidade ofereceu diversas peças de ouro. Tem aqui a lista, mas acho que só resta o colar do chefe, as outras peças desapareceram em épocas de infortúnio...

-- E sabem o que procurava Memeth, porque veio até aqui?

-- Hummm, deixe cá ver... – Bel-Turo, tentava ler os pergaminhos que estavam escritos num alfabeto desconhecido a todos nós. – Aqui apenas diz que Memeth esteve três dias e que depois levou alguns de nós como guias para atravessarem a Garganta Grande que leva ao Pico das Águias.

-- Não tem mais nada? – insistiu Godo.

-- Donde vinha Memeth? – perguntou Cabelos de Fogo.

-- Pensei que eréis seus amigos! – exclamou Bel-Ygor, com a surpresa de ter apanhado alguém a mentir escandalosamente.

Mestre Ratapone explicou que Cabelos de Fogo se juntara a eles a meio da jornada, tal qual Mestre Ludovico. Bel-Ygor descontraiu-se aceitando a explicação.

-- Memeth, vinha de terras distantes ao sul, muito para o sul da cadeia das Montanhas Negras e mesmo para além das Terras Fétidas... – explicou Mestre Ratapone, provando assim que sabia – Uma terra quente e acolhedora, onde os homens ilustres rapavam as suas cabeças...

Bel-Ygor sorriu:

-- É verdade, lembro-me de os ver, até achamos engraçado... Era eu jovem, mas não me esqueci das cabeças rapadas...

-- Bem, então quer dizer, se não for pedir demasiado chefe, que amanhã nos possais designar um guia para seguir o mesmo caminho de Memeth...

-- Vá... Amanhã está ainda distante! Comam, bebam, alegrem-se... Amanhã falaremos de novo.

-- Mas, temo chefe... que não possamos ficar três dias, como o nosso amigo... – disse Godo.

Uma sombra passou pelo rosto do chefe que pareceu profundamente desiludido.

-- Que pena! É tão raro termos visitantes assim distintos... Gostamos de ouvir relatos de terras distantes... Conhecer coisas novas...

-- Prometemos regressar, depois de sabermos de Memeth... – prometeu Ratapone.

O chefe permaneceu triste.

-- Memeth prometeu, mas não regressou...


23 junho 2006

by Rarindra Prakarsa

O Ovo de Rá - 28ª parte


Salteadores


Não tinha dado ainda uma dúzia de passos, quando num estreitamento do caminho com moitas altas a cercarem-nos de ambos os lados, surgiram umas lanças apontadas na nossa direcção! Não víamos ninguém porque as lanças eram compridas e decerto que quem nos ameaçava com elas escondia-se nas moitas cerradas.
Parámos de imediato. Certamente quem nos detinha não era muito agressivo porque se nos quisessem matar tinham tido oportunidade de fazer isso de surpresa. Ouviu-se então uma voz:
-- Senhores viajantes atirem os vossos pertences para as moitas, se não quereis perder as vossas vidas!
Estava claro que se tratava de salteadores.
Godo olhou para o Mestre Ratapone e este com um aceno de cabeça concordou que atirassemos os pertences para as moitas.
Godo começou lentamente a descarregar as mulas e sem avisar atirou judiciosamente os sacos com a velocidade e força necessárias para atravessar as moitas e derrubar os salteadores escondidos. Ouvimos o barulho dos sacos a bater em alguma coisa e algumas lanças a tombar.
Cabelos de Fogo não levava consigo o arco e não havia maneira de o pegar sem se arriscar a ser trespassada. Ficou ali ao lado de Godo, fingindo ajudá-lo a descarregar as mulas. Eu pressentia que apenas esperavamos uma ordem de Ratapone, para nos embrenharmos nas moitas e darmos cabo dos salteadores. Mas eles continuavam sem se mostrar, cautelosamente escondidos. Eu da minha parte tinha pensado atirar-me ao chão e rolar de encontra as moitas, pois como as lanças eram compridas, quem as manejava teria inúmeras dificuldades para me espetar com elas, estando assim tão perto e com uma espada eu bem que podia!
Foi neste entretanto que vimos Helmut subir um penedo mais alto que as moitas com alguma coisa na boca que a princípio não conseguimos perceber mas que depois identificamos como um anão gorducho!
A voz de Helmut fez-se ouvir:
-- Gostaria muito que atentassem para aqui se faz favor!
As moitas abanaram. Helmut continuou:
-- Presumo que esta amostra de gente é o vosso chefe e como devem ter notado está a ficar vermelho com a falta de ar...
De facto Helmut segurava o desgraçado pela parte de trás da camisa e com o peso ela estava a apertar-lhe o pescoço e de facto o homenzinho estava a começar a ter dificuldades respiratórias.
-- A minha sugestão é a seguinte: Largam as lanças e aparecem, ou vemos aqui o nosso amigo a ficar roxo até morrer. É convosco.
As lanças baixaram e Helmut sem cerimónia deixou cair o anãozinho que aflito respirou ofegante durante um bom bocado massajando o pescoço, onde a camisa quase o atafegara.
-- Agora que estamos todos mais serenos, acho que é altura de nos apresentarmos, não? – sugeriu Helmut.
Das moitas começaram a sair anõezinhos. Aquilo surpreendeu-nos a todos.
Mas Godo reparou no colar que o anão capturado por Helmut trazia ao pescoço. Um coalr que no peito do anão parecia enorme. Aproximou-se ligeiro de Mestre Ratapone e segredou-lhe algo. Mestre Ratapone olhou para o anão e disse:
-- Acho que tudo isto se trata de um mal entendido... Eu sou Mestre Ratapone e sigo em direcção a casa de Mestre Erato, o eremita. E vós quem sóis?
O anão no penedo, junto a Helmut pôs-se de pé, a cabeça dele erguido dava precisamente pela cabeça de Helmut e este conservava um olhar atento sobre ele. O anão falou:
-- Sou o chefe da aldeia de Belutine, aqui nas Montanhas Negras...
-- E vivem de assaltar os pobres viajantes? – perguntou-lhe Helmut.
-- Não... Mas somos tão pobres que temos de aproveitar... – respondeu o chefe anão.
-- Como vos chamais chefe? – perguntou respeitoso Mestre Ratapone.
-- Bel-Ygor, Mestre Ratapone...
Os restantes anões olhavam-nos curiosos e aproximavam-se sem medo, como sempre tivessemos sido conhecidos. Aquilo deu-me vontade de rir.
-- Acho que mereciam uma sova! – resmordeu o Mestre Ludovico. – Não tendes vergonha?
O chefe Bel-Ygor encolheu-se como uma criança a comer mais doces do que lhe é permitido.
-- Além do mais somos guerreiros e podíamos ter morto alguns de vós! – Acrescentou Mestre Ratapone.
-- Se não fosse aqui o lobo, acho que não! – disse com algum desafio na voz o chefe Bel-Ygor.
-- Bem ,bem... Não achais que era mais fácil pedir? O que tendes necessidade que vos possamos oferecer de presente? – perguntou Mestre Ratapone.
O anão chefe ficou a pensar, intrigado com a oferta que não devia ser muito comum.
-- Quer dizer que nós tentamos assaltar-vos e afinal bastava pedir-vos?
-- Claro! – disse Mestre Ratapone.
-- Isso é muito estranho!
O chefe anão estava mesmo imerso nos seus pensamentos e o seu grupo de salteadores estava também intrigado.
-- Bem, de facto, não precisamos de nada... – disse Bel-Ygor – Apenas estavamos a ser como as formigas a recolher para quando houvesse necessidade.
-- Mereciam mesmo uma grande sova, era o que mereciam! – resmordeu Mestre Ludovico verdadeiramenete chateado.
-- Peço desculpa! – disse Bel-Ygor a meia voz.
-- Se tivesse morrido gente teria de desculpar-se perante as suas famílias, mas todas as suas desculpas, não serviriam para nada!
-- Desculpe dizer-lhe chefe, mas não vejo que seja um grande chefe! – disse Galimodo de pé na garupa de uma das mulas.
Os anões que estavam junto a nós riram-se e de facto o trocadilho até tinha alguma graça. Alguns dos anões chegaram mesmo a dizer algumas palavras desagradáveis em relação ao seu chefe.
-- Olha, até o gato fala... – disse Bel-Ygor na sua surpresa. – Sóis mágicos?
A multidão de anões olhou para nós com viva expectativa.
-- Porque perguntais?
-- Bem, em jeito de desculpa convido-vos a visitar a minha aldeia!
O Mestre Ratapone olhou bem o colar que ele trazia ao peito, um belo colar de ouro com um enorme escaravelho azul engastado. Sorriu.
-- Claro que aceitamos!
Depois Bel-Ygor perguntou a Helmut:
-- Com é que eu desço daqui?
E Helmut com a sua ironia:
-- Pulas corajosamente para cima de uma moita e esperas que o teu peso não faça muitos estragos!

21 junho 2006


O Ovo de Rá - 27ª parte


Ver claro


De manhã, embrulhamos a tralha toda e partimos bem cedo. Mestre Ratapone queria chegar a outro eremita que ficava a meio de uma encosta e a caminhada afigurava-se difícil.
Aparelhadas as mulas, seguimos caminho.
Galimodo decidiu ir para junto de Godo e Cabelos de Fogo, que continuaram a caminhar juntos.
Eu fiquei para trás como já se vinha tornando hábito e Helmut fazia-me companhia.
Decidi começar a conversar, pois não me apetecia nada ir ali a pensar nas conversas que Godo e Cabelos de Fogo podiam ir a ter. Além do mais, tinha a noção de que Godo bem merecia um pouco de felicidade.
-- Não sabia que Godo tinha passado por tudo aquilo, é uma história comovente.
-- É... – respoondeu lacónico Helmut.
-- Não te tocou?
-- Reconheço que somos um bom bando de desesperados...
Dei uma gargalhada.
-- Não tinha ainda visto as coisas por esse prisma, mas enfim!
-- É realístico Maia... É realístico...
-- Achas que Cabelos de Fogo é desesperada?
-- Nitidamente.
-- Como assim?
-- Procura uma família, uma em substituição daquela que perdeu por andar fugida. Esta é a sua melhor chance. Andamos todos a fugir e o que nos une é quase tão intenso como os laços de família, ou mais ainda.
Aquilo começava a ser interessante.
-- Fugimos de quê Helmut?
-- Ainda não percebeste Maia? Fugimos da nossa incapacidade de sermos felizes, de encontrarmos a felicidade...
-- Tu também Helmut?
-- Claro! Eu também... Em que alcateia estaria eu bem? Um lobo que fala, que pensa, que sente... Só aqui posso ter alguma perspectiva de ser menos infeliz.
-- Pois...
-- E Godo foi um parvo!
Ri-me.
-- Então porquê?
-- Também não viste? – E Helmut meneou a cabeça em sinal de desalento. – Acho que vocês homens, acabam por estar em piores condições do que eu para alcançar a felicidade!
-- Explica lá isso do Godo...
Helmut olhou para mim, como se fosse estranho para ele um homem pedir explicações a um lobo. Mas depois percebeu que eu não o considerava um lobo, mas um amigo, alguém como igual e acho que sorriu:
-- Só tu, para mo perguntares! Mas está bem... Então a amada do Godo perguntou-lhe que garantia podia ter se alimentasse o seu amor por ele, não foi?
-- Pelo menos foi o que Godo contou.
-- Se ela queria garantias fizesse um depósito no banco! Olha-me esta! Garantias que desse certo hein? E que garantias tinha com o namorado de há sete anos?
-- Estou a perceber...
-- Não há garantias! Godo foi um parvo! E perder tudo por essa mulher, só me confirma que ele não bate bem da moleirinha...
Fiquei a pensar na análise tão óbvia de Helmut. Sim, ele tinha razão! E na fragilidade de querer acreditar no valor superior do amor, perdemos de vista as coisas que deviam ser óbvias.
-- Ela não o amava, pois não Helmut?
-- Não sei... Podia amar até, mas não arriscou. Teve medo... O medo, nunca foi bom conselheiro. Amar envolve alguma coragem, pelo menos a coragem que ele inspira!
-- Talvez o amor de Godo não lhe inspirasse muita...
-- Pois se calhar! Mas tenho de admitir que era um amor suficientemente grande, para lhe motivar tamanho sacrifício! Honra lhe seja feita! O problema é que Godo podia ter princípios, mas estes sem sabedoria prática, acabaram por se lhe tornar uma armadilha. Ele julgou que tinha de a libertar do seu amor, mas ela tinha mesmo é de se libertar do seu medo!
Caminhamos um bocadinho em silêncio e depois ocorreu-me uma pergunta:
-- Crês que possa correr melhor com Cabelos de Fogo?
Helmut olhou directamente para mim:
-- Só os vejo a conversar, Maia.
-- E não acreditas que possa nascer mais nada?
-- Quem sabe? Mas se ela te interessa, não achas que desististe com muita facilidade? Talvez quisesses também uma garantia... Ou pensasses que era garantido...
Sorri, Helmut estava a ser irónico e continuou:
-- Nós lobos, lutamos na alcateia para substituir o macho dominante. Podemos nunca conseguir ou acabar em mau estado. Mas pelo menos tentamos. Não há vergonha nenhuma em tentar. Tanto não há, que mesmo depois que tentamos, não somos expulsos da alcateia, apenas esperamos melhor ocasião. E não ouviste o que se passa, com as bolas de pêlo com garras nas patas? O que disse Galimodo? Até se capam! Mas acho que não desistem fácil...
-- Querias que jogasse á porrada com Godo?
--Ora Maia, és mais inteligente do que isso! Claro que não... Mas já te passou pela cabeça que Cabelos de Fogo, pode estar a experimentar-te? A tentar perceber de que massa és feito? Quais os teus sentimentos e a força deles? As mulheres gostam de ‘garantias’...
E aquilo tudo começou a tornar-se muito claro e a clarividência de Helmut era deslumbrantemente reveladora! E ele decidiu concluir:
-- É também por isso que raramente encontram a felicidade... Não percebem, que não saber, é realmente o melhor modo... Porque depois que se sabe, não se pode voltar a fingir que não se sabe!
-- Não percebi, a última parte Helmut...
-- Eu sei que não... – E meteu-se a correr e entrou por umas moitas e deixei de vê-lo.

20 junho 2006


by Roraima M. Rocha in www.olhares.com 

O Ovo de Rá - 26ª parte


O Amor Verdadeiro


Eu e Helmut regressamos ao acampamento. O Sol declinava no horizonte e em breve seria noite.
Mestre Ludovico viu-nos chegar e disse:
-- Chegam na hora certa! Preparei o jantar, o Mestre Ratapone disse que passaremos aqui a noite.
Agradeci mentalmente ao Mestre. De facto estava extenuado e manter uma caminhada seria desumano para mim.
O jantar decorreu sem grandes conversas e Galimodo aproveitou para falar. Falou da sua vida junto do príncipe Dermaier. No final do jantar Mestre Ratapone pediu:
-- Godo, traz o alaúde para o Maia tocar...
Achei o pedido invulgar, mas percebi que o Mestre apenas me estava a ajudar. Assim improvisei uma melodia. Quando acabei Cabelos de Fogo exclamou:
-- Não sabia que sabias tocar! Foi uma música muito bonita, mas tão triste!
Sorri um meio sorriso. Ela olhou para Godo e perguntou:
-- E tu Godo também sabes tocar um instrumento?
-- Deus me livre! – disse ele com uma gargalhada.
Preparamo-nos para dormir.
Godo disse:
-- Mestre... Eu faço o primeiro turno, Helmut pode fazer o segundo e Mestre Ludovico se não se importar pode fazer o terceiro...
Cabelos de Fogo interrompeu:
-- Eu posso fazer o de Mestre Ludovico.
O Mestre concordou e acrescentou:
-- Maia faz o último.
Todos nos deitamos excepto Godo. Eu não conseguia adormecer. Helmut a meu lado parecia dormir. Uma hora depois, Godo chegou até mim.
-- Dormes? – perguntou ele num sussurro.
-- Não...
-- Gostaria de conversar contigo, queres?
Fiquei intrigado, mas Godo era meu amigo e não era por causa de Cabelos de Fogo que essa amizade se haveria de perder.
-- Claro! – respondi.
Ele sorriu-me e afastamo-nos de onde os restantes descansavam. Mas Helmut sempre atento veio atrás de nós.
-- Espero que não se incomodem por vir para junto de vós... – disse ele.
-- Não há problema por mim. – disse eu.
-- Podes vir Helmut. – concordou Godo.
Sentamo-nos junto ao rio sobre um tronco caído.
-- Posso perguntar-te uma coisa Godo?
-- Claro, Maia, pergunta lá.
-- Porque mentiste á pouco?
-- Mentir? Que mentira disse eu? – perguntou Godo admirado.
-- Disseste que não sabias tocar um instrumento e no entanto sei que tocas lindamente flauta.
No seu rosto apareceu um sorriso rasgado.
-- Não menti. Disse "Deus me livre!" E Deus livrou-me.
Foi a minha vez de sorrir.
-- Obrigado, Godo. Foi por mim, não foi?
Ele não disse nada e olhou para o chão como se não soubesse exactamente o que dizer.
-- Sei que foi Godo. És um bom amigo. Mas sabes... Não precisavas de o fazer. Não estou zangado contigo, e se Cabelos de Fogo gostar de ti, que posso fazer? Não é por isso que deixo de gostar de ti.
Havia um brilho nos olhos de Godo. Eu continuei:
-- Devemos ficar felizes com a felicidade dos nossos amigos, não é?
Godo falou:
-- Nunca contei muito da minha vida a ninguém, como sabes... Mas acho que tens o direito de saber uma coisa... Pelo menos, queria contar-te...
Estava atentamente a escutar, pois de facto Godo nunca falara da sua vida. Helmut pareceu-me indiferente a dormitar enroscado atrás de nós.
-- Não sei se Cabelos de Fogo gosta de mim, apesar de que se gostasse seria bom...
Ele sorriu-me um sorriso maroto e eu correspondi-lhe com outro sorriso.
-- Se ambos fossem felizes, eu ficaria feliz, Godo; mesmo que ficasse com uma pontinha de dor aqui dentro...
Godo riu-se baixinho para não acordar os outros. Galimodo dormia com Cabelos de Fogo, enroscadinho nos seus braços, a aproveitar o calor.
-- Galimodo é que ficou com ela! – disse Godo.
Também me ri.
-- Pois, mas eu sei que já te doi e ainda nem aconteceu nada entre nós, não é Maia?
-- Não te vou mentir, sim dói.
-- Pois, mas acho que tu sabes o que o verdadeiro amor é. Pelas tuas palavas noto-o e fico feliz, apesar de saber que o verdadeiro amor às vezes trás mais dor do que a que conseguimos suportar...
-- Que me queres dizer Godo? – senti que ele estava a dar uma grande volta em relação ao que me queria dizer. Talvez lhe fosse difícil.
-- Pois, Maia, o verdadeiro amor não pensa primariamente em si próprio mas no outro, naquilo que é melhor para o outro. O verdadeiro amor perfere a morte à infelicidade do outro...
Aquelas palavras entravam em mim e sentia-lhes o eco. Eram palavras dolorosas e belas. Sim, o verdadeiro amor é feito de dar, dar até ao limite, ou para além dele, nem sei bem. Mas era isso amar, era dar de si, sem qualquer garantia de retorno. Mas se assim era, seria ele a chave da felicidade?
Godo continuou sem olhar para mim, o que nele era sinal de uma certa dificuldade.
-- Eu também um dia amei muito, Maia... Amei demais! Se é possível amar demais! Antes de ser escravo... Era aquele destinado a ser chefe da minha tribo, numa longa linhagem de honrados chefes... Tínhamos os nossos costumes, a nossa religião, mas não passamos de homens e como tal, um dia o amor apanha-nos sem nos deixar outra opção que não seja a rendição incondicional!
Godo parou um pouco, talvez para ganhar fôlego e continuou:
-- Na tribo vizinha, com outros costumes, outra religião, havia uma bela donzela...
Godo voltou a parar e soltou um suspiro. Percebi que era aí que Godo queria de facto chegar e a história não ía ser de final feliz.
-- Ela era bela! Oh como ela era bela! Tinha olhos garços, daqueles que mudam de cor entre o verde, um cinza azulado e o castanho. Cabelos compridos num castanho alourado onde o sol brincava... Um corpo com a graciosidade de uma palmeira-tamareira... O sorriso doce e fácil... Uma personalidade alegre e brincalhona...
Os olhos de Godo brilhavam na noite.
-- Arranjamos eu e ela todas as desculpas para estarmos juntos, para falarmos... Sem darmos conta estavamos profundamente apaixonados, amavamo-nos. Mas nenhum de nós queria de facto admiti-lo... Ela namorava com um ilustre moço de sua tribo, já por sete anos. Também ele um dia seria um chefe... Escrevi-lhe poemas, compus melodias na flauta para ela... E comecei a senti-la perturbada. Os seus olhos lindos, límpidos e brilhantes quando estava contente, começaram com o tempo a ficar embaçados. E sabes porquê?
Não quis perturbá-lo com palavras e acenei que não com a cabeça.
-- Ela começava a perguntar-me o que seria a nossa vida... Se valia arrriscar, deixar tudo para tentarmos nós...
Godo calou-se, respirou fundo e continuou:
-- Ela sabia que tínhamos costumes e religião diferentes. Se ficasse comigo, teria de aceitar a minha religião. Afinal eu era um chefe do meu povo, com a responsabilidade de manter os costumes e as tradições do meu povo.
Sem pensar interrompi:
-- Podiam ter ido pra outro lugar e ter feito a vossa vida...
Ele sorriu-me, um sorriso de compreensão.
-- Podia... Mas sujeitá-la-ía eu a isso? Abandonaria ela os pais, os irmãos, só para ir comigo? E eu, abandonaria todas as minhas responsabilidades para estar com ela? O que pensaria ela disso? Como poderia ela confiar no meu amor, se largasse tudo assim? Como ela dizia: " Que garantia temos nós que dê certo no nosso caso?" E não há garantias, pois não? Nunca há... Embora às vezes acreditemos que o amor possa ser eterno!
Voltou a pausar para respirar.
-- Senti que todos estes pensamentos a estavam a perturbar. Sabes, um dia acordamos e vemos claramente o quadro todo! É como uma revelação. Maravilha-nos e deixa-nos angustiados. Pensa: Ela namorava há sete anos e tinham sido sete anos em vão? Que sentido teria então a palavra "compromisso"? Será que o facto de amar outra pessoa justificava abandonar tudo e todos?
-- Compreendo... Eram ambos pessoas de princípios...
Godo não foi a tempo e uma lágrima rolou-lhe pela face. Limpou-a com as costas da mão e recompôs-se.
-- Sabia o que tinha de fazer, Maia. A prova sublime do amor! E já que fora eu que a perturbara na sua quietude de viver, teria de ser eu a libertá-la do meu fardo. E um dia... Um dia em que a minha tribo se envolvia em batalha contra outra... Deixei-me capturar, e tornei-me escravo.
O silêncio depois destas palavras foi longo e senti ainda mais aguda a dor no meu peito. Mas já não era a minha, era a de Godo!

12 junho 2006


O Ovo de Rá - 25ª parte


A dor


-- Mestre...
-- Sim?
-- Neste momento.. embora procure ser forte... Apenas me apetece chorar...
O Mestre olhou para mim, com uma ternura que nunca lhe vi nos olhos e disse-me:
-- Fica aqui e chora!
-- Não é coisa de fraco?
-- Fraco é não ter coração! Não sentir nada... Não fico contigo, porque teria que me juntar às tuas lágrimas e isso embaraçar-me-ía porque o sofrimento é uma coisa pessoal, íntima. Fica aqui e chora... Faz o teu luto. Enterra essas frustrações que te sufocam. Partiremos só depois que apareceres...
E foi-se embora sem olhar para trás uma única vez.
Afastei-me mais um pouco e ajoelhei num tufo de erva e nem o Sol, nem o cantar alegre dos pássaros naquela Primavera me impediram de chorar, chorar sem parar, chorar sem tino, chorar sem controlo, chorar...
E Helmut, sim o meu querido amigo Helmut que ficara a trinta passos de nós, ficou ali, aquela distância, não sei se embaraçado, se sem saber o que fazer. De focinho no chão, às vezes olhando para um lado, depois para o outro. Pareceu-me que resguardava a minha solidão! Para que nada pudesse perturbar-me naquele momento em que a dor me inundou os olhos e extravasou.
Mas Helmut não foi capaz de suportar na distância o meu choro silencioso, quase envergonhado, mas ainda assim tão intenso que não o conseguia parar, mesmo que quisesse!
E Helmut foi-se aproximando de mansinho, quase como se pedisse desculpa. Achei que às vezes ficava parado, ali atrás, pensando se devia vir até a mim ou não, mas veio. E sentou-se ao meu lado e não disse nada. Podia ter falado, podia ter dito qualquer frase sensata ou jocosa, como era seu costume, mas não disse nada. Ficou só ali, pertinho. Tão pertinho que o abracei e chorei, chorei até não ter mais lágrimas....

Acho que se passaram horas, nem dei conta. Helmut deixou-se abraçar e quando finalmente parei de chorar. Helmut ainda ali estava. As minhas lágrimas tinham-lhe molhado o pelo no pescoço, mas nem se sacudiu nem nada. Foi o meu travesseiro.
Ergui-me, sorri (agora já conseguia sorrir):
-- Desculpa Helmut...
E quando Helmut olhou para mim, notei que também ele tinha os olhos cheios de lágrimas. Repeti-me:
-- Desculpa Helmut, dessculpa... – E abracei-o. – Se calhar fiz-te lembrar também a tua dor. Eu aqui tão preocupado com a minha e a tua é bem maior...
E surpreenderam-me as palavras dele:
-- Não peças desculpa. Tenho é que agradecer, porque agora sinto-me melhor.
-- Melhor Helmut?
-- Sim Maia. Chorar contigo fez-me bem... Pensava que por ser quem sou e como sou, seria uma dor grande, mas a tua acaba por não ser menor...E quem pode compreender o sofrimento de outro se não aquele que sofre de igual modo? Nunca me senti tão humano!
-- E eu nunca me senti tão lobo!
Abracei-o e ele lambeu-me. A nossa amizade cimentava-se numa dor comum.
Fiquei a pensar na camaradagem dos soldados. Dizem que o perigo permanente, o facto de a vida poder ser demasiado breve cria uma indestrutível camaradagem, uma solidez de sentimentos que é difícil de explicar. Nesta guerra que é existir, eu e Helmut eramos camaradas de armas!
Consegui sorrir!
Dirigimo-nos ao rio e lavei a cara de Helmut e a minha.
-- Ainda bem que o Sol se pôs...
-- Porquê Helmut?
-- Porque ninguém vai perceber que tens os olhos inchados!
-- Tenho?
-- Pois...
Regressamos. Não apenas de um lugar...


Depois de ler ouçam aqui

11 junho 2006

O Ovo de Rá - 24ª parte



A procura...


Finalmente paramos para almoçar. O Mestre Ludovico quis presentear-nos com uma sopinha e esta estava de facto sublime! Mas comi pouco, o meu apetite não era grande. E como o Mestre Ludovico fez a sopa, Godo ficou com mais tempo livre para Cabelos de Fogo...
Sentámo-nos debaixo de umas árvores grandes, junto ao rio. Mestre Ludovico e Ratapone próximos, logo ali, um pouco mais afastados Godo e Cabelos de Fogo e bem afastado eu. Depois Helmut e Galimodo (que não comiam sopa) vieram fazer-me companhia. Agradeci-lhes isso e fiquei a pensar que os animais se entendem e claro está que me incluí entre os animais.
A refeição decorreu rápida. As conversas não foram muitas à excepção de Godo e Cabelos de Fogo para os quais a conversa parecia interminável, entrecortada por pequenas gargalhadas de Cabelos de Fogo. Às vezes espreitava-os pelo canto do olho e tive a sensação que Cabelos de Fogo também me olhava e parecia gozar com a minha dor. Acho que Helmut se apercebeu disso e comentou:
-- Quando estamos em baixo, tudo nos parece pior do que realmente é.
Aquela frase simples teve o condão de me equilibrar. Ele tinha razão! Já tinha aprendido do Mestre a não pré-julgar, a não atribuir aos outros intenções que afinal e em último caso desconhecemos. Porque eles são ‘eles’ e nós somos ‘nós’.
Sorri para Helmut. Galimodo aproveitava para uma soneca.
No final da refeição todos decidiram descansar mais um pouco. Godo e Cabelos de Fogo, foram passear ao longo do rio.
Fiz um esforço para ficar feliz por Godo. E até por Cabelos de Fogo. Godo sempre se negara a si mesmo em favor de outros, era justo que na vida sentisse as alegrias do amor. E Cabelos de Fogo nitidamente era mais compatível com Godo do que eu! Afinal, eu era um rapaz e ele era um homem. Godo era sábio, corajoso, e até tinha boa aparência. Sem dúvida Cabelos de Fogo ficaria melhor com ele do que comigo...
Estava eu nestes pensamentos, quando dei conta que o Mestre Ratapone estava junto a mim e me dizia:
-- Maia... Gostavas de ir comigo dar uma caminhada por ali? – E por ‘ali’ designava precisamente um percurso ao longo do rio oposto ao que tinham seguido Godo e Cabelos de Fogo.
-- Não estou pra grandes caminhadas Mestre, aliás acho que hoje já caminhamos bastante...
Mas o Mestre não me deixou terminar as minhas objecções:
-- Insisto, Maia... por favor!
Levantei-me e começamos a caminhar ao longo do rio. Era o tempo dos degelos da primavera e a água corria pressurosa e ligeira numa espécie de cantiga alegre. Tudo à minha volta parecia alegre, excepto eu.
Helmut seguia-nos a uma distância razoável. Tinha a certeza que áquela distância as orelhas apuradas dele conseguiam ouvir toda a conversa, embora pudesse dar a aparência que não.
O Mestre foi directo ao assunto:
-- Passa-se alguma coisa entre ti e Cabelos de Fogo?
-- Acho que não...
A resposta pareceu surpreender-me o Mestre.
-- Como assim?
Tentei sorrir, pelo menos fiz um esforço para que o meu esgar se parecesse minimamente com um sorriso:
-- Somos apenas amigos, ou talvez menos... Conhecidos diria.
O Mestre comentou:
-- Bem, ninguém diria isso quando observamos o afecto que demonstravam um pelo outro...
-- Talvez isso tenha sido desiquilibrado meu Mestre. Uma coisa assim, dominada pelo nosso desejo de ser amado e não tanto pela realidade das coisas...
-- Como assim? – Era a expressão do Mestre para nos levar a ir mais fundo nas nossas afirmações.
-- É assim mesmo Mestre. Desejamos e os nosso desejos toldam o nosso juízo e deixamos de ver o que é, para passarmos a ver o que desejamos. Pode ser que isso se dê por causa das circunstâncias e então é circunstancial, mas não substancial. Estamos naquilo que podia ser, mas é uma mera suposição...
-- E o que supuseste?
Tentei sorrir outra vez.
-- Supûs que do afecto se podia dar lugar ao amor, ou pelo menos à paixão...
-- E?
-- E afinal esfumou-se. Não havia nada.
Procurei demonstrar na última frase, uma serenidade que obviamente não tinha.
-- Tens a certeza?
Decidi tornar-me duro.
-- Vede os factos Mestre. Não haveis notado que prefere a companhia de Godo à minha?
-- Podem ser amigos não é?
-- Exactamente Mestre, como eu sou dela.
O Mestre parou e ficou com aquele ar pensativo que lhe conhecia, quando nos queria dizer algo importante e apenas buscasse as palavras certas.
-- Sabes Maia? A felicidade não vem das relações amorosas entre homem e mulher... Se viessem e seria bastante acessível, bastava casar, ou ter amantes e fazer sexo. E se reconheço que no casamento ou no amor, ou no sexo, há uma medida de felicidade, esta parece temporária e fugidia e volta sempre aquela sensação de vazio... Como o Mestre Ludovico resumiu, acabamos sempre por encontrar a frustração...
-- Sábio o Mestre Ludovico, não é?
Ele sorriu.
-- É. Mas não é uma fatalidade. Devemos buscar a felicidade, a verdadeira, a plena, aquela que realemente nos sacia a alma, noutro lado!
-- Na sabedoria Mestre?
-- Também, não. A sabedoria pode ajudar-nos a chegar lá, mas ainda não é a felicidade...
-- Então o que é?
-- Se eu soubesse seria plenamente sábio e não tenho essa pretensão. Mas procuro...
-- Eu também Mestre.
-- Por isso preciso de ti nesta aventura. Tu e eu procuramos a mesma coisa... E não é um ovo...

09 junho 2006


O Ovo de Rá - 23ª parte


Fêmeas


Lá íamos a caminho da primeira paragem, o Mestre Ratapone a informações de Ludovico pretendia ir falar com Mestre Erato, um eremita que ficava bem para o interior das Montanhas Negras. Aliás todos os eremitas se tinham espalhado pelas Montanhas Negras uma cadeia bem extensa de montanhas cheias de perigos e de vales cavados e altos picos nevados. Pelo menos durante o Inverno.
E lá ía eu ali ao lado de Cabelos de Fogo e comecei a fazer conversa:
-- Até gostei da casinha de Mestre Ludovico...
-- Eu achei pequenina.
-- Mas tinha uma cave grande...
-- Os homens sempre pensam em caves... Não gostas do Sol?
-- Claro que gosto do Sol!
A coisa não se me afigurava de feição e achei que tinha começado mal. Tentei outro assunto.
-- Bom, agora vamos ter Sol que baste, vamos caminhar ao ar livre pelas belas Montanhas...
-- Belas?! – Interrompeu ela quase escandalizada. – Acho que não conheces as Montanhas Negras...
-- Já ouvi falar na sua fama, mas...
-- O menino já se esqueceu do que enfrentámos não é?
E antes que eu respondesse:
-- Precisamos de manter a vigilância. Devias aprender de Godo, ele está sempre atento, prevenido.
Não gostei dela me ter chamado ‘menino’, afinal éramos quase da mesma idade e eu já tinha aprendido de Godo! Ela continuou:
-- Quantos anos tem Godo?
-- Não sei... Quando cheguei a conhecê-lo era rapazinho e ele já estava ao serviço do Mestre...
-- Mas deve ter quê? Uns quarenta anos?
-- Não sei...
-- Parece-me um homem maduro. Seguro de si. Não deve ter mais de cinquenta anos, não achas?
-- Provavelmente não, sei que estava há pelo menos cinco anos com o Mestre, quando para lá fui, e eu já estou há pelo menos...
Voltou a interromper-me:
-- Donde veio ele?
-- Era escravo...
Interrompeu de novo:
-- Isso eu sei! Mas de que nação ou de que tribo?
-- Não sei...
-- Pareces não saber nada! – resmordeu ela.
Aquilo teve o condão de me irritar mas dominei-me e disse-lhe:
-- Olha lá, já que tens tanta curiosidade, porque não lhe vais perguntar?
-- E olha que vou mesmo! – disse ela a mostrar-se ofendida.
-- Quem te impede? Até lhe podias ter perguntado isso tudo enquanto andaste com ele a preparar a expedição,pelo menos tiveram tempo de sobra para isso e muito mais... – disse-lhe eu como se me estivesse marinbando.
-- É o que faz dar confiança a garotos! Tratamo-los como homens mas não passam de garotos com as hormonas aos saltos...
Pensei: Eu tenho as hormonas aos saltos? Quem teve a iniciativa de se deitar ao meu lado? Olha que esta! E ela continuava verdadeiramente irritada:
-- Godo é um homem maduro, ponderado, sábio, a ele é que devo dar a minha atenção...
Decidi interromper:
-- Se queres ligar a homens bem maduros, devias falar com Mestre Ratapone, além disso é mais sábio...
O que eu fui dizer! Parecia ter sido picada por uma abelha.
-- Mas tu achas que Godo não é tão sábio quanto o Mestre?!
Que havia eu de dizer? Godo era meu amigo e sabia lá eu quanto é que o homem sabia! Nunca tinha medido a sabedoria de cada um! Ela continuou:
-- Olha, pelo menos é bem mais corajoso do que tu!
Aquilo estava a magoar-me. Eu que até tinha no bolso um poema que lhe queria ler! De repente senti como se o mundo me tirasse um tapete debaixo dos pés e fosse cair. Senti como se estivesse a ser traído e não compreendia bem nem o como nem o porquê.
E de repente ela arrancou para ir ter com Godo que continuava ao lado das mulas e eu fiquei ali a olhar-lhes os traseiros.
Senti uma vontade quase irresistível de chorar, mas dominei-me. A minha vontade naquele instante era sumir dali para um lugar solitário. Ou atirar-me de um penhasco ou o que pudesse ser, para acabar com aquela dor que se pusera a crescer-me no peito.
Não sei se Helmut fez de próposito se não, mas rapidamente ele e Galimodo me alcançaram. A princípio não disseram nada e limitamo-nos a caminhar lado a lado. Mas depois de alguns passos em silêncio Helmut falou:
-- Concorrência na alcateia?
Fiquei calado, a dor era demasiado forte para poder articular uma frase que fizesse algum sentido.
-- Se isso pode consolar-te fica a saber que com as fêmeas, as relações não são regidas pela lógica.
Sorri-lhe um sorriso que deve ter parecido um esgar e embaraçado Helmut meteu Galimodo na conversa:
-- Não te parece Galimodo?
-- Pois meu caro Helmut nem sei bem o que dizer! Sabes amigo, enquanto nós animais apenas temos de lidar com o nosso cio durante uma breve época do ano, os humanos têm de lidar com ele todo o ano! Deve ser um fardo insuportável!
Helmut tentou amenizar:
-- Bem, acho que eles já estão habituados...
-- Não sei! – Galimodo depois que começava a falar, era difícil de se calar. – Da minha observação os humanos têm uma elevada propensão para se magoarem nas suas relações macho-fêmea. E as fêmeas como o meu amigo disse e muito bem, não regem as suas escolhas pela lógica...
-- Bem, por alguma razão lhes chamam relações amorosas e não relações lógicas! – disse Helmut a tentar fazer graça. E até teve, que voltei a sorrir, por uns instantes.
-- Sabe o que eu acho que vale na fêmea humana? E curiosamente até podíamos dizer que isso é muito animal...
-- O que é? – incentivou Helmut.
-- A fêmea humana é muito sensível à auto-confiança do macho! Basta o macho mostrar-se seguro de si, dominador sem ser propriamente ostensivo, uma espécie de paternalismo, uns miados bem aplicados...
-- A canção do bandido? – perguntou Helmut mais em jeito de afirmação.
-- Exactamente, vejo que acompanha o raciocínio...
-- Por isso nós na alcateia temos de lutar contra o macho dominante se havemos de ter sorte! E com os gatos?
-- É a mesma coisa! Normalmente atacamo-nos uns aos outros para diminuir a concorrência, porque no no fundo cabe sempre à fêmea a escolha! E acredite amigo, nem sempre escolhe o mais forte! Por isso a nossa estratégia felídea é caparmos o adversário!
-- Isso é muito radical amigo Galimodo! Nunca pensei que fossem tão brutos!
-- Brutos?
-- Está certo, elas gostam de brutos! Podem não ter mais nenhuma qualidade, mas são seguros de si!
E foi aí que eu intervi.
-- Quer dizer que perdi pontos quando coloquei em dúvida a minha coragem?
Helmut e Galimodo pararam e com isso eles distanciaram-se mais um pouco. Godo e Cabelos de Fogo, pareciam ir numa conversa muito animada junto às mulas. Achei curioso porque Godo sempre me parecera de pouca conversa, um indíviduo reservado. Agora soltava-se e ganhava luz. Voltou a doer-me, mas não sentia qualquer animosidade para com Godo.
Retomamos o andamento.
-- Bagh! – soltou Helmut – Vá-se lá entender as fêmeas!

08 junho 2006

O Ovo de Rá - 22ª parte



As Mulas


Finalmente a hora de partir chegou. Como estavamos todos bem ocupados, ela pareceu-me chegar repentinamente como algo caído assim de lado nenhum. Ainda bem que aconteceu assim, porque começava a ganhar raízes naquele lugar e ao saber que íamos partir bateu-me uma nostalgia forte. Fiz esforço para não demonstrar a minha vontade de chorar...
Mas talvez não passasse tudo ainda da digestão da afirmação do Mestre Ludovico de que a vida é frustração.
Também me foi dado observar como Mestre Ludovico tinha um sentido prático apurado. No dia da partida já ele tinha arranjado duas mulas para nos levar mantimentos e equipamento. Dizia ele que para as altas montanhas não há nada como as mulas. Em tempos tinha ouvido falar de cães, mas não quis mencionar isso com medo de ofender Helmut, que também já conhecera dias mais animados. Ele e Galimodo continuavam as suas conversas, pontilhadas de fina ironia. Acho que se compraziam numa espécie de luta, mas no domínio da linguagem. Seria engraçado se toda a luta não passasse de uma troca de palavras!
Fiquei também a saber que a casinha de Mestre Ludovico, não ficaria abandonada. Aliás seria uma pena, uma casinha tão simpática quanto aquela. Não sei como, mas Mestre Ludovico lá teria os seus segredos, iria alugá-la a uma eremita! Sim, uma eremita! Sempre pensei que os eremitas fossem todos do sexo masculino, mas pelos vistos era uma ideia falsa. Numa conversa entre ele e Mestre Ratapone ouvi-o explicar que a eremita que iria ficar na sua casa, se fartara de homens e agora queria uma boa distância deles! Custou-me a perceber como isso poderia ser, pois Cabelos de Fogo tinha boas razões para odiar homens e agora seguia numa espécie de jornada com, pelo menos pelas últimas contagens com três! E daqui em diante seriam quatro! Talvez algo me escapasse...
Fui ajudar Godo a carregar as mulas. Essencialmente levavamos algo que comer, beber, mantas e roupa numa delas e na outra uma data de coisas que não faço a mínima ideia! Umas vezes diziam que eram instrumentos, outras que materiais preciosos. Acho que uma parte eram armas. Afinal a fama das Montanhas Negras não era a melhor.
Mestre Ludovico disse-nos que segundo as suas previsões iríamos partir na melhor altura e explicou como havia chegado a essa conclusão com milhares de pormenores que não consegui acompanhar! Falava da temperatura do ar, das pressões, do desenho das nuvens, da época do ano e das luas. Achou que juntou também alguns provérbios relativos ao tempo... Mas de certeza que tínhamos o homem certo para a continuação da nossa aventura. E lá acabei ficando contente, consolando-me de saber que estavamos em boas mãos e não éramos apenas uns aventureiros inconscientes.
Acabei ficando contente por partirmos por uma razão ainda melhor, é que com a azáfama dos preparativos eu e Cabelos de Fogo, não tínhamos tido oportunidades de falar muito, agora durante a viagem, ficaria ao seu lado e teríamos essa oportunidade. E isso acreditem era uma das coisas que mais desejava. Tinha andado a treinar uns poemas, para lhe ler...
Finalmente chegou a hora de Mestre Ludovico fechar a porta. Antes tínhamos tomado uma bela de uma refeição, preparada por ele, acho que um pouco para consolar os nossos estômagos que a partir daí se teriam de contentar com coisas menos frescas. Enfim, Godo também sabia muito de plantas e Cabelos de Fogo sabia como curar com elas, enfim não havia de ser tudo lentilhas, feijão e grão!
Partimos então, eu logo me posicionei junto de Cabelos de Fogo, na cauda do grupo. Na frente os mestres agora sempre muito conversadores. Godo a meio, mantendo um olho nas mulas que dóceis se limitavam a seguir uma atrás da outra pelo caminho. No final de tudo Helmut e Galimodo. Ás vezes Galimodo corria um pouquinho até nós para dar uma palavrinha a Cabelos de Fogo e houve até uma vez que pediu a Godo para o colocar em cima de uma mula que lhe doiam as patas do caminho ser rijo. Notava-se que Galimodo era um gato delicado, habituado a certos confortos e temia que não fosse achar assim tão interessante a aventura, mas sempre tinha Helmut para dois dedos de conversa.
-- Amigo Galimodo, repare por favor naquelas duas mulas que seguem à nossa frente...
-- Sim, que têm amigo Helmut?
-- Que lhe parecem?
-- Como assim? Acho que são uns animais robustos, dóceis... Mas não falam. Acho que são ignorantes por completo.
Helmut acenou com a cabeça em sinal de concordância. Galimodo perguntou:
-- Mas porque me manda olhar para elas?
-- Diria que são felizes? – perguntou Helmut.
Galimodo no seu jeito de gato, olhou espantado Helmut e foi a correr nas suas patas ligeiras até aos dois animais e depois perguntou a Godo:
-- Godo, desculpe perguntar-lhe, sei que é uma pergunta aparentemente estranha, mas para mim tem a sua importância: Acha que estes dois animais, aqui as mulas, vão felizes?
Godo olhou para Galimodo a perguntar-se onde ele queria chegar com aquilo, mas depois lá lhe fez a vontade. Olhou as mulas, foi ao saco de uma delas tirou duas cenouras, deu uma a cada uma e respondeu:
-- Agora estão muito felizes Galimodo.
Galimodo ficou ainda ali a acompanhar os animais e a olhá-los com atenção enquanto roíam as cenouras e depois dessa observação atenta, voltou para junto de Helmut.
-- Caro Helmut, acho que estão muito contentes, mas permita-me observar que contentam-se com muito pouco! Comeram uma cenoura cada uma e lamberam os beiços e pareceu-me que isso lhes era suficiente! Parecem-me tranquilas, sem preocupações. Acho que nem os fardos que levam nos lombos as incomodam por aí além. Podemos dizer que na sua pacatez são muito felizes!
-- Acha que se preocupam com o destino do mundo, ou o futuro sobre qualquer das formas?
-- Acho que não se preocupam com nada.
-- Mas diria que são ignorantes?
-- Quanto a isso, não tenho lá tanta certeza...
-- E são felizes?
-- Diria que sim. Pelo menos parecem...
Caminharam um pouco e Helmut voltou a falar:
-- Sabe quem detém o segredo da felicidade amigo Galimodo?
-- Não...
-- As mulas...As mulas, meu caro amigo.

07 junho 2006

O Ovo de Rá - 21ª parte


Macacadas


Há quem diga quando alguém se dá mal com outro que são como o cão e o gato! Bem, presumo que com lobo e gato o provérbio não funcione tão bem! Acho que Helmut e Galimodo apesar de diferentes são tão próximos, que se fosse cego e apenas ouvisse as conversas os julgaria da mesma espécie.
Isso pôs-me a reflectir na humanidade, somos todos tão iguais mesmo que pareçamos como o lobo e o gato! As mesmas preocupações básicas, as mesmas necessidades... É verdade que depois variamos em motivações e desejos, mas não há muito sentido em alimentar preconceitos! Acho que o preconceito é uma forma artificial de nos dividir e que não deve ter sido inteiramente de invenção humana. Há no preconceito uma maldade exógena, uma coisa que não nasce connosco. As crianças são sem preconceitos. Talvez que por serem novas, os adultos ainda não as tenham moldado! Aliás isso fez-me lembrar uma velha história que ouvi sobre macacos: Conta-se que certos sábios na tentativa de perceber o comportamenteo, colocaram numa jaula vários macacos e um escadote e no cimo da jaula, pendurado, um cacho de bananas. Depois sempre que um dos macacos subia o escadote para se apoderar das bananas os que estavam cá em baixo eram brindados com baldes de água bem fria. O que passou a acontecer é que sempre que um dos macacos trepava pelo escadote os que ficavam no chão, rapidamente o tiravam de lá e até lhe batiam, pois já sabiam que íam apanhar com água fria! A experiência prosseguiu retirando um dos macacos e substituíndo-o por um novo, que nunca tinha tido sequer a experiência de apanhar com água fria. Aliás interromperam esse costume com a entrada do novo elemento. É evidente que o que este macaco fazia imediatamente era tentar trepar ao escadote para obter o seu prémio, mas nunca o conseguia fazer e está bom de perceber, não é? Os outros mal viam a tentativa e ainda antes mesmo de o macaco subir mais de um degrau, já lhe estavam a desancar. Chegaram até ao ponto de substituir todos os macacos por macacos novos, que nunca sequer haviam sido molhados com água fria! Resultado: Eles repetiram o comportamento, batendo em qualquer um que tentasse trepar em direcção ao tentador cacho de bananas.
A humanidade é muito parecida com macacos, não acham?


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06 junho 2006


O Ovo de Rá - 20ª parte


No teu caso ou no meu?


Naquela noite deitamo-nos todos mais pesados e não foi por causa da sopa de pedra! Ficara combinado que partiríamos daí a uns dias, o Mestre Ratapone apenas queria estudar melhor uns volumes que estavam na biblioteca de Mestre Ludovico.
Nos dias seguintes Godo meteu-se a reabastecer as nossas provisões e equipamentos com a ajuda de Cabelos de Fogo. Quanto a mim, o Mestre chamara-me para a sua beira e quis que estudasse com ele algumas coisas, inclusivé uns velhos mapas das Montanhas Negras que ninguém sabia ao certo se seriam exactos, mas que tive a incumbência de copiar.
Mestre Ludovico já falara com Mestre Ratapone na sua vontade de nos acompanhar e achei curioso que o Mestre Ratapone tivesse aceite sem qualquer reticência. Presumo que o fez por bondade e por considerações práticas. Bondade porque para Ludovico partir à aventura, à descoberta era como se rejuvenescesse, e por considerações práticas porque afinal Mestre Ludovico era um sábio! Apesar de a sua sabedoria me deixar angustiado.
Era curioso como a nossa trupe ía engrossando, com cada elemento mais original que o outro. Achei alguma coisa de divertido nisso e claro está que para mim bastava que no grupo permanecesse Cabelos de Fogo.
Ás vezes Cabelos de Fogo inundava todo o meu pensamento e atrasava-me na cópia dos mapas. Mestre Ratapone num velho mau hábito que pensava ele havia esquecido, dava-me carolos com o seu bastão quando o meu tempo de sonhar se prolongava.
Nunca me perguntou porque eu ficava assim com aquele sorriso nos lábios e os olhos parados, mas ou sabia, ou não lhe interessava minimamente.
Por outro lado Helmut ía suportando melhor Galimodo e passavam os dias juntos a passear pelos campos. Um dia fui com eles e pela conversa percebi que afinal estavam muito mais próximos.
-- Sabe amigo Helmut... Estive a pensar naquela conversa ao jantar outro dia...
-- Sim, e então? Aliás acho que com a sua cabeça pequenina lhe deve doer pensar tanto, não?
-- O que conta Sr. Helmut não é a quantidade, mas a qualidade! E interrompeu-me! – disse Galimodo a tentar mostrar-se zangado.
-- Peço desculpa ‘Sir’! – disse Helmut.
-- Pois... Quer conversar ou hoje doi-lhe a cabeça? – retrucou Galimodo.
Helmut riu-se, percebendo a subtileza de Galimodo.
-- Tem razão, tem razão amigo Galimodo! Talvez nos devessemos tratar por tu, o que acha?
-- Acho muito bem! – concordou Galimodo.
-- Então ías a dizer...
Galimodo sorriu-lhe.
-- Ía a dizer que tinha estado a pensar, naquela conversa ao jantar do outro dia e que me anda a ensimesmar... Em especial o que disse...
-- Lembra-me lá por favor...
-- Disses-te que se encontrasses o Criador da Vida lhe perguntavas porque te deu o dom da fala, lembras?
-- Lembro sim...
-- Tens razão! Quanto mais penso nisso, mais acho a tua pergunta a propósito! Eu acho que lhe perguntaria a mesma coisa! Vê só: A minha mãe não falava, os meus irmãos não falavam, nunca conheci nenhum gato que falasse, nem qualquer outra espécie de animal para ser franco!
Aliás o primeiro animal que fala para além de mim e que conheço és tu!
-- Pois, tem graça que comigo se passa o mesmo!
-- Achas que o Criador se enganou?
-- No teu caso ou no meu?

05 junho 2006


O Ovo de Rá - 19ª parte


O dom da fala


Fiquei a matutar naquela de a vida ser frustração. A sopa de pedra pareceu cair-me no estômago mais pesada...
Se a vida era só frustração, porquê cansarmo-nos na busca da sabedoria? Acabaríamos sempre chegados a um só fim: frustração!
Todos começaram a notar o meu ar pensativo, talvez mesmo melancólico e foi Cabelos de Fogo que no final da refeição, estando todos à mesa (excepto Helmut e Galimodo) quem me perguntou:
-- Que tens?
E embora fosse só ela a fazer a pergunta e até com uma certa discrição, os outros pararam as suas conversas e ficaram atentos à minha resposta. Olhei-os e não consegui esconder aquele moedoiro dentro de mim:
-- Ainda estou a matutar na resposta do Mestre Ludovico...
-- Resposta a quê? – perguntou Mestre Ratapone.
Esclareci:
-- O Mestre Ludovico acha que tudo o que aprendeu na sua sabedoria se pode resumir na frase: A vida é frustração!
Fiz uma longa pausa para que todos pudessem digerir a informação. Olharam uns para os outros a ver se alguém tinha coragem de começar a dizer alguma coisa, mas ninguém arriscou nada.
Curiosamente foi Helmut que estava enroscado no chão perto da porta, quem se levantou e se aproximou de mim e disse:
-- Não achas que o mestre Ludovico tem razão? – E baixou o focinho para o chão.
Respondi-lhe:
-- Tenho medo que tenha! – disse.
Mestre Ratapone falou então:
-- Mestre Ludovico tem razão. – E fez uma pausa que acentuou o drama da conclusão – Mas...
E todos olhamos para ele, inclusive Mestre Ludovico, na expectativa de que as suas palavras nos devolvessem algum ânimo.
-- Não quer dizer que a frustração não possa ser vencida, ultrapassada! Sei que me consideras meio tolo por buscarmos o que buscamos... – Percebi que se referia à procura do Ovo de Rá. – Mas meu caro discípulo, não vês que é esse o motor da nossa busca? Não percebes que é a frustração que nos leva a querer ser melhores, mais corajosos, mais sábios? Isto para que de algum modo a conseguimos finalmente ultrapassar e vencer?
E como me interrogasse decidi responder:
-- Mas já tantos tentaram antes de nós e esbarraram sempre nela, derrotados por ela!
-- Ainda bem! – Continuou ele, com um brilhar de olhos estranho. – Quer dizer que o caminho que seguiram não era o indicado! Por isso a sabedoria mostra-nos que não temos que trilhar os mesmos erros que eles cometeram! Abençoados os que erraram antes de nós! Talvez agora estejamos mais perto do que eles estiveram!
Vi começarem a surgir sorrisos, primeiro em Godo, depois em Cabelos de Fogo...
Mas foi Helmut quem falou:
-- Falais bem, mas infelizmente não somos eternos...
Galimodo que estava enroscado perigosamente perto da lareira, depois de se espreguiçar aproximou-se de nós naquele andar de perfeita elegância que têm os gatos e pulando no colo de Cabelos de Fogo decidiu participar também:
-- O meu amigo Helmut, tem toda a razão! E se por alguma providência da natureza, alguns de nós fôssemos eternos, ainda assim, nada nos garantia que andássemos toda a eternidade a tropeçar nessa danada da frustração!
Surpreendentemente Godo falou:
-- Tudo se resume afinal a encontrar o verdadeiro sentido da vida.
-- Então só o Criador dela deve ter a verdadeira chave, a resposta última! Não acham que era a Ele que devíamos perguntar?
-- Sem dúvida! – Aquiesceu Ratapone.
-- O problema é como encontrá-Lo! – Acrescentou Mestre Ludovico.
-- Crêem que seja possível? – Perguntou esperançada Cabelos de Fogo.
E ao meu lado Helmut disse:
-- Eu se o encontrasse, perguntava-lhe porque me deu o dom da fala...

04 junho 2006

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O Ovo de Rá - 18ª parte


A vida é frustração


O Mestre Ratapone sempre me ensinara que não devemos atribuir intenções aos outros, pois pode sempre ocorrer que estejamos enganados! E não é que o Mestre Ludovico afinal não tivera nenhuma intenção de nos entregar?
Mas ficara tão desejoso de companhia que esquecera as suas limitações em termos de hospedagem, o bom homem!
A casa embora parecesse pequena à primeira vista, de quem apenas a observasse por fora, era afinal uma bela instalação. Fora construída sobre a entrada de uma gruta e tinha como dizia o Mestre Ludovico uma ‘cave’. Era uma cave enorme, onde o laborioso homem instalara uma biblioteca bem fornecida e um laboratório para as suas pesquisas. Havia espaço para uma adega e amplo espaço em que montar camas... O que ele fizera para nós. Conforme nos disse depois, "a menina ficaria no seu quarto e os homens ficariam na cave"!
A temperatura na cave era agradável e Mestre Ratapone deliciou-se a consultar os vários volumes da biblioteca. Acerquei-me dele:
-- Mestre...
-- Sim Maia, que é?
-- Já percebi que Godo e Helmut foram fazer de sentinelas enquanto estivemos a beber chá com Mestre Ludovico. Mas... Não foi arriscado bebermos o chá?
-- Em relação a ti e a Cabelos de Fogo, bem precisavam de dormir, não achas?
-- Pois... É verdade, mas e o Mestre?
-- Eu não bebi chá!
-- Não
-- Não Maia. Fingi beber. E já que ele esperava que eu adormecesse fiz-lhe a vontade! – e voltou a piscar-me o olho.
-- E não teve medo? Podia ter-nos cortado a cabeça!
-- Se fosse ganancioso como chegámos a pensar, não faria isso! Cabelos de Fogo vale muito mais viva, do que morta!
-- Será que ele sabia da oferta das 500 moedas de prata que oferecem por Cabelos de Fogo?
-- Claro! Não te lembras quando nos disse que sabia o que se passara connosco no Passo de Ziz e com os Gulats? Ora eu não lhe contara essas coisas e ele sabia-as. É claramente um homem bem informado. E se o foi em relação a isso, não o seria em relação ao resto?
-- Pois, também devia saber do resto...
-- E de certeza que quem lhe contou do Passo de Ziz ou dos Gulats, não foram os soldados que vieram cá falar com ele. Portanto tem outra fonte fidedigna. Também quando ouviu falar aos soldados nas 100 moedas de prata, deve ter-se sentido ofendido. Percebeu imediatamente a desonestidade deles. E digo-te mais, mesmo que fosse ganancioso deve ter ficado na dúvida se seria bom entregar-nos a esses ou fazer de outro modo. Se alguma vez teve tentações nesse respeito, quase que apostava que ele faria a denúncia ‘de outro modo’!
-- Então Mestre, como é que ele se comunica?
-- Godo quando foi estabelecer o perímetro de segurança, achou no penhasco sobranceiro a esta casa um pombal. Acho que todos os eremitas devem ter pombais e deve haver alguém da sua confiança lá embaixo na planície... Assim mantêm-se informados.
Fiquei calado a pensar nos dotes de observador do Mestre e na sua inteligência. Reconheci que ainda tinha muito a aprender.
Dirigi-me a Mestre Ludovico que andava entretido na cozinha a fazer a refeição.
-- Quer ajuda Mestre Ludovico? –perguntei sorridente.
-- Claro! Mais pela companhia e menos pelo trabalho! – respondeu rindo. Reparei nessa altura que ainda tinha os dentes todos, o que em pessoas de idade como ele, era raro. E tinha uns dentes branquinhos como os de um bébé.
-- Mestre, porque associamos os eremitas à sabedoria?
Ele parou a pensar na pergunta.
-- Talvez... Porque como falamos pouco, erramos menos, não? – sorriu e depois vendo que eu não achara assim tanta graça continuou: -- Ou então, que longe da humanidade seja mais fácil ser sábio. Não te parece?
-- Mas como se pode aprender algo no isolamento dos outros? Assim como se pode partilhar conhecimento?
-- Hummmm... – disse enquanto provava a comida para saber como estava de sal – Um eremita é só moderadamente isolado... E sabes? Quando vimos para cá, já trazemos uma bagagem de experiências, ou julgas que envelhecemos aqui? Quando para cá viemos já tinhamos uma idade jeitosa, eu pelo menos! – E riu.
Depois voltou a acrescentar:
-- E falamos uns com os outros... Não é mau de todo! Embora pessoalmente esteja a ficar aborrecido! O teu Mestre... Ah! O teu Mestre sim...
E ficou parado com um brilhozinho nos olhos por instantes e voltou a atacar a preparação do jantar. Cheirava bem.
-- Parece-me Mestre que dotes culinários não vos faltam!
-- É bom saber, não é?
Ficamos em silêncio um bocadito.
-- Mestre do que aprendeste... da sabedoria que já adquiriste... poderias condensá-la numa frase?
O Mestre sentou-se em frente à lareira, com a panela de ferro de três pernas, onde se apurava a sua sopa de pedra. Ficou com um ar profundamente pensativo e comentou brevemente:
-- Que belo desafio, meu rapaz...
A noite chegava fresca e estava-se bem ao pé da lareira. Galimodo fora ter com Cabelos de Fogo ao quarto e conversavam os dois em cima da cama. O Mestre Ratapone continuava entretido na biblioteca na cave. Godo, por incumbência do Mestre Ludovico escolhia um vinho da garrafeira, onde tudo estava etiquetado a preceito. Helmut preferia fazer companhia a Godo, mas parecia abatido. Foi quando o Mestre Ludovico saiu da sua reflexão para me dizer:
-- Pois... Se tivesse de resumir toda a sabedoria que encontrei numa só frase e em vista de mesmo quando achamos alguma sabedoria é só para lá chegados perceber que ainda há mais a saber, eu diria: A vida é frustração!

03 junho 2006

O Ovo de Rá - 17ª parte



by Christoph Rehage Posted by Picasa

Iremos com eles


Chegados a casa de Mestre Ludovico este foi muito amável. Fez-nos entrar e quis servir-nos um chá. Eu e Cabelos de Fogo aceitamos. Godo disse que tinha de ir lá fora, fazer uma coisa que ninguém podia fazer por ele. Helmut que nem tinha entrado, aproveitou e foi logo atrás de Godo. Para mim achou um óptimo pretexto para fugir de Galimodo. Acho que o bichano tinha afectado Helmut de uma forma profunda. Era compreensível, pois até aí, penso eu, Helmut suportara a sua solidão consolando-se que era uma singularidade, algo único que a mãe Natureza fizera, para nos surpreender com as suas capacidades de maravilhar. Um lobo que falava? Onde já se ouviu isso? Como é possível? Nas velhas estórias os animais sempre falaram, mas sempre remetemos isso para o reino da fantasia. Acontecer-nos, era outra coisa! Mas acontecer-nos na primeira pessoa era ainda mais dolorosamente extraordinário.
Agora a dor acentuava-se, pois a natureza ao repetir o milagre, se bem que em outra espécie, atormentava Helmut, retirando-lhe o consolo de ser único.
Curiosamente Ratapone não dissera nada sobre isso, se bem que as ocasiões pouco se propiciassem.
O chá era agradável, muito aromático e de sabor delicado. Fomos beberricando das nossas chávenas. Galimodo saltou para o colo de Cabelos de Fogo sem muita cerimónia:
-- Linda menina, sabia que o chá foi uma descoberta do acaso? Numa exótica e distante terra, um imperador longínquo tomava água quente quando umas folhas de um arbusto próximo cairam na sua chavéna. Sem se aperceber bebeu e gostou do sabor e foi assim que nasceu o chá!
Cabelos de Fogo sorriu-lhe fez uma festa na cabeça que estendeu ao lombo.
-- Sir Galimodo, o senhor é um gato culto!
Ele aceitou aquilo como um convite e enroscou-se-lhe no colo.
-- Estou certo que teremos muitas oportunidades de conversar... – e começou a dormitar ronronando como é próprio dos gatos.
-- Gosto de gatos e tu? – perguntou-me Cabelos de Fogo.
-- Sim, também gosto...
-- Se calhar gostas mais de cães? Lobos?
Fiquei a pensar em Helmut, a sentir aquela dor de já não ser único, mas ser apenas mais um fenómeno no circo da vida.
-- Sim, gosto muito de Helmut...
-- Eu também simpatizei com esse canídeo... Espero trocar algumas boas conversas com ele. – Disse Galimodo sem abrir os olhos como que saboreando o colo de Cabelos de Fogo.

-- O seu amigo Godo não vem? Não bebe um cházinho?
De facto o Mestre Ratapone não tocara na sua chávena.
-- Vem... Dentro em pouco ele vem.
-- E não bebe o chá? É uma delícia! – insistiu o Mestre Ludovico, que parecia feliz por ter visitas.
-- Estou certo que sim, mas não gosto muito de bebidas quentes, fico à espera que arrefeça. Obrigado.
-- Como queira... – disse Mestre Ludovico um pouco desapontado.

Penso que por causa das últimas emoções, a luta com a serpente e a caminhada até à casa de Mestre Ludovico, comecei a sentir sono e Cabelos de Fogo que bebera já o seu chá, dormitava no meu ombro.
Mestre Ludovico deu conta e disse:
-- Se quiser pode ir deitar a menina no meu quarto. Tem uma cama... Confortável. – esclareceu ele.
Enxotei Galimodo do colo dela e levantei-a, mas nãome senti com forças para lhe pegar ao colo e levá-la. O Mestre Ratapone veio ajudar-me. Ele pegou nela por um braço e enquanto a levávamos para o quarto com Ludovico á frente, o Mestre sussurrou-me muito baixinho:
-- Efeitos do chá... – E piscou-me o olho.
Percebi imediatamente! Será que o velho Mestre Ludovico sucumbira à tentação e o seu chá era apenas uma tentativa de nos anestesiar? Será que depois de adormecermos, ele nos ía denunciar aos Senhores do Eixo para receber a sua recompensa?
Deitamos Cabelos de Fogo na cama do quartinho minúsculo de Ludovico, onde mal cabia a cama. A janela era grande e não tinha grades. Se fosse necessário tirar Cabelos de Fogo pela janela podíamos fazê-lo.
Que andaria Godo e Helmut a fazer?

Eu voltei à sala que era também a cozinha, sentei-me numa cadeira e embora quisesse e fizesse esforço por manter os olhos abertos, acabei por adormecer, acordando de vez em quando a ponto de apanhar aqui e ali excertos de conversas.
-- Gosta do chá?
-- Uma delícia! – dizia o Mestre Ratapone, sorvendo o líquido.
Passado um bocadinho, o Mestre segurou a cabeça com as mãos e acabou por adormecer, ou pelo menos assim pensava eu!

Na outra vez que consegui ouvir as vozes o Mestre Ludovico falava com Galimodo.
-- Que me dizeis Sir Galimodo?
-- Não parecem nada avisados estes! Como foi impossível gente tão ingénua vencer os Gulats?
-- Preocupa-me o amigo deles, o alto e magro que saiu mal chegaram... Godo se bem me lembro...
-- Ora quando chegar não perceberá nada Mestre Ludovico. Verá os amigos a dormir, que coisa mais inocente que essa pode haver?
Voltei a perder a consciência e a recuperá-la um pouco mais tarde. Travava uma luta contra aquela sonolência estranha que me procurava invadir.
-- Mas o canídeo é muito interessante Mestre! – dizia Galimodo.
E embora ouvisse estes excertos de conversa, ainda não me apercebera claramente das suas intenções. Não nos haviam revistado, também presumo que a dormir não seríamos ameaça para ninguém mesmo que transportassemos o maior dos arsenais!
E Godo e Helmut ainda não tinham chegado. Mais um pedaço de conversa entre os dois:
-- Sabeis Sir Galimodo, esta vida de eremita... É muito solitária, era bom ter amigos.
-- Compreendo Mestre Ludovico! Compreendo! Quando estava na taverna do meu amigo Ferdinando a vida tinha outro atractivo. Não é que desgoste da companhia do Mestre, nada disso! O Mestre é muito sábio e ainda bem que o príncipe Dermaier me mandou para junto de vós!
-- Fiquei contente de ter a tua companhia! – sorriu-lhe o Mestre Ludovico.
-- Eu também! Pelos dois motivos que sabeis: Para me preservar vivo e aprender da vossa sabedoria!
O Mestre Ludovico riu-se.
Voltei a cair na inconsciência. Quando acordei a conversa já ía adiantada pelos vistos. O Mestre Ratapone dormia à solta com a cabeça sobre a mesa e nem sinais de Godo ou de Helmut.
-- Estão bem ferrados no sono... Que tenham bons sonhos! – dizia Galimodo.
-- Ainda bem que o chá os fez dormir! Já viste a minha cabeça Galimodo? Oferecer-lhes hospitalidade e não ter camas? Vou lá abaixo... Enquanto dormem, prepararei umas camas na cave e estarão mais confortáveis depois!
-- Dá-me a impressão que quererão partir, tão rápido quanto seja possível!
-- Achas? – mas a pergunta era mais para si próprio do que para Galimodo.
E Galimodo percebendo-o apenas acenou que sim com a cabeça.
O Mestre Ludovico ficou assim parado, imerso em pensamentos vários e talvez profundos e depois sentenciou:
-- Quando eles partirem iremos com eles!

02 junho 2006

Percebo que para os amigos que acompanham esta estória, ou para aqueles que tardiamente a descobriram e pretendem apanhar o fio à meada, isso se vá tornando difícil.
Assim, para quem quiser posso enviar por email as partes todas juntas, mas têm de me fazer o pedido por email, por favor!
O meu email é este: mitro.vorga@gmail.com

by Kai Sehlke Posted by Picasa

O Ovo de Rá - 16ª parte


Sempre calada


Depois que vimos a bicha rebentar lá no fundo do penhasco, Godo disse:
-- Bem agora a caverna fica sem dono, podemos ficar por cá em sossego.
-- Nem pensar! Vão para minha casa! Faço questão disso! – insistiu Mestre Ludovico.
O Mestre Ratapone aproximou-se com um sorriso:
-- Espero amigo Ludovico que o que o torna tão hospitaleiro, não sejam as moedas que oferecem pelas nossas cabeças...
Mestre Ludovico largou uma gargalhada:
-- Devia ficar ofendido, mas seria hipócrita. Por acaso até pensei... Como mera hipótese... Apenas como mera hipótese... Sabe como é, uma pessoa com ouro ou prata neste caso, suscita logo a ganância dos outros e deixa de viver sossegado.
-- Tem muita razão... – aquiesceu o Mestre Ratapone – Ainda para mais temos o mau feitio de vender caras as nossas cabeças...
E como fizesse uma pausa Godo acrescentou:
-- Normalmente ficamos com as nossas e os outros sem as deles.
Mestre Ludovico voltou a gargalhar e Galimodo parecia igualmente divertido.
-- Eu sei! Eu sei! Apesar de ser eremita, não quer dizer que não saiba o que vai acontecendo... Sei a ‘coça’ que deram no Passo de Ziz e depois como tiraram os Gulats fora do caminho. Para mim o mais admirável, permitam-me, foi darem a volta aos Gulats, são extraordinários como guerreiros e saber que... Bem, que vocês os derrotaram, é para mim um feito extraordinário! Sendo assim para que iria arriscar o meu pescoço por 100 moedas de prata?
-- Oferecem isso por qual de nós? – perguntou Godo, com um sorriso a aflorar-lhe os lábios.
-- Como? – perguntou Mestre Ludovico sem ter percebido bem o alcance da pergunta.
-- Por qual de nós dão 100 moedas de prata? – repetiu o Mestre Ratapone.
-- Ah! Por todos vocês...
Cabelos de Fogo com um ar chateado disse-me em voz baixa:
-- Agora é que me começam a chatear à séria! Estão a desvalorizar-nos! Dantes só por mim eram 500 moedas de prata!
O Mestre Ratapone passou um braço pelos ombros do Mestre Ludovico e explicou-lhe:
-- Estamos em crer que quem te disse isso não era de todo honesto...
-- Não?
-- Não.
-- Quer dizer que valeis mais? – E os olhos de Mestre Ludovico brilharam.
-- Muito mais, caríssimo amigo!
-- Ah Ah Ah! Quereis tentar-me não é? Mas não vos vou vender, não senhor! – disse peremptório Mestre Ludovico. – Ainda pra mais se dizeis que quem oferece é desonesto!
-- Desonestíssimo! – acrescentei eu.
-- Bom, vinde comigo! Deixemos esta conversa que não leva a lado nenhum. Em minha casa estaremos confortáveis e podeis Mestre Ratapone, consultar os meus livros. Aliás seria uma honra discutir convosco alguns assuntos. De que vale o dinheiro em comparação com a sabedoria?A propósito faz-me lembrar um livro de provérbios que comprei a um viajante...
E continuando uma enorme conversa com Ratapone, Ludovico simplesmente nos fez ir a sua casa.

Cá trás no cortejo, seguia Helmut demasiado silencioso para o seu hábito. Pelo menos até Galimodo se meter com ele.
-- Caro exemplar canídeo, presumo que o vosso nome seja Helmut...
Helmut rosnou quase imperceptívelmente e eu pra desanuviar a coisa disse:
-- Sim, o nosso amigo chama-se Helmut...
Helmut olhou para mim como se dissesse: "Mas para que tens tu de dar trela a esta bola de pêlo cor de cenoura, que é alimento de burros?" (Aliás disse-me isso mesmo, mais tarde!)
-- Pois é um prazer Sr.Helmut! – começou Galimodo a falar com visível entusiasmo – Nunca pensei que os canídeos fossem capaz de mais do que uivar e ladrar... Sim, é certo que também rosnam...
-- E mordem... – avisou Helmut a querer cortar a conversa.
Mas Galimodo pareceu nem dar pela interrupção:
-- Quer dizer que a sua mãezinha já falava também, não era?
E antes que Helmut pudesse responder Galimodo continuou de enfiada:
-- A minha mãe coitadinha devia ser muda, nunca me disse uma só palavra e os meus irmãos saíram a ela. Só eu é que falava lá na família, mas só o descobri mais tarde... muito mais tarde! Foi quando conheci um humano, o bom do meu amigo Ferdinando que tinha uma taverna! Há que bons tempos esses! Nunca faltava que comer e podia falar à vontade! A princípio falava com os clientes habituais, mas cheguei a pensar que tinham um raciocínio desconexo e baboso. Não admira! Descobri que estava a falar com bêbados! – e riu um esquesito riso de gato, ligeiramente parecido com um ataque de asma.
Neste intervalo, Helmut aproveitou para suspirar. Galimodo continuou:
-- Vejo que teve o mesmo azar, não? Mas olhe, para alguns até foi bom, depois que falaram comigo deixaram de beber! Depois disso o meu amigo Ferdinando o taverneiro passou a dar-me muito mais atenção e ficou tão maravilhado comigo que passou a ter longas conversas! Mas não percebi muito bem o que se passou com ele, um dia meteu-me num cesto e fomos até à cidade, ao Castelo de Varrene, onde habitava o príncipe Dermaier. Chegamos lá e o meu amigo disse que queria uma entrevista com o príncipe para um assunto da máxima importância... E olha, coisa curiosa, o Dermaier era ruivo, ali como aquela moça... E como eu, claro está! Se calhar ainda tenho sangue de tigre! – E voltou a rir com o seu riso típico. Pensei que era um pensamento giro a Cabelos de Fogo ter ascendentes de tigresa!
Entretanto tínhamos chegado perto da casa do Mestre Ludovico e Helmut estugou ligeiramente o passo, até porque ele e Galimodo se tinham deixado ficar para trás.
Galimodo correu nas suas patitas de gato acompanhando Helmut.
-- Veja só a minha sorte... – ele pausava mais agora, para poder correr e acompanhar o passo de Helmut – Ofereceu-me ao príncipe!... Não acha que fui afortunado?... O príncipe deu-me uma educação primorosa... Estudei com os melhores Mestres... Sei sete línguas... Geografia... Não vamos muito depressa? – disse Galimodo parando para tomar fôlego.
Mas Helmut não respondeu, mas como todos nós já estivesssemos à porta de casa, Helmut também parou e Galimodo alcançou-nos com facilidade, mas não desarmou:
-- O príncipe Dermaier era muito inteligente! Proibiu-me de falar na corte com quer que fosse e ameaçou os que soubessem do meu segredo, que se o revelassem, perderiam as cabeças! Ele estimava-me e não queria que algum invejoso me roubasse da sua companhia...
Aqui no seu tom mais irónico Helmut não resistiu:
-- Devia ser, de certeza...
E Galimodo:
-- Exacto! E sabeis uma coisa, um dia ouvi uma conversa de uns fidalgos num banquete... Uns ranhosos que nem me davam uns ossitos para ir lambendo debaixo da mesa! Estavam a falar de um plano para matar o príncipe Dermaier e usurpar-lhe o domínio. Claro está que avisei o príncipe! A coisa foi averiguada e os fidalgos decepados!
Helmut voltou à carga:
-- É preciso cuidado ao falar contigo, pode-se perder a cabeça...
Galimodo nem se deu por achado e continuou:
-- Depois disso o príncipe Dermaier armou-me cavaleiro e passei a ser Sir Galimodo! – Fez uma breve pausa. – Penso que não sóis Sir, pois não? E não me chegastes a dizer se a vossa mãezinha falava... Eu ainda hoje tenho saudades da minha mãezinha. Confesso que quando vejo assim um pano de pelo, ou um velo, me atacam as saudades de uma forma irresístivel e começo a mamar num novelinho de tecido ou de pelo. A minha mãe era uma bela gata.. Acho que ainda hoje, gosto imenso de mamas... Mas sabe como são as gatas, entregam-nos ao mundo logo que começamos a andar e partem para outra ninhada! A sua mãezinha também era assim? Carinhosa consigo?
-- Muito... – respondeu paciente Helmut – E tinha uma enorme vantagem...
-- Ai sim, qual era? – perguntou curioso Galimodo.
-- Estava sempre calada...