03 maio 2006

O Ovo de Rá - 7ª parte


Vai ser uma festa!



Remámos para longe do passo de Ziz e das suas fortalezas decrépitas e dos seus soldados ganaciosos.
O Mestre Ratapone ordenou:
-- Força nesses ramos até verem um canavial!
Assim fizemos suando em bica de excitação e de esforço. Percebíamos que os soldados estacionados em Ziz seriam mobilizados na nossa perseguição. Quase era possível vê-los na urgência do momento a montar os cavalos trazidos à pressa para o centro das praças e fazê-los correr a galope ao longo das margens. Felizmente as margens não permitiriam grandes galopes, pois as arenosas eram bem escassas. A maioria era composta de arvoredo denso e calhaus o que lhes dificultaria imenso serem céleres na nossa perseguição. Mas mesmo assim, soldados a pé, bem treinados podiam colocar-nos ao alcance de um tiro de besta. E estou certo que desta vez vinham preparados para nos fazer parar com setas incendiárias.
Tínhamos de sair do barco tão cedo quanto fosse possível e embrenharmo-nos pelas encostas da montanha. O que ali ainda era má opção porque nos encontravamos dentro da garganta de Ziz e a poucos metros do rio erguiam-se altas escarpas de um lado e de outro. Lá mais para montante talvez pudessemos ter melhor terreno.
-- Godo! A estibordo... – indicou o Mestre Ratapone um grande canavial.
Remámos nessa direcção e ainda nem tinhamos acostado quando o Mestre mexeu no seu bastão de bambu donde surgiu novamente uma espada e de pronto cortou de um só golpe umas 20 canas!
Vi o olhar admirado de Cabelos Cor de Fogo, mas ela não disse nada e rapidamente ficou atenta às margens com o arco pronto a entrar em acção.
Apanhamos as canas e o Mestre começou a dar ordens:
-- Godo, prepara com os restos da vestimenta de Silvana uns ancoretes, mas que possam ser arrastados pela corrente... Tu Maia ajuda-me aqui...
Saímos do barco junto ao canavial. O Mestre continuou a cortar mais canas, depois cortou-as ao meio.
-- Agora sobe para o barco e monta uma estrutura assim... -- e exemplificou, fazendo assim uma especie de plano inclinado, com uma cana inteira entalhada no topo, onde se encaixava uma meia cana que ficava inclinada. – Tudo isso repetido por um e outro lado do barco...
Fiz uma espécie de cama de canas só que quebrada no meio. No meio o Mestre arronjou uma cana mais grossa cortada pelo meio no sentido do comprimento.
Cabelos de Fogo deitava um olhar esporádico mas cada vez mais admirado.
Godo acabou os ancoretes e amarrou-os nos suportes dos remos e tirou os remos que atirou prá margem.
-- Godo, -- pediu o Mestre – nessas canas fininhas amarra estes cartuchos...
Godo parecia saber exactamente o que fazer e amarrou os cartuchos às canas, mas antes pôs os cartuchos dentro de pedacinhos de cana que furou de um lado nas ligações dos nós, mesmo no meio. E depois cada um destes engenhs meteu nas meias-canas inclinadas que eu amarrara no barco.
Depois ele deu-me uns cordões esquesitos e mandou:
-- Onde o Godo pôs as canas com os cartuchos tu pões uma ponta deste cordão no buraquinho que ele fez no nó da cana e a outra ponta metes na cana comprida que está ao longo do barco, certo?
-- Certo...
Não resisti a perguntar:
-- Que cordão é este Mestre?
-- Rastilho...
-- Rastilho? Isto serve para quê? – perguntei mas mexi as mãos para fazer o trabalho.
-- Para deitar fogo aos cartuchos... Esse cordão está embebido em piche e pólvora...
-- Piche sei o que é. Serve para calefatar, mas pólvora? Que é isso?
-- Lembras-te da seta que Silvana disparou contra a fortaleza?
-- Sei...
-- Pois faz isso e ainda mais. – respondeu pacientemente o Mestre que metido na água até ao joelhos se atarefava a colocar cordão de rastilho pela cana do meio do barco e amarrá-lo a cada uma das pontas que depois ía ter aos cartuchos.
Depois de tudo pronto o Mestre verificou tudo mais uma vez e depois ordenou:
-- Empurrem o barco para o meio do rio...
Eu e Godo empurramos até ficarmos com água pelo peito e lentamente o barco sentiu a corrente e pôs-se a deslizar rio abaixo.
Ao longe muito ao longe Helmut ouviu o ruído dos perseguidores e disse:
-- Estão a cerca de um quilómetro de nós...
-- Vão ter uma surpresa... -- sorriu o Mestre. -- Mas temos de ir indo.
Cabelos Cor de Fogo descontraiu um pouco e perguntou:
-- O que era aquilo que fez no barco?
O Mestre sorriu-lhe:
-- Foguetes! Foguetes em plano inclinado que serão disparados de um e outro lado do barco em direcção às margens como se fossem setas de fogo! – E depois rindo – Vai ser uma festa!

5 comentários:

Cabelo de fogo disse...

Adoro festa... *Riso*

tb disse...

Excelente! Li de um fôlego. Fico à espera da festa, que já estou até a imaginar....
Jokas

Isa Calixto disse...

Continua, continua...vamos ver esses foguetes, nessa festa de arrombar... :)
Beijinhos

musalia disse...

espantosamente contas esta história! aguardo os próximos capítulos:)
beijo.

XannaX disse...

Espero que a festa não dê para o torto...;-)