08 maio 2006

O Ovo de Rá - 10ª parte


‘A Mulher que Cura’


Depois de devorarmos a lebre que Helmut trouxera, ficamos à volta da fogueira. E ardendo de curiosidade ousei perguntar apesar de estarmos todos estafados com os acontecimentos do dia:
-- Cabelos de Fogo, como conseguiste escapar até agora dos Senhores do Eixo?
Ela sorriu-me. Tenho a certeza que se tivesse sido outro de nós a perguntar, ela teria recusado com a desculpa que estava cansada, mas porque fui eu, ela começou a contar:
-- Embrulhei tudo o que tinha roubado ao porco do Senhor Dogon e fugi o mais que pude. Com dezasseis anos não tinha muito a noção de para onde fugir, apenas sabia que tinha de me afastar o mais possível...
Ela parou para retomar fôlego porque dissera tudo aquilo de uma só vez, como se lhe fosse difícil fazer aquele retrocesso no tempo, lembrar o que passara, mas por mim, -- penso eu, -- ela fez o esforço de continuar:
-- Fugi na direcção da floresta. Diziam que havia bandidos por lá e as tropas do Senhor Dogon não gostavam muito de por lá passar. Por isso, achei que seria uma boa opção... É verdade que os bandidos podiam assaltar-me a mim ou até fazer-me pior. A diferença entre alguns bandidos e o Senhor Dogon, não era realmente muito grande... Mas nem parei para refelectir nisso e acho que tive sorte...
Interrompi:
-- A sorte favorece os audazes...
Ela sorriu ao perceber o elogio e continuou como se falasse apenas para mim:
-- Bem, por um tempo fui no caminho, mas depois pensei que se continuasse nele, teria mais possibilidades de ser apanhada se o os soldados me perseguissem. E nisso estava certa! Por isso meti-me ao acaso a vaguear na floresta agarrando os meus pertences! – ela riu. Mas era um riso carregado de dor, como se dissesse "que valem pertences, se é a vida o nosso bem mais valioso?" depois continuou:
-- Andei nem sei bem quanto tempo a vaguear pela floresta, dormindo num galho de árvore ou nalguma toca abandonada. Não sei se foram três dias, se uma semana, ou mais! Bebi água de poças, comi frutos silvestres, e algumas vezes apenas erva como se fosse uma ovelha! Ao fim desses dias, senti cheiro a fumo e deixei-me levar por esse cheiro...
Aqui Helmut arrebitou uma orelha e comentou:
-- Tens um bom nariz...
Ela fez de conta que Helmut não dissera nada.
-- Fui ter a uma pequena clareira onde havia uma casa pequena, muito velha, pois no telhado de colmo cresciam cogumelos e algumas ervas. Antes de me chegar perto, escondi a minha trouxa numa árvore, num buraco que achei no tronco. Bati à porta e abriu uma mulher idosa de compridos cabelos brancos em desalinho. "Que queres de mim moça?" perguntou-me ela. "Perdi-me", disse eu "dê-me água para beber, tenho sede, por favor!" Ela agarrou-me pelo braço para dentro de casa e sentou-me à mesa e sem dizer uma palavra, colocou em frente a mim, algumas frutas, pão, um naco de carne fumada e uma bebida. Devorei tudo em três tempos, tamanha era a minha fome! A mulher era conhecida como bruxa ou feiticeira. Mas não era nada disso! Ela conhecia era o poder das plantas e das pedras, compreendia a natureza das coisas e usava isso para curar. Na natureza está tudo o que necessitamos. O Criador colocou isso lá para nós. Para que as nossas vidas não sejam tão sofridas...
O Mestre piguerreou parecendo querer limpar a garganta. Para ele, obcecado com o Ovo de Rá a única criação que lhe devia tocar o coração era a que podia encontrar no dito cujo.
-- Pessoas que sabiam disso, vinham procurá-la. Em especial os do povo Torresmo. Vinham de longe da sua aldeia situada na cratera de um vulcão extinto, a norte daqui, bem a norte... Eles chamavam-na ‘A Mulher-que-Cura’. E era o melhor título que lhe podiam dar! Ela deixou-me ficar com ela. Era a sua criada, depois fui a sua aprendiz e por fim a sua filha. E um dia vieram Gulats, traziam um deles doente..
Ela interroupeu-se e desviou de mim o seu olhar pela primeira vez, e olhou para o fogo. Mas o fogo que vi nos olhos dela era mais intenso.
-- Esses cães malditos... Mercenários paridos no inferno... Ela curou-o com as suas poções, e a paga que recebeu desses cães, foi que me denunciaram aos Senhores do Eixo. Sim, eles perceberam quem eu era... O meu cabelo...
E as lágrimas começaram a cair-lhe pela cara abaixo. Não resisti e pus o meu braço por cima dos seus ombros mas não disse nada. Ela deixou-se estar enconstada a mim e continuou o seu relato, como se ao fazê-lo conseguisse expurgar pelo menos parte da dor que a recordação continha:
-- Um dia... Os Senhores do Eixo vieram... Freda, era assim que ela se chamava, tinha um corvo que sabia contar, pelo menos até seis... – e ela deu um riso nervoso – Ele costumava alertar-nos sempre, antes da chegada de alguém e um dia chegou muito alvoraçado e Freda perguntou-lhe: " Que se passsa, Bil?" (Bil, era o nome do corvo) E ele deu o seu grito de alarme habitual. "Quantos são?" perguntou ela. E Bil contou seis, e depois mais seis e mais seis... Eram os soldados dos Senhores do Eixo à minha procura. Ela percebeu de imediato e disse-me: "Tens de partir Silvana! Também já te ensinei tudo o que te podia ensinar, talvez esta seja uma boa ocasião para partir!" Estive quatro anos com ela. Não sei se ela sabia quem eu era. Talvez soubesse, mas nunca me perguntou nada. Fugi, no buraco da árvore onde deixara a minha trouxa tirei a aliança de Dogon e fugi em direcção ao povo Torresmo...
-- Não voltaste a ver Freda? – perguntou Godo que acompanhara atentamente a história.
-- Uns dias depois, voltei com o povo Torresmo... – ela respirou fundo num suspiro de dor que me meteu dó – A casa tinha ardido... e o cadáver de Freda nem sequer fora enterrado! Presumo que a tivessem torturado para saber onde eu estava e como ela não disse nada, mataram-na. Bil estava ao lado dela, afastando as raposas, os abutres...
Ela voltou a chorar e deixámos que chorasse. Eu abracei-a com mais força. Ela ganhou alento e continuou:
-- Enterramos Freda, junto à árvore onde tenho escondido o ouro do porco Dogon...
Godo falou, porque eu também não conseguia dizer nada e chorava porque o que lhe doía, passara a doer também a mim.
-- Lamento... – disse Godo.
-- Lamento também, mas e depois? – perguntou o Mestre agora também ele profundamente curioso.
Ela olhou para mim e quando viu as minhas lágrimas, limpou-mas com a sua mão e beijou-me a face:
-- Não chores... por favor... – pediu-me ela num sussurro.
-- Não consigo... – disse-lhe eu baixinho.
-- Queres que pare? – pergntou-me.
-- Não! Continua... faz-te bem partilhar essa dor...
Ela beijou-me na face novamente e dizendo-me "Obrigado" continuou:
-- O povo Torrresmo acolheu-me. Com o ouro que lhes dei da aliança, fizeram-me uma casa na sua aldeia e tornei-me entre eles como ‘A Mulher que Cura’. Acho que eles ficaram mais contentes do que eu. O povo Torresmo é um povo rude, habituado às dificuldades. Afinal sobrevivem numa região agreste! Eles são lenhadores e forjadores. Trabalham o ferro e o cobre como ninguém mais na Terra! Aprendi com eles os segredos do metal e a manejar o arco, a espada e o machado.
O orgulho de Cabelos de Fogo pelo povo Torresmo despontava nas suas palavras.
-- Infelizmente, os Senhores do Eixo e os Gulats tornaram-se por minha causa, uma fonte de problemas para os Torresmos. Passados quatro anos depois da morte de Freda, os Senhores do Eixo vieram até à aldeia dos Torresmos junto à passagem para dentro da caldeira do velho vulcão. Mas Hamat, o chefe Torresmo, percebeu o que eles queriam e não lhes deu autorização. Intimou-os a retornar à planície de Dura ou consideraria a presença de tropas dos Senhores do Eixo no seu território, como uma provocação e uma declaração de guerra. Os Senhores do Eixo podem ser muito nobres, mas a sua ganância é superior à sua nobreza e decidiram atacar a aldeia Torresmo. Os bravos Torresmos conhecedores do terreno levaram a melhor e rechaçaram as tropas dos Senhores do Eixo com uma razia assustadora. Mas lamento que alguns homens bons, tenham morrido. Em Torresmo, algumas mulheres ficaram viúvas por minha causa...
Uma sombra passou no rosto de Cabelos de Fogo.
-- Os Senhores do Eixo não desistiram, não! Contrataram de novo os Gulats! E de novo se abateu a desgraça sobre a aldeia... Depois de mais viúvas, não podia ficar, tinha de partir. Acreditam que o nobre e vcorajoso povo Torresmo, nunca pensou sequer em entregar-me? Acreditam que apesar das baixas e da dor, nem uma única das viúvas apontou o seu dedo contra mim? Acreditam que nunca o chefe da aldeia, o nobre Hamat, me pediu para ir embora?
Cabelos de Fogo não foi capaz de continuar mais, os soluços interromperam-lhe a narrativa e chorou, chorou.
O Mestre falou então:
-- Por hoje basta. Vamos tentar dormir...
Godo espevitou a fogueira.
-- Helmut... O primeiro turno de vigia é teu... O segundo faço eu. O terceiro é do Mestre. E vamos deixar que aqueles dois durmam, está bem?
Helmut levantou-se e foi pra fora. Antes de sair ainda disse:
-- Está. Eu faço o primeiro turno... Godo...
-- Sim?
-- Nunca mais nos vamos separar pois não?
Godo ficou pensativo e sorriu para Helmut:
-- Acho que não, porquê?
E já de saída pelo buraco de acesso à caverna, disse:
-- Detestaria voltar a ser um lobo solitário...

9 comentários:

XannaX disse...

Eternecedor é o adjectivo que me ocorre.
bj

tb disse...

Escreves como só tu sabes e consigo ver-te neste diálogo, terno e rico.
Beijinhos

MC disse...

Uaauuuhhh...excelente, irei passar a vir cá mais vezes.

Abraço

Leonoretta disse...

ola mitro. para ja, o obrigado pela tua passagem no meu sitio e o comentario que me deixaste. para depois, a promessa de uma leitura com calma desta serie de contos que tens por aqui e me pareceram mesmo de relance muito interessantes.
abraço da leonoreta

Mar disse...

tive muito que ler ... mas gostei de cada minuto.
Um beijo

Isa Calixto disse...

Hoje terminou cheio de ternura...e o medo da solidão...espero o próximo capítulo.

Beijinho

sa.ra disse...

bom dia!
ehehehehhe! com que então o meu mais recente post é grande que se farta sr Mitro!

saiba que fiz um print disto... e deu boa dose!mais: 10ª parte!!!!

10ª parte?????

meus deuses!

e agora? para apanhar o fio à meada tenho 9 capítulos, assim pequenitosa em atraso!!!!!

pergunta: Ovo de Rá???? porquê?
como?


bem... questões técnicas à parte, gostei da narrativa! cativante, sem dúvida... e algo mais!!!!

beijinhos!
um dia muito feliz!

indie girl disse...

ora bem...muito bem pela visita ao meu cantinho...então vais tentar bater o marcelo...tou pa ver..bjussssssss

reflexoes depois disse...

BELO POST! UM ABRAÇÃO