05 maio 2006

O Ovo de Rá - 9ª parte


O Anel de Dogon


Voltamos a meter-nos em marcha e o Mestre pediu:
-- Helmut, tenta achar um caverna ou um lugar onde possamos passar a noite sem sobressaltos, por favor.
Helmut disse-me até já e pôs-se a trotar em direcção às encostas da montanha que ficavam a norte de nós.
Depois dirigiu-se a Godo:
-- Acabou-se a pólvora e só temos feijões secos para comer... Espero que o Helmut não se importe de nos arranjar uma lebre...
Godo acrescentou:
-- Antes de partir para as montanhas devíamos encher os odres de água...
-- Tens razão! Esta coisa de ser peregrino implica muita tralha às costas... Felizmente nas Montanhas Negras terão mais dificuldade em achar-nos.
Não percebi bem porquê, pois afinal, os Senhores do Eixo, da planície de Dura sabiam exactamente onde estavamos e podiam mandar tropa bater à porta de todos os eremitas conhecidos das Montanhas Negras. Por isso decidi falar:
-- Mestre, será mais difícil porquê?
-- Temos mais lugares onde nos esconder...
-- Desculpai-me, mas acho que não, basta aos Senhores do Eixo postar um soldado à porta de cada eremita e lá acabarão por nos achar!
O Mestre riu e tenho a certeza que se não estivesse tão cansado, me tinha mandado uma bordoada na cabeça com o seu bastão, como aliás tinha o mau hábito de fazer.
-- Moço, mesmo que se lembrassem de fazer isso, qual era o soldado que se candidatava a enfrentar-nos hein? Depois do susto de morte que devem ter apanhado, com os foguetes no barco, podes crer que basta gritar: Buh! Pra desatarem a fugir de nós!
Aquilo não me convenceu, mas antes que apanhasse com o bastão dele na cabeça em frente a Cabelos de Fogo, deixei passar.
Ela que continuava a apoiar-se em mim, sorriu-me.
Godo aproximou-se e sussurrou-me:
-- O que o Mestre quer dizer, é que até os Senhores do Eixo têm medo das Montanhas Negras...
Fiquei a pensar naquilo. Quer dizer, afinal aquela refregazita no Passo de Ziz, os Gulats, eram apenas a entrada, o aperitivo? Fiquei preocupado com o que viria a seguir.
Entretanto apareceu Helmut trotando na nossa direcção:
-- Encontrei uma gruta de urso... Parece-me abandonada!
-- É bom que não pareça apenas... – comentou Godo.
-- Mostra-nos! – pediu o Mestre e seguimos Helmut.
-- Um momento... – disse Godo dirigindo-se ao rio que passava perto – vou encher os odres de água...
Fui com ele e ajudei-o a trazê-los. Depois então fomos todos atrás de Helmut.
A entrada era estreita e tinhamos de entrar de gatas. Fiquei a imaginar ter de sair dali à pressa ou se alguém se lembrasse de rolar um penedo até à entrada. A caverna não era bem fechada, pois de um dos lados e quase até ao chão havia uma fenda que abria ligeiramente no cimo. Godo olhou para ela e comentou:
-- Boa abertura, podemos fazer a fogueira lá dentro e mantermo-nos quentes, sem sufocar com o fumo... Boa descoberta Helmut!
O Helmut não disse nada limitou-se a abanar a cauda em sinal de agradecimento.
-- Helmut, seria pedir-te muito que caçasses uma lebrezita?
-- Puf! – desdenhou Helmut – Com o alarido de hoje, até as ratazanas se esconderam... Mas vou ver... – e saiu a caçar.
-- Hoje só pode ser lebre, mas vou por os feijões de molho, pode ser que o pequeno-almoço possa ser mais substancial! – disse Godo.
-- Boa ideia. – anuiu o Mestre.
Procuramos ajeitar-nos o melhor que podíamos no chão da caverna. Godo continuou a observar tudo com cuidadosa atenção depois que pôs os feijões a demolhar numa pequena panela que trazíamos no saco.
Helmut apareceu uma meia-hora mais tarde com uma lebre. Godo já fizera uma fogueira e o Mestre até aproveitara para dormitar. Rapidamente Godo esfolou e ananhou o bicho e o pôs a assar num espeto improvisado.
Estavamos todos cansados para termos vontade de falar e devoramos tudo, só Helmut não comeu.
-- Não comes Helmut?
-- É pouco para vocês... – e depois de uma longa pausa acrescentou: -- E demorei mais porque estive a saborear uma galinhola...
Godo riu.
-- Sò tu! Por isso demoraste tanto! Normalmente és mais rápido! Eu devia ter adivinhado...
Helmut piscou-me o olho.
Depois mais retemperados, Cabelos de Fogo perguntou:
-- Porque raio oferecem 500 moedas de prata pela minha cabeça? Afinal só matei o porco do Dogon, que nem sequer era querido entre os Senhores do Eixo, nem popular entre o seu próprio domínio!
-- Pois não... – respondeu o Mestre – Mas tu não mataste apenas o Senhor Dogon, pois não?
-- Como assim?
Foi Godo quem acrescentou:
-- Fizeste-lhe o favor de o despojar dos seus ornamentos...
-- E é por isso? Será que valem assim tanto? Um colar e menos de meia-dúzia de anéis? – espantou-se Cabelos de Fogo.
-- Se calhar até valem mais! – exclamou o Mestre – Sabes que depois que Dogon morreu, todos os pretendentes ao trono dele apenas podem reger, mas nenhum pode promulgar nenhum édito, porque será?
-- Sei lá! Não penso muito nisso... Quero é que aquela cáfila de bastardos se mate entre si, que parece que é a única coisa que tem feito desde que Dogon morreu!
-- Pois, pois... É que os éditos tem de levar o selo, feito pelo sinete do rei...
-- E qual é o problema? – perguntou Cabelos de Fogo. – Pegam no sinete e está a andar!
-- Só pode haver um sinete para marcar o selo do Rei...
-- Está bem, e então?
-- E então é a menina que tem o anel com o sinete de Dogon! – riu o Godo.
-- Se aparecesses com um exército no castelo de Dogon e reclamasses ser a herdeira do Senhor Dogon, tinhas todas as possibilidades de colocares a tua descendência no trono!

Foi então que percebi o interesse dos Senhores do Eixo, da planície de Dura em Cabelos de Fogo. Estavam-se todos nas tintas para a sorte de Dogon, o que os motivava não era o desejo de vingar a morte de um dos seus pares, mas antes, a possibilidade de um deles, qualquer deles, aumentar os seus domínios proclamando-se o legítimo herdeiro do Senhor de Dogon.
-- A menina ainda tem esse anel? – perguntou o Mestre.
-- Sim, escondi isso tudo num lugar que só eu sei. Sabia que o que roubara me podia tornar uma presa apetecível da ganância alheia e já tinha problemas que chegassem. Por outro lado, estava a pensar no futuro... Apenas amassei a aliança do porco Dogon e a dei em paga de protecção e comida junto do povo Torresmo...
-- Muito bem... – anuiu o Mestre. – Menina inteligente...
-- Ora vejam só! – disse eu sorrindo para ela – A Cabelos de Fogo, a portadora do anel do Senhor Dogon, ainda vai virar princesa!
Ela sorriu-me e abanou a cabeça:
-- E é por ele que tenho sido perseguida a minha vida toda? Raios parta o anel! Dogon deve estar farto de rir às gargalhadas no seu maldito túmulo! Maldito Anel de Dogon!

6 comentários:

tb disse...

Muito bem contada mais uma peripécia... fica sempre um sabor a pouco!
Beijinhos

XannaX disse...

então era isso??? maldito anel de Dogan! Isto promete...
Magnifico!

Mar disse...

Muito bom, muito bom...

arrudA disse...

hilário!

agua_quente disse...

Tive muito que ler desde a última vez. Mas gostei. Isto promete...
Beijos

Isa Calixto disse...

Ainda por aqui ando...até ao fim, daqui não desando!!!

Beijos