02 maio 2006

O Ovo de Rá - 6ª parte


500 Moedas de Prata



O Passo de Ziz era uma garganta íngreme e alta por onde no fundo passava um rio, com uma largura pouco maior que um tiro de pedra, qualquer coisa como uns 50 metros. Era um rio muito calmo a maior parte do ano e só as chuvas fortes ou os degelos da Primavera o tornavam um pouco mais turbolento.
A pobrezinha da Cabelos de Fogo tinha vindo todo o caminho a dizer que o facto de a terem atado se traduziria mais tarde em ela vir a sofrer da coluna. Achei lamentavel que uma rapariga tão esbelta viesse a sofrer da coluna por tal motivo e sugeri a Mestre Ratapone que a desatasse apanhando com a sua cana de bambu que lhe fazia de bastão no cucuruto da cabeça junto com a reprimenda:
-- Aprende! Olha para a cara dela... Não a vês engelhada de esforço? E isso é o que esperam de uma velha! Não de uma rapariga! Aprende! As aparências são importantes, mesmo que não sejam o que desejas...
De facto aquela aparência da Cabelos de Fogo não era o que eu desejava de modo nenhum. E já começava também eu a desejar deixar para trás o Passo de Ziz, onde aliás ainda não tínhamos chegado.
E quando chegamos foi uma desilusão. O Passo de Ziz era guardado numa zona mais estreita do rio e da garganta por duas fortalezas decrépitas uma em cada uma das margens. Havia uma estreita zona tanto numa como noutra margem onde um barco fazia a travessia de um lado para o outro. O Mestre ao ver aquilo chamou Godo:
-- Godo, vamos ter problemas...
Godo anuiu com a cabeça. E o Mestre continuou:
-- Pensava que havia mais gente por aqui, mas vamos ser o foco de interesse de toda aquela gente. Vamos tentar ser rápidos, entrar no barco se for possível e subir o rio nele. Helmut... – chamou o Mestre.
-- Sim?
-- Helmut, não sei como vão reagir com a tua presença, mas o facto é que te vão notar...
-- Sou um desgraçado! Quando é que vão perceber que não sou um lobo mau? -- lamentou-se Helmut.
-- Bem, se isto der para o torto...
-- Eu não chegarei a velhinha! – praguejou Cabelos de Fogo. -- Desamarrem-me!
-- Calma! – disse o Mestre – Se formos atacados Godo, corta-te os cordões, fica descansada. Tens o teu arco no peito como te mandei?
-- Tenho!
-- Procura não matar muita gente se chegarmos a ter de lutar, está bem? Queremos que se convençam que somos peregrinos e vamos visitar os eremitas. Certo?
Todos anuimos mas ficamos nervosos, só com a perspectiva de pensar que podia haver luta, Afinal que podiam cinco contra duas fortalezas, mesmo que decrépitas?
Assim, lá nos fomos aproximando o mais discretamente que podíamos em direcção ao cais. O barqueiro, deve ter-nos visto e aproximou-se de imediato da margem por onde vínhamos e deve ter ficado esperançado em ganhar algumas moedas.
Entretanto os soldados dos Senhores do Eixo aproximaram-se do grupo, que era a única coisa que tinham para fazer além de enxotar as moscas. Um deles que devia ser o mais importante dirigiu-se ao Mestre Ratapone que liderava o séquito:
-- Ora muito bons dias aos caminhantes!
-- Bons dias, bom senhor... – respondeu amável e submisso o Mestre.
-- Então quem sóis e que fazeis por cá?
-- Somos uns humildes peregrinos senhor... E vamos a caminho dos eremitas nas Montanhas Negras, na busca de resposta às nossas inquietações.
Prepassou pelo soldado um sorriso desdenhoso que me fez pressupor que o soldado não era muito dado a espiritualidades.
-- Pois senhor eu não me importo nada com isso, mas tendes de pagar pedágio! Uma moeda de prata por cada um e aí o cão também paga.
Senti Helmut resmorder em surdina:
-- Cão?! E ele deve ser toupeira não?
O soldado deve ter percebido algo e perguntou:
-- Tendes alguma coisa contra?
Foi Godo que falou:
-- Os Senhores do Eixo não cobravam tanto...
-- Pois fizeram mal! – Resmordeu o soldado desagradado com o que lhe pareceu o protesto de Godo. – Aliás, se tivessem cobrado mais, não tinhamos as fortalezas no estado lastimável em que estão.
-- Também não sei qual foi a ideia de construirem aqui fortalezas... – comentei eu.
-- Olhe menino, -- foi assim que me tratou o soldado -- eu também não sei, mas já que aqui estão e que me destacaram para aqui, faço o que me mandam. E vocês pagam ou preferem ir por outro lado? -- Perguntou ele com um sorriso realmente escarninho, pois sabia que a única passagem para as Montanahs Negras era por ali.
O Mestre Ratapone falou outra vez, com um pedido:
-- Somos pobres, não podias dispensar de pagamento o... cão?
-- Bagh! – disse o soldado com enfado – Hoje estou magnânimo! Pagam 4 moedas de prata de pedágio e podem passar.
O soldado ainda esperava que o Mestre abrisse uma bolsa ou um saco para tirar as moedas, mas estas apareceram na mão do Mestre com um truque de prestidigitação. O soldado sorriu:
-- És bom a negociar...
-- Pois sou... – sorriu o Mestre – Sabeis porquê senhor? Porque apenas temos quatro moedas de prata!
O sorriso desapareceu da cara do soldado e comentou:
-- Bem, então tenho más notícias para vocês, ali o barqueiro nunca leva ninguém de graça! – e deu uma sonora gargalhada.
Os soldados com ele riram também. E um deles disse:
-- Acho que não chegam longe!
Riram outra vez, e o Mestre percebendo o que se desenhava estugou o passo na direcção do cais e da passagem que ficava ao lado da fortaleza.
Todos nos esforçamos por nos apressar, mas Cabelos Cor de Fogo só podia dar passinhos e na sua atrapalhação por querer ir mais depressa, acabou por tropeçar. Eu que ía atrás dela imediatamente a levantei. Um dos soldados com a ponta da lança pelo lado do cabo, deu-lhe uma pancadinha no rabo:
-- Vá velha... Não te atrases que ainda perdes o barco!
E riam como só a soldadesca sabe rir da desgraça dos outros.
Li nos olhos de Silvana uma ferocidade tão grande que até eu tive medo, mas depois sorri-lhe e disse:
-- Deixa lá estes brincalhões avózinha...
Godo estratégicamente tinha ficado à nossa frente a cerca de três passos e Helmut seguia bem mais à frente atrás de Ratapone.
Um dos soldados continuou com a brincadeira:
-- Olha lá miúdo, porque não levas a avó ao colo? Treinavas... Assim quando chegar a vez da noiva...
E lá estavam eles a rir outra vez. Entretanto o que nos cobrara o pedágio ria, mas ía-se afastando em direcção à fortaleza.
Godo aguardou até chegarmos perto dele e pegou no braço direito de Silvana e eu do lado esquerdo tentando levá-la o mais rapidamente dali. Já o Mestre e Helmut estavam junto ao cais, ao que parecia a negociar com o barqueiro, quando um dos idiotas dos soldados achou piada ao chapéu da ‘avózinha’ e vai daí, com a ponta da lança espetou o chapeu e levantou-o ao mesmo tempo que dizia:
-- Avózinha, pra te espevitar precisas é de Sol na careca... – e riu, mas o riso extinguiu-se abruptamente.
Quando o soldado levantou o chapéu, os compridos cabelos cor de fogo de Silvana desamarram-se e brilharam ao Sol em todo o seu esplendor.
Godo agiu rápido, puxou do seu punhal afiado como lâminas e com um gesto passou-o pelo peito de Silvana.
Um dos soldados pensou que Godo tivesse matado a avózinha e ficou estático ainda sem perceber o que se estava a passar. Depois Godo empurrou Silvana até esta cair de costas e com um gesto rápido cortou os cordões nos tornozelos de Silvana e disse-lhe:
-- Corre para o barco e usa o arco se for preciso...
Quando os soldados recuperaram da estupefacção já Godo tinha tirado a um deles a sua lança e ma havia passado:
-- Agora vamos ver se aprendeste bem as katas!
Entratanto os soldados berravam sem saber muito bem o que dizer, mas eu e Godo com movimentos de Aikido os desarmamos. Eles fugiram tão rapidamente quanto puderam e nós corremos para o barco.
Do alto de uma das torres meia desmoronada um soldado gritava histérico:
-- Silvana! Silvana!
De imediato sairam s9ldados a cavalo pela porta da fortaleza.
Entretanto o barqueiro ao perceber a confusão fazia menção de afastar o barco. A uma ordem de Ratapone, Helmut saltou para dentro dele e fez o barqueiro cair à agua. Entretanto Silvana chegou junto do Mestre e desambaraçando-se do andrajo de velha, agarrou no seu arco e apontou ao cavalo do cavaleiro que vinha na frente. O cavalo caiu e lançou o cavaleiro a zorrar pelo chão duro um ror de metros até se imobilizar por completo.
Entretanto eu e Godo chegamos ao barco e pulamos lá para dentro.
Os cavaleiros quando perceberam que tínhamos um arco recuaram, mas gritaram ordens para a fortaleza. Eu e Godo o mais rapidamente que pudemos remamos para o meio do rio e em boa hora!
No alto das ameias os arqueiros brindaram-nos com um enxame de setas que cairam ao nosso lado e à nossa ré.
Cabelos Cor de Fogo de pé no meio do barco preparava-se para apontar mais uma vez o arco quando o mestre pegou num cartuchinho pequeno e disse:
-- Espera! – Amarrou-o rapidamente à seta – Agora!
Cabelos Cor de Fogo apontou para as ameias mais próximas e largou a corda do arco, a seta silvou pelo ar e ao embater numa das ameias ouviu-se uma explosão seguida de um forte fumo negro.
Ouvimos os soldados fugir e dizerem:
-- São feiticeiros!
Depois subimos à força de remos pelo rio acima em direcção às Montanhas Negras.
-- Achas que virão atrás de nós? – perguntou Silvana.
Foi Godo quem respondeu:
-- Pelas 500 moedas de prata que oferecem pela tua linda cabeça, estou certo que virão!
-- A minha cabeça vale 500 moedas de prata?! – perguntou admiradissima Cabelos Cor de Fogo.
Godo e o Mestre sorriram-lhe em sinal afirmativo.
Mas para mim, ela valia muito mais!

5 comentários:

tb disse...

pois...não há dinheiro que pague! Fico ansiosamente à espera do desenrolar. Está deveras interessante.
Beijinhos

Isa Calixto disse...

Só hoje aqui consegui chegar...gostei muito...pretendo a história, (divertida e interessante)continuar a ler e os passos de Cabelos de Fogo, acompanhar!

Boa semana, continuação de boa inspiração.

Mar disse...

Ena ena! Emocionante!

XannaX disse...

fora eu capaz de por no papel as imagens que a tua escrita me sugere...

XannaX disse...

Achei imensa graça (e este comment não é para para publicar)porque fizeste um comentário no blog do meu filho "concluindo, chegamos a onde?" LOL! é um adolescente de 16 anos com as suas hormonas... desajustes sociais ... existenciais ... próprios da idade... eu tenho alguma dificuldade em comentá-lo porque sou mãe (por vezes até me angustía), mas uma provocaçãozinha só lhe faz bem. Boa Mitro! Mas até que escreve umas coisitas, não achas?
beijo grande!