04 maio 2006

O Ovo de Rá - 8ª parte


Ajuste de Contas




Deixaramos a margem e o canavial e caminhamos até encontrar o caminho que vinha do Passo de Ziz até às Montanahs Negras onde moravam os eremitas. Esse caminho devia ser também o que os nossos perseguidores tomariam, mal percebessem que havíamos abandonado o barco.
-- Aproximam-se... – pressentiu o ouvido de Helmut.
Mas mal havia dito estas palavras e enquanto ainda fazíamos um esforço por subir a correr o caminho íngreme, ouvimos uns estrondos e uns silvos. Eram os foguetes do Mestre que com os rastilhos colocados espaçadamente começavam a descolar do barco!
Mais tarde soube que os foguetes tinham estabelecido o maior dos pânicos entre os perseguidores. Os cavalos e os cavaleiros nunca na vida tinham visto tal espectáculo, nem presenciado fénomeno tão fantástico. Dizem que alguns se ajoelharam, pensando que era o fim do mundo, e que seria nesse dia que prestariam contas ao seu Criador. Os cavalos espantaram-se e atiraram ao chão os cavaleiros, sendo que alguns foram arrastados por terem ficado presos nos estribos. Os soldados de infantaria fugiram de volta ao Passo de Ziz procurando refúgio nas fortalezas e alguns arqueiros corajosos, dispararam as suas setas em direcção aos céus e aos riscos dos foguetes.
Mas foi uma bela festa! Com debandada geral e tudo!
Helmut informou:
-- Grande confusão, acho que estão a recuar... pelo menos a maioria!
Helmut pareceu denotar nas suas palavras algum alívio, mas de qualquer forma não abrandamos o passo até chegarmos à zona mais alta do caminho. Ao lado o rio caía numa cascata saltitando de desnível em desnível.
Foi então que Godo, que ainda não abrira a boca e ao prescrutar o horizonte percebeu algo de anormal no céu:
-- Olhem além por entre as escarpas do passo de Ziz... Que é aquilo?
Cabelos Cor de Fogo juntara-se a nós no alto e vi os seus olhos brilharem:
-- Escondam-se rápido! Em especial tu Helmut, põe-te debaixo de um penedo se for possível...
Helmut pareceu surpreso, mas rapidamente obedeceu.
-- O que é? – perguntei tentando fazer com que a minha voz denotasse mais calma do que a que na realidade sentia.
-- Gulats! – respondeu ela.
Godo pareceu perceber de imediato, olhando em volta um possível local de abrigo e resmungou:
-- Devia ter trazido uma cana...
O mestre não disse nada, mas encostou-se meio escondido atrás de um penedo alto e puxou da sua espada afiada do bastão de bambu.
-- Estes são pra mim! – pareceu rugir Cabelos Cor de Fogo.
-- Conheces os Gulats? – perguntou o Mestre.
Ela sorriu-lhe:
-- Quando fugi para o povo Torresmo, os Senhores do Eixo mandaram estes assassinos atrás de mim...
-- O que são Gulats? –perguntei eu, percebendo que se aproximavam uns pássaros de asas enormes que vinham na nossa direcção.
Godo com amabilidade arrastou-me até junto de Helmut ao mesmo tempo que ía explicando:
-- São mercenários vindos do nordeste da cordilheira que compõe as Montanhas Negras... Eles criam águias gigantes, que são montadas pelos mais pequenos e leves dos seus guerreiros... Onde aquelas águias põe as garras... já era! Percebes? Por isso não quero que saias daqui, aconteça o que acontecer! – As últimas palavras foram num tom tão firme que não admitiam contestação.
Senti-me insignificante. E pouco heróico. Para mim era perigoso e então para a Cabelos Cor de Fogo? O que ela iria pensar? Que não passava de um puto sem garra... Entristeci.
Helmut deve ter percebido e comentou:
-- Cada um deve fazer aquilo para que é dotado. A tua vez há-de chegar rapaz...
Godo entretanto voltara para junto de Cabelos Cor de Fogo.
-- Alguma ideia, para dar cabo deles?
-- Sim, eu e estas bestas temos contas a fazer...
Cabelos Cor de Fogo deitou-se de costas e meteu o arco nos pés depois esticando as pernas para o céu e segurando a corda com as mãos pediu a Godo:
-- Municia-me aí com as minha setas mais compridas e não me fujas!
Godo sorriu, ajoelhou-se junto a ela e meteu-lhe uma seta em posição no arco.
-- Não tenhas medo, confia em mim! – pediu Cabelos Cor de Fogo.
Ele sorriu:
-- Nunca fui de ter medo... E confio em ti!
Ela lembrou-se de que eram como os dedos da mão conforme dissera o Mestre, quando ela se juntou a eles.
As águias gigantes dos Gulats ensombraram o dia.
Ela sussurrava com o suor a escorrer-lhe pela testa e a molhar os seus cabelos, com a força que fazia para retesar o arco:
-- Mais um bocadinho... aproximem-se só mais um bocadinho...
Ela apontou para a ave que voava mais alto e na altura em que julgou apropriado largou a corda. Ouviu-se a seta silvar e antes que o Gulat manobrasse a águia para esta fugir da seta, talvez porque confiantemente se achasse fora do alcance do arco, esta penetrou no peito do animal na zona do pescoço e veio ainda trespassar o seu condutor. A ave ferida caiu em rodopio e ao fazê-lo bateu numa das que voavam mais abaixo o que perturbou a formação.
Cabelos Cor de Fogo fletiu as pernas e voltou a agarrar a corda do arco e entesá-lo esticando as pernas de novo. Godo meteu nova seta.
Largou, mas desta vez a seta silvou mas não acertou em nenhum dos Gulats.
Rapidamente Cabelos Cor de Fogo voltou a entesar o arco. As águias agora d etão próximo que estavam metiam medo e via-se que as garras estavam prontas a espetar-se no que pudessem apanhar. A mim, senti um nó na garganta e escondi-me de medo e impotência.
Uma das águis fazia um vôo picado em direcção a Cabelos Cor de Fogo e a Godo, vinda a favor do Sol para que não a pudessem ver, encadeados. Foi então que o Mestre manobou a sua espada e a fez cintilar nos olhos da águia gigante. O animal momentaneamente cego, calculou mal a distância e esbarrondou-se de encontra os penedos. O Mestre corajosamente saltou ao encontro da água e atacou o seu condutor eliminando-o com uma estocada rápida e saltando para a garupa da águia matou-a com uma estocada nas costas.
Entretanto restava um Gulat que manobrou a sua águia gigante na direcção do Sol. Cabelos Cor de Fogo já percebera a táctica e posicionara-se na direcção do Sol, mas desta vez o Gulat astuto apenas guinou sem tomar muita altura e mergulhou num vôo muito rápido.
Cabelos Cor de Fogo mal teve tempo de esticar as pernas já se abatia sobre ela o monstro alado com as garras prontas para a espetar. Na atrapalhação o tiro saiu incerto do arco e quando o animal erguia as asas com as patas esticadas para a frente na abordagem final, Godo com a sua presença de espírito, puxou Cabelos de Fogo e rebolou com ela até um pedrugulho grande.
A ave gigantesca levada pela inércia não conseguiu desviar a trajectória e meteu as garras no chão levantando uma nuvem de poeira, contudo sentiu uma picada forte e incomoda debaixo da asa. A seta de Cabelos de Fogo não fora fatal, mas alojara-se abaixo da articulação da asa, consumindo a ave em dor. Transviada esta bicou o Gulat que a montava abrindo-lhe o crâneo.
Cabelos de Fogo levantou-se trémula, erguei o arco e por entre o pó e atirou. Ouviu-se um baque de um corpo pesado a cair. A última das águias fora abatida.
Apareceu o Mestre que pressuroso incentivou:
-- Temos de nos por em marcha, os Senhores do Eixo virão verificar se a sua presa está por aqui...
Godo deu os parabéns a Cabelos Cor de Fogo e eu aproximei-me envergonhado.
Helmut comentou:
-- Olha se as galinhas tinham este tamanho!
Rimo-nos e pusemo-nos a caminho.
Aproximei-me de Cabelos Cor de Fogo e reparei que ela estava cansada. Peguei nas suas coisas e pû-las às minhas costas. Ela não disse nada, apenas me sorriu e depois aproximou-se e encostou-se a mim para que lhe servisse de apoio.
-- Estás ferida? – perguntei eu.
-- Cansada e nervosa... Obrigado por me deixares apoiar em ti. – sorriu-me ela.
Fiquei calado sem saber o que dizer, mas depois a custo:
-- Foste muito corajosa ao enfrentar os Gulats.
-- Já os conhecia. Tinha umas contas a ajustar...

7 comentários:

tb disse...

Continua a excelência da escrita, a prodigiosa imaginação criando imagens fantásticas, nas quais nos embrenhamos e sentimos até que somos parte activa da história. Ficando sempre à espera do resto...
Beijinhos

XannaX disse...

Fantástico! Emocionante a batalha!
No entanto revela que escreveste debaixo de um grande entusiasmo, o que se reflecte nalguns erros - faltou uma segunda leitura. Referes várias vezes Cabelos Cor de fogo. Acho que o "Cor de" está a mais, não? fica mais bonito se mantiveres sempre só Cabelos de fogo, se me permites as sugestões.
E que esse entusiasmo e veia se mantenham, amigo.
Beijo

Isa Calixto disse...

É,a festa terminou bem...lindo fogo de artíficio...e agora Cabelos de Fogo cansada...mas está lá um ombro para descansar...fico á espera de mais...

Bom fim de semana

Friedrich disse...

Queres saber mesmo a verdade? Só estou mesmo aqui pq o meu blog mandou; para ver se tb comentas a minha história. Alguém disse: "que longa introdução". E eu acrescento, mas é mesmo só uma introdução, porque a história vai formando-se dentro da tua cabeça. - P/ descarado só me falta o chapéu... Senão tiver leitores as vendas baixam. - A poesia não precisa, governa-se sozinha!...

Abraços

pato disse...

Prometo , traducir , es bello tu idioma !! Saludos .

pato disse...

Prometo , traducir , es bello tu idioma !! Saludos .

pato disse...

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