14 maio 2006

O Ovo de Rá - 11ª parte


A noite cheira bem


Quando acordei ainda não era manhã, nem madrugada. Cabelos de Fogo aninhara-se junto a mim, com a face virada para a fogueira, agora apenas com brasas meio acesas. Godo e Helmut não estavam.
Acordei excitado e com uma forte vontade de verter águas. Senti-me embaraçado, mas Cabelos de Fogo dormia, tranquila e tanto quanto pude perceber, feliz. Havia um sorriso discreto na sua face, como se estivesse a sonhar e o sonho fosse bom.
Ela encostara-se a mim, como se eu fosse a sua concha. E ao pensar nisso ocorreu-me que pudesse estar dentro de mim, que ela fosse o meu miolo, o meu mais íntimo. Porquê então sentir-me mal por estar excitado? Não era verdade que a amava? E que esse amor a desejava? Depois ocorreu-me que estava a ser pateta. Como podia uma mulher corajosa e desenrascada como ela, gostar de um rapaz como eu?
E pensei que talvez não fosse assim tão pateta. Não procuramos ser corajosos e desenrascados, isso às vezes é mais fruto das circunstâncias, que nos obrigam a sê-lo. E o amor? Todos procuramos o amor. Sabemos que ele é, depois de tudo o mais, o bálsamo que nos cura as feridas. O amor abafa os nosso medos, dá-nos a coragem que não temos. O amor faz-nos maiores do que realmente somos. O amor pode ser maior do que a vida, porque por ele, nos dispomos a morrer por quem amamos!
Não seria isso que faltava a Cabelos de Fogo? O amor? E isso eu sabia que podia dar-lhe até me doer o peito.
Levantei-me o mais suave que pude e dirigi-me à abertura da caverna onde estavamos. O Mestre Ratapone ainda dormia no seu canto, de costas para a fogueira. Saí.

Quando saí ouvi a voz de Godo quase num sussurro:
-- Também não consegues dormir?
Não consegui ver de onde me falava, mas depois de tentar habituar os olhos á penumbra, vi-o a ele e a Helmut em cima de um penedo bem próximo, mas de tal maneira postados que era difícil enxergá-los.
-- Não tanto isso... Venho verter águas...
Foi a vez de Helmut falar:
-- Então vira à tua esquerda, não quero que me estragues o faro...
Helmut referia-se ao facto de que não queria que o cheiro da minha urina lhe limitasse o olfacto. Afinal ainda éramos perseguidos e não queríamos ser pêgos de surpresa.
Assim fiz e depois voltei e perguntei:
-- E vocês decidiram os dois fazer vigia ou não tem sono?
-- As duas coisas. – disse Godo.
-- O que vos tira o sono?
-- Estive a pensar... – começou Godo – No que disse o Helmut e na história da nossa amiga...
-- E... – incentivei.
-- Concluímos que somos todos solitários há procura de alguém a quem pertencer.
-- Como assim Godo?
-- Vê bem, eu fui escravo e depois que o Mestre me libertou, não tinha para onde ir. Nem família, nem aldeia, nada. O único lugar onde sabia pertencer era à casa do Mestre, era esse o meu lar. A única pessoa que me era mais próxima era o Mestre... Por isso, para onde ir? Fiquei.
Godo calou-se e o silêncio da noite invadiu a suas palavras.
-- E tu Helmut? – perguntei.
-- Estava cansado de ser solitário... – respondeu ele, numa voz baixa e pausada – Não há muitas alcateias com lobos que falem!
Sorri ao pensar nisso, mas ao tomar a profundidade da afirmação o sorriso foi mais pesado de suportar. Helmut continuou:
-- Para dizer a verdade... – e Helmut pareceu respirar fundo como um suspiro, como se fosse finalmente libertar-se de um fardo – Acho que pisei naquela maldita armadilha de propósito... Estava farto! Mas depois e felizmente o Mestre salvou-me e não foi apenas a vida... Acho que foi também o sentido dela, ou coisa parecida.
Depois também Helmut se calou e deixou aquele silêncio da noite invadir tudo. Tenho a certeza que todos pensavamos sobre o sentido das nossas vidas, sobre o acaso, sobre as nossas vontades e desejos.
Depois Helmut perguntou-me:
-- E tu Maia, também tens essa sensação de solidão?
Sem quase pensar respondi:
-- Tenho.
-- Era o que eu desconfiava... – comentou Helmut.
-- E qual é a tua solidão? Aquela de que queres fugir?
-- Não sei bem... Os meus pais entregaram-me ao Mestre. Acho que tenho saudades deles, de quando era apenas menino e brincava. Quando o mundo parecia andar à minha volta e tudo era novidade... Não sei bem. Agora, acho que tenho medo de ficar só. É como se tivesse perdido os meus pais e sentisse que não pertenço a ninguém.
Helmut interviu:
-- Acho que Cabelos de Fogo sente o mesmo...
-- Tem todo o sentido que sinta. – afirmou Godo.
Sorri ao pensar nisso e depois perguntei:
-- E o Mestre? Acham que o Mestre também se sente solitário?
-- Claro! – respondeu o Godo – Conheces-lhe alguma família? Mulher? Amante? E não achas que toda esta viagem em busca de um ovo que nem sequer temos a certeza que exista, é apenas uma maneira de fintar essa solidão?
E juntei-me a eles em cima do penedo onde estavam, sentei-me e deixamos que o silêncio da noite nos invadisse e digeríssemos as nossas solidões.
Foi Helmut quem quebrou o silêncio.
-- Agora está melhor. Já não estamos sós. Somos pertença uns dos outros. Uma alcateia, por mais estranha que seja... -- e depois de uma pausa mais longa, concluiu -- A noite cheira bem...
Olhamos nos olhos uns dos outros e na noite escura havia neles um brilho que não podia ser apagado. Abraçamo-nos os três e pensamos nos outros dois, lá a dormir ao calor da fogueira, dentro da caverna.

10 comentários:

tb disse...

Somos parte de um todo universal...e cada um de nós numa procura e si.
Excelente!

agua_quente disse...

Cada um de nós é solitário dentro de si próprio.
Continuo a ler com interesse.
Beijos

XannaX disse...

Muita poesia neste capítulo "deixamos que o silêncio da noite nos invadisse e digeríssemos as nossas solidões" - gostei muito!
bj

Isa Calixto disse...

Tenho seguido a história com toda a atenção...mas hoje particularmente, cativou os meus sentidos...Lindo diálogo, lindos pensamentos.

Beijinho.

eco de mim disse...

gostei da ideia da alcateia... auuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu! ;)

Fox disse...

Bem, desde já vou dizer que estou a adorar o blog, e já o li de uma ponta à outra (isto dos arquivos é uma coisa maravilhosa!). Espero que o bom trabalho neste blog a que eu fiquei agora completamente pegada continue! Abraços!!

Ovelha Negra disse...

hum...isto já vai em 11 partes?! então vou sair de fininho e depois volto para ler ;)

António disse...

Estive a ler este post (que é o 10º de uma história que não acompanhei) e só te posso dizer que sabes escrever bem!

Os meus Diálogos não são histórias.
São flashes em que pretendo caracterizar personagens. Só!

Já escrevi no blog 3 novelas (ou qualquer coisa parecida com isso) mas nunca nada para teatro.
Mas não me ponho de lado...

Um abraço

António disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
lune disse...

Talvez..
Eu que sempre procurei a felicidade no amor, começo a ter opiniões paralelas, no sentido, que sim o amor nos preenche, parece ser maior que a vida, e por aí adiante, mas simultaneamente tal como os passaros que estão habituados a viver em gaiolas, quando livres morrem, o que aprendi é que ao invéz de viver para amar, amo a vida...
Beijos
Jaci