31 maio 2006


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O Ovo de Rá - 15ª parte


O meu pai conheceu a tua mãe


Quando Godo e o Mestre viram chegar Helmut em passo de corrida perceberam imediatamente que algo estivesse a correr mal. Mesmo muito mal.
Estavam já quase a chegar a casa de Mestre Ludovico. Apressaram-se na direcção de Helmut.
-- Mestre... – balbuciou Helmut com a língua de fora – Tendes de ir comigo... Estão prisioneiros na gruta... Serpente...
Dizia Helmut completamente ofegante. Godo partiu imediatamente, sem sequer dizer uma palavra.
-- Descansa um pouco Helmut... – sussurrou o Mestre Ratapone.
E depois dirigiu-se a Mestre Ludovico:
-- Caríssimo Mestre, lamento mas recebi agora uma notícia e outros deveres me chamam, mas gostaria de contar com a vossa hospitalidade no regresso próximo.
Mestre Ludovico mostrou um ar surpreso, mas depressa se refez:
Entretanto Galimodo aproximara-se de Helmut, e este estava demasiado ofegante para ter forças para lhe rosnar.
-- Senhor, temeis pela vida dos vosso amigos, não é? – perguntou Mestre Ludovico.
O Mestre Ratapone pensou rápido e decidiu usar a verdade:
-- Sim, deixamos amigos, que agora se encontram encurralados numa caverna... por uma serpenete gigante.
-- Muito interessante, mesmo muito interssante! E quem vos comunicou, aquele companheiro ali? – perguntou o Mestre Ludovico apontando para Helmut. Helmut olhou finalmente para o Mestre Ludovico e farejou-o de focinho ligeiramente erguido, apontando na sua direcção.
-- Sim. – respondeu o Mestre.
Galimodo falou:
-- Tenho a certeza Mestre Ludovico, que são estes o que aqueles bárbaros da soldadesca da planície procuram...
Isso espantou de tal modo Helmut que quando ele começou a falar, Helmut deu um salto.
-- Olha aqui o canídeo nunca ouviu um gato capaz de falar... E é assustadiço o bicho...
O Mestre Ludovico ficou parado em silêncio a pensar e depois num assomo repentista:
-- Vou consigo!
E seguiram os quatro em direcção à caverna.

Quando chegaram Helmut vinha bem atrás cansado, surpreso e talvez reflexivo.
Godo apareceu vindo de nenhures:
-- Eles estão bem... A cobra não entrou na caverna, pois têm uma fogueira na entrada, mas ela anda ali em volta. Não está agressiva, apenas quer fazer a digestão...
-- Podemos tirá-los de lá? – perguntou o Mestre Ratapone.
-- Se alguém espantar um pouco a serpente acho que conseguimos. – respondeu Godo.
Mestre Ludvico avançou até junto do dois:
-- Se me disserem onde ela está, eu afugento-a...
Olharam ambos para o Mestre Ludovico. Depois Godo tomou-o pela mão e aproximou-se da entrada da caverna e segredou:
-- Vê aquela moiteira ali próximo á entrada da caverna?
-- Vejo.
-- Ela está lá.
O Mestre Ludovico olhou mais atentamente e reparou num corpo maciço que parecia comfundir-se com a rocha.
-- Eu afasto-a estejam descansados.
Depois chamou por Galimodo.
-- Ouve meu companheiro fiel, preciso de um favor teu...
-- Sim? – respondeu Galimodo
-- Quero que vás passar em frente aquela serpente, passando-lhe pelo lombo com as garras de fora, podes fazer isso?
Galimodo ía para começar um longo discurso mas foi interrompido pelo Mestre Ludovico que disse apenas:
-- Obrigado!
O Mestre Ludovico tirou uma garrafinha pequena de um dos bolsos da sua capa (que provavelmente devia ter muitos, embora não fossem muito visíveis) e com uma rapidez surpreendente mal Galimodo correu por cima do enorme corpo da serpente e esta se mexeu num torpor saindo da moita, descarregou-lhe o conteudo do frasco na cauda. Devia ser um ácido qualquer que o animal revirou-se imediatamente, contorcendo-se com dores e usando a cauda como um chicote! O pó que levantou foi de tal ordem que tossiram e deixaram de se ver.
Godo, corajoso como sempre entrou de imediato na caverna e puxou-me a mim e Cabelos de Fogo para fora. Quando saí, vi ainda a bicha a revirar-se e tal deviam ser as dores que descuidou-se, aproximou-se demasiado da borda do flanco da montanha e acabou a rebolar por ali abaixo, indo estatelar-se com estrondo mais abaixo, numa explosão de carne de cobra.

Refeitos da aventura apresentamo-nos uns aos outros. Mas quando foi a vez de Galimodo, não pude deixar de exclamar:
-- Olha Helmut, ele fala como tu!
Galimodo pareceu quase ofendido, tanta foi a surpresa:
-- Mas o canídeo também fala?!
Helmut agora recuperado, aproximou-se e disse:
-- Sim bichano, o meu pai deve ter conhecido a tua mãe...

23 maio 2006


by Rarindra Prakarsa Posted by Picasa

O Ovo de Rá - 14ª parte


Foi pra te encontrar


Estava eu e Cabelos de Fogo ainda a aproveitar os últimos calores da fogueira, quando ouvimos um barulho vindo do acesso da caverna. Parecia que Helmut, o nosso lobo que falava, estava envolvido numa luta com algum animal.
Quando fizemos intenções de sair e espreitamos pelo estreito túnel que dava acesso ao exterior vimos uma enorme cobra.
-- Rápido Cabelos de Fogo, trás fogo aqui para a entrada! – gritei-lhe eu.
Ela empurrou as brasas e os gravetos fumegantes para a entrada e ao chegar perto perguntou-me:
-- O que é?
-- Uma cobra enorme lá fora... Acho que a caverna era o seu covil e voltou!
A coisa pareceu sossegar lá fora. Clamei:
-- Helmut! Helmut!
Temia que o nosso amigo pudesse ter sido vítima do enorme bicho, mas ouvimos a sua respiração ofegante junto à fenda no alto da caverna. Estava cansado:
-- Estou farto! – disse ele. – Raios! Será que aqui só encontramos gigantes? São águias, depois são cobras...
-- Estás bem? – perguntou Cabelos de Fogo.
-- Por agora estou... Consegui afastar o bicho, mas preparem-se porque vai voltar... São teimosos estes bichos e esta parece empanturrada de comida... E quer deitar-se a fazer a digestão!
-- Bem então não está agressiva é? – perguntei eu.
-- Nem precisa com um tamanho destes, basta abanar a cauda pra nos dar uma coça! Olha se lhe dava pra estar agreessiva... A esta hora nem estavamos aqui na amena cavaqueira a trocar impressões!
-- Ok Helmut! Acalma-te...
-- Estou calmo, preciso é de descansar...—disse Helmut entre dentes.
-- Olha, será que nos podias ir buscar uns gravetos? Assim mantinhamos o fogo ali na entrada, para evitar que ela tenha a tentação de entrar...
-- Pois é boa ideia... Só eu vou, é ter que subir e descer este penedo vezes sem conta! Mas enfim...
Helmut sumiu-se e passado um pouco começou a trazer gravetos.
-- Obrigado Helmut... – disse Cabelos de Fogo.
-- Bom já devem ter gravetos suficientes para eu poder ir e voltar... Vou buscar o Mestre e Godo! Temos de mudar de pouso e também sem ajuda não consigo espantar esta serpente com excesso de crescimento!
-- Vai! Se for preciso espetamos-lhe com todas as setas do meu arco! – disse-lhe Cabelos de Fogo.
-- Até já amigos! – gritou-nos Helmut.

Juntamos alguns gravetos na fogueira e sentamo-nos junto a ela, de modo a que o calor dos nossos corpos fosse confundido com o calor a fogueira. Helmut fora inteligente, trouxera uns gravetos de árvore resinosa e o calor era intenso e a chama era viva e permanente. Tinha só um senão, o fumo era arrastado na nossa direcção...
-- Vamos ficar com cheiro a fumo...
Ela sorriu-me
-- É da maneira que os cães de busca dos Senhores do Eixo, terão dificuldades maiores em nos encontrarem.
-- Nesta situação, era lindo se nos encontrassem...
Ela pôs-me os dedos sobre os lábios, para que eu me calasse.
-- Não digas coisas más...
Ficamos um bocadinho calados, eu abracei-a.
-- Acreditas em Deus, Cabelos de Fogo?
-- Estás com medo de morrer, fofinho? – perguntou ela com um sorriso, mas não era trocista, acho que ela estava melancólica.
-- Só devemos pensar em Deus quando estamos pra morrer, Cabelos de Fogo?
Ela não respondeu a esta pergunta mas à primeira:
-- Acredito...
Ficamos um tempo em silêncio e depois ela perguntou-me:
-- E tu?
-- Eu também.
-- Porque perguntaste?
-- Porque quero pensar que ele ainda nos dará uma hipótese de nos conhecermos melhor.
Ela sorriu-me:
-- Não achas que nos conhecemos desde sempre?
Fiquei calado a pensar nas palavras dela.
Sorri mas não sabia exactamente o que dizer e ela falou:
-- Sabes... Sempre me perguntei porque fugi eu daquele porco do Senhor Dogon... Porque corri perigos e fiz outros corrê-los por mim... Acho que agora eu sei: Foi para te encontrar.

21 maio 2006


by Vassil Shockoff Posted by Picasa

O Ovo de Rá - 13ª parte


Serpentes



Godo e o Mestre partiram mal acabaram de comer. Godo contou mais tarde que seguiram um tempo ao longo do caminho principal por um trilho, mas que depois seguiram pelo caminho.
-- O chão dá sinais de passagem de muita gente Mestre... – disse Godo.
-- Sim, os Senhores do Eixo depois da nossa batalha devem ter-se convencido que a sua presa está alcançável e apetecível.
-- Acha que é isso Mestre?
-- Não tenho a certeza... Há algo de estranho nesta perseguição. É certo que Cabelos de Fogo detém o anel de sinete e que podia reivindicar o trono. Mas eles podiam já ter anulado completamente a soberania de Dogon. Bastava um dos Senhores do Eixo, ser apenas mais ganacioso do que os outros...
-- Temem entrar em guerra uns com os outros?
-- Porque temeriam? Já andaram em batalhas antes, porque não de novo? De certeza que há mais alguma coisa...
-- Mas a Cabelos de Fogo quando se juntou a nós não andava perseguida...
-- Nem nós!
-- O Mestre tem alguma ideia do que poderá ser?
-- Bem, o que despoletou tudo isto, foi terem identificado Cabelos de Fogo no Passo de Ziz...
-- Então sempre tem que ver com ela?
-- Sem dúvida! Mas o quê é que não estou agora a ver...
Apressaram o passo, queriam chegar a um eremita qualquer antes de encontrar alguém no caminho e o pior que podiam encontrar era soldados dos Senhores do Eixo para os massacrarem de perguntas.

A certa altura viram um carreiro que levava a uma casinha isolada. Dirigiram-se para lá, Godo na frente, ao chegar perto gritou:
-- Está alguém?
-- Depende que ‘alguém’ procura garboso senhor...
Godo olhou em volta mas não viu ninguém, apenas um grande gato amarelo (mais laranja, que amarelo) que o fitava com uma expressão curiosa do parapeito da janela da casa.
O Mestre olhou também em volta e não viu ninguém e encolheu os ombros para Godo.
Godo olhou de novo para o gato e franziu o sobrolho.
-- Somos peregrinos e procuramos um eremita... – disse Godo a olhar para o gato.
-- Vejo que sois perspicaz senhor... Sou Sir Galimodo... e vós sóis? – o gato tinha-se posto nas quatro patas olhando ostensivamente para ele.
Godo deu uma enorme gargalhada.
-- Helmut não vai gostar disto... – murmurou.
-- O gato fala Godo? – perguntou perplexo o Mestre.
-- Eu diria que sim, Mestre. – sorriu Godo de orelha a orelha.
O Mestre aproximou-se do gato e perguntou-lhe:
-- Sabes onde podemos encontrar um eremita?
-- Claro que sei senhor. Que eremita procura?
O Mestre sorriu:
-- Tens razão Godo, Helmut não vai gostar...
O gato perguntou-lhes:
-- Quem é esse Helmut?
-- Um amigo nosso... – respondeu de pronto o Mestre – Queríamos um eremita que nos pudesse ajudar na nossa jornada. Procuramos os passos de Memeth, o egípcio.
-- Pois eu não sei nada de egípcios... Mas talvez o meu amigo eremita que mora nesta casa vos possa ajudar... Afinal é um eremita! – disse Sir Galimodo, o gato.
-- Será que nos podes fazer o favor de o ir chamar? – pediu o Mestre.
-- Baghh! Como sóis simpáticos até vos faço esse jeito... Mas vede a má educação, uns borra-botas da soldadesca dos Senhores lá debaixo da grande planície de Dura, não só ao ouvir-me falar, disseram que eu era obra do demónio, como me quiseram matar! Vivemos tempos estranhos senhores...
Godo e o Mestre sorriram um para o outro.
-- Deveras Sir Galimodo... – disse Godo – Deveras!
-- E sabem o pior? Não há respeito, nenhum respeito!
-- Então? – quis saber o Mestre.
-- Pois nem queirais saber bom senhor! Questionaram rudemente o bom homem que aqui vive, eremita há 30 anos! Nunca teve nenhum problema e aparecem esses animais... E não perguntam pela saúde, nem pelo futuro, nem pela prosperidade...
-- Perguntaram o quê, Sir? – interrompeu o Mestre com uma pontinha de ironia no ‘Sir’.
-- Perguntaram se tinham visto uns viajantes, entre os quais vinha uma ruiva! Ora eu sou ruivo, não é? Mesmo que tivesse visto não lhes dizia! Pelo menos, a gente com tão maus modos! Valha-me Deus! Não sereis por acaso vós os viajantes que procuravam?
-- Nao sou ruivo e Godo é careca como vês... – respondeu o Mestre.
-- Ora... – sorriu o gato – Talvez cautelosamente os tenhais deixado para trás...
-- E achais que isso agora é importante? Quer dizer... Se formos ou não esses tais viajantes procurados, isso aproxima-nos ou afasta-nos do eremita que aqui vive?
O gato lambei uma das patas como se o tempo não lhe fizesse pressa e depois respondeu:
-- Pois, tendes razão... Que importa isso... Mas geralmente gosto de estar bem informado, mesmo que seja só pra eu saber...
-- Nunca ouviste dizer que ‘A curiosidade matou o gato’? – perguntou Godo.
O gato olhou-o nos olhos com um ar de desafio.
-- Nâo... antes a minha curiosidade tem-me mantido vivo!
-- Bom, Sir Galimodo, é esse o seu nome? – perguntou o Mestre.
-- Sim caro senhor, é mesmo o meu nome...
-- E essa coisa de ‘Sir’? – perguntou o Godo.
-- Uma longa história... Uma longa história... mas creio que pretendíeis falar com o eremita que aqui mora...
-- Qual é o nome do eremita Sir? – perguntou o Mestre.
-- Ludovico.
-- Luduvico? – repetiu Godo.
-- Sim senhor, sois surdo? Ou costumais não perceber bem à primeira?
O gato Sir Galimodo, saltou do parapeito e correu até ao limite do campo cultivado. Godo e o Mestre ficaram quietos pensando que o gato fugia deles, mas ele parou na orla da floresta e gritou-lhes:
-- Ides ficar aí embasbacados ou seguir-me-eis até ao Mestre Ludovico?
Godo e o Mestre olharam-se e decidiram seguir o gato. Íam atentos, enquanto Sir Galimodo saltitava aqui e ali. Chegaram junto de um grande penedo na floresta que o gato rodeou. Godo trepou o penedo e o Mestre contornou-o seguindo o gato.
Quando o Mestre contornou o pedregulho enorme encontrou um homem de compridas barbas brancas que parecia apanhar qualquer coisa numa das fendas do penedo mergulhando inteiramente numa delas, o seu braço.
O Mestre fez uma vénia e cumprimentou:
-- Bons dias, Mestre Ludovico...
O Mestre Ludovico olhou-o e continuou com o braço mergulhado no penedo tentando agarrar algo que lhe escapava. O Mestre Ludovico ao ver Ratapone, sorriu-lhe mas não deixou de fazer o que estava a fazer. Cautelosamente Ratapone foi-se aproximando. Entretanto Godo chegara ao alto do penedo e olhava para a cena cá em baixo. O gato Sir Galimodo, subiu também pôs-se ao seu lado.
-- Com que então decidiu atalhar caminho... e trepa bem, o senhor...
-- Gosto de exercício... – responde Godo com um sorriso. – Que faz Mestre Ludovico?
-- O Mestre Ludovico tem as suas manias... Quer apanhar uma serpente. Eu acho que não prestam para comer.
-- Ele come serpentes é?
-- Não! E gatos também não...
-- Então? Usa-as para caçar ratos?
Sir Galimodo pareceu vexado:
-- Esse é o meu trabalho! Mereço o que como!
-- Pois... Se não é assim, para que quer a serpente?
-- Quer domesticar uma serpente gigante.
-- Gigante?
-- Sim, aqui todas as serpentes são gigantes...
-- E não comem gatos?
-- Só os idiotas... e não apenas gatos! – respondeu Sir galimodo sarcástico.
-- Estou a ver!
-- Normalmente quando as vemos, já estamos na boca delas... – continuou o gato.
Ouviram um grito de triunfo lá embaixo.
-- Parece que o Mestre Ludovico conseguiu. – disse Godo.
Ambos desceram do alto do penedo.
O Mestre Ludovico segurava uma pequena serpente e parecia muito feliz.
-- Consegui apanhar uma desta danadinhas...
O Mestre Ratapone falou:
-- Sinto muito vir aqui perturbá-lo nos seus que fazeres, mas gostavamos que nos ajudasse por favor...
-- Não incomodam nada! Normalmente não recebo visitas... O que é pena! Se não fosse a companhia de Sir Galimodo isto até era entediante... Mas assim é melhor! Em pouco dias, foram os soldados dos Senhores do Eixo a visitarem-me e agora vós... Isto qualquer dia até é cosmopolita! – e riu-se. Depois continuou de um fôlego – Deixe-me só guardar aqui esta amiguinha esguia... Então vem até mim para quê? Em que posso ajudar-vos?
-- Procuramos os passos de Memeth,o egípcio. Não sei se o Mestre Ludovico alguma vez ouviu falar?...
-- Por acaso não! – respondeu de pronto. – Mas que interesse teu o dito Sr. Memeth?
-- Foi um sábio e sabemos que deixou escritos, procuramos encontrar esses escritos, ou pelo menos alguém que tenha ouvido falar dele. – esclareceu o Mestre.
-- Bom... Venham até minha casa! Abriremos uns livros antigos que por lá tenho e talvez encontremos esse Memeth.
Godo que havia descido apresentou-se:
-- O meu nome é Godo, e venho com Mestre Ratapone nesta jornada...
Ludovico meneou a cabeça como se não fosse importante e baixou-se para agarrar num pequeno cesto de vime fechado (como os antigos cestos de vime que os pescadores usavam) e meteu a serpente que segurava na sua mão e que se contorcia como se não aprecisasse muito o facto de estar a ser firmemenete agarrada.
-- Vá... Vai aqui pra dentro, minha safadinha...
-- Vejo que gosta de serpentes... – comentou o Mestre Ratapone.
-- Nã! Até nem gosto, ficam muito grandes e não se deixam domesticar! Mas hei-de conseguir...
-- Grandes? – perguntou Godo.
-- Já vejo que não são daqui! – disse o Mestre Ludovico. – Então os meus amigos não sabem que nesta zona das Montanhas Negras o que há mais é serpentes gigantes? Cobras de tamanho descomunal?
-- E são perigosas? – perguntou o Mestre.
-- Raramente! Só atacam quando têm fome.... De resto são mansas como vacas. – esclareceu o Mestre Ludovico.
-- E vivem em cavernas? – perguntou Godo.
-- Sim... porquê?
Godo e o Mestre olharam-se nos olhos e estampado neles estava um súbito medo.
-- Meu Deus! – exclamou o Mestre, lembrando-se de mim, de Helmut e de Cabelos de Fogo.

17 maio 2006


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O Ovo de Rá - 12ª parte


A fama das Montanhas Negras


Decidi regressar para junto de Cabelos de Fogo. Abraçá-la, ser a sua concha, a sua protecção, mesmo que não fosse física.
Godo sorriu-me:
-- Vai... Eu fico de vigia... A noite está agradável.
Helmut talvez para eu não ficar com remorsos disse:
-- Já que ele se oferece para ficar de vigia, vou ver se arranjo alguma coisa para o pequeno-almoço...Vou caçar!
Deitei-me junto a Cabelos de Fogo, depois de espevitar a fogueira com uns paus. Ainda tive tempo de olhar a sua face serena e sorridente à luz bruxeleante da fogueira. Era bela. A minha cabeça deitada num saco de feijão a servir de almofada, não conseguia repousar. Pensava no amor, na vida, em Cabelos de Fogo, em mim no meio de tudo isso. Era demais pra suportar e acabei mesmo no cansaço do pensar, por adormecer.

E foi manhã.
Cabelos de Fogo tinha a minha cabeça nas suas pernas, estas a fazer de travesseiro. Oh suave travesseiro! Ía pra me levantar mas ela com a sua mão na minha testa forçou-me a manter a cabeça nas suas pernas. (Não foi preciso forçar muito!)
-- Gosto de te olhar assim... – sorria.
Sorri, mas as palavras recusaram-se-me a sair.
-- Onde arranjaste esse nome?
-- Qual nome?
-- O teu...
-- Não arranjei, os meus pais deram-mo...
-- Pensei que fosse uma alcunha, é nome de mulher, não é?
-- Não sei... Achas que é?
Ela sorriu-me.
-- Fica-te bem... – disse ela tirando-me o cabelo da testa num gesto carinhoso.

O Mestre Ratapone quebrou o idílico momento:
-- Venham comer qualquer coisa... O Helmut trouxe codornizes... E o Godo já as assou.
-- Temos de dividir esta tarefa de arranjar mantimentos... – começou Helmut – Começo a ficar cansado de andar atrás de lebres e codornizes, e para mais isto aqui é sempre a subir e a descer, ía dando um trambolhão...
-- Mas as codornizes, não é neste terreno Helmut... – observou Godo.
-- Pois não... – fez uma longa pausa – Fui até ao sítio do planalto onde tivemos a batalha com os Gulats, e querem saber uma coisa curiosa?
-- Diz... – incentivou o Mestre.
-- As carcaças das águias que tombamos não estavam lá! Nem penas. Nada! Não acham estranho?
O Mestre Ratapone olhou para Godo a reflectir e depois meio em surdina comentou:
-- De facto...
E Godo pareceu adivinhar os pensamentos do Mestre e expressou-os:
-- Não devem ter sido os Senhores do Eixo, estavam por demais preocupados em apanhar-nos, não íam perder tempo a arrastar as carcaças fosse para onde fosse. Podiam ter sido outros Gulats, mas não os sentimos, nem mesmo Helmut com o seu faro apurado...
-- Talvez tivessem vindo a voar alto... – sugeriu Helmut.
Foi a vez de Cabelos de Fogo comentar:
-- Os Gulats não enterram os mortos em combate! Têm vergonha deles, acham que os que morrem não prestam, são fracos.
-- Ou há um factor que desconhecemos... – acrescentou Godo – Por alguma razão as Montanhas Negras não têm boa fama.
-- Bem... – disse o Mestre resumindo tudo – Temos de contactar os eremitas, para ver se algum deles nos pode indicar o caminho de Memeth...
-- De quem? – perguntou Cabelos de Fogo.
O Mestre não deixou que ninguém respondesse e rapidamente disse:
-- Procuramos um sábio, chamado Memeth, que veio do longínquo egipto para estas paragens e algures nas Montanhas Negras ou mais longe, não sei, deixou importantes documentos que busco.
Cabelos de Fogo não me pareceu totalmente convencida, mas não disse nada e o Mestre concluiu:
-- Esta caverna parece relativamente segura. Helmut e vocês os dois – (designou-nos a mim e a Cabelos de Fogo) – ficam aqui cuidando das nossas provisões de rectaguarda e eu e Godo vamos consultar os eremitas.
-- Eu fico também? – perguntou Helmut, e depois com o seu risinho de hiena acrescentou – Mas assim os pombinhos não vão ter privacidade!
Apeteceu-me arremessar-lhe com todos os ossos da codorniz que estava a papar, mas ele ainda ía lucrar e lancei-lhe apenas um olhar furibundo que ainda o fez rir mais.
Cabelos de Fogo sorriu, mas não disse nada. Achei que ela até achava piada às graças do Helmut!

14 maio 2006

O Ovo de Rá - 11ª parte


A noite cheira bem


Quando acordei ainda não era manhã, nem madrugada. Cabelos de Fogo aninhara-se junto a mim, com a face virada para a fogueira, agora apenas com brasas meio acesas. Godo e Helmut não estavam.
Acordei excitado e com uma forte vontade de verter águas. Senti-me embaraçado, mas Cabelos de Fogo dormia, tranquila e tanto quanto pude perceber, feliz. Havia um sorriso discreto na sua face, como se estivesse a sonhar e o sonho fosse bom.
Ela encostara-se a mim, como se eu fosse a sua concha. E ao pensar nisso ocorreu-me que pudesse estar dentro de mim, que ela fosse o meu miolo, o meu mais íntimo. Porquê então sentir-me mal por estar excitado? Não era verdade que a amava? E que esse amor a desejava? Depois ocorreu-me que estava a ser pateta. Como podia uma mulher corajosa e desenrascada como ela, gostar de um rapaz como eu?
E pensei que talvez não fosse assim tão pateta. Não procuramos ser corajosos e desenrascados, isso às vezes é mais fruto das circunstâncias, que nos obrigam a sê-lo. E o amor? Todos procuramos o amor. Sabemos que ele é, depois de tudo o mais, o bálsamo que nos cura as feridas. O amor abafa os nosso medos, dá-nos a coragem que não temos. O amor faz-nos maiores do que realmente somos. O amor pode ser maior do que a vida, porque por ele, nos dispomos a morrer por quem amamos!
Não seria isso que faltava a Cabelos de Fogo? O amor? E isso eu sabia que podia dar-lhe até me doer o peito.
Levantei-me o mais suave que pude e dirigi-me à abertura da caverna onde estavamos. O Mestre Ratapone ainda dormia no seu canto, de costas para a fogueira. Saí.

Quando saí ouvi a voz de Godo quase num sussurro:
-- Também não consegues dormir?
Não consegui ver de onde me falava, mas depois de tentar habituar os olhos á penumbra, vi-o a ele e a Helmut em cima de um penedo bem próximo, mas de tal maneira postados que era difícil enxergá-los.
-- Não tanto isso... Venho verter águas...
Foi a vez de Helmut falar:
-- Então vira à tua esquerda, não quero que me estragues o faro...
Helmut referia-se ao facto de que não queria que o cheiro da minha urina lhe limitasse o olfacto. Afinal ainda éramos perseguidos e não queríamos ser pêgos de surpresa.
Assim fiz e depois voltei e perguntei:
-- E vocês decidiram os dois fazer vigia ou não tem sono?
-- As duas coisas. – disse Godo.
-- O que vos tira o sono?
-- Estive a pensar... – começou Godo – No que disse o Helmut e na história da nossa amiga...
-- E... – incentivei.
-- Concluímos que somos todos solitários há procura de alguém a quem pertencer.
-- Como assim Godo?
-- Vê bem, eu fui escravo e depois que o Mestre me libertou, não tinha para onde ir. Nem família, nem aldeia, nada. O único lugar onde sabia pertencer era à casa do Mestre, era esse o meu lar. A única pessoa que me era mais próxima era o Mestre... Por isso, para onde ir? Fiquei.
Godo calou-se e o silêncio da noite invadiu a suas palavras.
-- E tu Helmut? – perguntei.
-- Estava cansado de ser solitário... – respondeu ele, numa voz baixa e pausada – Não há muitas alcateias com lobos que falem!
Sorri ao pensar nisso, mas ao tomar a profundidade da afirmação o sorriso foi mais pesado de suportar. Helmut continuou:
-- Para dizer a verdade... – e Helmut pareceu respirar fundo como um suspiro, como se fosse finalmente libertar-se de um fardo – Acho que pisei naquela maldita armadilha de propósito... Estava farto! Mas depois e felizmente o Mestre salvou-me e não foi apenas a vida... Acho que foi também o sentido dela, ou coisa parecida.
Depois também Helmut se calou e deixou aquele silêncio da noite invadir tudo. Tenho a certeza que todos pensavamos sobre o sentido das nossas vidas, sobre o acaso, sobre as nossas vontades e desejos.
Depois Helmut perguntou-me:
-- E tu Maia, também tens essa sensação de solidão?
Sem quase pensar respondi:
-- Tenho.
-- Era o que eu desconfiava... – comentou Helmut.
-- E qual é a tua solidão? Aquela de que queres fugir?
-- Não sei bem... Os meus pais entregaram-me ao Mestre. Acho que tenho saudades deles, de quando era apenas menino e brincava. Quando o mundo parecia andar à minha volta e tudo era novidade... Não sei bem. Agora, acho que tenho medo de ficar só. É como se tivesse perdido os meus pais e sentisse que não pertenço a ninguém.
Helmut interviu:
-- Acho que Cabelos de Fogo sente o mesmo...
-- Tem todo o sentido que sinta. – afirmou Godo.
Sorri ao pensar nisso e depois perguntei:
-- E o Mestre? Acham que o Mestre também se sente solitário?
-- Claro! – respondeu o Godo – Conheces-lhe alguma família? Mulher? Amante? E não achas que toda esta viagem em busca de um ovo que nem sequer temos a certeza que exista, é apenas uma maneira de fintar essa solidão?
E juntei-me a eles em cima do penedo onde estavam, sentei-me e deixamos que o silêncio da noite nos invadisse e digeríssemos as nossas solidões.
Foi Helmut quem quebrou o silêncio.
-- Agora está melhor. Já não estamos sós. Somos pertença uns dos outros. Uma alcateia, por mais estranha que seja... -- e depois de uma pausa mais longa, concluiu -- A noite cheira bem...
Olhamos nos olhos uns dos outros e na noite escura havia neles um brilho que não podia ser apagado. Abraçamo-nos os três e pensamos nos outros dois, lá a dormir ao calor da fogueira, dentro da caverna.

08 maio 2006

O Ovo de Rá - 10ª parte


‘A Mulher que Cura’


Depois de devorarmos a lebre que Helmut trouxera, ficamos à volta da fogueira. E ardendo de curiosidade ousei perguntar apesar de estarmos todos estafados com os acontecimentos do dia:
-- Cabelos de Fogo, como conseguiste escapar até agora dos Senhores do Eixo?
Ela sorriu-me. Tenho a certeza que se tivesse sido outro de nós a perguntar, ela teria recusado com a desculpa que estava cansada, mas porque fui eu, ela começou a contar:
-- Embrulhei tudo o que tinha roubado ao porco do Senhor Dogon e fugi o mais que pude. Com dezasseis anos não tinha muito a noção de para onde fugir, apenas sabia que tinha de me afastar o mais possível...
Ela parou para retomar fôlego porque dissera tudo aquilo de uma só vez, como se lhe fosse difícil fazer aquele retrocesso no tempo, lembrar o que passara, mas por mim, -- penso eu, -- ela fez o esforço de continuar:
-- Fugi na direcção da floresta. Diziam que havia bandidos por lá e as tropas do Senhor Dogon não gostavam muito de por lá passar. Por isso, achei que seria uma boa opção... É verdade que os bandidos podiam assaltar-me a mim ou até fazer-me pior. A diferença entre alguns bandidos e o Senhor Dogon, não era realmente muito grande... Mas nem parei para refelectir nisso e acho que tive sorte...
Interrompi:
-- A sorte favorece os audazes...
Ela sorriu ao perceber o elogio e continuou como se falasse apenas para mim:
-- Bem, por um tempo fui no caminho, mas depois pensei que se continuasse nele, teria mais possibilidades de ser apanhada se o os soldados me perseguissem. E nisso estava certa! Por isso meti-me ao acaso a vaguear na floresta agarrando os meus pertences! – ela riu. Mas era um riso carregado de dor, como se dissesse "que valem pertences, se é a vida o nosso bem mais valioso?" depois continuou:
-- Andei nem sei bem quanto tempo a vaguear pela floresta, dormindo num galho de árvore ou nalguma toca abandonada. Não sei se foram três dias, se uma semana, ou mais! Bebi água de poças, comi frutos silvestres, e algumas vezes apenas erva como se fosse uma ovelha! Ao fim desses dias, senti cheiro a fumo e deixei-me levar por esse cheiro...
Aqui Helmut arrebitou uma orelha e comentou:
-- Tens um bom nariz...
Ela fez de conta que Helmut não dissera nada.
-- Fui ter a uma pequena clareira onde havia uma casa pequena, muito velha, pois no telhado de colmo cresciam cogumelos e algumas ervas. Antes de me chegar perto, escondi a minha trouxa numa árvore, num buraco que achei no tronco. Bati à porta e abriu uma mulher idosa de compridos cabelos brancos em desalinho. "Que queres de mim moça?" perguntou-me ela. "Perdi-me", disse eu "dê-me água para beber, tenho sede, por favor!" Ela agarrou-me pelo braço para dentro de casa e sentou-me à mesa e sem dizer uma palavra, colocou em frente a mim, algumas frutas, pão, um naco de carne fumada e uma bebida. Devorei tudo em três tempos, tamanha era a minha fome! A mulher era conhecida como bruxa ou feiticeira. Mas não era nada disso! Ela conhecia era o poder das plantas e das pedras, compreendia a natureza das coisas e usava isso para curar. Na natureza está tudo o que necessitamos. O Criador colocou isso lá para nós. Para que as nossas vidas não sejam tão sofridas...
O Mestre piguerreou parecendo querer limpar a garganta. Para ele, obcecado com o Ovo de Rá a única criação que lhe devia tocar o coração era a que podia encontrar no dito cujo.
-- Pessoas que sabiam disso, vinham procurá-la. Em especial os do povo Torresmo. Vinham de longe da sua aldeia situada na cratera de um vulcão extinto, a norte daqui, bem a norte... Eles chamavam-na ‘A Mulher-que-Cura’. E era o melhor título que lhe podiam dar! Ela deixou-me ficar com ela. Era a sua criada, depois fui a sua aprendiz e por fim a sua filha. E um dia vieram Gulats, traziam um deles doente..
Ela interroupeu-se e desviou de mim o seu olhar pela primeira vez, e olhou para o fogo. Mas o fogo que vi nos olhos dela era mais intenso.
-- Esses cães malditos... Mercenários paridos no inferno... Ela curou-o com as suas poções, e a paga que recebeu desses cães, foi que me denunciaram aos Senhores do Eixo. Sim, eles perceberam quem eu era... O meu cabelo...
E as lágrimas começaram a cair-lhe pela cara abaixo. Não resisti e pus o meu braço por cima dos seus ombros mas não disse nada. Ela deixou-se estar enconstada a mim e continuou o seu relato, como se ao fazê-lo conseguisse expurgar pelo menos parte da dor que a recordação continha:
-- Um dia... Os Senhores do Eixo vieram... Freda, era assim que ela se chamava, tinha um corvo que sabia contar, pelo menos até seis... – e ela deu um riso nervoso – Ele costumava alertar-nos sempre, antes da chegada de alguém e um dia chegou muito alvoraçado e Freda perguntou-lhe: " Que se passsa, Bil?" (Bil, era o nome do corvo) E ele deu o seu grito de alarme habitual. "Quantos são?" perguntou ela. E Bil contou seis, e depois mais seis e mais seis... Eram os soldados dos Senhores do Eixo à minha procura. Ela percebeu de imediato e disse-me: "Tens de partir Silvana! Também já te ensinei tudo o que te podia ensinar, talvez esta seja uma boa ocasião para partir!" Estive quatro anos com ela. Não sei se ela sabia quem eu era. Talvez soubesse, mas nunca me perguntou nada. Fugi, no buraco da árvore onde deixara a minha trouxa tirei a aliança de Dogon e fugi em direcção ao povo Torresmo...
-- Não voltaste a ver Freda? – perguntou Godo que acompanhara atentamente a história.
-- Uns dias depois, voltei com o povo Torresmo... – ela respirou fundo num suspiro de dor que me meteu dó – A casa tinha ardido... e o cadáver de Freda nem sequer fora enterrado! Presumo que a tivessem torturado para saber onde eu estava e como ela não disse nada, mataram-na. Bil estava ao lado dela, afastando as raposas, os abutres...
Ela voltou a chorar e deixámos que chorasse. Eu abracei-a com mais força. Ela ganhou alento e continuou:
-- Enterramos Freda, junto à árvore onde tenho escondido o ouro do porco Dogon...
Godo falou, porque eu também não conseguia dizer nada e chorava porque o que lhe doía, passara a doer também a mim.
-- Lamento... – disse Godo.
-- Lamento também, mas e depois? – perguntou o Mestre agora também ele profundamente curioso.
Ela olhou para mim e quando viu as minhas lágrimas, limpou-mas com a sua mão e beijou-me a face:
-- Não chores... por favor... – pediu-me ela num sussurro.
-- Não consigo... – disse-lhe eu baixinho.
-- Queres que pare? – pergntou-me.
-- Não! Continua... faz-te bem partilhar essa dor...
Ela beijou-me na face novamente e dizendo-me "Obrigado" continuou:
-- O povo Torrresmo acolheu-me. Com o ouro que lhes dei da aliança, fizeram-me uma casa na sua aldeia e tornei-me entre eles como ‘A Mulher que Cura’. Acho que eles ficaram mais contentes do que eu. O povo Torresmo é um povo rude, habituado às dificuldades. Afinal sobrevivem numa região agreste! Eles são lenhadores e forjadores. Trabalham o ferro e o cobre como ninguém mais na Terra! Aprendi com eles os segredos do metal e a manejar o arco, a espada e o machado.
O orgulho de Cabelos de Fogo pelo povo Torresmo despontava nas suas palavras.
-- Infelizmente, os Senhores do Eixo e os Gulats tornaram-se por minha causa, uma fonte de problemas para os Torresmos. Passados quatro anos depois da morte de Freda, os Senhores do Eixo vieram até à aldeia dos Torresmos junto à passagem para dentro da caldeira do velho vulcão. Mas Hamat, o chefe Torresmo, percebeu o que eles queriam e não lhes deu autorização. Intimou-os a retornar à planície de Dura ou consideraria a presença de tropas dos Senhores do Eixo no seu território, como uma provocação e uma declaração de guerra. Os Senhores do Eixo podem ser muito nobres, mas a sua ganância é superior à sua nobreza e decidiram atacar a aldeia Torresmo. Os bravos Torresmos conhecedores do terreno levaram a melhor e rechaçaram as tropas dos Senhores do Eixo com uma razia assustadora. Mas lamento que alguns homens bons, tenham morrido. Em Torresmo, algumas mulheres ficaram viúvas por minha causa...
Uma sombra passou no rosto de Cabelos de Fogo.
-- Os Senhores do Eixo não desistiram, não! Contrataram de novo os Gulats! E de novo se abateu a desgraça sobre a aldeia... Depois de mais viúvas, não podia ficar, tinha de partir. Acreditam que o nobre e vcorajoso povo Torresmo, nunca pensou sequer em entregar-me? Acreditam que apesar das baixas e da dor, nem uma única das viúvas apontou o seu dedo contra mim? Acreditam que nunca o chefe da aldeia, o nobre Hamat, me pediu para ir embora?
Cabelos de Fogo não foi capaz de continuar mais, os soluços interromperam-lhe a narrativa e chorou, chorou.
O Mestre falou então:
-- Por hoje basta. Vamos tentar dormir...
Godo espevitou a fogueira.
-- Helmut... O primeiro turno de vigia é teu... O segundo faço eu. O terceiro é do Mestre. E vamos deixar que aqueles dois durmam, está bem?
Helmut levantou-se e foi pra fora. Antes de sair ainda disse:
-- Está. Eu faço o primeiro turno... Godo...
-- Sim?
-- Nunca mais nos vamos separar pois não?
Godo ficou pensativo e sorriu para Helmut:
-- Acho que não, porquê?
E já de saída pelo buraco de acesso à caverna, disse:
-- Detestaria voltar a ser um lobo solitário...

05 maio 2006

O Ovo de Rá - 9ª parte


O Anel de Dogon


Voltamos a meter-nos em marcha e o Mestre pediu:
-- Helmut, tenta achar um caverna ou um lugar onde possamos passar a noite sem sobressaltos, por favor.
Helmut disse-me até já e pôs-se a trotar em direcção às encostas da montanha que ficavam a norte de nós.
Depois dirigiu-se a Godo:
-- Acabou-se a pólvora e só temos feijões secos para comer... Espero que o Helmut não se importe de nos arranjar uma lebre...
Godo acrescentou:
-- Antes de partir para as montanhas devíamos encher os odres de água...
-- Tens razão! Esta coisa de ser peregrino implica muita tralha às costas... Felizmente nas Montanhas Negras terão mais dificuldade em achar-nos.
Não percebi bem porquê, pois afinal, os Senhores do Eixo, da planície de Dura sabiam exactamente onde estavamos e podiam mandar tropa bater à porta de todos os eremitas conhecidos das Montanhas Negras. Por isso decidi falar:
-- Mestre, será mais difícil porquê?
-- Temos mais lugares onde nos esconder...
-- Desculpai-me, mas acho que não, basta aos Senhores do Eixo postar um soldado à porta de cada eremita e lá acabarão por nos achar!
O Mestre riu e tenho a certeza que se não estivesse tão cansado, me tinha mandado uma bordoada na cabeça com o seu bastão, como aliás tinha o mau hábito de fazer.
-- Moço, mesmo que se lembrassem de fazer isso, qual era o soldado que se candidatava a enfrentar-nos hein? Depois do susto de morte que devem ter apanhado, com os foguetes no barco, podes crer que basta gritar: Buh! Pra desatarem a fugir de nós!
Aquilo não me convenceu, mas antes que apanhasse com o bastão dele na cabeça em frente a Cabelos de Fogo, deixei passar.
Ela que continuava a apoiar-se em mim, sorriu-me.
Godo aproximou-se e sussurrou-me:
-- O que o Mestre quer dizer, é que até os Senhores do Eixo têm medo das Montanhas Negras...
Fiquei a pensar naquilo. Quer dizer, afinal aquela refregazita no Passo de Ziz, os Gulats, eram apenas a entrada, o aperitivo? Fiquei preocupado com o que viria a seguir.
Entretanto apareceu Helmut trotando na nossa direcção:
-- Encontrei uma gruta de urso... Parece-me abandonada!
-- É bom que não pareça apenas... – comentou Godo.
-- Mostra-nos! – pediu o Mestre e seguimos Helmut.
-- Um momento... – disse Godo dirigindo-se ao rio que passava perto – vou encher os odres de água...
Fui com ele e ajudei-o a trazê-los. Depois então fomos todos atrás de Helmut.
A entrada era estreita e tinhamos de entrar de gatas. Fiquei a imaginar ter de sair dali à pressa ou se alguém se lembrasse de rolar um penedo até à entrada. A caverna não era bem fechada, pois de um dos lados e quase até ao chão havia uma fenda que abria ligeiramente no cimo. Godo olhou para ela e comentou:
-- Boa abertura, podemos fazer a fogueira lá dentro e mantermo-nos quentes, sem sufocar com o fumo... Boa descoberta Helmut!
O Helmut não disse nada limitou-se a abanar a cauda em sinal de agradecimento.
-- Helmut, seria pedir-te muito que caçasses uma lebrezita?
-- Puf! – desdenhou Helmut – Com o alarido de hoje, até as ratazanas se esconderam... Mas vou ver... – e saiu a caçar.
-- Hoje só pode ser lebre, mas vou por os feijões de molho, pode ser que o pequeno-almoço possa ser mais substancial! – disse Godo.
-- Boa ideia. – anuiu o Mestre.
Procuramos ajeitar-nos o melhor que podíamos no chão da caverna. Godo continuou a observar tudo com cuidadosa atenção depois que pôs os feijões a demolhar numa pequena panela que trazíamos no saco.
Helmut apareceu uma meia-hora mais tarde com uma lebre. Godo já fizera uma fogueira e o Mestre até aproveitara para dormitar. Rapidamente Godo esfolou e ananhou o bicho e o pôs a assar num espeto improvisado.
Estavamos todos cansados para termos vontade de falar e devoramos tudo, só Helmut não comeu.
-- Não comes Helmut?
-- É pouco para vocês... – e depois de uma longa pausa acrescentou: -- E demorei mais porque estive a saborear uma galinhola...
Godo riu.
-- Sò tu! Por isso demoraste tanto! Normalmente és mais rápido! Eu devia ter adivinhado...
Helmut piscou-me o olho.
Depois mais retemperados, Cabelos de Fogo perguntou:
-- Porque raio oferecem 500 moedas de prata pela minha cabeça? Afinal só matei o porco do Dogon, que nem sequer era querido entre os Senhores do Eixo, nem popular entre o seu próprio domínio!
-- Pois não... – respondeu o Mestre – Mas tu não mataste apenas o Senhor Dogon, pois não?
-- Como assim?
Foi Godo quem acrescentou:
-- Fizeste-lhe o favor de o despojar dos seus ornamentos...
-- E é por isso? Será que valem assim tanto? Um colar e menos de meia-dúzia de anéis? – espantou-se Cabelos de Fogo.
-- Se calhar até valem mais! – exclamou o Mestre – Sabes que depois que Dogon morreu, todos os pretendentes ao trono dele apenas podem reger, mas nenhum pode promulgar nenhum édito, porque será?
-- Sei lá! Não penso muito nisso... Quero é que aquela cáfila de bastardos se mate entre si, que parece que é a única coisa que tem feito desde que Dogon morreu!
-- Pois, pois... É que os éditos tem de levar o selo, feito pelo sinete do rei...
-- E qual é o problema? – perguntou Cabelos de Fogo. – Pegam no sinete e está a andar!
-- Só pode haver um sinete para marcar o selo do Rei...
-- Está bem, e então?
-- E então é a menina que tem o anel com o sinete de Dogon! – riu o Godo.
-- Se aparecesses com um exército no castelo de Dogon e reclamasses ser a herdeira do Senhor Dogon, tinhas todas as possibilidades de colocares a tua descendência no trono!

Foi então que percebi o interesse dos Senhores do Eixo, da planície de Dura em Cabelos de Fogo. Estavam-se todos nas tintas para a sorte de Dogon, o que os motivava não era o desejo de vingar a morte de um dos seus pares, mas antes, a possibilidade de um deles, qualquer deles, aumentar os seus domínios proclamando-se o legítimo herdeiro do Senhor de Dogon.
-- A menina ainda tem esse anel? – perguntou o Mestre.
-- Sim, escondi isso tudo num lugar que só eu sei. Sabia que o que roubara me podia tornar uma presa apetecível da ganância alheia e já tinha problemas que chegassem. Por outro lado, estava a pensar no futuro... Apenas amassei a aliança do porco Dogon e a dei em paga de protecção e comida junto do povo Torresmo...
-- Muito bem... – anuiu o Mestre. – Menina inteligente...
-- Ora vejam só! – disse eu sorrindo para ela – A Cabelos de Fogo, a portadora do anel do Senhor Dogon, ainda vai virar princesa!
Ela sorriu-me e abanou a cabeça:
-- E é por ele que tenho sido perseguida a minha vida toda? Raios parta o anel! Dogon deve estar farto de rir às gargalhadas no seu maldito túmulo! Maldito Anel de Dogon!

04 maio 2006

O Ovo de Rá - 8ª parte


Ajuste de Contas




Deixaramos a margem e o canavial e caminhamos até encontrar o caminho que vinha do Passo de Ziz até às Montanahs Negras onde moravam os eremitas. Esse caminho devia ser também o que os nossos perseguidores tomariam, mal percebessem que havíamos abandonado o barco.
-- Aproximam-se... – pressentiu o ouvido de Helmut.
Mas mal havia dito estas palavras e enquanto ainda fazíamos um esforço por subir a correr o caminho íngreme, ouvimos uns estrondos e uns silvos. Eram os foguetes do Mestre que com os rastilhos colocados espaçadamente começavam a descolar do barco!
Mais tarde soube que os foguetes tinham estabelecido o maior dos pânicos entre os perseguidores. Os cavalos e os cavaleiros nunca na vida tinham visto tal espectáculo, nem presenciado fénomeno tão fantástico. Dizem que alguns se ajoelharam, pensando que era o fim do mundo, e que seria nesse dia que prestariam contas ao seu Criador. Os cavalos espantaram-se e atiraram ao chão os cavaleiros, sendo que alguns foram arrastados por terem ficado presos nos estribos. Os soldados de infantaria fugiram de volta ao Passo de Ziz procurando refúgio nas fortalezas e alguns arqueiros corajosos, dispararam as suas setas em direcção aos céus e aos riscos dos foguetes.
Mas foi uma bela festa! Com debandada geral e tudo!
Helmut informou:
-- Grande confusão, acho que estão a recuar... pelo menos a maioria!
Helmut pareceu denotar nas suas palavras algum alívio, mas de qualquer forma não abrandamos o passo até chegarmos à zona mais alta do caminho. Ao lado o rio caía numa cascata saltitando de desnível em desnível.
Foi então que Godo, que ainda não abrira a boca e ao prescrutar o horizonte percebeu algo de anormal no céu:
-- Olhem além por entre as escarpas do passo de Ziz... Que é aquilo?
Cabelos Cor de Fogo juntara-se a nós no alto e vi os seus olhos brilharem:
-- Escondam-se rápido! Em especial tu Helmut, põe-te debaixo de um penedo se for possível...
Helmut pareceu surpreso, mas rapidamente obedeceu.
-- O que é? – perguntei tentando fazer com que a minha voz denotasse mais calma do que a que na realidade sentia.
-- Gulats! – respondeu ela.
Godo pareceu perceber de imediato, olhando em volta um possível local de abrigo e resmungou:
-- Devia ter trazido uma cana...
O mestre não disse nada, mas encostou-se meio escondido atrás de um penedo alto e puxou da sua espada afiada do bastão de bambu.
-- Estes são pra mim! – pareceu rugir Cabelos Cor de Fogo.
-- Conheces os Gulats? – perguntou o Mestre.
Ela sorriu-lhe:
-- Quando fugi para o povo Torresmo, os Senhores do Eixo mandaram estes assassinos atrás de mim...
-- O que são Gulats? –perguntei eu, percebendo que se aproximavam uns pássaros de asas enormes que vinham na nossa direcção.
Godo com amabilidade arrastou-me até junto de Helmut ao mesmo tempo que ía explicando:
-- São mercenários vindos do nordeste da cordilheira que compõe as Montanhas Negras... Eles criam águias gigantes, que são montadas pelos mais pequenos e leves dos seus guerreiros... Onde aquelas águias põe as garras... já era! Percebes? Por isso não quero que saias daqui, aconteça o que acontecer! – As últimas palavras foram num tom tão firme que não admitiam contestação.
Senti-me insignificante. E pouco heróico. Para mim era perigoso e então para a Cabelos Cor de Fogo? O que ela iria pensar? Que não passava de um puto sem garra... Entristeci.
Helmut deve ter percebido e comentou:
-- Cada um deve fazer aquilo para que é dotado. A tua vez há-de chegar rapaz...
Godo entretanto voltara para junto de Cabelos Cor de Fogo.
-- Alguma ideia, para dar cabo deles?
-- Sim, eu e estas bestas temos contas a fazer...
Cabelos Cor de Fogo deitou-se de costas e meteu o arco nos pés depois esticando as pernas para o céu e segurando a corda com as mãos pediu a Godo:
-- Municia-me aí com as minha setas mais compridas e não me fujas!
Godo sorriu, ajoelhou-se junto a ela e meteu-lhe uma seta em posição no arco.
-- Não tenhas medo, confia em mim! – pediu Cabelos Cor de Fogo.
Ele sorriu:
-- Nunca fui de ter medo... E confio em ti!
Ela lembrou-se de que eram como os dedos da mão conforme dissera o Mestre, quando ela se juntou a eles.
As águias gigantes dos Gulats ensombraram o dia.
Ela sussurrava com o suor a escorrer-lhe pela testa e a molhar os seus cabelos, com a força que fazia para retesar o arco:
-- Mais um bocadinho... aproximem-se só mais um bocadinho...
Ela apontou para a ave que voava mais alto e na altura em que julgou apropriado largou a corda. Ouviu-se a seta silvar e antes que o Gulat manobrasse a águia para esta fugir da seta, talvez porque confiantemente se achasse fora do alcance do arco, esta penetrou no peito do animal na zona do pescoço e veio ainda trespassar o seu condutor. A ave ferida caiu em rodopio e ao fazê-lo bateu numa das que voavam mais abaixo o que perturbou a formação.
Cabelos Cor de Fogo fletiu as pernas e voltou a agarrar a corda do arco e entesá-lo esticando as pernas de novo. Godo meteu nova seta.
Largou, mas desta vez a seta silvou mas não acertou em nenhum dos Gulats.
Rapidamente Cabelos Cor de Fogo voltou a entesar o arco. As águias agora d etão próximo que estavam metiam medo e via-se que as garras estavam prontas a espetar-se no que pudessem apanhar. A mim, senti um nó na garganta e escondi-me de medo e impotência.
Uma das águis fazia um vôo picado em direcção a Cabelos Cor de Fogo e a Godo, vinda a favor do Sol para que não a pudessem ver, encadeados. Foi então que o Mestre manobou a sua espada e a fez cintilar nos olhos da águia gigante. O animal momentaneamente cego, calculou mal a distância e esbarrondou-se de encontra os penedos. O Mestre corajosamente saltou ao encontro da água e atacou o seu condutor eliminando-o com uma estocada rápida e saltando para a garupa da águia matou-a com uma estocada nas costas.
Entretanto restava um Gulat que manobrou a sua águia gigante na direcção do Sol. Cabelos Cor de Fogo já percebera a táctica e posicionara-se na direcção do Sol, mas desta vez o Gulat astuto apenas guinou sem tomar muita altura e mergulhou num vôo muito rápido.
Cabelos Cor de Fogo mal teve tempo de esticar as pernas já se abatia sobre ela o monstro alado com as garras prontas para a espetar. Na atrapalhação o tiro saiu incerto do arco e quando o animal erguia as asas com as patas esticadas para a frente na abordagem final, Godo com a sua presença de espírito, puxou Cabelos de Fogo e rebolou com ela até um pedrugulho grande.
A ave gigantesca levada pela inércia não conseguiu desviar a trajectória e meteu as garras no chão levantando uma nuvem de poeira, contudo sentiu uma picada forte e incomoda debaixo da asa. A seta de Cabelos de Fogo não fora fatal, mas alojara-se abaixo da articulação da asa, consumindo a ave em dor. Transviada esta bicou o Gulat que a montava abrindo-lhe o crâneo.
Cabelos de Fogo levantou-se trémula, erguei o arco e por entre o pó e atirou. Ouviu-se um baque de um corpo pesado a cair. A última das águias fora abatida.
Apareceu o Mestre que pressuroso incentivou:
-- Temos de nos por em marcha, os Senhores do Eixo virão verificar se a sua presa está por aqui...
Godo deu os parabéns a Cabelos Cor de Fogo e eu aproximei-me envergonhado.
Helmut comentou:
-- Olha se as galinhas tinham este tamanho!
Rimo-nos e pusemo-nos a caminho.
Aproximei-me de Cabelos Cor de Fogo e reparei que ela estava cansada. Peguei nas suas coisas e pû-las às minhas costas. Ela não disse nada, apenas me sorriu e depois aproximou-se e encostou-se a mim para que lhe servisse de apoio.
-- Estás ferida? – perguntei eu.
-- Cansada e nervosa... Obrigado por me deixares apoiar em ti. – sorriu-me ela.
Fiquei calado sem saber o que dizer, mas depois a custo:
-- Foste muito corajosa ao enfrentar os Gulats.
-- Já os conhecia. Tinha umas contas a ajustar...

03 maio 2006

O Ovo de Rá - 7ª parte


Vai ser uma festa!



Remámos para longe do passo de Ziz e das suas fortalezas decrépitas e dos seus soldados ganaciosos.
O Mestre Ratapone ordenou:
-- Força nesses ramos até verem um canavial!
Assim fizemos suando em bica de excitação e de esforço. Percebíamos que os soldados estacionados em Ziz seriam mobilizados na nossa perseguição. Quase era possível vê-los na urgência do momento a montar os cavalos trazidos à pressa para o centro das praças e fazê-los correr a galope ao longo das margens. Felizmente as margens não permitiriam grandes galopes, pois as arenosas eram bem escassas. A maioria era composta de arvoredo denso e calhaus o que lhes dificultaria imenso serem céleres na nossa perseguição. Mas mesmo assim, soldados a pé, bem treinados podiam colocar-nos ao alcance de um tiro de besta. E estou certo que desta vez vinham preparados para nos fazer parar com setas incendiárias.
Tínhamos de sair do barco tão cedo quanto fosse possível e embrenharmo-nos pelas encostas da montanha. O que ali ainda era má opção porque nos encontravamos dentro da garganta de Ziz e a poucos metros do rio erguiam-se altas escarpas de um lado e de outro. Lá mais para montante talvez pudessemos ter melhor terreno.
-- Godo! A estibordo... – indicou o Mestre Ratapone um grande canavial.
Remámos nessa direcção e ainda nem tinhamos acostado quando o Mestre mexeu no seu bastão de bambu donde surgiu novamente uma espada e de pronto cortou de um só golpe umas 20 canas!
Vi o olhar admirado de Cabelos Cor de Fogo, mas ela não disse nada e rapidamente ficou atenta às margens com o arco pronto a entrar em acção.
Apanhamos as canas e o Mestre começou a dar ordens:
-- Godo, prepara com os restos da vestimenta de Silvana uns ancoretes, mas que possam ser arrastados pela corrente... Tu Maia ajuda-me aqui...
Saímos do barco junto ao canavial. O Mestre continuou a cortar mais canas, depois cortou-as ao meio.
-- Agora sobe para o barco e monta uma estrutura assim... -- e exemplificou, fazendo assim uma especie de plano inclinado, com uma cana inteira entalhada no topo, onde se encaixava uma meia cana que ficava inclinada. – Tudo isso repetido por um e outro lado do barco...
Fiz uma espécie de cama de canas só que quebrada no meio. No meio o Mestre arronjou uma cana mais grossa cortada pelo meio no sentido do comprimento.
Cabelos de Fogo deitava um olhar esporádico mas cada vez mais admirado.
Godo acabou os ancoretes e amarrou-os nos suportes dos remos e tirou os remos que atirou prá margem.
-- Godo, -- pediu o Mestre – nessas canas fininhas amarra estes cartuchos...
Godo parecia saber exactamente o que fazer e amarrou os cartuchos às canas, mas antes pôs os cartuchos dentro de pedacinhos de cana que furou de um lado nas ligações dos nós, mesmo no meio. E depois cada um destes engenhs meteu nas meias-canas inclinadas que eu amarrara no barco.
Depois ele deu-me uns cordões esquesitos e mandou:
-- Onde o Godo pôs as canas com os cartuchos tu pões uma ponta deste cordão no buraquinho que ele fez no nó da cana e a outra ponta metes na cana comprida que está ao longo do barco, certo?
-- Certo...
Não resisti a perguntar:
-- Que cordão é este Mestre?
-- Rastilho...
-- Rastilho? Isto serve para quê? – perguntei mas mexi as mãos para fazer o trabalho.
-- Para deitar fogo aos cartuchos... Esse cordão está embebido em piche e pólvora...
-- Piche sei o que é. Serve para calefatar, mas pólvora? Que é isso?
-- Lembras-te da seta que Silvana disparou contra a fortaleza?
-- Sei...
-- Pois faz isso e ainda mais. – respondeu pacientemente o Mestre que metido na água até ao joelhos se atarefava a colocar cordão de rastilho pela cana do meio do barco e amarrá-lo a cada uma das pontas que depois ía ter aos cartuchos.
Depois de tudo pronto o Mestre verificou tudo mais uma vez e depois ordenou:
-- Empurrem o barco para o meio do rio...
Eu e Godo empurramos até ficarmos com água pelo peito e lentamente o barco sentiu a corrente e pôs-se a deslizar rio abaixo.
Ao longe muito ao longe Helmut ouviu o ruído dos perseguidores e disse:
-- Estão a cerca de um quilómetro de nós...
-- Vão ter uma surpresa... -- sorriu o Mestre. -- Mas temos de ir indo.
Cabelos Cor de Fogo descontraiu um pouco e perguntou:
-- O que era aquilo que fez no barco?
O Mestre sorriu-lhe:
-- Foguetes! Foguetes em plano inclinado que serão disparados de um e outro lado do barco em direcção às margens como se fossem setas de fogo! – E depois rindo – Vai ser uma festa!

02 maio 2006

O Ovo de Rá - 6ª parte


500 Moedas de Prata



O Passo de Ziz era uma garganta íngreme e alta por onde no fundo passava um rio, com uma largura pouco maior que um tiro de pedra, qualquer coisa como uns 50 metros. Era um rio muito calmo a maior parte do ano e só as chuvas fortes ou os degelos da Primavera o tornavam um pouco mais turbolento.
A pobrezinha da Cabelos de Fogo tinha vindo todo o caminho a dizer que o facto de a terem atado se traduziria mais tarde em ela vir a sofrer da coluna. Achei lamentavel que uma rapariga tão esbelta viesse a sofrer da coluna por tal motivo e sugeri a Mestre Ratapone que a desatasse apanhando com a sua cana de bambu que lhe fazia de bastão no cucuruto da cabeça junto com a reprimenda:
-- Aprende! Olha para a cara dela... Não a vês engelhada de esforço? E isso é o que esperam de uma velha! Não de uma rapariga! Aprende! As aparências são importantes, mesmo que não sejam o que desejas...
De facto aquela aparência da Cabelos de Fogo não era o que eu desejava de modo nenhum. E já começava também eu a desejar deixar para trás o Passo de Ziz, onde aliás ainda não tínhamos chegado.
E quando chegamos foi uma desilusão. O Passo de Ziz era guardado numa zona mais estreita do rio e da garganta por duas fortalezas decrépitas uma em cada uma das margens. Havia uma estreita zona tanto numa como noutra margem onde um barco fazia a travessia de um lado para o outro. O Mestre ao ver aquilo chamou Godo:
-- Godo, vamos ter problemas...
Godo anuiu com a cabeça. E o Mestre continuou:
-- Pensava que havia mais gente por aqui, mas vamos ser o foco de interesse de toda aquela gente. Vamos tentar ser rápidos, entrar no barco se for possível e subir o rio nele. Helmut... – chamou o Mestre.
-- Sim?
-- Helmut, não sei como vão reagir com a tua presença, mas o facto é que te vão notar...
-- Sou um desgraçado! Quando é que vão perceber que não sou um lobo mau? -- lamentou-se Helmut.
-- Bem, se isto der para o torto...
-- Eu não chegarei a velhinha! – praguejou Cabelos de Fogo. -- Desamarrem-me!
-- Calma! – disse o Mestre – Se formos atacados Godo, corta-te os cordões, fica descansada. Tens o teu arco no peito como te mandei?
-- Tenho!
-- Procura não matar muita gente se chegarmos a ter de lutar, está bem? Queremos que se convençam que somos peregrinos e vamos visitar os eremitas. Certo?
Todos anuimos mas ficamos nervosos, só com a perspectiva de pensar que podia haver luta, Afinal que podiam cinco contra duas fortalezas, mesmo que decrépitas?
Assim, lá nos fomos aproximando o mais discretamente que podíamos em direcção ao cais. O barqueiro, deve ter-nos visto e aproximou-se de imediato da margem por onde vínhamos e deve ter ficado esperançado em ganhar algumas moedas.
Entretanto os soldados dos Senhores do Eixo aproximaram-se do grupo, que era a única coisa que tinham para fazer além de enxotar as moscas. Um deles que devia ser o mais importante dirigiu-se ao Mestre Ratapone que liderava o séquito:
-- Ora muito bons dias aos caminhantes!
-- Bons dias, bom senhor... – respondeu amável e submisso o Mestre.
-- Então quem sóis e que fazeis por cá?
-- Somos uns humildes peregrinos senhor... E vamos a caminho dos eremitas nas Montanhas Negras, na busca de resposta às nossas inquietações.
Prepassou pelo soldado um sorriso desdenhoso que me fez pressupor que o soldado não era muito dado a espiritualidades.
-- Pois senhor eu não me importo nada com isso, mas tendes de pagar pedágio! Uma moeda de prata por cada um e aí o cão também paga.
Senti Helmut resmorder em surdina:
-- Cão?! E ele deve ser toupeira não?
O soldado deve ter percebido algo e perguntou:
-- Tendes alguma coisa contra?
Foi Godo que falou:
-- Os Senhores do Eixo não cobravam tanto...
-- Pois fizeram mal! – Resmordeu o soldado desagradado com o que lhe pareceu o protesto de Godo. – Aliás, se tivessem cobrado mais, não tinhamos as fortalezas no estado lastimável em que estão.
-- Também não sei qual foi a ideia de construirem aqui fortalezas... – comentei eu.
-- Olhe menino, -- foi assim que me tratou o soldado -- eu também não sei, mas já que aqui estão e que me destacaram para aqui, faço o que me mandam. E vocês pagam ou preferem ir por outro lado? -- Perguntou ele com um sorriso realmente escarninho, pois sabia que a única passagem para as Montanahs Negras era por ali.
O Mestre Ratapone falou outra vez, com um pedido:
-- Somos pobres, não podias dispensar de pagamento o... cão?
-- Bagh! – disse o soldado com enfado – Hoje estou magnânimo! Pagam 4 moedas de prata de pedágio e podem passar.
O soldado ainda esperava que o Mestre abrisse uma bolsa ou um saco para tirar as moedas, mas estas apareceram na mão do Mestre com um truque de prestidigitação. O soldado sorriu:
-- És bom a negociar...
-- Pois sou... – sorriu o Mestre – Sabeis porquê senhor? Porque apenas temos quatro moedas de prata!
O sorriso desapareceu da cara do soldado e comentou:
-- Bem, então tenho más notícias para vocês, ali o barqueiro nunca leva ninguém de graça! – e deu uma sonora gargalhada.
Os soldados com ele riram também. E um deles disse:
-- Acho que não chegam longe!
Riram outra vez, e o Mestre percebendo o que se desenhava estugou o passo na direcção do cais e da passagem que ficava ao lado da fortaleza.
Todos nos esforçamos por nos apressar, mas Cabelos Cor de Fogo só podia dar passinhos e na sua atrapalhação por querer ir mais depressa, acabou por tropeçar. Eu que ía atrás dela imediatamente a levantei. Um dos soldados com a ponta da lança pelo lado do cabo, deu-lhe uma pancadinha no rabo:
-- Vá velha... Não te atrases que ainda perdes o barco!
E riam como só a soldadesca sabe rir da desgraça dos outros.
Li nos olhos de Silvana uma ferocidade tão grande que até eu tive medo, mas depois sorri-lhe e disse:
-- Deixa lá estes brincalhões avózinha...
Godo estratégicamente tinha ficado à nossa frente a cerca de três passos e Helmut seguia bem mais à frente atrás de Ratapone.
Um dos soldados continuou com a brincadeira:
-- Olha lá miúdo, porque não levas a avó ao colo? Treinavas... Assim quando chegar a vez da noiva...
E lá estavam eles a rir outra vez. Entretanto o que nos cobrara o pedágio ria, mas ía-se afastando em direcção à fortaleza.
Godo aguardou até chegarmos perto dele e pegou no braço direito de Silvana e eu do lado esquerdo tentando levá-la o mais rapidamente dali. Já o Mestre e Helmut estavam junto ao cais, ao que parecia a negociar com o barqueiro, quando um dos idiotas dos soldados achou piada ao chapéu da ‘avózinha’ e vai daí, com a ponta da lança espetou o chapeu e levantou-o ao mesmo tempo que dizia:
-- Avózinha, pra te espevitar precisas é de Sol na careca... – e riu, mas o riso extinguiu-se abruptamente.
Quando o soldado levantou o chapéu, os compridos cabelos cor de fogo de Silvana desamarram-se e brilharam ao Sol em todo o seu esplendor.
Godo agiu rápido, puxou do seu punhal afiado como lâminas e com um gesto passou-o pelo peito de Silvana.
Um dos soldados pensou que Godo tivesse matado a avózinha e ficou estático ainda sem perceber o que se estava a passar. Depois Godo empurrou Silvana até esta cair de costas e com um gesto rápido cortou os cordões nos tornozelos de Silvana e disse-lhe:
-- Corre para o barco e usa o arco se for preciso...
Quando os soldados recuperaram da estupefacção já Godo tinha tirado a um deles a sua lança e ma havia passado:
-- Agora vamos ver se aprendeste bem as katas!
Entratanto os soldados berravam sem saber muito bem o que dizer, mas eu e Godo com movimentos de Aikido os desarmamos. Eles fugiram tão rapidamente quanto puderam e nós corremos para o barco.
Do alto de uma das torres meia desmoronada um soldado gritava histérico:
-- Silvana! Silvana!
De imediato sairam s9ldados a cavalo pela porta da fortaleza.
Entretanto o barqueiro ao perceber a confusão fazia menção de afastar o barco. A uma ordem de Ratapone, Helmut saltou para dentro dele e fez o barqueiro cair à agua. Entretanto Silvana chegou junto do Mestre e desambaraçando-se do andrajo de velha, agarrou no seu arco e apontou ao cavalo do cavaleiro que vinha na frente. O cavalo caiu e lançou o cavaleiro a zorrar pelo chão duro um ror de metros até se imobilizar por completo.
Entretanto eu e Godo chegamos ao barco e pulamos lá para dentro.
Os cavaleiros quando perceberam que tínhamos um arco recuaram, mas gritaram ordens para a fortaleza. Eu e Godo o mais rapidamente que pudemos remamos para o meio do rio e em boa hora!
No alto das ameias os arqueiros brindaram-nos com um enxame de setas que cairam ao nosso lado e à nossa ré.
Cabelos Cor de Fogo de pé no meio do barco preparava-se para apontar mais uma vez o arco quando o mestre pegou num cartuchinho pequeno e disse:
-- Espera! – Amarrou-o rapidamente à seta – Agora!
Cabelos Cor de Fogo apontou para as ameias mais próximas e largou a corda do arco, a seta silvou pelo ar e ao embater numa das ameias ouviu-se uma explosão seguida de um forte fumo negro.
Ouvimos os soldados fugir e dizerem:
-- São feiticeiros!
Depois subimos à força de remos pelo rio acima em direcção às Montanhas Negras.
-- Achas que virão atrás de nós? – perguntou Silvana.
Foi Godo quem respondeu:
-- Pelas 500 moedas de prata que oferecem pela tua linda cabeça, estou certo que virão!
-- A minha cabeça vale 500 moedas de prata?! – perguntou admiradissima Cabelos Cor de Fogo.
Godo e o Mestre sorriram-lhe em sinal afirmativo.
Mas para mim, ela valia muito mais!