20 abril 2006

O Ovo de Rá - 4ª parte


Como os dedos da mão



-- Há muito que andam juntos? -- disse Cabelos de Fogo a aprender a gostar do sabor amargo do café.
O Mestre Ratapone respondeu:
-- Sim, há muito tempo que andamos juntos. Por muitos lugares, porque para compreender o Mundo é preciso conhecê-lo.
Godo olhou para o Mestre, com um olhar que queria dizer que estavam a combinar alguma coisa. Nunca consegui ler esses olhares com o detalhe que pareciam conter, mas no geral percebia quando estavam a combinar alguma coisa.
Foi por isso que a princípio não percebi Godo.
-- Conhecemos a Floresta de Carvalhos no limite da planície de Dura, onde para lá dela moram os Torresmos. Praticamente visitamos todas as cidades da planície... Deixem-me contar-vos uma história...
Godo queria contar uma história e ele sabia muitas.
-- Vou contar-vos a história de Dorion, Senhor de Balak, na fértil planície de Dura, bem a Oeste das Montanhas Negras. Dorion ficou conhecido nas Crônicas dos Reis com o cognome de O Potente, mas entre o povo era conhecido como O Porco. Dorion gabava-se de nunca ter dormido duas vezes com a mesma mulher. Todos os anos nos seus domínos eram trazidas a ele todas as mais lindas virgens para ele desposar. Como é óbvio, não havia recursos para sustentar todas aquelas mulheres à conta do rei Dorion, de modo que depois de serem usadas, eram obrigadas a trabalhar quase como escravas, nos campos do seu Senhor. Ainda pior foi quando engravidando deram descendentes reais às centenas. Passaram então a acontecer coisas estranhas, muitas das esposas do rei ou concubinas ou o que fosse que lhes queirais chamar começaram a morrer de mortes estranhas. Morriam no parto ou caiam nos penhascos em volta da fortaleza e em muitos casos os bébés eram mortos ao nascer! Até que um dia uma donzela de apenas 16 anos foi trazida ao palácio para que Dorion satisfizesse os seus insaciáveis apetites. A donzela, segundo os relatos mais fidedignos que consegui apurar, fingiu-se assustada e submissa, quando foi introduzida no quarto de Dorion. Mas quando este se preparava para gulosamente tomar posse da sua presa, esta partiu uma jarra de vidro e com um pedaço desta cortou-lhe a garganta! Depois tomou os anéis de Dorion e os colares de ouro, fez uma corda com os lençóis da cama e outros tecidos e desceu pela janela da torre, uma descida impressionante até à base do penhasco onde assenta a fortaleza e depois daí fugiu. Nunca mais a encontraram. A donzela era orfã de pai, a mãe morria com uma doença agonizante, os irmãos ou tinham morrido ou andavam como soldados engajados em batalhas distantes. Os Senhores do Eixo, da planície de Dura queriam fazer dela um exemplo e perseguiram-na, mas ela fugiu para as Montanhas Negras, onde dizem, se acoitou com o povo Torresmo, um povo rude, forte e atarracado de pele escura que vive no sopé das Montanhas Negras, depois da grande floresta de carvalhos. Pelo menos é tudo quanto sei, mas talvez tu nos possas esclarecer, não é, Silvana de Balak? – concluiu o Godo olhando para Cabelos de Fogo.
Fiquei atónito. Ela estendeu a mão para a sua direita onde tinha pousado no chão a sua espada, mas encontrou deitado sobre ela Helmut que lhe rosnou mostrando os dentes. Ela pôs-se de pé num salto.
Godo continou na sua calma:
-- Não tens que temer. Sabes quem somos e sabemos quem és. Senta-te. -- convidou ele.
Ela riu-se
-- Tens razão! Estou a perder qualidades... -- e sentou-se – Como soubeste que era eu?
-- Os teus cabelos... A donzela dizem que era ruiva. Depois bastou deixar a minha mente concentrar-se no essencial e ignorar o acessório... Além do mais, isto foi há oito anos atrás, tens agora vinte e quatro, era plausível...
O Mestre aproximou-se da fogueira e falou para ela:
-- Silvana, nós os três estamos juntos apenas por mútua confiança. Se queres fazer parte da nossa fraternidade tens de ter essa confiança. Mas tens de decidir agora. Como admitiste estás a perder qualidades, o que é sinal de que precisas de alguém.
Todos olhamos para ela com alguma ansiedade e eu em especial. O Mestre continuou:
-- Todos nós temos os nossos segredos. Os teus, continuarão teus, não queremos saber. Apenas queremos saber que podemos contar contigo, quando chegar a necessidade, porque nós faremos do mesmo modo, para contigo. Mas tens de decidir agora, se vens connosco ou se vais à tua vida. Se vais, quero-te a uma distância de um dia de caminhada de nós, ou teremos que garantir que não nos segues mais perto do que isso...
Mas sózinha, quem cuidará das tuas costas? Apesar de terem passado oito anos, os Senhores da planície de Dura, ainda gostariam de ajustar contas contigo... Pensa bem.
Godo acrescentou:
-- Além do mais, nem sabes por onde andam os teus irmãos...
Ela levantou-se e ficou de pé, olhando-nos longamente um a um. Acho que nos avaliava, no sentido de perceber se seríamos ou não, exército que valesse a pena.
-- Vocês têm-se desenvencilhado muito bem os quatro. Não precisam de mim.
Godo sorriu. E Helmut aproximou-se e roçou-se pelas pernas dela.
-- Pois não precisamos, mas tu precisas! Além do mais, se te fores embora destroças o coração do meu amigo Maia e isso seria demais para eu suportar...
Corei até à raiz das orelhas. Ela sorriu um largo sorriso, tão largo que era capaz de iluminar o dia. Depois disse:
-- Vou convosco...
O Helmut trotou para mim piscou-me o olho e segredou-me:
-- Tens bilhete, ela cheira bem! Mas tem cuidado ou ela corta-te o pescoço!
O Mestre Ratapone levantou-se e deu-lhe um abraço.
-- Benvinda! Agora o nosso número está completo. Somos cinco como os dedos da mão.

12 comentários:

tb disse...

Olha lá, agora comento o quê? Como se comenta uma coisa destas? Quero o resto para ler de um fôlego!
Cada vez mais emocionante e interessante a tua história!
Pois é, será desta que vem o Nobel fazer visitinha???!!! ah ah ah ah
Beijinho

Lilly Rose disse...

Olá Mitro, estou a ouvir Vorga e gosto imenso. Quanto às questões que coloco, não duvido de que existam muitas respostas, e sim, gostaria de saber as tuas. email:divasecontrabaixos@hotmail.com

obrigada pela visita e pelo feed back ;)

Isabel Magalhães disse...

Foi a curiosidade de ver quem me comentou uma tela que me trouxe cá.



Não vim em vão....



gostei do que li. :)

Um []

Lilly Rose disse...

Olá Mitro! Estou a ouvir Vorga e gosto imenso. Quanto às questões que coloco, sim, fiquei curiosa para conhecer as tuas "respostas".
email:divasecontrabaixos@hotmail.com

e agora vou cirandar pelos teus blogs ;)

Sem Rosto disse...

Hum... Deveras interessante e emocionante...
Conseguis-te fazer-me entrar no mundo do teu conto...Parabéns :o))
(fico esperando a continuação ) :o)))

DIAFRAGMA disse...

Olá! Vim agradecer o teu comentário a um post velhíssimo meu.
Claro que podes usar, gostava era de saber qual é o site. Podes-mo enviar para o mail?
Um bom fim de semana para ti.

DIAFRAGMA disse...

Como não tenho o teu mail tenho de postar aqui algo que não tem nada a ver com comentários ao teu texto, do que peço desde já desculpa.
Só para te dizer que descobri e ouvi "Nos teus braços eu vôo", e fiquei a perceber perfeitamente a tua referência à foto. Além do mais achei a composição espectacular.
Usa se quiseres pois tem tudo a ver uma coisa com a outra, são apenas formas diferentes de dizer o mesmo.
Já agora a minha vesão, a que chamei "Tai Chi", está em:

http://ia300809.eu.archive.org/0/items/TaiChi/TaiChi.mp3

Dae-su Oh disse...

Interessante o blog, continua. Obrigado pela tua visita.

Mar disse...

Tou a adorar. Faz-me lembrar Tolkian. Marion Zimmer Bradley... sei lá... Mitro... histórias fantásticas que me deixam agarrada e agora vou ter que esperar... :-(

Nilson Barcelli disse...

Continuo a gostar da maneira como contas a história.
Muito bem.
Abraço.

PS: aproveito para te dizer que linkei a tua Caminhada.

heidy disse...

Amo este tipo de histórias. Foi um tiro na mouche para eu ficar até ao fim pegada ao ecran. Lembrou-me o estilo da Juliet Marillier. :)

candida disse...

parvinho:)