06 abril 2006

O Ovo de Rá - 2ª parte



O conto começou aqui!

Cabelos de Fogo


Adormecemos todos depois de um dia inteiro de caminhada e com o calor do fogo e aconchego do estômago com a lebre que Helmut caçara. Certamente ainda era noite e noite bem cerrada, quando uma voz nos acordou a todos.
-- Ora viva, bando de paspalhos!
Helmut deu um salto como se tivesse molas e rosnou, acho que mais por instinto do que por convicção em direcção à voz. O personagem saiu da penumbra e com o arco entesado em direcção a Helmut acrescentou com ironia:
-- Vê lá cão de pêlo ruço... Se tens mau acordar, posso fazer-te o favor de resolver isso para sempre...
Helmut deixou de eriçar o pelo e comentou como se fosse a coisa mais natural do mundo:
-- Ora! É uma mulher... -- E voltou a enroscar-se junto á fogueira. E resmordeu – São sempre a mesma coisa, não podem ver ninguém a dormir, que têm de a acordar da pior maneira possível.
A mulher riu.
Ratapone e o Godo acordaram e espantados com a aparição não diziam nada. Eu falei:
-- Olá! Sou o Maia. Aqui é o meu Mestre Ratapone e o seu fiel criado Godo. E tu quem és?
A mulher era esguia e bem proporcionada, um encanto para os olhos. Baixou o arco e guardou a seta na aljava.
-- Sílvia... de nenhures. E vocês são de onde? – perguntou-me ela. Mas foi o Mestre Ratapone quem respondeu.
-- Vimos de longe como tu. Somos peregrinos.
-- Pois... – disse ela com desdém. – Não conheço nenhum santuário aqui nas Montanhas Negras, mas conheço montes de esconderijos de ladrões, embusteiros e outras categorias semelhantes. Portanto velhote, para me convenceres tens de inventar coisa melhor...
Ela que se aproximara do fogo, o que me deixara ver os seus lindíssimos olhos verdes e apreciar melhor a formusura da sua anatomia, levantou-se e fez menção de se retirar. Não consegui reprimir-me:
-- Já vais? Não queres ficar connosco, talvez possamos fazer o resto do percurso juntos...
Ela riu-se e tive a certeza que era de desdém.
-- Não sirvo para ama-seca! Além do mais não confio em quem não me diz a verdade, ou não tem nem o engenho de inventar uma mentira plausível!
-- Peço-te desculpa! – disse o Mestre Ratapone. – De facto não somos peregrinos no sentido habitual da palavra. Procuramos o eremita das Montanhas Negras. Se ouviste falar dele, podias ajudar-nos?
Ela rodou nos calcanhares e ficou pensativa para digerir a nova informação. Depois aproximou-se do Mestre e ajoelhou-se junto a ele. O Godo afastou-se como sinal de deferência.
-- Depende de que eremita procuras. Existem dezenas deles por aqui...
Os olhos dela prescrutavam o Mestre como se tivesem o poder de ler as mentes daqueles que olhava fixamente. Tenho a certeza que o Mestre se sentiu incomodado e desviou o olhar do dela.
Eu estava encantado com a figura dela e com a sua personalidade segura. E ainda gostava mais ela ser capaz de enfrentar o Mestre sem receio ou subserviência.
O Mestre acrescentou:
-- Deve ser o mais velho eremita que há por aqui...
Ela riu-se antes de ele ter completado a frase.
-- Velhote, eu não sei a idade destes tarados, que fogem para estas montanhas, sabe-se lá porquê! Se calhar gostam do tempo agreste que por aqui faz! Mas olha velhote, este tempo por aqui, faz um mal danado aos ossos. Devias voltar para casa, antes que arranjes reumatismo ou mais encontros...
-- Tu não pareces sofrer com o tempo e não posso dizer que sejas um mau encontro... -- comentei meio timidamente.
Ela sorriu-me e desta vez o sorriso não era de desdém, talvez simpatizasse comigo.
-- Deve ser de fazer muito exercício...
Helmut abriu os olhos e acrescentou:
-- Pois, se querem fazer exercicio é lá convosco, mas podiam deixar dormir quem precisa... Exercício... -- resmordeu ele a fechar os olhos.
-- Fica conosco esta noite... -- pediu o Mestre -- Amanhã logo veremos se segues connosco ou se partes.
Ela olhou para mim, e deve ter visto que os meus olhos lhe suplicavam que ficasse.
-- Está bem... Mas devíamos montar turnos. Um de nós devia ficar de vigia. Isto não são lugares seguros...
Ela sentou-se ao meu lado.
-- Godo... fica de vigia. – pediu o Mestre. Godo anuiu sem soltar sequer um som. Afastou-se da fogueira embrulhado na sua manta de dormir e escondeu-se numa moiteira que ficava num lugar elevado. Sílvia observou o Godo e comentou:
-- O teu amigo sabe como fazer uma vigia eficaz...
-- O Godo tem muitos recursos... – disse eu.
Ela sorriu-me:
-- Sois um grupo engraçado. Um velhote, um lobo que fala, um criado inteligente e tu... Amanhã têm de me contar a vossa história... – ela levantou-se e meteu mais lenha na fogueira. Voltou para junto de mim.
-- Podemos partilhar a manta? É que não tenho nenhuma... -- disse ela quase como se pedisse desculpa.
-- Claro! – disse eu até com demasiada alegria na voz! E tentando emendar: -- Amanhã contas-me tu a tua história.
Ela puxou a manta para ela, enroscou-se em mim e disse:
-- Claro!
Fez-se um bocadinho de silêncio e era agradável o calor do corpo dela. Perguntei:
-- Sabes Sílvia, devias ter uma alcunha...
-- Porquê? Não gostas do meu nome?
-- Gosto, claro que gosto, mas... Uma alcunha seria uma espécie de sinal de afecto...
Ela sorriu de um modo maroto:
-- Só pretendo dormir... Amanhã devolvo-te a manta...
Helmut resmordeu:
-- Agora temos pombos a arrulhar...
E ela numa indirecta para o Helmut:
-- Em vez da manta, posso ter talvez uma pele de lobo pra me proteger do frio.
-- Engraçadinha! – resmordeu este, voltando a dar mais uma volta para aquecer o outro lado do corpo no calor da fogueira.
-- Não me entendas mal, mas acho que devias ir connosco...
-- Afinal que alcunha me queres dar?
Sorri.
-- Cabelos de fogo.

11 comentários:

tb disse...

A procura dos sonhos só pode ser feita com personagens tiradas da nossa imaginação...
Sigo com interesse o desenrolar do conto, e fico à espera do resto que espero breve.
Beijo

Sophia disse...

Fui ler a primeira parte e continuei a ler por aqui e agora fico à espera da continuação!

Gostei!

;) Baci

anjoedemonio disse...

prometo que vou ler, agora não tenho muito tempo!

bom fim de semana!!!:)

anjoedemonio disse...

Boa tarde, bom fim de semana!:)

mitro disse...

Ai breve...

Nilson Barcelli disse...

Fui ler o início e só depois é que li esta parte.
Gostei do conto, és criativo e escreves bem. Parabéns.

Obrigado pela visita e comentário no meu blogue. Volta sempre.

Abraço.

disse...

Hum... prevê-se uma história saborosissima mesmo ao estilo de que eu gosto...
fico impaciente pela continuação e pelas aventuras de cabelos de fogo.
bigado pela visita ao meu blog, e sim, é verdade, as crianças podem ter maior sabedoria para o amor que os adultos... tudo lhes é tão simples...
bjo
Mar

Warum Nicht? disse...

hey!
adorei!
voltarei!

DIAFRAGMA disse...

Fiquei preso mas infelizmente tenho de continuar mais tarde!
Sabes bem prender as pessoas, sensacional!

ps: obrigado pela visita e simpáticos comentários

Isa&Luis disse...

olá,

vim ter ao teu cantinho através de outros.
Deparo-me com uma bonita historia, imaginativa,bem escrita.

Voltarei para ler os outros capitulos.

Um bom feriado

beijo

Isa

Porcelain Doll disse...

Hummm... não concordo nada com o teu Helmut!! Eu sou mulher e não tenho nada contra as pessoas a dormirem eheheh!! :-DD

O Maia... que interessante... :-P

Mulher esguia e bem proporcionada (ideias fixas, hã) :-))

Olhos verdes?? Humm... gosto mais de castanhos!! :-DD

Este Maia é fantástico... pelos comentários, faz-me lembrar alguém que eu conheço eheeh!! :-DD

... como quando comecei a ler esta história não li o início, pensava que eles eram todos bicharoucos, ou pelo menos uns eram outros não... afinal é só Helmut, o lobo... e é incrível a capacidade que tu tens de visualizar e concretizar assim as "e"stórias, as situações...

Bjoka