19 abril 2006

O Ovo de Rá - 3ª parte


Como os três se juntaram ao Mestre



Ao acordar senti que Sílvia não estava ali e levantei-me sobressaltado. Godo estava já sentado junto da fogueira preparando o café. Calmo como sempre, disse-me:
-- A tua amiga está para ali... -- e apontou para uma moitas afastadas -- Coisas de higiene pessoal matinal... O riacho fica para aquele lado... -- acrescentou apontando na direcção oposta – Podes lá ir lavar a cara, enquanto preparo o café.
Helmut aproximou-se e roçando-se nas minhas pernas comentou:
-- Vocês humanos são muito complicados... Connosco é muito mais fácil! Cheiramos e se cheirar bem, temos um bilhete prá festa!
Ri-me e fui até ao riacho lavar a cara.
Quando vim para cima já Cabelos de Fogo estava junto de Godo, à espera do café.
-- Bom dia Cabelos de Fogo! – disse eu com um largo sorriso – Dormiste bem?
-- Sim... Foi bom partilhar a manta contigo... -- disse ela retribuindo o sorriso.
O Helmut que estava enroscado junto à fogueira ergueu a cabeça e fez um esgar que devia ser um sorriso trocista.
-- Então como é que vocês os três se juntaram? -- perguntou ela curiosa.
O Mestre tinha-se levantado e fora visitar as moitas e depreendiamos que de seguida fora ao riacho.
Solicito comecei:
-- Aqui o meu amigo Godo era escravo, foi dado ao Mestre por um Senhor a quem ele ensinou o filho, como uma espécie de bónus. A primeira coisa que o Mestre fez, foi conceder-lhe a liberdade...
Godo interrompeu:
-- O Mestre não me deu só a liberdade, entregou-me uma considerável quantia em dinheiro e disse: "Um pobre, não passa de um escravo, ainda pior que um acorrentado. Não dou presentes envenenados. Pega esta quantia e aproveita a tua liberdade."...
Eu peguei na narrativa já que o Godo parecia ter ficado calado e pensativo. Acho que era apenas o ficar emocionado. Aliás nunca vira o Godo chorar.
-- Mas aqui o amigo Godo disse ao Mestre que não tinha para onde ir e que preferia ficar a servir de livre vontade quem tão bem o tratava. Pediu apenas permissão para guardar a quantia de dinheiro para si e de uma semana de folga. O Mestre concedeu-lhe o pedido e ele partiu. Até hoje nunca soube o que ele foi fazer, nem o que fez ao dinheiro...
No rosto de Godo aflorou um sorriso e disse pra mim:
-- E também não é hoje que ficas a saber...
O Helmut decidiu acrescentar:
-- Acho que nem sob tortura ele revelará o que andou a fazer... Cá pra mim deve ser por vergonha!
Rimo-nos e decidi continuar:
-- Aqui o amigo Helmut foi encontrado pelo Mestre na floresta junto à aldeia com uma pata presa...
O Helmut levantou-se sacudiu o pêlo e decidiu contar ele:
-- Ía distraído... E quando dei por mim, tinha a porcaria do ferro a cortar-me a pata! Fiquei quieto. Quanto mais me mexia pior era. Se eu tivesse mãos também fazia armadilhas assim para apanhar caçadores...
Roubei-lhe a palavra:
-- O Mestre aproximou-se...
O Helmut era tagarela, quando estava bem disposto e continuou ele:
-- Em boa hora apareceu o Mestre! Mas eu sabia lá que ele era boa pessoa? Quando o vi, pensei logo que o fim dos meus dias tinha chegado! Rosnei e fiz-me valente, mas o Mestre não mostrou medo! Aproximou-se e começou a falar meigamente comigo, para eu ter calma e coisa e tal, depois com o bastão carregou no trinco da mola e as garras abriram. Foi nessa altura que desmaei...
-- O Mestre trouxe-o para casa, onde lhe tratamos da pata. – continuei eu -- Um dia para nosso espanto, estava ele deitado junto à lareira e depois de o termos alimentado com um naco de carne suculento, ele ainda com a pata entrapada disse: "Obrigado amigos!"
O Helmut ria-se agora que nem um perdido, fazendo lembrar uma hiena.
-- Pois ri-te... -- continuei eu -- Imagina ouvires um lobo a falar na tua sala de estar! -- Todos nos juntamos na risota do Helmut.
-- Aqui o nosso amigo Helmut tem esse dom. O Mestre diz que é impossível, que o sistema fonador dos lobos não lhes permitiria nunca a linguagem e que deve tratar-se de comunicação directa à mente. Seja como for, ele fala e pronto.
-- Fantástico! -- Falou Cabelos de Fogo pela primeira vez -- E tu?
-- Foi o meu pai... Diziam que eu era um miúdo inteligente que era uma pena não aprender letras. A única hipótese era seguir o sacerdócio, mas o meu pai disse-me que não ía fazer do filho um hipócrita e quando soube do Mestre, levou-me até ele. Eu ficava a servir o Mestre em troca de ele me ensinar letras e o que quisesse...
-- Mas quem o ensinou primeiro fui eu, não foi Maia? -- interrompeu o Godo.
Sorri.
-- Pois foi! Ensinou-me as katas...
-- O que é isso? -- Perguntou Cabelos de Fogo.
-- Exercícios... -- disse Godo.
-- Exercícios? -- perguntou ela.
-- Ginástica para ficar em forma. Acho que o Godo me achou demasiado franzino para o trabalho e quis colocar-me em forma.
-- Pois... -- Sorriu Godo -- Mas fiz de ti um homem!
Risota geral, mas ela olhou-me com um olhar que me fez um arrepio agradável.
O Mestre aproximou-se.
-- Godo, podes dar-me um golo de café?
-- Estavamos à espera do Mestre para tomar... -- disse Godo enchendo as canecas a cada um de nós e ao Mestre.
-- Isto é o quê? Tão negro! -- perguntou Cabelos de Fogo.
-- Bebe! Dá-te energia... – sorriu o Godo.

2 comentários:

Mar disse...

Humm... estava expectante... continuemos...

Porcelain Doll disse...

:-DD Sacerdócio? Hipocrisia? Já deves ter percebido que concordo, mas... não pensava que pudesses pensar assim não sei... gostava que me explicasses...

Curioso... as tuas histórias são muito pormenorizadas... cada expressão das personagens, cada conversa... pensava que eras sintético... :-)))