27 abril 2006


by Rarindra Prakarsa Posted by Picasa

O Ovo de Rá - 5ª parte


O Passo de Ziz



Depois que Silvana, a Cabelos de Fogo, se juntou a nós o Mestre apressou-se a avançar em direcção ao passo de Ziz, no desfiladeiro que antecedia a entrada nas Montanhas Negras. O Mestre Ratapone pretendia que encontrassemos nelas o eremita que nos indicaria o caminho tomado em séculos idos pelo sacerdote Memeth. Achei curioso que até ao momento nem uma única vez esse assunto fora aflorado e portanto coibi-me também de o mencionar na expectativa do que iria acontecer no futuro. Eu quanto a mim acho que Cabelos Cor de Fogo tomaria imediatamente outro caminho se soubesse qual era o objectivo final da nossa deambulação pelas Montanhas Negras! Pessoalmente, achava que o Mestre descarrilara do juízo, ou então era como todos os velhos, para o fim da vida precisam de um passatempo que lhe desvie a consciência do aproximar da morte. Temos de compreender e aceitar, porque provavelmente faremos o mesmo em lá chegando. Agora ía aproveitando para descansar o olhar na figura esguia e elegante de Cabelos de Fogo. Ela vestia umas calças justas de cabedal e uma espécie de casaco de cabedal também justo. Eu fazia um esforço danado para não me babar, mas toda a anatomia, em especial as partes mais interessantes, tinham na vestimenta dela, o devido destaque! Meia volta o malandreco do Helmut passava a roçar nas minhas pernas e dava um risinho de hiena. Se não fosse ele assegurar a patas juntas que sempre fora lobo, eu ía acreditar que Helmut tinha sido em tempos, um humano transformado em lobo!
-- Vamos para onde? – perguntou Cabelos Cor de Fogo, sem ser a ninguém em especial e achei curioso que foi o Mestre a responder:
-- Vamos a caminho do Passo de Ziz, procuramos um eremita nas Montanhas Negras...
-- E vamos pelo sítio mais óbvio? -- perguntou Cabelos de Fogo.
-- Óbvio e único , tanto quanto sei... -- acrescentou o Mestre -- Mas qual é o problema?
-- Bem... Ouvi muitas histórias sobre o Passo de Ziz...
-- Como por exemplo... -- quis saber o Mestre, mas reparei que Godo ficara de orelhas arrebitadas. Helmut ía na frente a farejar. Helmut dava sempre conta das surpresas antes delas nos apanharem o que normalmente nos conferia alguma vantagem.
-- Ouvi dizer que os Senhores do Eixo têm fortificações permanentes de um e de outro lado do Passo de Ziz e estou certa que gostariam de me encontrar... Se é essa a vossa ideia, acho que temos de discutir o assunto. -- disse Cabelos de Fogo parando.
O Mestre Ratapone que ía adiantado voltou para trás ter com ela. Godo aproximou-se também e eu que vinha atrás do cortejo abeirei-me do círculo.
-- Tens alguma sugestão? -- perguntou o Mestre.
-- Podíamos ir pelo povo Torresmo... -- ía ela a dizer, quando Godo a interrompeu.
-- Mestre, teríamos de voltar para trás, o que equivaleria a perder pelo menos uma semana, e isto pressupondo que depois encontramos uma passagem para as Montanhas Negras. E nunca ouvi falar que o Povo Torresmo conhecesse uma. E eu não saber disso espantar-me-ía.
Helmut deve ter achado a nossa demora grande e voltou para trás.
-- A andar assim, ainda me cai o pêlo e vocês no mesmo sítio...
-- Existem fortificações no Passo de Ziz... -- explicou o Godo.
-- Isso já sabíamos! -- exclamou Helmut, o lobo falante.
-- Mas aqui a Cabelos Cor de Fogo tem receio que sejamos apanhados pelos Senhores do Eixo.
-- Ah pois! Lá dizem os marinheiros que uma mulher a bordo dá azar! -- disse Helmut.
-- Cala-te! Não sejas desagradável... -- pedi eu.
Ele olhou para mim com ar de gozo e não reprimiu aquele risinho de hiena. Mas calou-se.
-- Mestre...
-- Sim Godo, diz.
-- Podíamos disfarçá-la de velha, como quando tivemos de passar aquele bosque onde se reuniam as bruxas...
-- Tens razão Godo, muita razão! -- depois virou-se para Cabelos Cor de Fogo -- Vamos disfarçar-te de velhinha, mas tão velhinha, que ninguém se demorará a olhar-te uma segunda vez, mas tens de ajudar!
Foi impressionante como Godo e o Mestre transformaram uma moça lindíssima e cheia de predicados anatómicos, na velha mais sem graça e discreta que possam imaginar. Foi engraçado também observar o Helmut a rir-se que nem um perdido, com aquele risso de hiena tão peculiar, à medida que íam transformando a Cabelos Cor de Fogo.
Ataram um cordão macio do pescoço à cintura o que obrigava Cabelos de Fogo a encurvar-se e amarraram outro cordão um bocadinho acima dos tornozelos, bem curto, o que a obrigava a dar pequenos passinhos. E para lhe dar um ar pesado amarram-lhe algumas provisões à cintura e nas costas, cosendo os sacos de mantimentos de modo a não dar a impressão que eram sacos. Na pele das mãos cobriram-na com uma espécie de goma que lhes deu um ar engelhado, próprio de uma pessoa idosa. Sujaram-lhe as unhas com terra e graxa. Na cara fizeram a mesma coisa, mas antes da goma sujaram-lhe a cara com graxa e depois limparam, mas foi suficiente para que ao passar a tal goma as rugas parecessem acentuar-se de uma forma dramática! Godo depois deu-se ao trabalho de lhe pintar os dentes com verniz escuro e mandou-a mastigar alho para forçar um hálito pouco agradável de modo a ninguém se sentir tentado a chegar-se perto.
Eu tentei animar Cabelos de Fogo:
-- Assim, ninguém dirá que és quem és!
Ela riu-se o que pareceu um esgar devido ao repuxar da goma.
-- Queres um beijinho?
Helmut aproximou-se:
-- Olha que até a mim enganavas! Se andasse a passear na floresta e te visse, papava-te! -- e depois riu que nem um perdido.
-- Um dia há-de calhar a tua vez, deixa estar...
Vestiram-na com roupas próprias de velha e Godo deu o toque final, amarrou-lhe os cabelos e com barbas de milho fez-lhe uma cabeleira improvisada. Depois cobriu tudo com um velho chapéu.
-- Vamos! – disse o Mestre apontando para a frente com o seu bastão – Á conquista do Passo de Ziz!

20 abril 2006

O Ovo de Rá - 4ª parte


Como os dedos da mão



-- Há muito que andam juntos? -- disse Cabelos de Fogo a aprender a gostar do sabor amargo do café.
O Mestre Ratapone respondeu:
-- Sim, há muito tempo que andamos juntos. Por muitos lugares, porque para compreender o Mundo é preciso conhecê-lo.
Godo olhou para o Mestre, com um olhar que queria dizer que estavam a combinar alguma coisa. Nunca consegui ler esses olhares com o detalhe que pareciam conter, mas no geral percebia quando estavam a combinar alguma coisa.
Foi por isso que a princípio não percebi Godo.
-- Conhecemos a Floresta de Carvalhos no limite da planície de Dura, onde para lá dela moram os Torresmos. Praticamente visitamos todas as cidades da planície... Deixem-me contar-vos uma história...
Godo queria contar uma história e ele sabia muitas.
-- Vou contar-vos a história de Dorion, Senhor de Balak, na fértil planície de Dura, bem a Oeste das Montanhas Negras. Dorion ficou conhecido nas Crônicas dos Reis com o cognome de O Potente, mas entre o povo era conhecido como O Porco. Dorion gabava-se de nunca ter dormido duas vezes com a mesma mulher. Todos os anos nos seus domínos eram trazidas a ele todas as mais lindas virgens para ele desposar. Como é óbvio, não havia recursos para sustentar todas aquelas mulheres à conta do rei Dorion, de modo que depois de serem usadas, eram obrigadas a trabalhar quase como escravas, nos campos do seu Senhor. Ainda pior foi quando engravidando deram descendentes reais às centenas. Passaram então a acontecer coisas estranhas, muitas das esposas do rei ou concubinas ou o que fosse que lhes queirais chamar começaram a morrer de mortes estranhas. Morriam no parto ou caiam nos penhascos em volta da fortaleza e em muitos casos os bébés eram mortos ao nascer! Até que um dia uma donzela de apenas 16 anos foi trazida ao palácio para que Dorion satisfizesse os seus insaciáveis apetites. A donzela, segundo os relatos mais fidedignos que consegui apurar, fingiu-se assustada e submissa, quando foi introduzida no quarto de Dorion. Mas quando este se preparava para gulosamente tomar posse da sua presa, esta partiu uma jarra de vidro e com um pedaço desta cortou-lhe a garganta! Depois tomou os anéis de Dorion e os colares de ouro, fez uma corda com os lençóis da cama e outros tecidos e desceu pela janela da torre, uma descida impressionante até à base do penhasco onde assenta a fortaleza e depois daí fugiu. Nunca mais a encontraram. A donzela era orfã de pai, a mãe morria com uma doença agonizante, os irmãos ou tinham morrido ou andavam como soldados engajados em batalhas distantes. Os Senhores do Eixo, da planície de Dura queriam fazer dela um exemplo e perseguiram-na, mas ela fugiu para as Montanhas Negras, onde dizem, se acoitou com o povo Torresmo, um povo rude, forte e atarracado de pele escura que vive no sopé das Montanhas Negras, depois da grande floresta de carvalhos. Pelo menos é tudo quanto sei, mas talvez tu nos possas esclarecer, não é, Silvana de Balak? – concluiu o Godo olhando para Cabelos de Fogo.
Fiquei atónito. Ela estendeu a mão para a sua direita onde tinha pousado no chão a sua espada, mas encontrou deitado sobre ela Helmut que lhe rosnou mostrando os dentes. Ela pôs-se de pé num salto.
Godo continou na sua calma:
-- Não tens que temer. Sabes quem somos e sabemos quem és. Senta-te. -- convidou ele.
Ela riu-se
-- Tens razão! Estou a perder qualidades... -- e sentou-se – Como soubeste que era eu?
-- Os teus cabelos... A donzela dizem que era ruiva. Depois bastou deixar a minha mente concentrar-se no essencial e ignorar o acessório... Além do mais, isto foi há oito anos atrás, tens agora vinte e quatro, era plausível...
O Mestre aproximou-se da fogueira e falou para ela:
-- Silvana, nós os três estamos juntos apenas por mútua confiança. Se queres fazer parte da nossa fraternidade tens de ter essa confiança. Mas tens de decidir agora. Como admitiste estás a perder qualidades, o que é sinal de que precisas de alguém.
Todos olhamos para ela com alguma ansiedade e eu em especial. O Mestre continuou:
-- Todos nós temos os nossos segredos. Os teus, continuarão teus, não queremos saber. Apenas queremos saber que podemos contar contigo, quando chegar a necessidade, porque nós faremos do mesmo modo, para contigo. Mas tens de decidir agora, se vens connosco ou se vais à tua vida. Se vais, quero-te a uma distância de um dia de caminhada de nós, ou teremos que garantir que não nos segues mais perto do que isso...
Mas sózinha, quem cuidará das tuas costas? Apesar de terem passado oito anos, os Senhores da planície de Dura, ainda gostariam de ajustar contas contigo... Pensa bem.
Godo acrescentou:
-- Além do mais, nem sabes por onde andam os teus irmãos...
Ela levantou-se e ficou de pé, olhando-nos longamente um a um. Acho que nos avaliava, no sentido de perceber se seríamos ou não, exército que valesse a pena.
-- Vocês têm-se desenvencilhado muito bem os quatro. Não precisam de mim.
Godo sorriu. E Helmut aproximou-se e roçou-se pelas pernas dela.
-- Pois não precisamos, mas tu precisas! Além do mais, se te fores embora destroças o coração do meu amigo Maia e isso seria demais para eu suportar...
Corei até à raiz das orelhas. Ela sorriu um largo sorriso, tão largo que era capaz de iluminar o dia. Depois disse:
-- Vou convosco...
O Helmut trotou para mim piscou-me o olho e segredou-me:
-- Tens bilhete, ela cheira bem! Mas tem cuidado ou ela corta-te o pescoço!
O Mestre Ratapone levantou-se e deu-lhe um abraço.
-- Benvinda! Agora o nosso número está completo. Somos cinco como os dedos da mão.

19 abril 2006

O Ovo de Rá - 3ª parte


Como os três se juntaram ao Mestre



Ao acordar senti que Sílvia não estava ali e levantei-me sobressaltado. Godo estava já sentado junto da fogueira preparando o café. Calmo como sempre, disse-me:
-- A tua amiga está para ali... -- e apontou para uma moitas afastadas -- Coisas de higiene pessoal matinal... O riacho fica para aquele lado... -- acrescentou apontando na direcção oposta – Podes lá ir lavar a cara, enquanto preparo o café.
Helmut aproximou-se e roçando-se nas minhas pernas comentou:
-- Vocês humanos são muito complicados... Connosco é muito mais fácil! Cheiramos e se cheirar bem, temos um bilhete prá festa!
Ri-me e fui até ao riacho lavar a cara.
Quando vim para cima já Cabelos de Fogo estava junto de Godo, à espera do café.
-- Bom dia Cabelos de Fogo! – disse eu com um largo sorriso – Dormiste bem?
-- Sim... Foi bom partilhar a manta contigo... -- disse ela retribuindo o sorriso.
O Helmut que estava enroscado junto à fogueira ergueu a cabeça e fez um esgar que devia ser um sorriso trocista.
-- Então como é que vocês os três se juntaram? -- perguntou ela curiosa.
O Mestre tinha-se levantado e fora visitar as moitas e depreendiamos que de seguida fora ao riacho.
Solicito comecei:
-- Aqui o meu amigo Godo era escravo, foi dado ao Mestre por um Senhor a quem ele ensinou o filho, como uma espécie de bónus. A primeira coisa que o Mestre fez, foi conceder-lhe a liberdade...
Godo interrompeu:
-- O Mestre não me deu só a liberdade, entregou-me uma considerável quantia em dinheiro e disse: "Um pobre, não passa de um escravo, ainda pior que um acorrentado. Não dou presentes envenenados. Pega esta quantia e aproveita a tua liberdade."...
Eu peguei na narrativa já que o Godo parecia ter ficado calado e pensativo. Acho que era apenas o ficar emocionado. Aliás nunca vira o Godo chorar.
-- Mas aqui o amigo Godo disse ao Mestre que não tinha para onde ir e que preferia ficar a servir de livre vontade quem tão bem o tratava. Pediu apenas permissão para guardar a quantia de dinheiro para si e de uma semana de folga. O Mestre concedeu-lhe o pedido e ele partiu. Até hoje nunca soube o que ele foi fazer, nem o que fez ao dinheiro...
No rosto de Godo aflorou um sorriso e disse pra mim:
-- E também não é hoje que ficas a saber...
O Helmut decidiu acrescentar:
-- Acho que nem sob tortura ele revelará o que andou a fazer... Cá pra mim deve ser por vergonha!
Rimo-nos e decidi continuar:
-- Aqui o amigo Helmut foi encontrado pelo Mestre na floresta junto à aldeia com uma pata presa...
O Helmut levantou-se sacudiu o pêlo e decidiu contar ele:
-- Ía distraído... E quando dei por mim, tinha a porcaria do ferro a cortar-me a pata! Fiquei quieto. Quanto mais me mexia pior era. Se eu tivesse mãos também fazia armadilhas assim para apanhar caçadores...
Roubei-lhe a palavra:
-- O Mestre aproximou-se...
O Helmut era tagarela, quando estava bem disposto e continuou ele:
-- Em boa hora apareceu o Mestre! Mas eu sabia lá que ele era boa pessoa? Quando o vi, pensei logo que o fim dos meus dias tinha chegado! Rosnei e fiz-me valente, mas o Mestre não mostrou medo! Aproximou-se e começou a falar meigamente comigo, para eu ter calma e coisa e tal, depois com o bastão carregou no trinco da mola e as garras abriram. Foi nessa altura que desmaei...
-- O Mestre trouxe-o para casa, onde lhe tratamos da pata. – continuei eu -- Um dia para nosso espanto, estava ele deitado junto à lareira e depois de o termos alimentado com um naco de carne suculento, ele ainda com a pata entrapada disse: "Obrigado amigos!"
O Helmut ria-se agora que nem um perdido, fazendo lembrar uma hiena.
-- Pois ri-te... -- continuei eu -- Imagina ouvires um lobo a falar na tua sala de estar! -- Todos nos juntamos na risota do Helmut.
-- Aqui o nosso amigo Helmut tem esse dom. O Mestre diz que é impossível, que o sistema fonador dos lobos não lhes permitiria nunca a linguagem e que deve tratar-se de comunicação directa à mente. Seja como for, ele fala e pronto.
-- Fantástico! -- Falou Cabelos de Fogo pela primeira vez -- E tu?
-- Foi o meu pai... Diziam que eu era um miúdo inteligente que era uma pena não aprender letras. A única hipótese era seguir o sacerdócio, mas o meu pai disse-me que não ía fazer do filho um hipócrita e quando soube do Mestre, levou-me até ele. Eu ficava a servir o Mestre em troca de ele me ensinar letras e o que quisesse...
-- Mas quem o ensinou primeiro fui eu, não foi Maia? -- interrompeu o Godo.
Sorri.
-- Pois foi! Ensinou-me as katas...
-- O que é isso? -- Perguntou Cabelos de Fogo.
-- Exercícios... -- disse Godo.
-- Exercícios? -- perguntou ela.
-- Ginástica para ficar em forma. Acho que o Godo me achou demasiado franzino para o trabalho e quis colocar-me em forma.
-- Pois... -- Sorriu Godo -- Mas fiz de ti um homem!
Risota geral, mas ela olhou-me com um olhar que me fez um arrepio agradável.
O Mestre aproximou-se.
-- Godo, podes dar-me um golo de café?
-- Estavamos à espera do Mestre para tomar... -- disse Godo enchendo as canecas a cada um de nós e ao Mestre.
-- Isto é o quê? Tão negro! -- perguntou Cabelos de Fogo.
-- Bebe! Dá-te energia... – sorriu o Godo.

06 abril 2006

O Ovo de Rá - 2ª parte



O conto começou aqui!

Cabelos de Fogo


Adormecemos todos depois de um dia inteiro de caminhada e com o calor do fogo e aconchego do estômago com a lebre que Helmut caçara. Certamente ainda era noite e noite bem cerrada, quando uma voz nos acordou a todos.
-- Ora viva, bando de paspalhos!
Helmut deu um salto como se tivesse molas e rosnou, acho que mais por instinto do que por convicção em direcção à voz. O personagem saiu da penumbra e com o arco entesado em direcção a Helmut acrescentou com ironia:
-- Vê lá cão de pêlo ruço... Se tens mau acordar, posso fazer-te o favor de resolver isso para sempre...
Helmut deixou de eriçar o pelo e comentou como se fosse a coisa mais natural do mundo:
-- Ora! É uma mulher... -- E voltou a enroscar-se junto á fogueira. E resmordeu – São sempre a mesma coisa, não podem ver ninguém a dormir, que têm de a acordar da pior maneira possível.
A mulher riu.
Ratapone e o Godo acordaram e espantados com a aparição não diziam nada. Eu falei:
-- Olá! Sou o Maia. Aqui é o meu Mestre Ratapone e o seu fiel criado Godo. E tu quem és?
A mulher era esguia e bem proporcionada, um encanto para os olhos. Baixou o arco e guardou a seta na aljava.
-- Sílvia... de nenhures. E vocês são de onde? – perguntou-me ela. Mas foi o Mestre Ratapone quem respondeu.
-- Vimos de longe como tu. Somos peregrinos.
-- Pois... – disse ela com desdém. – Não conheço nenhum santuário aqui nas Montanhas Negras, mas conheço montes de esconderijos de ladrões, embusteiros e outras categorias semelhantes. Portanto velhote, para me convenceres tens de inventar coisa melhor...
Ela que se aproximara do fogo, o que me deixara ver os seus lindíssimos olhos verdes e apreciar melhor a formusura da sua anatomia, levantou-se e fez menção de se retirar. Não consegui reprimir-me:
-- Já vais? Não queres ficar connosco, talvez possamos fazer o resto do percurso juntos...
Ela riu-se e tive a certeza que era de desdém.
-- Não sirvo para ama-seca! Além do mais não confio em quem não me diz a verdade, ou não tem nem o engenho de inventar uma mentira plausível!
-- Peço-te desculpa! – disse o Mestre Ratapone. – De facto não somos peregrinos no sentido habitual da palavra. Procuramos o eremita das Montanhas Negras. Se ouviste falar dele, podias ajudar-nos?
Ela rodou nos calcanhares e ficou pensativa para digerir a nova informação. Depois aproximou-se do Mestre e ajoelhou-se junto a ele. O Godo afastou-se como sinal de deferência.
-- Depende de que eremita procuras. Existem dezenas deles por aqui...
Os olhos dela prescrutavam o Mestre como se tivesem o poder de ler as mentes daqueles que olhava fixamente. Tenho a certeza que o Mestre se sentiu incomodado e desviou o olhar do dela.
Eu estava encantado com a figura dela e com a sua personalidade segura. E ainda gostava mais ela ser capaz de enfrentar o Mestre sem receio ou subserviência.
O Mestre acrescentou:
-- Deve ser o mais velho eremita que há por aqui...
Ela riu-se antes de ele ter completado a frase.
-- Velhote, eu não sei a idade destes tarados, que fogem para estas montanhas, sabe-se lá porquê! Se calhar gostam do tempo agreste que por aqui faz! Mas olha velhote, este tempo por aqui, faz um mal danado aos ossos. Devias voltar para casa, antes que arranjes reumatismo ou mais encontros...
-- Tu não pareces sofrer com o tempo e não posso dizer que sejas um mau encontro... -- comentei meio timidamente.
Ela sorriu-me e desta vez o sorriso não era de desdém, talvez simpatizasse comigo.
-- Deve ser de fazer muito exercício...
Helmut abriu os olhos e acrescentou:
-- Pois, se querem fazer exercicio é lá convosco, mas podiam deixar dormir quem precisa... Exercício... -- resmordeu ele a fechar os olhos.
-- Fica conosco esta noite... -- pediu o Mestre -- Amanhã logo veremos se segues connosco ou se partes.
Ela olhou para mim, e deve ter visto que os meus olhos lhe suplicavam que ficasse.
-- Está bem... Mas devíamos montar turnos. Um de nós devia ficar de vigia. Isto não são lugares seguros...
Ela sentou-se ao meu lado.
-- Godo... fica de vigia. – pediu o Mestre. Godo anuiu sem soltar sequer um som. Afastou-se da fogueira embrulhado na sua manta de dormir e escondeu-se numa moiteira que ficava num lugar elevado. Sílvia observou o Godo e comentou:
-- O teu amigo sabe como fazer uma vigia eficaz...
-- O Godo tem muitos recursos... – disse eu.
Ela sorriu-me:
-- Sois um grupo engraçado. Um velhote, um lobo que fala, um criado inteligente e tu... Amanhã têm de me contar a vossa história... – ela levantou-se e meteu mais lenha na fogueira. Voltou para junto de mim.
-- Podemos partilhar a manta? É que não tenho nenhuma... -- disse ela quase como se pedisse desculpa.
-- Claro! – disse eu até com demasiada alegria na voz! E tentando emendar: -- Amanhã contas-me tu a tua história.
Ela puxou a manta para ela, enroscou-se em mim e disse:
-- Claro!
Fez-se um bocadinho de silêncio e era agradável o calor do corpo dela. Perguntei:
-- Sabes Sílvia, devias ter uma alcunha...
-- Porquê? Não gostas do meu nome?
-- Gosto, claro que gosto, mas... Uma alcunha seria uma espécie de sinal de afecto...
Ela sorriu de um modo maroto:
-- Só pretendo dormir... Amanhã devolvo-te a manta...
Helmut resmordeu:
-- Agora temos pombos a arrulhar...
E ela numa indirecta para o Helmut:
-- Em vez da manta, posso ter talvez uma pele de lobo pra me proteger do frio.
-- Engraçadinha! – resmordeu este, voltando a dar mais uma volta para aquecer o outro lado do corpo no calor da fogueira.
-- Não me entendas mal, mas acho que devias ir connosco...
-- Afinal que alcunha me queres dar?
Sorri.
-- Cabelos de fogo.